sábado, 3 de maio de 2008

RESULTADO DA ENQUETE

Disputa acirradíssima aqui no blog. 49 pessoas votaram pra escolher quem preferem que seja o próximo presidente americano, Hillary Clinton, Barack Obama ou John McCain. O candidato republicano só conseguiu dois votos (ambos do Pedrinho, desconfio), mas Hillary e Obama disputaram cada votinho durante os quatro dias da enquete. Obama ficou na frente, com 48%, enquanto Hillary obteve 44%. Uma diferença de apenas dois votos! Bom, pelo menos a maior parte dos meus queridos e iluminados leitores, Pedrinho devidamente excluído, gosta mais dos democratas que do partido bushento. Fico feliz. (E o Obama é bonitão apesar de magrinho, não acham?).

CONTRA O ABORTO, A FAVOR DA SUA LEGALIZAÇÃO

Vi em DVD o forte documentário Lago de Fogo (Lake of Fire), cujo título refere-se ao que acontece com os que vão pro inferno. Talvez o filme definitivo sobre aborto nos EUA, Lake, do polêmico diretor Tony Kaye (do excelente Uma Outra História Americana), tenta e consegue apresentar todos os pontos de vista, que na realidade são apenas dois. De um lado, temos a direita cristã, que é pro-life, pró-vida, radicalmente contra aborto (e contra homossexualismo, e eutanásia, e testes com embriões), apesar de ser a favor da pena de morte. Do outro lado há o movimento pro-choice, pró-escolha - os seculares, feministas, filósofos, gente que prega a separação entre Igreja e Estado, e defende que as mulheres sejam as donas de seus corpos. Se você passou mais de dois minutos no meu blog sabe perfeitamente em que lado me situo.

Mas foi muito difícil e doloroso assistir ao documentário, que é explicitamente gráfico (embora seja em preto e branco). As clínicas que fazem abortos nos EUA precisam separar e medir, no fim do procedimento, cada pezinho e mãozinha que foi mutilada. É terrível. Mas também é terrível condenar as mulheres, pensar que elas recorrem a abortos como método anticoncepcional, como se não tivessem uma consciência moral, como se não sentissem culpa. No final do filme, a câmera acompanha uma moça de 28 anos e mostra todo o seu aborto, da entrevista inicial à consulta ao procedimento aos restos mortais que ficam numa tijela. E, quando tudo acaba, o documentário entrevista a moça, que se faz de forte o quanto pode, diz que está emocional e fisicamente devastada, mas aliviada, que agora vai pra casa recomeçar sua vida – até que ela desaba. Passa a chorar desesperadamente, e nesse momento eu desabei também. E chorei muito. Chorei pelas mãozinhas abortadas, mas também, e principalmente, pela mulher e por sua dor.

Se eu engravidasse, na maior parte dos casos não abortaria. Se a gravidez pusesse em risco a minha vida, sim, abortaria. Se fosse produto de um estupro, possivelmente sim. Se o feto tivesse anencefalia, lógico – é uma violência indescritível exigir que uma mãe mantenha uma gravidez pra, depois de nove meses, o bebê nascer sem cérebro e morrer minutos após o parto. Ou seja, pessoalmente, sou contra o aborto. Mas essa é a minha posição, e querer impor meus valores a todas as outras mulheres não me parece justo. Dá pra ser contra o aborto e a favor da legalização do aborto. Mal comparando, eu pessoalmente sou contra a prostituição. Não seria prostituta, e não vejo com bons olhos homens que procuram prostitutas. Mas a prostituição seguirá existindo, seja lá qual for a minha opinião. E prefiro mil vezes que ela seja legalizada e que prostitutas sejam protegidas por leis, ao invés de serem consideradas marginais, sujeitas à coerção da polícia.

O que acontece é que existe uma guerra santa nos EUA. Não ajuda que, entre as nações desenvolvidas, a América seja a mais religiosa. Essa religiosidade afeta diretamente o cotidiano das pessoas e dita as leis. É curioso que, em termos econômicos, a direita cristã pregue um Estado mínimo. Não quer pagar impostos, não quer que o governo se meta em como deve gastar ou guardar dinheiro. Porém, em termos morais, essa mesma gente defende um Estado máximo. Não quer que Darwin e evolução sejam ensinados em escolas. É contra a educação sexual. Quer censurar filmes e livros. Acha que que ateus e agnósticos não deveriam poder ser professores, governantes ou ter qualquer cargo público (porque liberdade religiosa tem limites, ora!). Insiste que a Bíblia substitua a constituição. E quer promover guerra aos infiéis. Lá fora, esses são os muçulmanos. Dentro dos EUA, os inimigos são as pessoas que acreditam que Igreja e Estado não devem se misturar. Se depender da direita cristã, a América vira um novo Irã - versão cristã, claro. E aí quero ver alguém fazer inspeção nuclear no país mais poderoso do planeta.

É difícil se dar conta de como americano é conservador. Por exemplo, estava lendo um site sobre finanças pessoais em que o autor, uma vez por semana, responde perguntas dos leitores. E às vezes as perguntas ficam mais pessoais. Uma delas perguntava o que ele achava de um casal viver junto antes de casar. Ele, cheio de dedos, disse que não tinha nada contra, mas deixando claro estar se referindo à coabitação pura e simples, sem querer emitir opinião sobre esse assunto cabuloso de fazer sexo antes do sagrado matrimônio. Sim, claro, porque um casal vai viver junto e não fazer sexo antes de ter um pedaço de papel na gaveta. E a discussão entre os leitores rendeu. A maior parte dizia ser um erro grotesco viver junto sem casar. Eu não consigo imaginar muitos outros países ditos civilizados em que esse tema siga sendo polêmico. Mas aí lembrei que nos EUA os casais que dividem o mesmo teto sem casar nunca se chamam de marido e mulher. Podem viver trinta anos juntos que continuarão sendo “boyfriend” e “girlfriend”.

Mas o que isso tem a ver com a discussão sobre o aborto? Tudo. É só pensar em como os países mais desenvolvidos conseguem passar leis importantes para toda a população, independente das posições religiosas. Os EUA não estão entre esses países desenvovidos. E, óbvio, nem o Brasil, onde o poder da Igreja Católica segue emperrando um projeto de legalização do aborto que já se arrasta há quinze anos.

Mais sobre o documentário e a legalização do aborto aqui.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

CRÍTICA: FAMÍLIA SAVAGE / Resisti bravamente aos selvagens

- Estamos nos preparando pra fazer a Lolinha chorar horrores.

Vi A Família Savage esses dias em DVD. É sobre um assunto espinhoso: o que fazer com os pais quando eles não conseguem mais cuidar de si mesmos? Bom, pra mim a resposta não exige muita elaboração: filhos têm a obrigação de cuidar dos pais. Só que “cuidar”, a meu ver, não inclui dar banho e trocar fralda. Mil perdões pelo meu egoísmo, mas não acho justo querer que filhos (em quase todos os casos que conheço, filhas) deixem de lado a sua vida pra viver pros pais idosos. Se os filhos podem pagar um enfermeiro particular, maravilha. Se não podem, e acho que só os ricos podem, devem encontrar um lugar decente pra que o idoso seja (bem) tratado por profissionais. Eu fiz o meu trabalho de conclusão de curso sobre asilos pra idosos, e por isso visitei alguns em Joinville. Não têm absolutamente nada a ver com aquelas histórias de horror de velhos jogados nos corredores que tanto ouvimos falar. Num asilo que visitei, num local lindo, enorme, cheio de verde, a pessoa pode entrar e sair quando quiser. Pode até ter bichinho de estimação, desde que possa cuidar dele sozinha. Entrevistei várias pessoas que vivem lá (a maior parte mulheres), e todas pareciam estar lúcidas e felizes. Havia casais morando lá também. Até comentei com o maridão que, se algum dia ficarmos velhinhos demais pra tomar contas de nós mesmos sozinhos, eu não teria o menor problema em viver num lugar assim. Ele concordou.

Mas no filme os dois filhos sentem culpa por precisar colocar o pai num asilo. Mesmo que o pai em questão tenha sido um pai distante, abusivo, com o qual eles nunca conviveram muito. O filho, feito pelo Philip Seymour Hoffman (Capote, Jogos do Poder) é um professor universitário com depressão. A filha, vivida pela Laura Linney (Truman Show, Simplesmente Amor), sonha em escrever uma peça de teatro. Ambos são seres solitários e tristes. Não vou mentir: o que os faz especiais é serem interpretados por dois atores excepcionais. Savage não tem nada de engraçado, ao contrário do que o trailer tenta passar, em mais uma demonstração de propaganda enganosa. Mas também não tem nada de estupidamente deprimente. Pra ser franca, eu tava indo bem, sem rir nem chorar, sem me envolver muito com a história - até a última cena (bem, bem a última, que inclui a Laura Linney correndo com um cachorro). Foi só nesse pedaço que perdi o controle, comecei a chorar copiosamente e praticamente inundei o quarto. O maridão teve que parar o que estava fazendo (jogando xadrez no computador) pra me consolar e tentar salvar os móveis. Não é uma cena terrível nem nada. É até otimista, cheia de esperança, mas me fez lembrar do meu cãozinho amado, o Hamlet, que estava velhinho demais, quase 16 anos, e teve que ser sacrificado pelo veterinário. Mas estou ciente que todos envelhecemos, todos morremos, e não dá pra fazer algo a respeito. Fora prolongar a jornada o máximo possível e torcer pra que o fim seja indolor. Pros nossos pais, nossos cachorros, e nós mesmos.

ESTRÉIA DO SUPER-HERÓI MASSACRANDO FILMINHOS

Aqui nos EUA, como começa a temporada de verão nos cinemas, há menos lançamentos nacionais. Apenas uns dois por semana. Os desta são Homem de Ferro e Made of Honor. Do primeiro todo mundo anda falando bem. O Metacritic dá nota 80, e o Rotten Tomatoes, 95 (hoje caiu um pouquinho e tá em 94). Ou seja, de cada cem críticos, somente cinco não aprovam a aventura. Acredite se quiser. Serei uma dos cinco? Um novo Clube dos Cinco, versão velhinha? Só sei que ainda vou sofrer muito pra encarar um mercador de armas como herói. Vou conferir o arrasa-quarteirões no domingo (teve uma pré-estréia pra críticos na terça, mas era muito longe). Se Iron Man apela principalmente pros meninos adolescentes, Made of Honor quer atrair as meninas. Pra isso, conta com o Patrick Dempsey (Grey’s Anatomy) no elenco. Pelos meus cálculos conservadores, já vi o trailer umas 586 vezes, e só posso dizer que se parece demais com O Casamento do Meu Melhor Amigo, só que sem o Rupert Everett como amigo gay, que era provavelmente o personagem mais marcante. Agora o Patrick faz o papel que foi da Julia Roberts. A distribuidora brasileira notou a semelhança entre as tramas e traduziu o título pra O Melhor Amigo da Noiva. Tá marcado pra chegar ao Brasil dia 16 de maio. Estarei quebrando minha promessa de não ver comédias românticas com qualquer coisa referente a casamentos no título e verei este. Eu acho.

Um filme que estréia em circuito restrito é The Life Before Her Eyes, com a Uma Thurman e a Rachel Evan Wood. Vi a pré-estréia na quarta. Apesar de ser interessante, é moralista e sua premissa não funciona direito. Trata-se de um drama sobre uma mocinha rebelde que vira uma pacata dona de casa, mas tem que lidar com o terrível trauma de um massacre à la Columbine em sua escola. Quando (se?) você assistir Life, vai ver como este resumo é enganoso. Não é minha culpa: o filme é enganoso.

No Brasil, Homem de Ferro deve ter invadido todas as salas. A resistência passa O Sonho de Cassandra. Tô em dívida com o Woody Allen. Ainda não vi nem o anterior dele, Scoop – O Grande Furo. Cassandra passou rápido demais e em apenas uma sala de Detroit. Acabei perdendo. O DVD sai no final de maio nos States, e eu comento quando sair. Outras duas estréias limitadíssimas incluem o documentário nacional Condor, sobre a colaboração entre as ditaduras latino-americanas para reprimir qualquer protesto, e o japonês Desonra, sobre a recepção hostil que ex-reféns no Iraque enfrentam ao voltar pro Japão. Só eu que fico visualizando o Iron Man pisando em todos os filmes menores?

quinta-feira, 1 de maio de 2008

VOCÊ ACHA QUE É RACISTA?

Chegou pra mim um desses emails-corrente que geralmente detesto, mas este até que foi interessante porque rendeu um post. O título era “Você acha que é feia?”. O email trazia várias fotos de celebridades que todo mundo deve conhecer menos eu, já que eram tratadas pelo primeiro nome, na maior intimidade. Não sei muito bem quem é Avril ou Shakira ou Kelli. Mas tudo bem, sobrevivo sem saber. Cada celebridade vinha acompanhada de uma foto “antes” e “depois”. E como não vinha mais nada escrito, minha conclusão do que o email queria dizer é que essas mulheres eram todas horrorosas antes, e agora, depois da fama, das dietas, das plásticas e do photoshop, elas são magníficas. Ahn... Antes de mais nada, vamos analisar brevemente todas as fotos de “antes” que a gente já viu. As moças estão na sua pior pose. As fotos não têm a menor qualidade. Estão fora de foco. Isso é típico também de fotos de “antes” que saem nas revistas pra vender dieta. Na maior parte das vezes a pessoa do antes nem se parece com a do depois, e não é porque a modelo perdeu trinta quilos em dez dias sem deixar de comer nada e sem nem mexer o dedão do pé. É porque a pessoa no antes tá fazendo careta, ou de cara fechada, ou despenteada, ou com o sol no rosto, ou com roupas que não ajudam. E na fase “depois” tá tudo iluminado e lindo e com photoshop e se bobear tem até um arco-íris. Com um pote de ouro no cantinho. Mas vamos a algumas das fotos.Essa é a Kelli - pra mim, uma completa desconhecida. Se desse pra ver a foto do “antes” direito, eu diria que ela era bem bonitinha. Com uma melhora no cenário, na pose e no maiô, ela ficaria igual ou mais bonita que a Kelli do “depois”. Mas o principal é que a Kelli pré-histórica tinha cabelo preto e cacheado, enquanto a Kelli modernosa é loira de cabelo liso. E os homens preferem as loiras, como já estamos cansadas de saber. Inclusive os homens que põem anúncio em jornal procurando recepcionistas de “boa aparência”, um código racista que ainda não foi abolido.O mesmo fenômeno se dá com a Juliana Paes. A capa da VIP anuncia, pra que não passe despercebido: “Agora loira!”. O slogan da revista é “o prazer de ser homem”. É, deve ser um prazer imenso observar sem ser observado. Ainda mais se o objeto observado fizer de tudo para satisfazer o voyeurismo do observador. Inclusive ficar horas no cabeleireiro alisando e trocando a cor do cabelo pra se enquadrar num padrão de beleza claramente racista.A Ana Hickman tá loira nas duas fotos. Só que na “depois” ela tá mais loira, além de superproduzida, maquiada, e com toda e qualquer imperfeição apagada pelo photoshop. E na primeira ela tá na praia, pô! Você conhece muita gente que sai linda e deslumbrante em foto de praia, cheia de areia? Eu já li uma entrevista da Ana em que ela dizia ter sido gordinha. Se esse era o “gordinha” dela, valha-me Deus. Sabe o que aconteceria se a Ana da foto do “depois” fizesse a pose da Ana da foto do “antes”, né? Ela também ficaria com pose de super-herói (no mau sentido). Só que, por estar magra demais, pareceria uma tábua. Repare que as modelos magérrimas precisam sempre estar entortando o corpo pra um lado ou pro outro pra fingir que têm curvas. Porque o in é ser magérrima, mas sem perder seios e curvas. Ou seja, um padrão de beleza inatingível até para as magras.A Glória Maria continua negra. A diferença tá no cabelo. Agora sim, com penteado lisinho, ela tá bonita, "dentro do possível". Porque na foto do “antes” ela era um trambolho, certo? Certo. Eu conheci a Glória da fase do antes pessoalmente. Eu tava na praia no Leblon, onde ela fazia uma reportagem sobre crianças precoces. E eu naquela época era mais ou menos precoce porque escrevia poesia. Daí apareci no Fantástico recitando o poema mais estúpido que a produção encontrou nos meus cadernos. Eu tinha oito anos, e a Glória devia estar perto dos trinta, imagino. Hoje tenho 40. Faça as contas de quantos anos ela deve ter. Agora, pra quê esconder ou mentir a idade? Mas eu não falo mal da Glória. Ela é uma das poucas repórteres que continuam na ativa, mesmo sem ser mais uma menininha. E é uma das pouquíssimas negras. Porque nesse sentido repórter é que nem recepcionista, entende? Precisa ter “boa aparência” pra conseguir emprego.

Artigo relacionado aqui.