terça-feira, 30 de novembro de 2004

CRÍTICA: MENINAS MALVADAS / Sobrevivendo à adolescência

Ontem fui ver um filme pelo qual não dava nem bom-dia, mas não é que o negócio é surpreendentemente legal? Apesar do título nem um pouco convidativo, “Meninas Malvadas” é uma delícia até o seu terço final. Pra quem quiser conhecer a selva que é o sistema de castas das escolas americanas, “MM” é provavelmente a melhor pedida no gênero dos últimos cinco anos, desde “Eleição” (1999). Sabe do que eu tô falando, né? Há vários filmes bons cobrindo esse universo: o já-clássico “Clube dos Cinco” (85); “Atração Mortal” (89), outro que desanda do meio pro fim; o definitivamente estranho “Bem-vindo à Casa de Bonecas” (97); e até “Carrie, A Estranha” (76) e “Beleza Americana”, pelo menos em alguns pedaços. Ah, só pra explicar: “Curtindo a Vida Adoidado” (86) é ótimo, mas não se concentra no cotidiano escolar, e eu gosto bastante de “As Patricinhas de Beverly Hills” (95), mas a natureza desse último não o inclui na mesma categoria de “MM”. “Patricinhas” não condena a segregação nas escolas, enquanto “MM” é extremamente ácido até começar a emitir mensagens edificantes (se bem que há uma mensagem nobre: garotas, parem de chamar umas as outras de “piranhas”, “galinhas”, “vadias” e afins, se não fica fácil pros meninos repetirem os insultos). No final eu tava torcendo pra que virasse “Carrie”, com direito à balde de sangue caindo e tudo, mas não tive essa sorte.

“MM” já começa bem, com uma narração em off da protagonista, uma menina de 16 anos que vivia com os pais na África e estudava com eles, sem nunca ter freqüentado uma escola normal, dizendo saber que a gente acha esse pessoal que estuda em casa muito esquisitão. Corta pra uma turma de caipiras e um deles fala algo como “E no sétimo dia Deus criou o rifle, pra que o homem pudesse acabar com os dinossauros... e os homossexuais”. Os outros rapazes entoam um “Amém” em coro. Quer dizer, se você, como eu, conhece membros de seitas assim, sabe que rir deles é prazeroso. A moça, interpretada por Lindsay Lohan, se comporta como uma marciana, acha que o ídolo teen Ashton Kutcher é um grupo de rock, essas coisas. Mas, por ser bonitinha, é convidada pra integrar a turma das gostosonas do colégio, que são também bem malvadas. Aceita, pra poder desmascará-las, e acaba virando uma delas. Ou seja, a história em si é meio bobona, mas tem tanta gracinha, tanta crítica social, que acaba conquistando.

E não são só as piadinhas que funcionam, as gags visuais também. A loira burra que faz uma das melhores amigas da líder patricinha está perfeita, e todas suas participações são hilárias. A fantasia de halloween da nossa heroína, a pobrezinha caindo dentro do lixo – tudo isso diverte. Entre as gargalhadas mais inteligentes, a que mais gostei envolve a patricinha-mór avisando suas súditas que precisa perder um quilo e meio. Como suas serviçais não estavam prestando atenção, ela lança um olhar mortal, ao que elas acordam e declamam: “Imagina, querida! Você é linda! Maravilhosa! Não precisa!”. Também gostei do pai da protagonista não saber que quando a pessoa está de castigo ela não pode sair. Bom, dá pra ver que o roteiro é esperto até pelo apelido das Barbies, que são chamadas de “Plastics”. Essa é uma referência a uma das linhas mais famosas do cinema, tirada de “A Primeira Noite de um Homem”.

Mas de que interessa tudo isso se a gente não é (graças ao bom Deus) americano? Ué, é sempre bom conhecer o inimigo. E, além disso, não tenho certeza de que toda essa hierarquia social só funciona por lá. Um dia eu, espantada, perguntei pros meus queridos adolescentes: “Vocês realmente se importam tanto com o que seus colegas pensam?!”. E eles, olhando pra mim como se eu fosse uma total anormal, responderam que sim, claro, você não? Pois é, se tiver algum adolescente lendo isso aqui e quiser uma palavra de apoio, eu dou: vai passar. Algum dia você não vai dar a mínima pro que os outros pensam e falam de você. Ou tô sendo ingênua? Amadurecer não é aceitar que os outros podem ser diferentes, mas que a gente não tem nada com isso? E que diferenças são algo positivo? Ou isso é liberdade? Ou maturidade e liberdade são quase a mesma coisa? Sei lá. Mas vai passar, acredite.

3 comentários:

Bárbara Reis disse...

HAHAHA... eu gosto desse filme.

E gostei da frase final do post 'Amadurecer é aceitar que os outros podem ser diferentes, e que não temos nada com isso'

Adoray! ahahhah

E olha eu aqui curiando as suas críticas. Quando eu tiver com tempo, lerei TODAS. de A à Z. :]

:***

Livia disse...

só um comentário, o roteiro é da tina fey(baseado em um livro), surpresa seria se saísse algo ruim(na minha opinião).

Marcio Roberto Mayer disse...

Não foi no sétimo... foi no terceiro, pequenos detalhes, grandes diferenças.