Publico hoje um excelente texto da musicista Guidi Vieira, colaboradora frequente do blog.
Sempre fui apaixonada por comida. Dos quatro filhos que minha mãe teve, fui a única da qual ela precisou esconder comida na infância –- principalmente os doces. Todos adoravam comer, mas gula desmedida, mesmo, só eu. Lendo o meu primeiro diário (o único que guardei da infância e adolescência), escrito dos 7 aos 8 anos, vejo que há diversas descrições do que eu comia no café da manhã, dia após dia.
E quando digo que amo comer, não é nada relacionado a restaurantes, comidas refinadas, gastronomia cara, requintes. Nada disso. A comida que se considera mais simples me deixa com água na boca. Comida de almoço caseiro, sabe? É dessa que eu fico lembrando, dias a fio. Chega a ser quase romântico.
Vez ou outra, constranjo os outros com a minha fome: como a panqueca intacta que alguém deixou no café da manhã de um hotel. Como o aipim da mesa ao lado, no bar que oferece refeições. É este o nível de deselegância da minha gulodice. Sempre fico rememorando os sabores que senti em uma festa de aniversário (“e aquele bolo?”), ou o almoço que meu colega fez, despretensiosamente (“e aquele feijão, Jesus!”). Esse é um de meus traços mais marcantes: sou um ótimo garfo.
Esta introdução tem como intuito mostrar o que a comida significa para mim.
E esta explicação sobre o quanto a comida está no topo dos meus prazeres é para mostrar o quanto foi curioso tornar-me vegana. Eu achava que isso seria impossível. Não pela carne, pois já havia ficado dois anos sem comer carne alguma (eu fazia yoga e a coisa foi fluindo, naturalmente –- infelizmente voltei a comer, por pura falta de foco), tempos atrás, e não tinha sido nada difícil.
Minha questão, assim como a de tantas outras pessoas, sempre foi em relação ao leite e aos laticínios. Acho que café com leite, queijo e manteiga são alimentos que, se não nos trazem lembranças afetuosas (infância, casa da vó etc), estão arraigados em nossa rotina, nosso dia a dia. Almoços sem carne não são exatamente um mistério (a configuração arroz-feijão-legumes não é incomum em um prato de uma família brasileira, eu diria), mas um café da manhã sem manteiga e sem leite é algo quase “impraticável”.
Esta questão vinha me incomodando há tempos. Eu sentia que estava devendo uma reflexão maior sobre este assunto. Sentia que este era um tópico pendente em minha vida. Por que eu gostava tanto deste universo (vegetarianismo/veganismo) e permanecia fazendo tudo do mesmo jeito? Por que admirava tanto quem estava nessa luta, mas não aderia a ela, fugia do assunto, com medo de descobrir cada vez mais detalhes sobre o que eu consumia?
Eu me considerava uma verdadeira refém dos alimentos que amava. “Não conseguiria” abrir mão do prazer de provar um bolo de aniversário bem molhado, feito com leite e ovos. “Não conseguiria” abrir mão de um delicioso iogurte com granola. “Não conseguiria” nunca mais comer o pavê que sei fazer tão bem, à base de creme de leite, e que eu como desde a infância (receita de minha mãe).
À época de meu ovolactovegetarianismo (2010-2012), aproveitei para ver os filmes A carne é fraca e Terráqueos, e também para ler alguns livros sobre alimentação sem carne. Tudo ajudava, tudo reforçava o que eu estava fazendo. Mas ainda era muito mais uma questão física. Porém, quando me mudei para onde estou agora (uma rua sem saída, com jeito de roça, onde há muitos cães e gatos de rua vagando), as coisas começaram a mudar, lentamente. Me aproximei mais dos animais. Parece que voltei um pouco à infância, quando eu era louca por cachorro, gato e porco (este último sempre foi meu bicho preferido).
Fui sentindo novamente aquela proximidade com os bichos, proximidade que a maioria das crianças sente. Fui ficando cada vez mais alegre quando algum gato ou cachorro invadia o quintal. Eles foram se tornando, aos poucos, um assunto frequente em minha cabeça e em minhas conversas com amigos.
Voltei a ver filmes, voltei a ler sobre o assunto. Mas, desta vez, sem fugir dos ovos e laticínios: vegetarianismo estrito. E fui não gostando mais de comer estes alimentos. Não queria mais experimentá-los. Na última vez que fui tentar comer queijo ralado no macarrão, veio à minha mente a imagem de diversas vacas marchando em direção à própria morte, direto das fazendas de leite para os abatedouros. Não tinha mais graça. Era um desprazer. Devo admitir que tive certa sorte por esta relação direta ter vindo de forma tão forte, uma espécie de “bloqueio natural”.
Facilitou enormemente o processo. E o fato destas imagens virem com tanta nitidez no meu filminho mental fez com que este tipo de comida não tivesse mais o caráter de tentação para mim. São comidas ruins, hoje -– não pelo sabor, mas sim por sua trajetória, sua história, o que estas corroboram.
Fui entendendo que a tal coerência que eu tanto queria finalmente estava sendo alcançada. A coerência de amar os animais e não comer nenhum deles, nem tratar a tortura sofrida por eles como algo que não me dizia respeito. Meu sentimento e minhas ações, finalmente, passaram a conviver em harmonia.
Hoje, meu pão com azeite me satisfaz totalmente no café da manhã. Ou só mesmo um belo suco verde, não coado. Meu lanche da tarde pode ser uma deliciosa tapioca com tomate e cheiro verde. Tudo mudou. Quase todas as minhas referências antigas ficaram lá no passado. Me delicio com outros sabores, antes desprezados, ou experimentados muito raramente. De quebra, tudo bem mais saudável. E também mais fácil e barato, incondicionalmente. Porque nada disso faria o menor sentido se fosse para ser elitista. A luta vegana, para mim, é essencialmente anticapitalista. Uma luta contra uma visão que percebe os animais (inclusive os animais humanos) como produtos.
Outra coisa que corroborou a questão da coerência foi: se admiro tanto a ideia de boicote (sempre lembro de Rosa Parks e o boicote aos ônibus de Montgomery); se vejo tanto sentido nas sanções a países genocidas; em suma, se acho que fissurar o capitalismo é uma das formas mais eficazes de se fazer entender uma questão importante, ser vegana era um caminho óbvio para mim. Boicote total à indústria do sofrimento e à escravização dos animais. Não financiar o horror. Demorei a entender que esta era mais uma forma de fazer aquilo que Günter Eich recomendou: “Sede incômodos; sede areia, não óleo, nas engrenagens do mundo”.
Meu boicote também é ao couro, a empresas eticamente incorretas (estou sendo educada) e tudo aquilo que reforça a exploração animal. E tudo na medida do possível, é claro: me mantenho atualizada sobre as empresas livres de crueldade -– estas informações não são nada difíceis de se obter -–, mas também não me martirizo por não conseguir comprar o macarrão mais adequado, que não está disponível para venda aqui, onde moro. A sociedade ainda é extremamente antivegana, ainda há muitos percalços neste caminho. Mas sigo (seguimos) em frente. E já vejo muitos avanços no mundo, ao mesmo tempo.
Há diversas razões para que alguém queira se tornar vegano. No meu caso, foram os animais. Quando me conectei de vez com eles, vi que o que eles me proporcionavam era muito mais profundo do que qualquer momento fugaz em uma mesa -– mas, principalmente, entendi que o que eles sofrem é muito, muito mais grave e sério do que qualquer sabor que eu queira sentir. (E penso que mesmo aqueles que nem gostam de animais deveriam ter um olhar crítico e honesto sobre o horror que eles sofrem em nossas mãos. O amor é um bônus, um extra: procurar ser justo já é o suficiente para não querer compactuar com a objetificação de seres vivos.)
Continuo amando comer. Só que como outros alimentos, hoje. Minha paixão continua a mesma, ainda mais maravilhada, pois agora não há um sentimento subterrâneo, ali, estragando o barato.
A ideia, com este texto, era falar da minha experiência, dar um breve relato pessoal, apenas. Contar como o processo acabou sendo natural, e não forçado, nem movido por uma culpa que alguém quis introjetar em mim. Considero que foi uma conscientização extrema e irreversível exatamente porque foi de mim para mim mesma. Foi um processo silencioso, e também longo. E o que eu quero, ao falar dessa minha experiência, não é atacar a pessoa não vegana: o que eu quero é atacar essa ideia incrustada, que prega que os animais estão aqui para nos servir.
Não tenho a intenção de fazer um jogo judaico-cristão de culpa com indivíduos, porque considero isso não só pouco criativo (lugar-comum total: a gente cresce cheia de culpas e isso só serve para que fiquemos mais cheios de raiva, depressivos, sexualmente reprimidos, suicidas, o escambau -– eu realmente odeio a culpa como método), como também pouquíssimo efetivo. Mas vou sempre reiterar: os animais têm tanta vontade de viver quanto nós. E o mesmo medo de morrer.
Entendo perfeitamente os veganos que se impacientam, que são incisivos, que brigam. Querem mudança, exigem uma atitude adulta de nós, seres humanos, que poderíamos, ainda hoje (agora!), acabar com o sofrimento dos animais não humanos, tirando-os do prato. Acham inadmissível que a crueldade continue acontecendo, normalizada. E entendo perfeitamente os veganos que procuram um diálogo, que tentam ter uma abordagem mais suave.
Querem tornar o veganismo menos assustador, querem atrair mais pessoas -– diminuindo, assim, o número de mortes de animais. Entendo e respeito estas duas formas de lutar. Estou do lado de ambos os grupos, pois os dois estão lutando pelos animais, que não têm voz.
Daqui, fico na esperança de que alguém que leia isso e que esteja com medo de fazer esta importante transição consiga ter força e coragem para seguir em frente com a ideia. Sei que este texto só pode tocar quem já cogitou, quem tem uma mínima abertura para esta possibilidade. Não é uma tentativa de falar para quem odeia o assunto. Eu não sou ingênua a ponto de achar que posso “convencer” pessoas que se irritam só de ouvir falar neste tema.
Para quem está há tempos considerando o veganismo, mas se acha incapaz, digo que o esforço é recompensador e delicioso. E que é totalmente possível virar a chave, mudar a lógica, o gosto. Como consequência deste esforço, a conexão com os animais cresce, fica mais intensa. Eles passam a nos fascinar ainda mais. E, curiosamente, nosso respeito por nós mesmos também cresce. Sejamos veganos.



































