Mostrando postagens com marcador comida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comida. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de junho de 2022

NHOQUE DE BATATA DOCE PRA COMEMORAR ANIVERSÁRIO

Hoje faço 55 anos, mas estou tão cheia de trabalho que mal tenho tempo de escrever um post. 

Ontem pedi pro maridão tirar algumas fotos minhas, porque não é todo dia que uma pessoa tão velhinha tem muito mais espinhas do que rugas.

Havia vários gatinhos no caminho e volta e meia eles apareciam mais do que eu. 

Silvinho disse que eu, como humana, devo entender que não sou protagonista neste planeta.

Sábado à noite fizemos nhoque de batata doce, e devo dizer que foi o melhor nhoque que comi na vida. 

Ficou divino. Na verdade, continua divino, já que foi o almoço de hoje e será o de amanhã. 

Seguimos esta receita (as fotos são do nosso prato). Pro molho usei seis tomates, cinco linguiças, duas cebolas, manjericão e temperos.

O único porém é que o nhoque levou cinco horas pra preparar. Não pensei que era um prato tão demorado. Provavelmente não faremos de novo. Mas que ficou bom, ficou!

E na noite anterior fizemos mousse de chocolate. Essa eu já deixei a receita aqui. É fabulosa e rápida (deve levar uma meia hora pra fazer).

Hoje saiu uma matéria que sem querer me chamou de "Aronovovich", com um "vô" a mais. Imagino que foi uma sutil alusão a minha idade avançada.

Agora que o aniversário chegou espero que termine o inferno astral. Não que eu acredite nessas coisas, mas três laptops deram problema ao mesmo tempo, um dos quatro gatinhos ficou doente (já está bem), apareceu uma aranha caranguejeira (morta) em casa (talvez foi o gatinho que matou), e encontrei um bichinho vivo dentro de uma cebola!

Sério, gente! Encontrar bicho em tomate, pimentão, berinjela e outros é bastante normal. Mas numa cebola?! Quem quer viver num lugar tão inóspito como uma cebola?!

Abração e obrigada pelo carinho!

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

QUEM COMPRA EM SUPERMERCADO CONSEGUE APOIAR BOLSONARO?

Semana passada Silvio e eu fomos ao supermercado e gastamos, estupefatos, 375 reais. Compartilhei essa informação no meu Twitter e acrescentei: "Tudo bem que 100 foi em ração de gato, mas ainda assim... Tá tudo caríssimo! A gente não come carne bovina faz tempo, só frango e ovos -- que aumentaram pra caramba! Como alguém que compra em supermercado pode apoiar o Bolso?"

Um montão de gente bacana que me segue concordou, colocou quanto gasta a cada ida de supermercado, comparou preços, apontou o que todo mundo vem sentindo (uma enorme alta dos alimentos e o aumento da inflação, que foi quase 9% nos últimos doze meses, e que vários especialistas preveem que vá alcançar os dois dígitos logo). Mas um carinha que não conheço (embora já bloqueava) decidiu me atacar gratuitamente. Ele escreveu: "O típico elitismo da esquerda acadêmica que quer fazer cosplay de pobre enquanto o povo (povo mesmo!) está passando fome. Ganha R$11mil por mês, gasta R$100 com ração de gato e 'só' come frango e ovos". 

Só fiquei sabendo desse ataque de pelanca um dia depois, através de um motoboy de treta. Fui ao perfil dele e percebi de cara que era um cirista. Quem está no Twitter sabe que Ciro Gomes (não tão carinhosamente apelidado de Cinco Gomes ou Six Gomes, dependendo da pesquisa) vem investindo pesado no seu gabinete do ódio particular. Muitas vezes os cirobots só ficam devendo aos bolsobots em volume, porque a tática de vasculhar as redes sociais dos desafetos e tentar destrui-los é a mesma. 

No penúltimo parágrafo eu escrevi "atacar gratuitamente", mas não é gratuito. Não é picuinha, não é pessoal. É orquestrado. Eles têm seus alvos, e eu sou um deles faz tempo, já que nunca gostei do Ciro. Nesse caso, alguém da campanha dele achou que, na falta de coisa melhor, dava pra destacar o meu tuíte sobre supermercado. Um outro abriu uma conta com o único intuito de colocar um print do meu salário no Portal da Transparência (a conta foi apagada poucos dias depois). Um dos coordenadores, se não me engano um pastor, deu RT no tuíte com o print, e pronto, outros receberam a pauta.

Não foi exatamente uma ação bem sucedida, pois a imensa maioria das pessoas que comentaram o tuíte do "fiscal de salário", como o carinha foi chamado, acharam um absurdo a pegação no meu pé, explicaram que em nenhum momento eu disse que não podia comprar carne bovina, indagaram se classe média pode ter gatos, e, se pode, se deve alimentá-los, lembraram que 11 mil reais, apesar de ser um salário muito acima da média brasileira, ainda assim está longe de ser salário de rico, e, principalmente, perguntaram quanto tinham que ganhar pra ter o direito de reclamar dos preços no supermercado na sua rede social.

Creio que meu tuíte foi bem simples e auto-explicativo. Na minha Timeline, a discussão descambou pra quanto se gasta com animais domésticos. Algumas pessoas, brincando, quiseram saber como eu gastava tão pouco com meus quatro gatinhos. Em geral eles comem dois sacos de 3 quilos de ração por mês, que a gente compra quase sempre uma vez por mês. É ração comprada em supermercado (Whiskas, Friskies, Qualita), nada de luxo, mas o preço aumentou uma barbaridade (na semana anterior, no mesmo supermercado, a Whiskas 3 kg de carne para gato castrado estava em R$ 45; uma semana depois, tinha subido pra R$ 59!). 

Sei que essas rações não são boas, mas eu já tentei comprar uma que é considerada melhor, a Golden, e uma dos quatro gatos não gostou. Muita gente pontuou que vale a pena comprar saco de dez quilos (eu sei, minha vizinha compra). Trocamos ideias de como armazenar esse volume (a ração não fica menos fresca ao ser aberta?). Essas coisas bacanas e úteis que a gente faz no Twitter.

Desde 1997, eu anoto tudo que ganho e gasto. Creio que só assim é possível ter controle das finanças. Dessa forma, sei que em 2020 gastamos em compras de supermercado (o que inclui tudo menos algum creminho que eventualmente compramos em farmácia) um total de R$ 14.540, uma média de 1.212 por mês. Acho isso muito, muito alto pra um casal sem filhos. Em 2019, gastamos R$ 980  por mês. Em 2018, 928. Em 2017, 907. Este ano, até agora, a média não está tão diferente da do ano passado: são R$ 1.228 por mês.

Mas passamos por algumas mudanças alimentares. Por exemplo, barra de chocolate, meu vício, a gente agora só compra ocasionalmente, pra fazer algumas receitas. Carne bovina, que costumávamos consumir moída, de segunda (músculo), paramos. Desde novembro, passamos a fazer nossa própria mussarela caseira (faça você também: você transforma 200 gramas de mussarela em quase 2 quilos). Nossa maior mudança foi ter adquirido uma Air Fryer, em julho do ano passado. Vale muito a pena! Reduzimos nossa encomenda de comida pela metade (na realidade, é uma pizza em promoção por semana. Antes da Air Fryer eram duas). E a sobrecoxa de frango na fritadeira elétrica sem óleo fica tão incrível que a gente não se cansa de comer isso quase todo dia. 

Não sei se dá pra ver daí, mas nosso cardápio do dia a dia está longe de ser luxuoso. E, mesmo assim gastamos mais de R$ 1.200 por mês! Não consigo parar de imaginar o que os 19 milhões de pessoas em situação de fome (dois anos atrás eram 10 milhões), ou as milhões de pessoas recebendo R$ 300 de auxílio-emergencial, estão comendo. Ou melhor, não estão comendo.  

Quero dizer, até posso, porque a mídia de vez em quando noticia: fragmentos de arroz e feijão, pé e pescoço de frango, e doações de ossos de carne. Tudo cozinhado à lenha, por que desde quando quem sobrevive com 300 reais (ou mesmo com um salário mínimo de R$ 1.100) pode pagar mais de 100 por um botijão de gás?

Não consigo imaginar, sinceramente, qualquer pessoa votando neste governo da morte. Um governo cujo chefe maior, um genocida golpista medíocre, disse hoje mesmo que é preferível comprar fuzil que feijão, e que, mês passado, sua secretaria de comunicação divulgou uma arte comemorativa do Dia do Agricultor com uma homenagem aos capangas do campo, os Lázaros da vida. 

É óbvio que o Brasil não era nenhum oásis antes do golpe de 2016, antes das catastróficas eleições de 2018, antes de 2020, em que passamos a contar com a mais corrupta e incompetente liderança do mundo para lidar com a pior crise sanitária do planeta em mais de cem anos. Mas basta comparar o Brasil de hoje com o de alguns anos atrás pra medir o tamanho da destruição. 

Nunca vou me conformar. Nem perdoar. Já entender por que cirista defende Bolsonaro, eu até entendo. Não acho muito ético ou eleitoralmente eficaz, mas entendo.
Grande Cris Vector!

UPDATE:
Reportagem do Fantástico deste domingo mostrou que milhões de brasileiros estão mais pobres, mesmo os "privilegiados" que continuamos empregados durante a pandemia. A inflação de 9,30% corrói os salários: a conta de luz subiu 21% nos últimos 12 meses; gasolina, 40%; arroz, 36%, gás de cozinha, 31%. Claro que essa alta impacta muito mais as famílias mais pobres. Vão culpar quem? O PT que não está no governo há cinco anos? A pandemia que o governo genocida nega?

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

SAUDADES DO PT, NÉ, MEU FILHO?

Hoje fiquei meio arrasada após ser torturada no dentista, então pedi pro maridão me buscar e me levar pra passear num supermercado. Ele havia dito antes que eu era que nem os nossos gatinhos, que nunca saem de casa, e quando saem é só pra ir ao veterinário, coitados. 

Fazia muitos meses que eu não pisava num supermercado. Creio que não tinha ido este ano. E fiquei escandalizada com os preços. Tá tudo muito caro! Constatei que não existe mais geladeira por menos de R$ 1.800! E eu me lembro quando a geladeira custava 800. E os queijos? E os chocolates?! Compartilhei isso no Twitter e um monte de gente veio me contar como tem cortado vários produtos. Triste. Constatei que estamos com muitas saudades dos governos do PT. 

Bom, uma dessas pessoas que veio me contar dos bons tempos foi o Cleverson, que é pedagogo e mora em Carmo do Cajuru, MG. Vamos às suas impressões:

Oi Lola, tudo bem?

Antes de tudo gostaria de lhe falar que admiro muito a guerreira, mulher, professora e cidadã (outras mais qualidades) que você é... Eu estava fazendo dois bolos de bagaço de milho com queijo e canela, terminei correndo para lhe escrever.

Minha história começa assim...

Meus pais são pobres, muito honestos, religiosos e muito trabalhadores. Sou de uma cidade pequena das Minas Gerais e um pouco conservadora. Então nasci em uma família um pouco tradicional. Meu pai sempre nos falava de como devíamos ser bons uns com os outros e também falava uma frase que nunca esqueci: "No fim das contas é nós pobres que ajudamos pobres". Ele sempre votou no Lula, desde que me entendo por gente, e com meu pai aprendi que se quer alguém que defenda o direito dos trabalhadores, tem que ser um trabalhador também. 

Lembro que antes não tinha muita esperança de fazer faculdade, porque era difícil pagar e as faculdades federais ficavam longe do interior. Então meu sonho de ser professor parecia distante. Por gostar de ajudar as pessoas até pensei em ir para o seminário (a única faculdade que pobre fazia) mas eu queria ter um companheiro e sabia que podia fazer mais aqui fora. 

Então, comprando com dificuldade os livros do ensino médio (naquela época eram comprados), me formei e até ouvi de alguns professores que seria uma pena eu não ter condições, porque era inteligente. O tempo passou. Assim que tive o direito de votar, já votei e adivinha em quem? Pois é! Foi tanta alegria ver Brasília cheia de gente (igual a gente), lotada, e aquela fala pronunciada: "Um operário pela primeira vez..." Lembro-me das palavras (e depois ações) de liberdade, equidade, respeito etc. Tinha até uma bandeira do arco-íris no meio do povo, isso pra mim representava muito.

Viver num mundo onde eu poderia ser alguém! Então o país foi se desenvolvendo financeiramente. Lembro da participação do governo na Declaração de Salamanca, os estatutos criados para grupos sociais que necessitavam ter seus direitos resguardados, e por fim a "minha faculdade". Era um sonho se concretizando. Fiz semi presencial, porém quis "engolir" cada palavra, cada livro e fotografar em minha mente cada seminário. Queria ensinar crianças essa magia que é ler e escrever, que conhecimento não ocupa espaço e é libertador. 

Como foram dias felizes aqueles. Comprei meu primeiro carro: um Fusca branco. Através de uma amiga fiquei sabendo do programa Minha Casa, minha Vida e consegui me inscrever e concretizar mais uma meta. Hoje em minha casa funcionam também encontros de um grupo. Nos reunimos e juntamos roupas, cestas básicas e outras doações para pessoas carentes. Só nessa pandemia foram mais de 200 cestas e 332 sacolas de vestimentas. 

Aprendi mesmo com a vida a retribuir o pouco que foi me dado. Sabe qual a visão mais linda que tenho diante dos olhos, mais lindo que Fernando de Noronha? Geladeira cheia; a minha ou de alguém que precise. É coisa linda de se ver, porque o contrário é muito triste. Só acho que esses loucos por dinheiro e maldosos que estão na atual gestão não sabem o quanto são dolorosos a fome, o preconceito e a falta de recursos.

Espero que um dia tudo volte a ser como antes. Respondendo sua pergunta: "Saudade do PT?" Resposta: Sim! Desejo que o Brasil volte a sorrir! 

Abraços e continue sempre sendo essa pessoa maravilhosa. Olorum te abençoe sempre. Muito Axé!

terça-feira, 25 de agosto de 2020

GUEST POST: MEU AMOR PELOS ANIMAIS FOI DECISIVO PARA ME TORNAR VEGANA

Publico hoje um excelente texto da musicista Guidi Vieira, colaboradora frequente do blog. 

Sempre fui apaixonada por comida. Dos quatro filhos que minha mãe teve, fui a única da qual ela precisou esconder comida na infância –- principalmente os doces. Todos adoravam comer, mas gula desmedida, mesmo, só eu. Lendo o meu primeiro diário (o único que guardei da infância e adolescência), escrito dos 7 aos 8 anos, vejo que há diversas descrições do que eu comia no café da manhã, dia após dia.
E quando digo que amo comer, não é nada relacionado a restaurantes, comidas refinadas, gastronomia cara, requintes. Nada disso. A comida que se considera mais simples me deixa com água na boca. Comida de almoço caseiro, sabe? É dessa que eu fico lembrando, dias a fio. Chega a ser quase romântico.
Vez ou outra, constranjo os outros com a minha fome: como a panqueca intacta que alguém deixou no café da manhã de um hotel. Como o aipim da mesa ao lado, no bar que oferece refeições. É este o nível de deselegância da minha gulodice. Sempre fico rememorando os sabores que senti em uma festa de aniversário (“e aquele bolo?”), ou o almoço que meu colega fez, despretensiosamente (“e aquele feijão, Jesus!”). Esse é um de meus traços mais marcantes: sou um ótimo garfo.
Esta introdução tem como intuito mostrar o que a comida significa para mim.
E esta explicação sobre o quanto a comida está no topo dos meus prazeres é para mostrar o quanto foi curioso tornar-me vegana. Eu achava que isso seria impossível. Não pela carne, pois já havia ficado dois anos sem comer carne alguma (eu fazia yoga e a coisa foi fluindo, naturalmente –- infelizmente voltei a comer, por pura falta de foco), tempos atrás, e não tinha sido nada difícil
Minha questão, assim como a de tantas outras pessoas, sempre foi em relação ao leite e aos laticínios. Acho que café com leite, queijo e manteiga são alimentos que, se não nos trazem lembranças afetuosas (infância, casa da vó etc), estão arraigados em nossa rotina, nosso dia a dia. Almoços sem carne não são exatamente um mistério (a configuração arroz-feijão-legumes não é incomum em um prato de uma família brasileira, eu diria), mas um café da manhã sem manteiga e sem leite é algo quase “impraticável”.
Esta questão vinha me incomodando há tempos. Eu sentia que estava devendo uma reflexão maior sobre este assunto. Sentia que este era um tópico pendente em minha vida. Por que eu gostava tanto deste universo (vegetarianismo/veganismo) e permanecia fazendo tudo do mesmo jeito? Por que admirava tanto quem estava nessa luta, mas não aderia a ela, fugia do assunto, com medo de descobrir cada vez mais detalhes sobre o que eu consumia? 
Eu me considerava uma verdadeira refém dos alimentos que amava. “Não conseguiria” abrir mão do prazer de provar um bolo de aniversário bem molhado, feito com leite e ovos. “Não conseguiria” abrir mão de um delicioso iogurte com granola. “Não conseguiria” nunca mais comer o pavê que sei fazer tão bem, à base de creme de leite, e que eu como desde a infância (receita de minha mãe).
À época de meu ovolactovegetarianismo (2010-2012), aproveitei para ver os filmes A carne é fraca e Terráqueos, e também para ler alguns livros sobre alimentação sem carne. Tudo ajudava, tudo reforçava o que eu estava fazendo. Mas ainda era muito mais uma questão física. Porém, quando me mudei para onde estou agora (uma rua sem saída, com jeito de roça, onde há muitos cães e gatos de rua vagando), as coisas começaram a mudar, lentamente. Me aproximei mais dos animais. Parece que voltei um pouco à infância, quando eu era louca por cachorro, gato e porco (este último sempre foi meu bicho preferido). 
Fui sentindo novamente aquela proximidade com os bichos, proximidade que a maioria das crianças sente. Fui ficando cada vez mais alegre quando algum gato ou cachorro invadia o quintal. Eles foram se tornando, aos poucos, um assunto frequente em minha cabeça e em minhas conversas com amigos.
Voltei a ver filmes, voltei a ler sobre o assunto. Mas, desta vez, sem fugir dos ovos e laticínios: vegetarianismo estrito. E fui não gostando mais de comer estes alimentos. Não queria mais experimentá-los. Na última vez que fui tentar comer queijo ralado no macarrão, veio à minha mente a imagem de diversas vacas marchando em direção à própria morte, direto das fazendas de leite para os abatedouros. Não tinha mais graça. Era um desprazer. Devo admitir que tive certa sorte por esta relação direta ter vindo de forma tão forte, uma espécie de “bloqueio natural”. 
Facilitou enormemente o processo. E o fato destas imagens virem com tanta nitidez no meu filminho mental fez com que este tipo de comida não tivesse mais o caráter de tentação para mim. São comidas ruins, hoje -– não pelo sabor, mas sim por sua trajetória, sua história, o que estas corroboram.
Fui entendendo que a tal coerência que eu tanto queria finalmente estava sendo alcançada. A coerência de amar os animais e não comer nenhum deles, nem tratar a tortura sofrida por eles como algo que não me dizia respeito. Meu sentimento e minhas ações, finalmente, passaram a conviver em harmonia.
Hoje, meu pão com azeite me satisfaz totalmente no café da manhã. Ou só mesmo um belo suco verde, não coado. Meu lanche da tarde pode ser uma deliciosa tapioca com tomate e cheiro verde. Tudo mudou. Quase todas as minhas referências antigas ficaram lá no passado. Me delicio com outros sabores, antes desprezados, ou experimentados muito raramente. De quebra, tudo bem mais saudável. E também mais fácil e barato, incondicionalmente. Porque nada disso faria o menor sentido se fosse para ser elitista. A luta vegana, para mim, é essencialmente anticapitalista. Uma luta contra uma visão que percebe os animais (inclusive os animais humanos) como produtos.
Outra coisa que corroborou a questão da coerência foi: se admiro tanto a ideia de boicote (sempre lembro de Rosa Parks e o boicote aos ônibus de Montgomery); se vejo tanto sentido nas sanções a países genocidas; em suma, se acho que fissurar o capitalismo é uma das formas mais eficazes de se fazer entender uma questão importante, ser vegana era um caminho óbvio para mim. Boicote total à indústria do sofrimento e à escravização dos animais. Não financiar o horror. Demorei a entender que esta era mais uma forma de fazer aquilo que Günter Eich recomendou: “Sede incômodos; sede areia, não óleo, nas engrenagens do mundo”. 
Meu boicote também é ao couro, a empresas eticamente incorretas (estou sendo educada) e tudo aquilo que reforça a exploração animal. E tudo na medida do possível, é claro: me mantenho atualizada sobre as empresas livres de crueldade -– estas informações não são nada difíceis de se obter -–, mas também não me martirizo por não conseguir comprar o macarrão mais adequado, que não está disponível para venda aqui, onde moro. A sociedade ainda é extremamente antivegana, ainda há muitos percalços neste caminho. Mas sigo (seguimos) em frente. E já vejo muitos avanços no mundo, ao mesmo tempo.
Há diversas razões para que alguém queira se tornar vegano. No meu caso, foram os animais. Quando me conectei de vez com eles, vi que o que eles me proporcionavam era muito mais profundo do que qualquer momento fugaz em uma mesa -– mas, principalmente, entendi que o que eles sofrem é muito, muito mais grave e sério do que qualquer sabor que eu queira sentir. (E penso que mesmo aqueles que nem gostam de animais deveriam ter um olhar crítico e honesto sobre o horror que eles sofrem em nossas mãos. O amor é um bônus, um extra: procurar ser justo já é o suficiente para não querer compactuar com a objetificação de seres vivos.)
Continuo amando comer. Só que como outros alimentos, hoje. Minha paixão continua a mesma, ainda mais maravilhada, pois agora não há um sentimento subterrâneo, ali, estragando o barato.
A ideia, com este texto, era falar da minha experiência, dar um breve relato pessoal, apenas. Contar como o processo acabou sendo natural, e não forçado, nem movido por uma culpa que alguém quis introjetar em mim. Considero que foi uma conscientização extrema e irreversível exatamente porque foi de mim para mim mesma. Foi um processo silencioso, e também longo. E o que eu quero, ao falar dessa minha experiência, não é atacar a pessoa não vegana: o que eu quero é atacar essa ideia incrustada, que prega que os animais estão aqui para nos servir. 
Não tenho a intenção de fazer um jogo judaico-cristão de culpa com indivíduos, porque considero isso não só pouco criativo (lugar-comum total: a gente cresce cheia de culpas e isso só serve para que fiquemos mais cheios de raiva, depressivos, sexualmente reprimidos, suicidas, o escambau -– eu realmente odeio a culpa como método), como também pouquíssimo efetivo. Mas vou sempre reiterar: os animais têm tanta vontade de viver quanto nós. E o mesmo medo de morrer.
Entendo perfeitamente os veganos que se impacientam, que são incisivos, que brigam. Querem mudança, exigem uma atitude adulta de nós, seres humanos, que poderíamos, ainda hoje (agora!), acabar com o sofrimento dos animais não humanos, tirando-os do prato. Acham inadmissível que a crueldade continue acontecendo, normalizada. E entendo perfeitamente os veganos que procuram um diálogo, que tentam ter uma abordagem mais suave. 
Querem tornar o veganismo menos assustador, querem atrair mais pessoas -– diminuindo, assim, o número de mortes de animais. Entendo e respeito estas duas formas de lutar. Estou do lado de ambos os grupos, pois os dois estão lutando pelos animais, que não têm voz.
Daqui, fico na esperança de que alguém que leia isso e que esteja com medo de fazer esta importante transição consiga ter força e coragem para seguir em frente com a ideia. Sei que este texto só pode tocar quem já cogitou, quem tem uma mínima abertura para esta possibilidade. Não é uma tentativa de falar para quem odeia o assunto. Eu não sou ingênua a ponto de achar que posso “convencer” pessoas que se irritam só de ouvir falar neste tema.
Para quem está há tempos considerando o veganismo, mas se acha incapaz, digo que o esforço é recompensador e delicioso. E que é totalmente possível virar a chave, mudar a lógica, o gosto. Como consequência deste esforço, a conexão com os animais cresce, fica mais intensa. Eles passam a nos fascinar ainda mais. E, curiosamente, nosso respeito por nós mesmos também cresce. Sejamos veganos.