domingo, 25 de novembro de 2012

GUEST POST: VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - A VOZ DAS BRASILEIRAS

Cena do documentário

Hoje é Dia internacional do Enfrentamento à Violência contra a Mulher. Publiquei um guest post sobre abuso sexual ontem, hoje publico um sobre violência obstétrica, e amanhã, um outro sobre uma mulher que reagiu a uma violência do cotidiano.
Muita gente não encara a prática banalizada da violência obstétrica como um tipo de violência contra a mulher. Pra quem não acha que a violência obstétrica não é um sério problema a ser combatido, recomendo que vc pare tudo que está fazendo e veja este documentário. É mais um retrato de como o corpo não pertence à mulher, nem durante seu parto. 
O documentário foi realizado de maneira espontânea e voluntária por Bianca Zorzam, obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da USP; Ligia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFSC, autora do blog Cientista Que Virou Mãe;  Ana Carolina Arruda Franzon, jornalista, aluna de mestrado do Programa de Pós Graduação em Saúde Pública da USP e co-editora do blog Parto no Brasil; Kalu Brum, jornalista, doula e co-editora do blog Mamíferas, e Armando Rapchan, fotógrafo e videomaker.
Eis o relato de como o doc foi feito. E de como as redes sociais podem dar ótimos frutos.
  
Neste 25 de novembro de 2012, completamos um ano de ações coletivas nas mídias sociais, sempre com objetivo de dar mais visibilidade ao tema da violência obstétrica e de desnaturalizar as infrações aos direitos das mulheres, cometidas pelos profissionais de saúde, que muitas vezes passam desapercebidas.
São ações coletivas organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde com o objetivo de promover o debate, sensibilizar, denunciar e ir adiante, até que se consiga que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.
Embora estejamos mobilizando centenas de pessoas e falando com cada vez mais frequência sobre o assunto, é importante que as pessoas saibam o histórico do movimento contra a violência no parto -- a violência obstétrica, nome que as próprias mulheres cunharam para tais práticas.
Em agosto de 2010, a Fundação Perseu Abramo, em parceria com o SESC, realizou a pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, onde apresenta a evolução do pensamento e do papel das mulheres em nossa sociedade. Foram entrevistados centenas de homens e mulheres em mais de 170 municípios brasileiros.
Os resultados sobre o tema da violência contra as mulheres chamaram muito a atenção e, neste contexto, surgiu um dado alarmante sobre a violência institucional sofrida pelas brasileiras: uma em cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto. Dentre as diversas formas possíveis de abusos e maus-tratos, tiveram destaque: exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor, não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações. Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: “não chora que ano que vem você está aqui de novo”; “na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe”; “se gritar eu paro e não vou te atender”; “se ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo”.
Esses dados chocantes começaram a ganhar repercussão na mídia, com matérias em jornais de grande circulação publicadas em fevereiro de 2011.
Em abril do mesmo ano, a Comissão Permanente de Saúde, Promoção Social, Trabalho, Idoso e Mulher realizou um debate com o tema “Maltrato no atendimento em maternidade e no pré-natal”, na Câmara Municipal de São Paulo, reunindo cerca de 70 pessoas, entre elas o coordenador da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, o sociólogo e professor da USP Gustavo Venturi, a médica Anke Riedel, coordenadora da Casa Ângela, casa de parto considerada modelo no Brasil, a enfermeira e coordenadora do curso de Obstetrícia da USP Nádia Zanon Narchi, a representante do Programa Mãe Paulistana, Maria Aparecida Orsini e a bióloga Ligia Moreiras Sena, uma das autoras da ação coletiva que apresentamos hoje. Neste evento, o professor Gustavo Venturi apresentou os dados sobre violência no parto acima mencionados e, em entrevista para a jornalista da Câmara, afirmou: “São três os principais problemas que ocorrem e acabam gerando a violência no parto. A primeira é a questão da formação dos profissionais, em segundo vem a superlotação das instituições e, em terceiro, as mulheres não são adequadamente preparadas para o momento do parto”.
A partir de então, os coletivos femininos começaram a se mobilizar em termos de circulação de informação, denúncia da situação da assistência obstétrica brasileira, reivindicação de direitos, discussão sobre o assunto. E as mídias sociais apareceram como fator catalisador crucial para todas as ações que se seguiram.
Em 24 de novembro de 2011, no contexto de uma grande ação das Blogueiras Feministas, realizamos a primeira Blogagem Coletiva sobre o tema - “Violência Obstétrica é Violência Contra a Mulher”. Dezenas de blogueiras participaram com textos autorais livres publicados no dia 25 de novembro e, desde então, muitos relatos foram produzidos, mulheres que usaram o texto para organizar a experiência vivida -- e que talvez possam ter sido beneficiadas de alguma forma com tal escrita, e beneficiado outras mulheres por meio da leitura.
Neste dia, a pesquisadora Ligia Moreiras Sena também lançou nas mídias sociais o convite à participação em sua pesquisa de doutorado, sobre a violência obstétrica na percepção das mulheres que a viveram e, por meio do Facebook, dos blogs e do Twitter, centenas de mulheres se inscreveram para serem entrevistadas. Em um esforço de divulgação, foi aproveitado o twittaço que ocorreu utilizando a hashtag #FimDaViolenciaContraMulher para contactar pessoas que pudessem ajudar na disseminação do convite à pesquisa.
Em nossa segunda ação de ciberativismo, coordenada para o Dia Internacional da Mulher - 8 de Março de 2012, alcançamos certamente mais de duas mil mulheres, com a força de divulgação coletiva de 75 blogs.
Foi o Teste da Violência Obstétrica. Promovido pelos blogs Parto no Brasil, Cientista Que Virou Mãe e Mamíferas, o instrumento foi idealizado a partir de documento original da associação civil argentina Dando a Luz, e o Coletivo Maternidade Libertária, disponível em algumas publicações na Internet, em blogs e sites, datadas de 2010.
Para a divulgação no Brasil, o documento foi revisado e adaptado à proposta desta blogagem coletiva. As questões abertas foram transformadas em um questionário com múltiplas escolhas, onde incluímos uma importante caracterização sociodemográfica, e contamos com a força de divulgação das mulheres conectadas em suas redes virtuais. Em apenas três dias compilamos mais de mil resultados. E seguimos com o recebimento de novas respostas durante 38 dias. Ao final do prazo, 1966 nascimentos foram avaliados.
Conseguimos atingir nosso principal objetivo, que era dar grande visibilidade a esta questão nas mídias sociais, entre as mães editoras de blogs e demais usuárias da Internet. E os resultados não poderiam deixar de ser surpreendentes. A expressiva participação no Teste da Violência Obstétrica era apenas um indicativo da força que as mulheres, juntas, têm para denunciar um grave problema de cidadania, de falta de oportunidades, de nenhum direito de escolha.
Então em 1o. de agosto de 2012, um grupo de mulheres ativistas mineiras avançam mais um pouco no contexto da luta contra a violência no parto. Em um marco histórico, conseguiram levar a cabo a Audiência Pública “Violência no Parto” na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Estiveram presentes usuárias do sistema de saúde, obstetrizes, doulas, ativistas, políticos e estudantes, em um evento que acionou entidades médicas do estado e o Ministério Público para abrir o debate.
Em outubro de 2012, uma terceira Postagem Coletiva reuniu os esforços necessários para que o vídeodocumentário Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras pudesse ser produzido. Em menos de dois meses, fizemos um roteiro para os depoimentos individuais, convidamos as mulheres a nos enviarem suas histórias de vida, com consetimento, para participação. As participantes gravaram vídeos caseiros com seus depoimentos, suas histórias de violência, intolerância, ignorância e racismo que marcaram seus corpos e suas vidas, e nos enviaram. Em poucos dias, conseguimos editar, com a ajuda do fotógrafo e videomaker Armando Rapchan, os vídeos recebidos e mais dezenas de fotografias, em um vídeo final de 52 minutos. Escolhemos por manter o caráter de produção caseira dos depoimentos.   O documentário foi então lançado no dia 17 de novembro último, como parte das comunicações científicas coordenadas do Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ocorrido em Porto Alegre.
Assim, decorrido um ano após o início de nossas ações de ciberativismo, divulgamos hoje, 25 de novembro de 2012, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, o vídeodocumentario Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras. Ele representa o trabalho de dezenas de mulheres na luta contra a violência obstétrica. Com a voz de algumas delas, simbolizamos o coro de milhares de brasileiras que vivem desrespeitos aos seus direitos reprodutivos cotidianamente, em um processo tornado banal e rotineiro. Queremos ser representadas, queremos que nossas vozes sejam ouvidas e que, de alguma forma, impulsionem medidas que visem a erradicação da violenta assistência ao parto no Brasil.
Queremos agradecer, em primeiro lugar, às mulheres que muito corajosamente se dispuseram   a tocar em suas próprias feridas, em suas próprias dores, a fim de problematizar a questão e formar um coro de vozes. Queremos agradecer também às dezenas de mulheres que nos enviaram fotografias dos partos/nascimentos de seus filhos e que, por limitação de tempo, não puderam ser utilizadas. Queremos agradecer a todos que, direta ou indiretamente, nos ajudaram e incentivaram na produção desta ação.
Melhorar a qualidade da atenção ao parto e nascimento é um desafio complexo, que deve contar com a colaboração multi-setorial de vários agentes: profissionais de saúde, gestores, pesquisadores e docentes, e ainda, as mulheres, por meio do controle social. Assim, agradecemos cada pessoa envolvida nesta ação e convidamos a todas e todos para contribuírem com o enfrentamento desta forma de violência contra as mulheres, com propostas e encaminhamentos inovadores. Pelo respeito aos direitos humanos femininos. Pela redução das mortes maternas. Pela promoção da saúde das gestantes e dos bebês. Por formas inovadoras de organização dos serviços, e pela adoção massiva das boas práticas na assistência ao parto normal.
Que nossas vozes sejam ouvidas. Que nossas histórias não sejam ignoradas...

Hoje é dia de muita luta. A Marcha Mundial de Mulheres do Ceará, por exemplo, realizou hoje, na Praia do Futuro, em Fortaleza, uma ação para lembrar que a cada 15 segundos uma mulher é violentada no Brasil. Não podemos nos esquecer que uma mulher é assassinada a cada duas horas -- o Brasil é 12° no ranking mundial de assassinatos de mulheres? A maioria das vítimas é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que foram rejeitados por elas. Não por maníacos. Cabe a todxs nós enfrentar esta violência. Hoje e todos os dias.

50 comentários:

Alexandra disse...

Lola, esse foi um dos posts que mais me deixou triste. Uma vez ouvi a entrevista da Lígia (a bióloga citada no post) na CBN e fiquei chocada com os dados que ela passou. Desde então, decidi que O MEU PARTO seria da maneira que EU quisesse. Mas no meu caso, existe um agravante: meu pai é médico e faz críticas cruéis e veementes à minha escolha de ter um parto humanizado. É incrível como os profissionais da saúde em sua maioria são absolutamente insensíveis à questão gestacional. Parece que vivemos na Era Vitoriana, onde estar grávida era uma vergonha, uma falha de caráter e, portanto, deveria ser escondida inclusive pelo uso de espartilhos até meses avançados da gravidez para que a barriga não aparecesse.
O que se nota é que há um pensamento machista, tanto por parte de homens, quanto por parte das mulheres da saúde (o que é mais surpreendente).
Ficar grávida ainda é uma vergonha porque implica em a mulher ter feito sexo, essa coisa suja e imoral.
Já ouvi diversas pessoas dizendo que tal mulher era muito vulgar porque gritou na hora de dar à luz!!! Que era feio.
Frases das do tipo que você citou acima são mais comuns do que a maioria das mulheres imagina. Ser amarrada, então, nem se fala!
A mulher não pode ficar em posição confortável para dar à luz. Fora, claro, que para o médico, duas horas de trabalho de parto já consta como 'sofrimento fetal'. Uma MENTIRA deslavada, só pra que o parto seja mais rápido e ele tenha menos trabalho e não dispense mais tempo, fazendo uma cesárea que a gestante não concorda.
Lola, eu me emociono com esse post. Sinto pelas mulheres que passaram ou ainda passarão por isso. Cada vez que leio algo assim, sou mais à favor do aborto, mais à favor do parto humanizado e mais à favor de que sejamos donas únicas do nosso corpo, das nossas vontades.

Patty Kirsche disse...

Que coisa. É impressionantes o desrespeito dos médicos pelas pessoas. Eu mesma fiquei traumatizada por muito tempo pelo tratamento brutal que recebi em minha primeira consulta ginecológica. Eu era adolescente e estava sem convênio, então fui ao posto de saúde. Na ocasião, a "médica", Heloísa Helena o nome dela, nunca me esqueci, me perguntou quantos parceiros eu havia tido. A resposta passava da quantidade que ela considerava "apropriada", então ela começou a me ofender. Perguntou onde estava meu pudor, insinuou que era burra. Ela me entregou um folheto sobre Postinor 2 e falou "esse papel que vc está guardando é pra ler, tá?". E pior foi durante o exame. Ela enfiou o espéculo com força, enfiou o dedo de forma rude em minha vagina e ficava falando pra eu relaxar, mas não tinha como, praticamente destruiu minhas mamas, nunca nenhum outro médico as esmagou daquela forma. Ela me prescreveu uma pílula barata que nem existe mais hoje e que me dava uma náusea horrível. Num fato não relacionado, ela usava a caneta da pílula quando escreveu a receita pra mim. Foi horrível. Até hoje, ela atende no turno da manhã num postinho aqui perto. Tenho certeza de que no consultório particular dela, as pacientes são respeitadas. Infelizmente, os médicos se comportam de maneira diferente no atendimento público.

Hades disse...

Há muito tempo sou leitor do blog, mas raramente eu comento.
Hoje, lendo o post eu perguntei para minha mãe se ela sofreu algum tipo de violência durante o parto.
Ela não entendeu, então fui lendo as situações citadas no texto, até que ela me olhou estranho e perguntou quem tinha escrito ou falado sobre aquilo.
Respondi e ela disse que teve um exame de toque doloroso.

Se brincar esse é o primeiro passo dela rumo a uma conciência do feminismo...

Sara disse...

Meu total apoio as mulheres que estão nessa luta contra a violência obstetrica, essa uma luta pra la de importante, só quero salientar q essa violência não ocorre só na saúde publica, por estar fragilizada nesse momento ja vi mulheres bem próximas de mim sofrerem esse tipo de violência até mesmo na rede particular, com o pior resultado possível pois meu sobrinho morreu por essa negligência.
Eu mesma tb sofri esse tipo de violência q me traumatizou muito.
Esse tipo de violência é uma das piores que podemos sofrer pois acontece em um momento que não temos condições nenhuma de defesa e é de uma covardia sem limites.

Anônimo disse...

Sou dessas mulheres que se tivessem parto em casa teria morrido. Este assunto é muito sério. Há os dois lados da moeda. Há duas vidas em jogo.

Lorena disse...

Obrigada por postar esse doc aqui também, Lola. Uma das mulheres que dão depoimento nele é uma grande amiga minha. Por causa dela, principalmente (não somente) é que tomei e tomo partido nessa luta para a humanização da obstetrícia brasileira. Ver alguém que vc ama sofrendo tudo que ela sofreu, no momento que deveria ser o mais bonito e inesquecível da vida, é de dilacerar o coração.
Não podemos ficar quietas, não. Violência obstétrica é violência contra a mulher! Por uma saúde humanizada para mulheres e seus filhos, pra que elas possam ser protagonistas de seus partos e sejam respeitadas como merecem nesse momento!

Alexandra disse...

Anônimo 19:03

Ninguém aqui está falando que uma mulher com uma gravidez complicada deva ter seu filho em casa, sem os aparatos hospitalares. Muito pelo contrário, a luta contra a violência obstétrica é exatamente pra que essas mulheres que optem ou precisem ter seus filhos em hospitais sejam bem tratadas e não sofram nenhum tipo de humilhação.
Ausência de interpretação ou preguiça de ler o post com atenção?

Anônimo disse...

Eu levanto as mãos para o céu quando lembro que todas as minha passagem por ginecologistas foram tranquilas e bem respeitosas. Uma ocasão em especial, num momento bem complicado meu, antes do exame a ginecologista me abraçou, avisou que provavelmente doeria um pouco e foi muito encorajadora, sendo delicada ao máximo comigo.

Da mesma forma, minha irmã passou por um parto e me marcou muito o quanto ela saiu satisfeita com a equipe médica, e emocionada, fez questão de abraçar todos pela forma linda como trataram ela, o marido e minha sobrinha.

É muito, muito triste saber que nem todo mundo tem essas experiêncoas tão positivas.
E muito bom saber que apesar de tantas histórias ruins que carrego na vida, nesse aspecto fui felizarda.

Um parabéns aos médicos como esses que citei, eles nos dão esperanças.

Dayane disse...

Lola, esse post me lembrou algo que queria falar aqui já faz um tempo.
Eu finalmente compreendi a importância do parto humanizado!O que principalmente me ajudou, com certeza, foi o seu blog, e também pelo livro Paula, de Isabel Allende (já leu, é lindo!) onde ela fala sobre isso e mostra como os médicos tomam conta da natureza feminina, como perdemos esse contato tão maravilhioso com nossa essência!
Obrigada!

Vehfire disse...

Muitos médicos são tão arrogantes que acreditam que traumatizando no parto as meninas que engravidam precocemente e as mulheres que já tem outros filhos, elas passarão a se prevenir contra uma nova gestação.
Além de um pensamento ignorante, é reacionário. Eles acreditam estar fazendo uma "limpeza", talvez acreditem que pobres não podem ter filhos e preferem ignorar a problemática da gravidez precoce e da falta de educação sexual e planejamento familiar.
Vejo a violência obstetrícia não só como uma violência, mas como uma tentativa de tapar o sol com a peneira diante da problemática dessa deficiência de orientação no Brasil.
Talvez a tentativa de cercear a vida sexual da mulher por meio desses traumas imensuráveis, seja maior do que a força de promover mudanças, mesmo que a longo prazo!

Mariana disse...

O documentário foi muito bem feito, mas é MUITO triste.
É muito triste saber que isso acontece. Triste ver que muita gente, até mesmo pessoas esclarecidas sobre a violência contra a mulher, não deem a importância necessária à luta contra a violência obstétrica.
Queria citar um médico estrangeiro, Michel Odent que disse uma frase que eu nunca esqueço. Ele diz que para mudar o mudo é preciso primeiro mudar a forma de nascer. Eu acredito nisso.. eu tenho até medo de saber como eu fui tratada quando eu nasci.. mas o mais importante é que eu consegui dar um nascimento digno e respeitoso para a minha filha, sem sofrer qualquer tipo de violência, tanto psicológica quanto física.
Enfim, obrigada por ajudar a divulgar a situação do atendimento obstétrico brasileiro através desse documentário.

Mariana disse...

Hades! Nossa, que oportunidade ótima a sua de abrir os olhos da sua mãe!
É muito lindo isso!
Parabéns

Mariana disse...

Detectado "leitor" com preguiça de ler:
Anônimo 19:03

Bebete Indarte disse...

Hoje tenho 52 anos, tive o primeiro parto aos 38 e o segundo aos 39 na Holanda (doida pra ter filhos)me informava sobre tudo na época de gravidez à tipo de parto e tinha um excelente diário em versão português de uma americana, onde eu anotava as mudanças de meu corpo, minhas emoções, as expectativas em relação ao futuro como mãe (grande suporte). O normal aqui é ter parto NORMAL, e até em casa, com toda a assessoria, o pré-natal é excelente (e pra todo mundo, independente da renda familiar, classe social e plano de saúde). Tive no hospital (pela minha idade, eles acharam melhor, o que eu plenamente concordei pois morava na época numa casa muito pequena). Eu sempre me informei muito sobre partos, gravidez, fiz ginástica yoga pra gestante, e minha mãe no Brasil teve 8 filhos (todos partos normais dentre os anos 50 e 60) quando no Brasil ainda era normal ter parto normal, então sabia que era NORMAL uma mulher parir. Lembro-me que quando contava às brasileiras que queria ter parto normal e que os tive, por essas bandas daqui, elas RIAM na minha cara, diziam que eu estava LOUCA, muitas iam PARIR no Brasil para fazerem cesárea, o que eu achava uma idiotice absurda, pois aqui temos toda a assistência do seguro de saúde (pagamos pra isso), e ainda por cima contamos com o auxílio pós-parto (8 dias uma pessoa tipo enfermeira especializada vai até sua casa, te ajudar com o pós parto, cuidar do bebê, te ensinar como tudo funciona), lidar com o umbigo, dar banho, trocar fraldas, e serve café pra visitas, aqui não tem maternidades, somente alas de hospitais pra parto. Minha cabeça sempre foi , e tinha dó dessas brasileiras, que com mentalidade tacanha, de achar que cesária era o grande lance pra trazer filho ao mundo, por medo e ignorância delas. Mas tenho dó agora daquelas que querem mudar esse quadro no BR e são tratadas com desrespeito por médicos e profissionais(?) de saúde, ou diria carniceiros? Triste essa realidade. Esse quadro PRECISA MUDAR, já!

Raziel von Sophia Imbuzeiro disse...

Fiquei - e ainda estou - muito assustada com esse post. Tem todo o meu apoio.

Davi disse...

Olha, acho que a funçao de medico ja é por natureza uma profissao que exige pessoas frias e as vezes insensiveis, é de se supor que atraia uma quantidade de gente sem empatia ou até psicopatas em em quantidade maior que outras funções.
Lembro de uma vez que vi uma atutude absurda de alunos de medicina em Londrina e pensei, para uma função tão humana não deveriamos priorizar gente que além da capacidade tambem tenha honestidade e sensibilidade que essas criaturas certamente não tem?
É lamentavel a brutalidade de grande parte dos medicos ainda mais nesse caso das gestantes.

Aninha disse...

Chorei. Chorei muito.

Lays, mãe e tudo o mais. disse...

Eu não tive coragem de ver o documentário, confesso. Só o termo "violência obstétrica" já me leva às lágrimas, porque as lembranças são muito doloridas.
Eu estava grávida do meu primeiro bebê, estava com uma médica que tirava fotos em toda consulta, mas não se preocupou com o fato de eu ter engordado 30kg em seis meses. "É normal", era o que ela me dizia em toda consulta.
Não era. Aos seis meses, tive hipertensão gravídica, fui internada em um hospital do convênio onde a GO não atendia e ela me desertou. Simplesmente disse que eu não era mais paciente dela e foi embora. A partir daí eu sofri com a falta de informação, ninguém me dizia como eu estava ou como meu bebê estava. Apenas faziam os procedimentos e saíam. Era como se eu não existisse como pessoa, como se eu fosse uma boneca de treino.
Me levaram para um doppler - onde não me avisaram que era fora do hospital e eu não troquei de roupa, fiquei meia hora em uma sala de espera de camisola e chinelos em meio a outras mulheres, morrendo de vergonha - e ali viram que meu bebê estava com o fluxo do cordão invertido.
De volta ao hospital, o GO que me atendia e que eu vi pela primeira vez, disse que eu ia para a mesa de cirurgia, que meu bebê não era viável e que ele não sobreviveria. Aguentei essa barra sozinha, porque ninguém se preocupou em avisar minha família que estava na sala de espera aguardando o horário de visitas.
Fui levada para a cirurgia, me deixaram mais de hora sozinha na sala gelada. Os médicos entraram rindo e falando de queijo de minas, enquanto me cortavam.
Fui deixada em um corredor ao lado da sala onde pesavam os bebês recém-nascidos e só me tiraram de lá quando eu passei a gritar implorando pra ir embora. Fui deixada com sonda mais de doze horas, morrendo de sede e sem sequer um pano úmido nos lábios.
Meu filho sobreviveu três dias, não pude pegá-lo uma única vez e o vi três vezes, apenas em horários em que a burocracia do hospital permitia. Em uma das vezes, à noite, pedi para vê-lo e me foi negado. O responsável pela UTI foi falar comigo e falava que não ia autorizar, me chamando de "mãezinha" e me tratando como se eu não fosse nada. Tive um surto, me levantei e fui ficar à porta da UTI, batendo na porta e chamando pelo meu bebê. Fui retirada dali e sedada, só acordando horas depois; me disseram que se eu fizesse aquilo de novo, seria transferida e não poderia ver meu bebê outra vez até ele ter alta.
Um dia depois de eu ter alta, meu filho morreu. A dor de ter perdido meu filhinho me cegou para a violência de que fui vítima, por isso não fui atrás de nenhuma punição para ninguém, nem para a GO que me atendeu inicialmente, nem para a equipe do hospital.
A ser sincera, nem me dei conta do tamanho da violência de que fui vítima, só muito depois é que percebi o que ocorreu e, pior ainda, que isso é praticamente regra no sistema de saúde, tanto público como privado.
A cesárea não é garantia de humanização; o sistema privado não é garantia de humanização. A única coisa que nos garante um tratamento humanizado é reavermos nossa condição de seres humanos, que nos é roubada assim que entramos no hospital.

Anônimo disse...

Lola,boa noite.
Esse é um tema que me deixa muito triste,mas há um outro lado dessa história que quase nunca é discutido, que é o atendimento na rede pública (onde o parto normal é a regra, não exceção).
Minha irmã já escreveu aqui, descrevendo o que é ter um filho com mais de 40 anos, querer um parto cirúrgico e não poder fazê-lo, porque não tinha recurso para pagar um convêncio.
Ela é funcionária pública estadual e embora tivesse sem dilatação e pedido ao médico DO HOSPITAL DO SERVIDOR PÚBLICO DE SÃO PAULO por uma cesárea, ele não lhe deu ouvidos. o bebê nasceu com forceps. Questionado posteriormente sobre se não teria sido melhor o parto cirúrgico o médico cinicamente respondeu: nasceu, não nasceu?
A MAIOR VIOLÊNCIA PARA MIM É A MULHER NÃO TER POSSIBILIDADE DE ESCOLHA, POR SER POBRE.

Lorena disse...

Lays,

sinto muito por sua experiência, meu Deus, como sinto! :( Que um dia você possa se curar das feridas que ficaram, não apenas no seu corpo, mas na alma.

As estatísticas hoje dizem que 1/4 das mulheres brasileiras sofrem violência obstétrica, mas eu acredito que o número seja muito, muito maior. Assim como a violência sexual (são dois lados da mesma moeda), esse tipo de violência é subamostrado - as mulheres não falam, é mto sofrido, mtas "apagam" as lembranças, mtas acham que "é normal" passar por tudo isso, muitas têm medo de denunciar os médicos pq nada vai ser feito, mtas nunca foram questionadas sobre isso... Enfim. Tenho certeza que se houvesse uma pesquisa mais sistemática, mais abrangente, dentro do sistema privado e também do público, o número seria alarmantemente maior.

Mas medidas têm sido tomadas, de uns anos pra cá. E eu tenho certeza que mais e mais gente vai ser conscientizada e vai lutar pra mudar esse quadro. Nossas filhas, nossas netas, não merecem passar pelo que nós, até hoje, passamos.

Anônimo disse...

Mulher reclama de dores de parto porque nunca levou um chute no saco...

Shey disse...

Anônimo das 22:13


Dada a sua sensibilidade e tamanha sapiência, não me admira que vc conheça bem chute(s) no saco...

Leandro disse...

Por mim, vocês não só podem fazer parto em casa, como DEVEM fazê-lo. Assim era na pré-história. Ou melhor, assim era antigamente...

Raziel von Sophia Imbuzeiro disse...

Lays, mãe e tudo o mais,

Compartilho de tua dor, linda. Aceite meu e-abraço e minhas lágrimas verdadeiras de todo o coração.


Anon das 22:13,

Amigão, dor de chute no saco não dura nem um minuto. Respeite quem sofre de verdade.

Juba disse...

Homem reclama de chute no saco porque nunca sentiu dor de parto. E o discutido aqui não é a dor de parto, e sim a violência por parte dos profissionais de saúde no momento do parto.

lola aronovich disse...

Pois é, Shey, o mascutroll anônimo mostrou, mais uma vez, o que já sabemos -- que eles não são muito chegados a essas frescuras de ler um post (ler? Eca!). Só que agora ele inovou: mostrou-se incapaz também de ver um vídeo. Porque, se tivesse visto o documentário ou lido o post, perceberia que ninguém reclamou de dores no parto.

Putz, um assunto sérios desses, e nem assim o sujeito consegue parar um segundo de pensar em pênis e testículos.

Anônimo disse...

Quando fazia estágio na obstetrícia, presenciava com muita frequência diversos maus tratos. Certa vez a médica do plantão se irritou tanto com a parturiente( pois havia fornecido inicialmente a data da ultima menstruação errada) que lhe deu três tapas na perna!
Xingamentos , gritos , humilhações e descaso eram rotina.
Triste realidade.

Ligia Moreiras Sena disse...

Querida Lola, muito obrigada por estar conosco mais uma vez nessa causa, no movimento contra a violência no parto.
Esse documentário foi feito em cima de relatos enviados por mulheres que já conseguem falar do sofrimento que viveram. Imaginem, amigos, quanta coisa ainda existe para ser contada por quem ainda não consegue falar sobre.
Isso precisa parar.
Que todos possamos divulgar esse vídeo a fim de que os profissionais se preparem melhor, o Estado ofereça melhores condições e que as mulheres se preparem ativamente para o parto, medida que pode afastar em grande parte a possível violência.
Um grande abraço a todos e muito obrigada.

Ligia

Shoujofan disse...

Gostaria de parabenizar todas as envolvidas no documentário. Assisti ontem a noite. Bem, não era nada que eu já não tivesse ouvido, que eu não soubesse, mas ver em depoimento, olhar o rosto das mulheres que foram submetidas a tais atrocidades, é sempre muito mais impactante. Terrível.

E nem tocaram em outro drama (*e nem precisavam, não é crítica*), o das que desejam ter @ filh@, chegam ao hospital perdendo a criança e são torturadas, porque, bem, a equipe médica e de enfermagem tem certeza de que se trata de uma assassina que tentou abortar... Isso me dá muita revolta mesmo.

É por essas e outras que eu realmente não sinto nenhuma atração pela idéia de engravidar e parir. Sem críticas a ninguém, sem julgamentos, simplesmente me parece muito complicado ter que me deixar escrutinar durante meses e ser vista por muitos como "um meio" e, não, uma pessoa. Tenho muitas histórias de horror na família e não acredito - como o documentário bem mostrou - que quando te largarem (*se te largarem*) um bebezinho nos braços tudo vai se apagar e o mundo será cor de rosa ou azul. :P

Anônimo disse...

Me fez lembrar do caso da Alyne da da Silva Pimentel :


http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/265-generos-em-noticias/16312-10-anos-da-morte-de-alyne-da-silva-pimentel

:(

Anônimo disse...

Olha, a campanha tem todo o meu apoio e é preciso sim colocar a boca no trombone. Dia desses estava em um salão de beleza e uma moça, que é enfermeira, comentou que determinado médico, plantonista de um hospital público em Blumenau, aguardava pelo parto normal das pacientes até às dez horas da noite. Depois daquele horário, se não tivessem tido o bebê, "entravam todas na faca", para ele não ter que ficar em um parto após o seu horário, ou terem todas ao mesmo tempo e outro médico precisar ser chamado. Achei um absurdo e falei isso, mas a moça defendia o médico e ainda dizia que a cesárea era melhor, que esse papo de parto normal é conversa pra boi dormir. Falei sobre o parto humanizado e sobre a violência que eu mesma sofri, além de outros abusos que já vi relatados aqui, e a postura tanto da enfermeira quanto das demais mulheres no salão, é a de que as coisas são assim, que devemos ser fortes, e que as queixas vem de mulheres frescas, levianas ou histéricas. Além, é claro, de existirem mulheres que simplesmente merecem ser maltratadas, como as adolescentes que tem partos consecutivos. Treva total.

Maíra disse...

Gostaria de pedir um enorme favor aos comentaristas: compartilhem os nomes, se possível completo, dos médicos, para que outras possam procurar os profissionais que respeitaram vocês e fugir dos "profissionais" que desrespeitaram.

Lays, meu abraço mais apertado. Que a nossa soliedariedade possa diminuir a dor das suas feridas.

Anonimo 25/11 21:25, a impossibilidade de escolha e a desumanidade na hora do parto não tem preconceito de classe, como o documentário mostra bem.

Lola e Ligia, obrigada, de todo coração, por existirem e lutarem. Por causa dos blogs de vocês, sei que existem alternativas à violência e que posso também lutar para que o meu parto seja verdadeiramente meu.

Ronaldo disse...

Hoje em dia, o Brasil sofre com uma falta cada vez maior de obstetras. É compreensível: esse não é exatamente o ramo da medicina com maior retorno financeiro, as consultas muitas vezes duram mais do que em qualquer outra especialidade, e deixam os médicos muito vulneráveis a todo tipo de processos. De acordo com o presidente da Sociedade de Obstetrícia, metade dos obstetras desiste da profissão em algum ponto. Essa é uma porcentagem extremamente alta. Há quem diga que nosso país vai ter grandes problemas com a falta de profissionais na área, em um futuro próximo.

Embora eu compreenda a necessidade de melhorar o atendimento no parto, talvez esse não seja exatamente um bom momento para pressionar obstetras em larga escala. Poderia diminuir ainda mais o número de estudantes de medicina que querem seguir carreira na área. Talvez métodos menos agressivos, que tentem apelar para a empatia dos profissionais (devem ter alguma, né?) ao invés de ameaças na justiça, sejam melhores.

Anônimo disse...

Além de toda a brutalidade digna de um filme de terror, o que me deixa impressionada, chocada e furiosa, é como os proficionais envolvidos na área de GO infaltilizam e idiotizam as mulheres. No caso das parturientes é ainda mais bizarros eles chamando-as de "maezinha", "dorzinha de ter nene", "fica deitadinha".
Alguém já ouviu um ortopedista falar "dorzinha de ossinho quebrado" para um paciente adulto? Ou um cardiologista dizer que o "coracaozinho nao tá fazendo tum tum"?

Sempre que sexualidade e direitos reprodutivos (seja contracepcao, gestacao, parto) entram em pauta as mulheres sao tratadas como inaptas, burras, infantis e que precisam que o médico/pais/companheiro/sociedade/igreja as regulem e tomem as decisoes no lugar delas...

É degradante isso!!!

Fran

Maria Valéria disse...

Como medica,( clinica, nao GO) nao posso deixar de opinar
Eu era radicalmente contra o parto domiciliar,mas estou abrindo a cabeça por ter visto vários estudos com evidencias cientificas de que e seguro,inclusive links postados por amigas GOs.
Senti falta nesse grupo de pesquisa de ter um profissional medico, pois fica a impressão de que os medicos são sempre monstros e os outros profissionais são bonzinhos,
Nao convidaram um GO pra ajudar na pesquisa? ( ou convidaram e nenhum aceitou?) bem, eu tenho algumas amigas GOs que compartilham dessa preocupação de vcs,que estão engajadas e que inclusive compartilharam do vídeo em redes sociais,
Entao nao são todos que são desumanos,
Sei que meu estagio de GO durou menos que um ano.E que mesmo nas melhores universidades do pais, muita coisa nao e ensinada.Eu mesma aprendi na faculdade que sempre se faz a episiotomia...nao sei se o ensino mudou, mas se nao mudou, deveria mudar.nao vi nenhuma gestante ser destratada durante o meu estagio.
Tambem nao e ensinado a coisa mais importante : lidar com o ser humano,temos somente um semestre de ética, o que acho pouco.
E na formação, poderiam ser ensinados alguns conceitos.vendo os relatos percebo que muitas coisas que se fala corriqueiramente são agressivas e o profissional nem se da conta, porque acha ' normal' .
Minha ressalva fica para a disponibilidade do GO para o parto, que nao escolhe dia nem horário.
Se o profissional quiser tirar ferias , nao pode, porque todo mês tem alguem entrando em trabalho de parto? ...
Uma leitora do blog deu uma solução bacana pra isso, de combinar, através da data provável do parto, a disponibilidade:' tudo bem, mas eu estarei de ferias no período do parto, ainda assim quer seguir comigo?" E se a paciente nao quiser assim, escolhe outro GO disponível,
Mesmo se resolvendo o problema das ferias, ha outras questões.: se o trabalho de parto for durante o horário de consultório, como e que o colega faz? Desmarca todo mundo ,deixa sem atender(??)e fica ali no hospital?se trabalhar em serviço publico cancela a agenda e nao vai pra tocar o parto?
E se duas gestantes entrarem em trabalho de parto no mesmo dia? E os imprevistos e intercorrencias( parto prematuro, entre outros)?
Nunca fui mae e nao pretendo ser, por isso nao tenho experiências nesse sentido.
Porém os relatos me deixaram bastante assustada,nao sabia que a situação estava nesse pé e considero um absurdo as césareas desnecessárias,
So fica minha ressalva, de que acho impraticável exigir que o profssional esteja a disposição 24h/dia, 7d/ semana,porque todo mundo, inclusive medico, e gente...
Minha opinião e que poderia ser combinado atender o parto normal, sim,mas deixar um segundo nome de um colega de confiança do medico para eventuais emergências,nos dias que o medico nao estiver na cidade ou que esteja atendendo a outro parto.
Beijos!!





Anônimo disse...

Esses relatos já viraram casos de polícia, ein, pessoal? Ninguém faz B.O. contra essas gangs hospitalares?

Bárbara disse...

Maria Valéria, ninguém está pedindo disponibilidade 24/7 dos médicos e, de fato, todo o modelo de atendimento obstétrico deve ser revisto. Por exemplo, o atendimento de gestantes de baixo risco pode ser feito por parteiras. Se a mulher tiver confiança em uma equipe, e não em um médico específico, ela vai se sentir confortável para parir com o profissional que estiver de plantão.
Contudo, NADA justifica o tratamento que essas mulheres tiveram. E o mal-trato não vem só do médico, mas também de enfermeiros e outros profissionais da saúde.

Li disse...

Lola, coincidência foi você ter publicado esse post logo após eu ter tido uma longa conversa sobre esse tema com minha amiga! Estávamos justamente falando de como a violência obstétrica é recorrente, e como também passam por agressões as mulheres que sofrem aborto espontâneo (como se mesmo um aborto acidental fosse culpa delas e elas fossem ~assassinas~). Sorte que temos um grupo de mulheres engajadas em trazer essa realidade ao público! Vou ver o documentário, valeu a dica.

Lays, mãe e tudo o mais. disse...

Fato é que muitos destes maltratos acabam por incentivar o número absurdo de cesáreas neste país, justamente porque muitas mulheres acabam por encarar a mesma como uma alternativa de tratamento mais digno.

E na verdade, a cesárea sem inidcação é uma violência tão grande quanto o parto normal cheio de intervenções e desrespeitoso com a gestante. Porque ambos implicam no roubo da posse do corpo da mulher. Em ambos os casos, um pela agressão verbal e imobilização explícita, outro pela ação da anestesia e mutilação, a mulher perde o domínio de si mesma e passa à condição de objeto a ser manipulado de acordo com a vontade da "autoridade médica".
Esse roubo de domínio não acontece da noite para o dia. Começa no primeiro passo dx GO, que dá evasivas e não respeita de imediato a opção da gestante por um parto normal, que pede exames desnecessários, minando a auto-confiança da mulher em si mesma e na sua capacidade de tomar decisões.
Muitas vezes me perguntei: por que não exigi a presença do médico? Por que não recusei a medicação até que fosse informada do que estava havendo comigo? Por que não exigi a presença da minha família no momento em que fui informada da cirurgia? Por que não acionei advogado para conseguir a transferência do hospital? Por que??? E a única resposta que encontro é que aqueles dias no hospital foram o ápice de um processo que me retirou a capacidade de acreditar que eu poderia tomar decisões por mim mesma, que minou a minha auto-confiança e acabou com que eu acreditasse que os médicos é que tinham razão e que meu único papel ali era ser forte e encarar tudo o que viesse.
Acredito que, quando você é submetido a processos de pequenas doses de violência diárias, torna-se mais difícil reagir quando a grande violência vem. Ficamos cegas, amortecidas. E não reagimos, proque muitas vezes só tomamos consciência do que sofremos mais tarde. Bem mais tarde.

Denise disse...

Ronaldo,

Não existe a necessidade de existir essa quantidade grande de obstetras. O medico especialista não é necessário para a vasta maioria dos partos. O que se precisa é um número maior de obstetrizes, que por sinal daquém tratamento muito melhor a gestante e a parturiente. O medico obstetra tem que cuidar apenas do que precisa, gravidez de alto risco (realmente de alto risco e não usar esses parâmetros antiquados para definir alto risco) e de situações de emergências. De acordo com as estatísticas, situações de emergência que requerem o cirurgião (que é o obstetra) são apenas 10%. Então, vamos diminuir os obstetras e aumentar as obstetrizes.

Maria Valéria disse...

Barbara

Claro que as agressões são injustificáveis!
E, acredito sim que os partos de baixo risco possam ser realizados por parteiras,
Com a ressalva de que deve haver uma equipe de retaguarda com medico para intercorrencias,
Nao quero ser mae, mas se fosse e pudesse escolher, iria querer o que uma amiga que mora na Austrália teve,
Lá o parto dela foi realizado com parteira, mas dentro de um hospital,num ambiente bem aconchegante onde o marido e a mae puderam ficar com ela e o marido participou de tudo
O medico so foi chamado porque ela teve alguma intercorrencia com a placenta( acho que nao expulsou) , entao ele veio e fez uma cirurgia pequena para remoção da mesma,
Assim que o bebe nasceu, foi colocado com contato com a pele dela, ela pode segurar, e com o pai tambem,
E nas primeiras semanas vai uma pessoa do serviço da saúde a sua casa para verificar se esta tudo ok com vc e com o bebe.
Gostei.

Denise disse...

Maria Valéria,

Eu também acho que não se espera que exista disponibilidade 24/7. Mas tem que haver também por parte do profissional a flexibilidade de se trabalhar com equipe. E da mulher de trabalhar com. Mis de um profissional. Te garanto que isso não é difícil.. Além do obvio, claro, de trabalhar com obstetrizes. Na vasta maioria dos casos, o medico não é necessário. E mesmo quando é, ele só é necessário na hora do procedimento em si. Antes disso, e depois também, é que se necessita das obstetrizes, ou enfermeiras preparadas, ou doulas, pessoas da família ou mesmo uma amiga da gestante.
A minha gravidez foi inicialmente tratada como de alto risco por que eu tinha mais de 40 anos. Aí eu pesquisei muito e depois de fazer algumas perguntas para o medico, mudei para uma casa de parto, pois deixei de confiar no medico. Foi a melhor decisão que tomei. As parteiras tomaram mais cuidado de mim do que qualquer medico. E para provar que o modelo de parteira funciona, eu tive um parto complicadíssimo e precisei de um cirurgião. Ele, excelente medico, é o backup das parteiras. Quando eu cheguei na casa de parto, já em intenso trabalho de parto (sem nenhum tipo de preparação (digo, inicio gradual das contrações, bolsa romper, etc) elas já fizerem o exame e viram que algo estava errado comigo. Chamaram o dr Hall e me levaram para o hospital. Lá eles viram que eu tinha preeclampsia, que por si só não justifica cesárea e nem é indicado; minha filha estava virada, que também não justifica cesaria e o medico não queria fazer pois ele sabe cuidar de parto com criança em pé (meu caso). E finalmente, como meu colo do útero não descia apesar da dilatação, eles detectaram que meu mioma de 5 cm tinha dobrado de tamanho e estava bloqueando o canal vaginal. O que, por sinal causou o desalojamento da neném, por isso ela ficou em pé, literalmente, ai. Eu então, fui o caso clássico da necessidade da cesárea, mas apenas por que o canal estava bloqueado e o medico mesmo assim não correu para me operar. Além disso, a parteira ficou comigo o tempo todo até eu entrar na sala de cirurgia. Quando entrei, meu marido estava comigo e a doula também. Depois disso o medico veio me ver todos os dias. Eu tive todo o apoio que quis e precisei. Mesmo assim o parto foi traumático, sem contar o que tive depois. Choro de ver o que essas mulheres passam por tudo isso sem necessidade e ainda sofrem descaso e descuido. Isso tem que acabar.
Em tempo, eu não moro mais no Brasil e tive minha filha aqui nos EUA. Mas os EUA está também longe de ser perfeito. A violência obstétrica também existe e a taxa de cesárea aqui é alta, 33.6% nacionalmente. Aconteceu com uma amiga minha que mora no Texas. As únicas mulheres que eu sei que com certeza não sofreram violência foram as que procuraram as parteiras para a gestação. Os outras correram o risco também.

Maria Valéria disse...

Entendi, Denise-:)

Liana hc disse...

Muito bom o post. Fico aliviada em ver que esse assunto está se tornando cada vez mais divulgado.

Isso é importante tanto para as mulheres que precisam de canais para informação, debate e desabafo quanto para servir de base para mudanças nesse modelo ultrapassado que não está bom nem para profissionais da área nem para as grávidas e bebês.

Sem essas denúncias e relatos jamais haveria o reconhecimento do problema, consequentemente não haveria possibilidade de melhora. Então essa iniciativa é mais do que bem-vinda.

Anônimo disse...

Eu como mulher e principalmente como estudante de medicina fico completamente envergonhada de todo tratamento desumano,sofrível e dispensável que essas mulheres sofreram nesse documentário e que outras tantas mulheres sofrem todos os dias nas mãos de médicos irresponsáveis e egoístas. Não interessa se os obstetras querem viajar,se querem dormir durante toda a noite,se querem viajar no Ano Novo, eles estão nessa profissão porque querem,passaram seis anos de faculdade mais sei la quantos anos de residência estudando,tempo suficiente para escolherem se realmente queriam G.O. É obstetra porque quer,porque estudou loucamente para entrar nessa residência,e sendo assim, tem a obrigação de tratar integralmente a mulher,dar escolhas,mostrar benefícios e malefícios de cada procedimento, para que a mulher decida sobre seu corpo,decida como seu bebe vai nascer. A OMS preconiza um parto humanizado e deixa bem claro o quanto não concorda com a episiotomia ,o quanto e contra a citocina exógena e vários outros procedimentos que ocorrem todos os dias em hospitais públicos e particulares do país.
É incrível como estão transformando uma profissão tão bonita e gratificante numa profissão de pessoas egocêntricas que se acham detentoras da verdade absoluta e por isso, todos que não são médicos não tem direito a opinião e a decidirem sobre seus corpos.

Mayara.

Patty Kirsche disse...

A USP oferece a graduação em obstetrícia. Forma profissionais habilitadas(os) a tratar o parto de maneira mais humanizada. Mais informações nesse link:

http://each.uspnet.usp.br/site/graduacao-cursos.php?item=obs

Ana Carolina disse...

Gostaria de informar à médica Maria Valéria de que a maior parte do grupo que coordenou a produção do videodocumentário é estudante de Mestrado e Doutorado em Saúde Pública, sob orientação de uma pesquisadora médica. De toda forma, o grupo de pesquisa é unânime em defender que o país precisa mesmo é de um outro modelo de assistência obstétrica, com a articulação do trabalho de parteiras/enfermeiras/obstetrizes no cuidado especializado para trabalho de parto (de risco eventual). No Brasil, 90% dos partos são atualmente realizados por GO's. E infelizmente, estes mesmos profissionais não são treinados para acompanhamento de processos fisiológicos saudáveis - tal como o parto pode ser para até 85% de todas as mulheres, segundo estimativas globais.
Abraços

Thaís disse...

Minha mãe não tem muitas condições financeiras, e portanto fez seu parto num hospital simples.

A enfermeira que fez a preparação para o parto raspou seus pêlos com um gilete velho, sem lâmina e meio enferrujado. Doeu, cortou sua pele, e ela reclamou.

Nisso, ela gritou: APOSTO QUE NA HORA DE DAR VOCÊ NÃO RECLAMOU, NÉ?

E o tratamento na hora do parto foi semelhante :(

Thais Costa disse...

Thais
Quanto ao anônimo de 25/11 22:13, o problema dele não está no saco, mas no cérebro, pois lhe falta algo, talvez neurônios.

Quanto ao blog, parabenizo suas criadoras, pois configura uma oportunidade dessas mães, externalizarem toda sua dor e revolta. Dando força a um movimento que possa ao menos no futuro, concretizar mudanças em nosso sistema médico, tão falho e precário. Não só na GO, mas também em algumas outras áreas.
Gostaria de lembrar, sem desmerecer os relatos, que se ouvíssemos outras mulheres da rede pública, ficaríamos ainda mais chocadas com a brutalidade cometida.
Eu mesma fui vítima de médico da rede privada, sofrendo uma cesária desnecessária e contra a minha vontade. Onde o obstetra por não conseguir meu consentimento, chamou o meu marido e o amedrontou afirmando que 38 anos é uma idade muito avançada para um parto, fazendo-o assinar a autorização da cirúrgia. Isso me deixou muito revoltada, pois eu ouvira os comentários anteriores de que todos os procedimentos estavam correndo aceleradamente e tudo estava bem.

Brenda Kayene :) disse...

Oi, Lola.
Desde janeiro que comecei a ler seu blog e abriu muuuito minha mente mas tenho um longo caminho a percorrer, confesso.

Bom, sou mãe e fiquei extremamente triste porque infelizmente isso acontece demais. Eu sofri violência obstétrica também, queria demais que meu marido tivesse entrado na sala de cirurgia e não deixaram. Fora outras coisas que aconteceram.
Que vontade louca de gritar e fazer com que isso acabe de vez. É muito triste a mulher sonhar com um momento tão lindo (como o nascimento de um bebê tão esperado) e depois que passa esse momento, não querer lembrar devido a lembranças ruins e violências sofridas.
Sei como é. Triste demais.


Beijos