segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DETESTO DESPEDIDAS. ADEUS

Semana passada recebi o telefonema carinhoso da minha editora no jornal. Este é o texto que foi publicado ontem no jornal.
Tenho boas e más notícias pra contar. Qual você quer ouvir primeiro? Ok, a má: esta é minha última coluna no A Notícia. E agora a boa: esta é minha última coluna no A Notícia. Claro, dependendo de quem lê, a mesma notícia é boa ou má. Pra quem me considera meio diferente, anti-convencional, feminista demais, de esquerda, ateia, e várias outras coisas que sempre fui e continuarei sendo, não deixa de ser uma boa notícia que eu pare de colaborar pro jornal. Mas pra quem gostava de me ler, e principalmente pra mim, é uma péssima notícia. Eu adorava escrever aqui. Comecei em março de 1998 e de lá pra cá, quase que ininterruptamente, enviava ao menos um texto por semana pro jornal. Passei por vários editores do Anexo, e gostei de todos, sem exceção. Sempre fui muito bem tratada. Nunca fui censurada, mesmo sabendo que minha linha de pensamento está distante da linha editorial da grande imprensa. E, pelo que me consta, não fui cortada por nada que escrevi ou deixei de escrever, mas por razões orçamentárias mesmo. Também pesou que eu não moro mais em Joinville. De fato, agora em janeiro vai fazer dois anos que me mudei pra Fortaleza. O jornal era meu último vínculo com a cidade das flores, e isso me deixa triste, porque nos quinze anos que vivi aí, eu amei Joinville. E ainda amo.
Acho que lembro de tudo relacionado a minha trajetória na Notícia. Lembro da primeira crítica que enviei pro jornal, por email. Era falando horrores de Amistad, filme do Spielberg. A crítica foi publicada, e outras também, às vezes, sem que eu recebesse um email ou telefonema de resposta. Lembro quando fui à redação pela primeira vez, e o pessoal queria saber quem era essa figura misteriosa que escrevia bem sem ser jornalista. Lembro de quando eu redigia duas crônicas semanais curtinhas, fofas, pro AN Verão, que tinha um público totalmente diferente do do Anexo. Lembro do Alex, um menino de 14 anos que fez um site meio fã-clube só pra colocar minhas crônicas na internet, e da minha preocupação em estar corrompendo a juventude. Lembro da Mica, uma leitora que publicou uma resposta bem educada a minha crítica de O Colecionador de Ossos (eu odiei, ela amou); ainda nos falamos pelo Twitter; ela se tornou advogada, mora em Floripa e continua nerd. Lembro de respostas não tão educadas, como a de um sujeito do sindicato dos jornalistas que me odiou por eu ter detestado Shrek, e apostou que eu era uma velhinha de 80 anos que vivia fazendo compras em shoppings (ainda hoje isso me faz rir: eu, pão dura miserável e anti-consumista, fazendo compras em algum lugar!). Lembro de quando quase fui linchada (de verdade!) na faculdade onde cursava Pedagogia por uma crônica em que falava mal do estágio. Lembro de ter feito uma piadinha estúpida e ter ofendido o Aldo, que então era revisor. Ele nunca me perdoou, e eu tampouco. Lembro de leitoras assanhadas que queriam compartilhar o maridão! Lembro de quando passei um ano em Detroit fazendo doutorado-sanduíche, e comecei o Cartas da Lola. E pouco depois comecei o meu blog, que hoje é um dos maiores blogs feministas do Brasil. Sem a minha disciplina de escrever toda semana pro jornal, eu duvido que teria um blog hoje.
Lembro de vários leitores que conheci pessoalmente. Tinha uma época (bons tempos!) em que alguns iam até a escola de inglês onde eu dava aula pra me dar chocolate durante a páscoa. Um deles, tadinho, foi objeto de grandes especulações entre meus queridos aluninhos adolescentes: “Seu marido sabe que você tem fãs?”, perguntavam eles. E, ao mesmo tempo: “Esse leitor sabe que você é argentina? E ele ainda assim gosta de você?”.
Semanas atrás recebi este email do Rhuan, um jovem que estuda Direito em Joinville:
Muito provavelmente você não deve se lembrar de mim, afinal já faz muitos anos, e nos vimos pessoalmente apenas uma vez. Foi na seguinte situação -- você ainda morava em Joinville, e um dia foi interpelada por mim na saída do banheiro do shopping, acredito que no alto dos meus 15/16 anos, querendo saber se você era a Lola Aronovich e, para minha grata satisfação, era realmente quem eu achava, soltei alguns elogios ao seu trabalho e foi isso, cada um seguiu seu rumo, e acho que logo em seguida trocamos um ou outro email. Sou seu fã desde a época que você escrevia as crônicas de cinema no caderno Anexo do A Notícia e pode parecer bobagem, mas aquele rápido encontro no shopping foi marcante para mim, pois já era um entusiasta das suas crônicas de cinema e as recomendava para os meus amigos. Você deve estar se perguntando qual o intuito desse email, e para ser sincero, nem eu sei. Acompanhei toda sua trajetória para o ambiente virtual, o Escreva Lola Escreva, vi o leque de temas sobre os quais você escrevia aumentar, e junto aumentava meu interesse.
Foi o que você disse num post que me motivou a lhe enviar esse email - 'Eu já disse algumas vezes: escrevo pra quem gosta de mim, pra quem gosta do que escrevo, pra quem me lê. São nessas pessoas que penso quando crio um post. São pra elas que faço o blog.'
Então eu pensei, uau, sou fã da Lolinha há tantos anos, sempre acompanhei seus posts, mas nunca me manifestei nos comentários ou por algum outro meio para lhe dar feedback/suporte, e concluí que isso era muito injusto. Então gostaria que soubesse que além dos seus declarados 'fãs'/seguidores, deve haver, assim como eu, muitos outros que lhe acompanham e torcem silenciosamente por seu sucesso e vibram junto com suas conquistas.
Não se desmotive com os trolls, ameaçadores e cia, lembre-se sempre dos que gostam do seu blog quando estiver de saco cheio.
Lola, gosto MUITO do seu trabalho, e não posso negar que lá no fundinho torci para que ficasse em Joinville, para eu poder esbarrar mais vezes contigo pelas ruas daqui, haha. Fiquei um pouco órfão quando você se mudou para Fortaleza, mas ao mesmo tempo feliz por sua conquista.

Rhuan ficou surpreso ao saber que eu me lembrava perfeitamente dele, e não só porque ele era bonitinho (todos os leitores e leitoras que tive o prazer de conhecer são lindos, não sei o que acontece). Eu lembro porque todos que me mandaram um email, que me deram um abraço, que me presentearam com chocolate, foram e vão continuar sendo importantes pra mim. Só tenho a agradecer aos leitores, ao jornal, aos meus colegas de redação que eu raramente via, por esses quase 14 anos em que vocês me motivaram a escrever. Obrigada, de coração.

27 comentários:

Patrick disse...

Eu queria ser dono de um jornal para contratar sua coluna! À falta de um, vou tuitando e comentando no mundi real :). Um ótimo 2012 pra você Lola! E pra tod@s @s amig@s que fiz aqui nessa caixa de comentários!

Dri Caldeira disse...

Isso não é um adeus é um até logo. Lola, o q vc faz, seja escrevendo colunas nos jornais, postando no blog, dando aulas, é de suma importância pra muita gente. Vc é a voz de várias pessoas (incluo os homens nessa tb) que por diversos fatores não ousam erguer as deles. Talvez temam não serem ouvidos. E eles sabem que vc é ouvida sempre. Um grande beijo e amo vc.

Kuro Honoo disse...

Lola, eu acompanho há pouco tempo o blog, por volta de dois meses. Nesse tempo eu virei vegetariana e ganhei uma noção de mundo muito diferente. Eu sempre me incomodei com certas coisas machistas, mas eu nunca consegui palavras pra definir exatamente o porquê, e seu blog me ajudou muito nesse aspecto. Espero que você o escreva por bastante tempo, até um dia eu fazer tanto sucesso quanto você ^^

Letícia Miele disse...

A Lola é argentina? O.O

Mylena M. disse...

Assim como o garoto do e-mail, visito diariamente seu blog, gosto muito dos posts, concordo e assino em baixo em quase todos eles (talvez não naqueles que falem sobre filmes, rsrs temos opiniões diferentes a respeito de cinema) mas quase nunca me manifesto! Saiba que eu adoro e admiro o que você faz... acho um trabalho muito importante pra sociedade e pra todos que tem o prazer de ler um texto seu!

Alessandro R. C. disse...

Faz de conta que te envio um chocolate virtual de presente, tá? hehe

Legal saber que existem pessoas boas no mundo, como esse Rhuan.

Joana vK. disse...

Lola, me identifiquei com o Rhuan. Realmente ele está certo, devem existir muitos que acompanham e torcem silenciosamente pelo seu sucesso! Também sou uma dessas pessoas!

Cheguei a comentar uma ou duas vezes no máximo, mas acompanho desde que você escrevia no Lost Art, quando eu tinha no máximo 17 anos...

Fico orgulhosa de dizer que hoje com 22 eu sinto que cresci e amadureci muito, e grande parte por conta da sua influencia positiva :)

Comecei a ler por causa das crônicas de cinema. Como você começou aos poucos a escrever sobre política e feminismo e fui tolerante e sempre li tudo, pensando "ok, só dessa vez!" - Hoje fico absurdamente feliz de notar que adoro esses assuntos e graças a você não sou uma alienada. hehe..

Sobre o feminismo, seria errado dizer que graças ao seu blog eu me tornei uma feminista. Na verdade eu me descobri. Obrigada por isso!

Algumas vezes pensei em fazer como o Rhuan e escrever algum email contando como você foi importante pra mim, mas aí eles ficavam quilométricos e eu pensava "Poxa, a Lola deve ter coisas muito mais importantes pra ler!" - realmente foi injusto não te dar esse feedback!

Mas pelo menos hoje não deixei a oportunidade passar!

Muito obrigada e sucesso sempre :)

aiaiai disse...

pra resumir, vou assinar o que o Rhuan lhe disse! Te amo!

Verô! disse...

Graças a internet hoje a Lola pode ser lida por todo mundo falante da língua portuguesa! A internet democratizou a Lolinha ^^

Bruno S disse...

Já venho aqui tem algunn anos.

Acho que acessei o link a partir do finado portal do Pedro Dória (que depois se bandeou para o Estadão e hoje tá no Globo).

Vinha atrás das críticas de cinema, mas hoje me identifico mais com as questões de política do que necessariamente as opiniões sobre filmes.

Sara disse...

Dri Caldeira disse tudo o que eu penso Lola, um abraço.

Sapho disse...

Escreva Lola Escreva é minha religião silenciosa. Todos os dias eu leio, e sempre penso: Por que ela não escreve uns dez textos por dia?!
Aí vou tomando minhas pequenas outras doses de Lola através dos comentários.
Não penso nos trolls, não penso nos Tas e tais...eu só penso o quanto esse espaço é capaz de nos mover, de nos desconstruir.
Fiquei puta quando li um post sobre tpm. Pensei: Isso é porque ela não tem!!
Mas depois refleti e percebi que o grande saque daqui é provocar, questionar, levantar a poeira.
Gostem ou não, a hermana é uma referência no mundo digital, no feminismo e faz a cabeça de muitas pessoas.
Boa sorte, Lola...que aos poucos vai ficando mais íntima de todos nós.

Lord Anderson disse...

Conheci o blogs uns 2 anos atraz , atravez da blogagem coletiva do 08 de março do qual a Shoujoo fã participou.

No começo, as cronicas de cinema recheadas de eronia foram as atrações especiais, mas depois seus comentarios politicos, sociais etc, foi oq me prendeu.

Alem disso a caixa de comentarios é otima, e conheci muitas pessoas otimas por aqui.

Muito feliz em ter conhecido o blog.

lola aronovich disse...

Olá, gente querida! Desculpem sumir por uns dias, mas passei sexta, sábado e domingo em Paracuru, uma cidade linda do Ceará com praias magníficas. Estou de outra cor. Espero escrever um postzinho sobre isso, vamos ver. O maridão tirou muitas fotos, mas mais da paisagem mesmo.
Eu queria ter avisado que iria viajar, mas não avisei por causa dos trolls. Não permiti comentários anônimos e ativei a verificação de palavras (que é incômoda pra todo mundo, eu sei), e, mesmo assim, os idiotas passaram aqui. Voltei hoje de manhã da viagem e já deletei (quase) todos os comentários de trolls, inclusive os do Flasht, que criou MAIS UM clone do perfil da Liana. Tadinho, ele não sabe que basta ler as três primeiras palavras pra saber que não se trata da Liana verdadeira (que, ao contrário do troll, sabe escrever e é super inteligente). Posso continuar deletando o comentário sem lê-lo! Aí ele fica revoltadinho e manda comentários me xingando, comentários que são sumariamente apagados. E a vida segue. Enquanto eu fico na praia com o maridão e um grupo de amigos, os trolls passam seus dias aqui, mandando comentários cheios de ódio que serão deletados assim que eu chegar.
Vi que boa parte de vcs ignorou os trolls, que é assim mesmo que deve ser feito. No começo de janeiro vou viajar mais um pouco, tirar férias, mas deixarei posts agendados. Os trolls continuarão vindo aqui, porque troll não tira férias. Troll não tem vida.
Espero que as pessoas queridas tirem férias mas sem abandonar totalmente o blog!
E obrigada pelas palavras carinhosas aqui neste post.

Angélica disse...

Eu sou tiete assumida.

Do "A Notícia" para todos os veículos de comunicação do mundo!

Obrigada, Lola, pelo pensamento transformador.

Mariana K disse...

Você se expressa muito bem, Lola, por isso que tem tantos leitores (quietos ou não). Muitas coisas que já li aqui representavam exatamente o que eu sentia, mas não sabia como colocar em palavras. Algumas outras eram diferentes do meu entendimento, e me colocaram pra pensar. Assim se ganha de qualquer forma, né? Não tem como não ser sucesso. :)

cymaras disse...

Lola, que triste! É UMA PÉSSIMA NOTÍCIA.

Este ano o jornal perdeu tantos cronistas maravilhosos... primeiro foi o falecimento do Norberto Well, que tinha uma coluna às segundas. Depois foi a Clotilde Zingali, cronista da quinta, que mudou pro Rio; em seguida, a Mônica Torres, das terças, que também não morava mais na região.

Agora você, que escrevia aos domingos, porque foi pra Fortaleza... :( A Notícia e Joinville perdem uma excelente colunista, sem dúvida.

Sorte nossa que vc mantém o blog, onde podemos ler suas "Crônicas de Cinema" & outras críticas brilhantes.

Grande Beijo.

Edson disse...

Vc deixou o jornal, mas espero que não deixe o blog tão cedo. Que este espaço exista por muito tempo.

E como a maioria aqui dos comentaristas, eu tbm te amo!

Robson Fernando de Souza disse...

Ufa... O segundo susto dos últimos dois dias de blog que põe um título goodbye mas é só uma divagação que não o encerramento do blog.

Keep strong, Lolinha =)

Rhuan disse...

Lola, continuo aqui pelas coxias do Blog! haha
Mas dessa vez não pude deixar de comentar e, como eu imaginava, existem tantos outros que te amam, ainda que em silêncio.
Que pena que acabou sua coluna no A Notícia, agora o jornal de domingo só vai servir pra lembrar que no outro dia é segunda!
Um grande beijo!

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Que susto. Achei que seria o fim do blog. Quer me matar do coração, Lola? rs.
Bom, eu meio que sonho com o dia q vc vai escrever um livro sobre feminismo, ficar famosa, dar entrevista no Jô e espalhar ainda mais suas idéias maravilhosas, rs. Esse mundo precisa de mais gente que vive fora da caixinha, porque às vezes fica difícil.
Abçs Lola.

Lorena disse...

Eu também tomei um susto quando vi o título do post! Ainda bem que a despedida não é completa e o bloguinho fica no ar. :)

Também sou um dos muitos L.A. (leitores anônimos) da Lola, há muito tempo, não sei dizer quanto. Não me lembro como cheguei aqui, mas acho que foi por uma crítica de cinema. Fui ficando e percebendo que muitas das ideias que a Lola expressava eu também tinha a "ousadia" de pensar. Em outros quesitos pensamos diferente, mas tudo bem. O blog e você, Lola, me fizeram pensar e repensar tantas coisas, mudar certezas, reforçar outras, aprofundar pensamentos... Hoje, não passo um dia sem vir aqui. É sagrado. :) E estou tentando participar mais, porque como a você sempre diz, a caixa de comentários é uma atração a parte!

Uma pena que você deixa o jornal, Lola, já que tanta gente parece amar você por causa dele. Mas feliz de todos nós, seus leitores virtuais, que o blog continua firme e forte. Um abraço!

Mel disse...

Que loveback mais fofo esse que você recebeu Lola!

Juliana Leodoro disse...

Lola, me diverti lendo a história do quase linchamento, mas ainda bem que você só queria o diploma, nunca vi alguém tão sem noção do desenvolvimento infantil quanto você. Também sou pedagoga, não curto educação infantil, mas aff! você causa menor dano longe das crianças ;)

Denise Varela disse...

Oi, Lola!

Continuaremos te acompanhando pelo blog e onde mais você estiver!

Abraços

Eliza (Biii) disse...

Passei só pra dizer que sou mais um Rhuan: uma leitora silenciosa que torce pelo seu sucesso! abraço,

ana_alice disse...

também ri à beça da história do linchamento, principalmente dos floreios exagerados (imaginei a "turba enraivecida" tentando dar um pau na gordinha despenteada errada. pior, me imaginei no lugar dela, tadinha, correndo dali esbaforida ahahahaha)

eu entendo sua estranheza com as crianças, minha prima é assim. ela já deu aula pros pequenos e não gostou nadinha, disse q tinha vontade de afogar (agora imagina sua ex-coordenadora lendo isso de forma literal ahahah). já eu acho q prefiro crianças a aborrescentes debochados. crianças são fofas, uma pena que crescem :p

eu nunca iria achar q elas só fazem "escolhas" (pq não são, né) erradas e sentiria prazer, acho eu, em me sentir moldando alguma coisa boa. agora, desconstruir oq os mais velhos já pensam e tentar muda-los não é pra mim. sorte q há pessoas como você :)

pode até ser q a faculdade de pedagogia não tenha servido pra muita coisa, mas vc escreve de um jeito muito claro, didático, sem pedantismo... amo seu blog <3