domingo, 25 de novembro de 2012

GUEST POST: VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - A VOZ DAS BRASILEIRAS

Cena do documentário

Hoje é Dia internacional do Enfrentamento à Violência contra a Mulher. Publiquei um guest post sobre abuso sexual ontem, hoje publico um sobre violência obstétrica, e amanhã, um outro sobre uma mulher que reagiu a uma violência do cotidiano.
Muita gente não encara a prática banalizada da violência obstétrica como um tipo de violência contra a mulher. Pra quem não acha que a violência obstétrica não é um sério problema a ser combatido, recomendo que vc pare tudo que está fazendo e veja este documentário. É mais um retrato de como o corpo não pertence à mulher, nem durante seu parto. 
O documentário foi realizado de maneira espontânea e voluntária por Bianca Zorzam, obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da USP; Ligia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFSC, autora do blog Cientista Que Virou Mãe;  Ana Carolina Arruda Franzon, jornalista, aluna de mestrado do Programa de Pós Graduação em Saúde Pública da USP e co-editora do blog Parto no Brasil; Kalu Brum, jornalista, doula e co-editora do blog Mamíferas, e Armando Rapchan, fotógrafo e videomaker.
Eis o relato de como o doc foi feito. E de como as redes sociais podem dar ótimos frutos.
  
Neste 25 de novembro de 2012, completamos um ano de ações coletivas nas mídias sociais, sempre com objetivo de dar mais visibilidade ao tema da violência obstétrica e de desnaturalizar as infrações aos direitos das mulheres, cometidas pelos profissionais de saúde, que muitas vezes passam desapercebidas.
São ações coletivas organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde com o objetivo de promover o debate, sensibilizar, denunciar e ir adiante, até que se consiga que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.
Embora estejamos mobilizando centenas de pessoas e falando com cada vez mais frequência sobre o assunto, é importante que as pessoas saibam o histórico do movimento contra a violência no parto -- a violência obstétrica, nome que as próprias mulheres cunharam para tais práticas.
Em agosto de 2010, a Fundação Perseu Abramo, em parceria com o SESC, realizou a pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, onde apresenta a evolução do pensamento e do papel das mulheres em nossa sociedade. Foram entrevistados centenas de homens e mulheres em mais de 170 municípios brasileiros.
Os resultados sobre o tema da violência contra as mulheres chamaram muito a atenção e, neste contexto, surgiu um dado alarmante sobre a violência institucional sofrida pelas brasileiras: uma em cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto. Dentre as diversas formas possíveis de abusos e maus-tratos, tiveram destaque: exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor, não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações. Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: “não chora que ano que vem você está aqui de novo”; “na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe”; “se gritar eu paro e não vou te atender”; “se ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo”.
Esses dados chocantes começaram a ganhar repercussão na mídia, com matérias em jornais de grande circulação publicadas em fevereiro de 2011.
Em abril do mesmo ano, a Comissão Permanente de Saúde, Promoção Social, Trabalho, Idoso e Mulher realizou um debate com o tema “Maltrato no atendimento em maternidade e no pré-natal”, na Câmara Municipal de São Paulo, reunindo cerca de 70 pessoas, entre elas o coordenador da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, o sociólogo e professor da USP Gustavo Venturi, a médica Anke Riedel, coordenadora da Casa Ângela, casa de parto considerada modelo no Brasil, a enfermeira e coordenadora do curso de Obstetrícia da USP Nádia Zanon Narchi, a representante do Programa Mãe Paulistana, Maria Aparecida Orsini e a bióloga Ligia Moreiras Sena, uma das autoras da ação coletiva que apresentamos hoje. Neste evento, o professor Gustavo Venturi apresentou os dados sobre violência no parto acima mencionados e, em entrevista para a jornalista da Câmara, afirmou: “São três os principais problemas que ocorrem e acabam gerando a violência no parto. A primeira é a questão da formação dos profissionais, em segundo vem a superlotação das instituições e, em terceiro, as mulheres não são adequadamente preparadas para o momento do parto”.
A partir de então, os coletivos femininos começaram a se mobilizar em termos de circulação de informação, denúncia da situação da assistência obstétrica brasileira, reivindicação de direitos, discussão sobre o assunto. E as mídias sociais apareceram como fator catalisador crucial para todas as ações que se seguiram.
Em 24 de novembro de 2011, no contexto de uma grande ação das Blogueiras Feministas, realizamos a primeira Blogagem Coletiva sobre o tema - “Violência Obstétrica é Violência Contra a Mulher”. Dezenas de blogueiras participaram com textos autorais livres publicados no dia 25 de novembro e, desde então, muitos relatos foram produzidos, mulheres que usaram o texto para organizar a experiência vivida -- e que talvez possam ter sido beneficiadas de alguma forma com tal escrita, e beneficiado outras mulheres por meio da leitura.
Neste dia, a pesquisadora Ligia Moreiras Sena também lançou nas mídias sociais o convite à participação em sua pesquisa de doutorado, sobre a violência obstétrica na percepção das mulheres que a viveram e, por meio do Facebook, dos blogs e do Twitter, centenas de mulheres se inscreveram para serem entrevistadas. Em um esforço de divulgação, foi aproveitado o twittaço que ocorreu utilizando a hashtag #FimDaViolenciaContraMulher para contactar pessoas que pudessem ajudar na disseminação do convite à pesquisa.
Em nossa segunda ação de ciberativismo, coordenada para o Dia Internacional da Mulher - 8 de Março de 2012, alcançamos certamente mais de duas mil mulheres, com a força de divulgação coletiva de 75 blogs.
Foi o Teste da Violência Obstétrica. Promovido pelos blogs Parto no Brasil, Cientista Que Virou Mãe e Mamíferas, o instrumento foi idealizado a partir de documento original da associação civil argentina Dando a Luz, e o Coletivo Maternidade Libertária, disponível em algumas publicações na Internet, em blogs e sites, datadas de 2010.
Para a divulgação no Brasil, o documento foi revisado e adaptado à proposta desta blogagem coletiva. As questões abertas foram transformadas em um questionário com múltiplas escolhas, onde incluímos uma importante caracterização sociodemográfica, e contamos com a força de divulgação das mulheres conectadas em suas redes virtuais. Em apenas três dias compilamos mais de mil resultados. E seguimos com o recebimento de novas respostas durante 38 dias. Ao final do prazo, 1966 nascimentos foram avaliados.
Conseguimos atingir nosso principal objetivo, que era dar grande visibilidade a esta questão nas mídias sociais, entre as mães editoras de blogs e demais usuárias da Internet. E os resultados não poderiam deixar de ser surpreendentes. A expressiva participação no Teste da Violência Obstétrica era apenas um indicativo da força que as mulheres, juntas, têm para denunciar um grave problema de cidadania, de falta de oportunidades, de nenhum direito de escolha.
Então em 1o. de agosto de 2012, um grupo de mulheres ativistas mineiras avançam mais um pouco no contexto da luta contra a violência no parto. Em um marco histórico, conseguiram levar a cabo a Audiência Pública “Violência no Parto” na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Estiveram presentes usuárias do sistema de saúde, obstetrizes, doulas, ativistas, políticos e estudantes, em um evento que acionou entidades médicas do estado e o Ministério Público para abrir o debate.
Em outubro de 2012, uma terceira Postagem Coletiva reuniu os esforços necessários para que o vídeodocumentário Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras pudesse ser produzido. Em menos de dois meses, fizemos um roteiro para os depoimentos individuais, convidamos as mulheres a nos enviarem suas histórias de vida, com consetimento, para participação. As participantes gravaram vídeos caseiros com seus depoimentos, suas histórias de violência, intolerância, ignorância e racismo que marcaram seus corpos e suas vidas, e nos enviaram. Em poucos dias, conseguimos editar, com a ajuda do fotógrafo e videomaker Armando Rapchan, os vídeos recebidos e mais dezenas de fotografias, em um vídeo final de 52 minutos. Escolhemos por manter o caráter de produção caseira dos depoimentos.   O documentário foi então lançado no dia 17 de novembro último, como parte das comunicações científicas coordenadas do Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ocorrido em Porto Alegre.
Assim, decorrido um ano após o início de nossas ações de ciberativismo, divulgamos hoje, 25 de novembro de 2012, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, o vídeodocumentario Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras. Ele representa o trabalho de dezenas de mulheres na luta contra a violência obstétrica. Com a voz de algumas delas, simbolizamos o coro de milhares de brasileiras que vivem desrespeitos aos seus direitos reprodutivos cotidianamente, em um processo tornado banal e rotineiro. Queremos ser representadas, queremos que nossas vozes sejam ouvidas e que, de alguma forma, impulsionem medidas que visem a erradicação da violenta assistência ao parto no Brasil.
Queremos agradecer, em primeiro lugar, às mulheres que muito corajosamente se dispuseram   a tocar em suas próprias feridas, em suas próprias dores, a fim de problematizar a questão e formar um coro de vozes. Queremos agradecer também às dezenas de mulheres que nos enviaram fotografias dos partos/nascimentos de seus filhos e que, por limitação de tempo, não puderam ser utilizadas. Queremos agradecer a todos que, direta ou indiretamente, nos ajudaram e incentivaram na produção desta ação.
Melhorar a qualidade da atenção ao parto e nascimento é um desafio complexo, que deve contar com a colaboração multi-setorial de vários agentes: profissionais de saúde, gestores, pesquisadores e docentes, e ainda, as mulheres, por meio do controle social. Assim, agradecemos cada pessoa envolvida nesta ação e convidamos a todas e todos para contribuírem com o enfrentamento desta forma de violência contra as mulheres, com propostas e encaminhamentos inovadores. Pelo respeito aos direitos humanos femininos. Pela redução das mortes maternas. Pela promoção da saúde das gestantes e dos bebês. Por formas inovadoras de organização dos serviços, e pela adoção massiva das boas práticas na assistência ao parto normal.
Que nossas vozes sejam ouvidas. Que nossas histórias não sejam ignoradas...

Hoje é dia de muita luta. A Marcha Mundial de Mulheres do Ceará, por exemplo, realizou hoje, na Praia do Futuro, em Fortaleza, uma ação para lembrar que a cada 15 segundos uma mulher é violentada no Brasil. Não podemos nos esquecer que uma mulher é assassinada a cada duas horas -- o Brasil é 12° no ranking mundial de assassinatos de mulheres? A maioria das vítimas é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que foram rejeitados por elas. Não por maníacos. Cabe a todxs nós enfrentar esta violência. Hoje e todos os dias.

sábado, 24 de novembro de 2012

GUEST POST: NO MOVIMENTO ESTUDANTIL TAMBÉM TEM HISTÓRIA DE HORROR

A L. tem 20 anos e estuda na área de Humanas numa universidade de excelência. Ela me enviou este email em julho. Começa assim, falando de quando me conheceu pessoalmente, numa das palestras que dei pelo país: "Quando te conheci, eu era parte do 1/3 de mulheres que nunca tinha sofrido violência sexual. Era".
Em outubro, no debate em SP organizado pela Marcha das Vadias, eu disse que acreditava em reabilitação. Que eu sabia que havia muitos casos de agressões e estupros de mulheres em movimentos de esquerda, e que eu queria que houvesse, além da punição, a reabilitação daqueles indivíduos. Mas uma moça no público, que havia sido vítima, me lembrou que o que ocorre sempre é que quem acaba sendo excluído após as denúncias é a vítima, nunca o agressor. E é a pura verdade. Em todos os relatos que ouço, é isso mesmo que acontece.
É incrível como mesmo movimentos de esquerda, que lutam contra o sistema, repetem esse mesmo sistema quando se trata de culpar a vítima, como se fosse um microcosmo da sociedade que combatemos.

Eu estava em um evento do movimento estudantil onde conhecia quase ninguém e não conhecia ninguém a fundo. No entanto, irresponsável que fui, me permiti beber muito em uma festa que fui com a galera com a qual tinha me enturmado. Éramos todas feministas na companhia de rapazes que conhecem e dizem apoiar nossa luta. Éramos todxs jovens militantes, bem informadxs, com aspirações revolucionárias. Simpáticxs, sorridentes, amáveis.
Em nosso acampamento apertado, várias pessoas dormiam no mesmo espaço, com os colchões incrivelmente próximos uns dos outros. Eu não fui exceção. No meio da madrugada, fui acordando gradativamente com a sensação de que alguém tocava em mim. Libidinosamente. Alguém passava as mãos pelas minhas coxas, alguém apertava meus quadris. Alguém tinha uma ereção. Eu estava inerte. Drogada. Sem conseguir me mexer. (Tinha ido dormir mais cedo inclusive porque tudo o que eu queria era me entregar ao torpor e poder ter forças na manhã seguinte para todas as atividades programadas).
Eu sei que fui conseguindo readquirir algum controle sobre o meu corpo, mas não conseguia articular pensamentos direito. Lembro de ter pensado: se eu "colaborar", talvez ele pare logo e eu possa dormir. E isso possa acabar. Consegui mexer minhas mãos e tatear o corpo dele. Pensando somente em voltar a dormir.
Ele é um líder na nossa área. É um rapaz considerado bonito. Nunca tinha conversado comigo. Nunca conversou comigo depois disso.
Acordei na manhã seguinte achando que tinha tido um sonho muito louco como vários que tenho. Mas a minha calcinha estava fora do lugar e o meu saco de dormir também. Eu saí do saco de dormir sozinha? Não exatamente, mas acho que a iniciativa foi minha. Pensando em terminar, em dormir.
Eu colaborei tanto que me convenci de que era isso aí. De que eu tinha que calar a minha boca e não colocar em risco todas as tarefas que tinha para fazer. Porque, afinal, como eu ia explicar a minha colaboração? Como ia ser quando ele dissesse que eu -- depois de uns bons minutos inerte como um trapinho na cama -- tinha saído "sozinha" do saco de dormir, que eu tinha colocado a minha mão dentro das calças dele? Eu não poderia negar. Mas e aquele nó na boca do meu estômago? E os minutos que eu fiquei inerte, pensando que queria que ele parasse, pensando no meu companheiro (Y.) que me esperava em casa, pensando na minha liberdade sexual, pensando em como eu colocaria TANTA COISA a nível político em risco se eu gritasse. Como se eu conseguisse falar alguma coisa (sei, de outras experiências, que, muito drogada, não consigo me mexer e menos ainda falar).
Liguei para a minha mãe e contei o que aconteceu. Ela perguntou se ele tinha me batido. Eu disse que não. Ela disse que era esquisito, mas não havia nada que pudesse fazer porque eu "tinha bolinado ele também".
Então pensei de novo: "é isso aí". E fiquei mais dias calada sobre isso. Rindo, andando com o mesmo grupo que ele, dormindo ainda ao lado dele, falando com xs amigxs dele e olhando para ele quase o tempo todo. Eu queria entender.
Ah, nas noites subsequentes ele se aproximou de mim durante a madrugada e permitiu que nossos corpos se encostassem, mas sem a libido de antes. Eu não me senti mal sobre isso, eu não fiquei pensando naquela noite repetidas vezes. Só algumas vezes por dia. Então "era isso aí".
Dois dias depois, eu não aguentei mais. Era estranho demais para mim. Contei para a única menina com quem tinha feito amizade por lá e ela ficou revoltada. Disse que era abuso, que eu deveria denunciá-lo. Que logo eu, que sou tão feminista, não podia ficar em silêncio sobre isso. Mas eu implorei que ela ficasse e eu fiquei. Continuei em silêncio. Tentei convencê-la de que não era abuso. Eu não tinha "comportamento de vítima", então não podia ser vítima.
Ele foi embora uns dias depois e eu respirei aliviada. O assunto tinha morrido, lógico, se ele não estava mais perto de mim. Me senti tão bem que até me permiti me interessar por um rapaz que apareceu depois, ficar com ele. E viver minha vida.
Voltei para casa e reencontrei o Y. Eu estava morrendo de saudades, eu tinha tanto para contar da viagem, das lutas! E o Y. veio me dizer, antes de tudo, que alguém tinha dito que eu tinha ficado com o cara do movimento estudantil. Que ele, Y., odiava o sujeito (não por minha causa, já se odiavam anteriormente), que não tinha conseguido lidar bem com a notícia e que... Eu não prestei mais atenção. Ver o assunto voltar, ver Y. falando dele perto de mim, falando como se eu tivesse querido o que aconteceu... Só consegui dizer com uma voz muito esganiçada que eu NÃO tinha ficado com ele, que era mentira. Y. fez uma expressão de que não acreditava em mim, mas me beijou mesmo assim. Eu fiquei tão perturbada com o assunto que nem debatemos o fato de ele ter sentido tanto incômodo com o que eu fiz longe dele quando estamos em uma relação não-monogâmica. (Debateremos, Lola, debateremos).
Acabei contando para uma amiga que milita nos mesmos espaços que eu e ela ficou totalmente chocada, totalmente revoltada. Pela primeira vez eu disse a alguém: "eu não queria. Eu não gosto de lembrar. Eu não consenti. Eu não tinha como consentir". Ela me convenceu a levar isso ao partido do cara, deixar que eles decidam o que fazer com ele, mas que isso não passasse em branco. Levei ao partido. Ainda não sei qual será a decisão deles. Não tenho nenhuma intenção de buscar a lei jurídica. Porque sei que não valerá a pena nesse caso, porque não tenho apoio dos meus pais, porque não quero que ele seja preso. Quero que o partido faça um intenso trabalho de debate e conscientização dele. Não quero exclui-lo da sociedade, quero tê-lo trabalhando para mudá-la e usando sua experiência como estuprador (ai caramba, é tão difícil usar essa palavra) para nos ajudar a combater o estupro com força. Combater a cultura de estupro.
E quando foi que eu passei a entender que sou uma sobrevivente? Quando contei ao Y. a minha versão. Não por ele, mas por mim. Porque eu mereço ter uma relação sem meias-verdades, porque eu mereço apoio e carinho do meu companheiro, porque eu não tenho que ter vergonha. Ele me abraçou, me deixou chorar e balbuciar coisas desconexas que fazem menos sentido do que este e-mail e me apoiou.
Só meses depois finalmente entendi porque me comportei "normalmente" durante o tempo em que o líder estudantil estava por perto, porque permiti que ele me tocasse em outras noites. Porque, se eu achasse tudo isso normal, porque, se eu me comportasse normal, então "era normal". Então eu não tinha passado por nada de ruim e não podia sentir nada de ruim. Se eu fizesse de conta que não existiu, não devia ter existido mesmo.
De lá pra cá, cheguei a fugir de casa porque os pesadelos que começaram a me assolar quando eu admiti que era uma sobrevivente de abuso sexual não me permitiam dormir, e eu não confiava em meus pais para contar o que estava acontecendo ou continuar fingindo que estava tudo bem. Fiquei alguns dias fora, na casa de uma amiga que muito amo, e fui convencida por ela a conversar com a minha mãe. Minha mãe me entendeu, me perdoou por ter sumido e pediu perdão por não ter podido me apoiar e por eu ter sentido que ela não me apoiaria. Disse que não passou de um mal-entendido quando eu achei que ela estava me culpando, que ela se expressou mal e agora tem me dado todo o meu apoio. 
Meu pai não me perdoa, voltei a morar em casa, mas, para ele, eu ter fugido de casa não tem justificativa e ele diz que nunca mais poderá me amar como antes. Além disso, ele diz que eu não me cuidei o bastante e que devia imaginar que uma coisa assim aconteceria.
Y. me deu todo o apoio nesse meio tempo, cuidou de mim em minhas crises e me abrigou na casa dele na minha primeira noite fora de casa. O partido também tem me ajudado, através de um grupo de feministas deles, que estão cuidando desse caso e acreditam 100% na minha palavra.

Ainda não falaram com o líder e eu não sei o que será de mim quando falarem: tenho medo que isso se espalhe, que eu fique conhecida como uma golpista que quer desestruturar um grande líder estudantil, que eu fique conhecida como uma pobre vítima e todas as minhas lutas se tornem secundárias, que eu me meta em um buraco mais fundo do que sou capaz de sair.
Acho que mandei esse e-mail, Lola, para ajudar a limpar um pouco mais do pus que está preenchendo o meu coração e para que várias meninas e mulheres possam saber que no movimento estudantil também tem histórias de horror. Para que saibam que, no seio de organizações que a gente ama e nas quais a gente luta, também aparecerão estupradores. Para que saibam que nem toda sobrevivente fica cheia de sequelas, que "comportamento de vítima" é uma coisa absurdamente relativa. Para saber que, para ser vítima do machismo, basta viver no aqui e no agora.

Obrigada por existir e pelo seu blog, Lola, ele me fez passar a dizer que sou feminista, ele me ajuda a questionar meus posicionamentos todos os dias, ele é um bálsamo para as dores que me atormentam por vezes.
Sigo vivendo. Sigo fazendo minha faculdade e, agora, com a ajuda da minha mãe, das minhas melhores amigas, do Y. e das feministas do partido, aceito as crises de desespero e tristeza quando elas vêm e não penso sobre esse assunto o tempo todo. Penso em todas as minhas conquistas, em tudo o que sou para além do que o machismo quer que eu seja.
Penso em todas as pessoas que lutam todos os dias e tenho forças. Tenho forças. Nós, mulheres unidas, somos maiores e mais capazes do papel ínfimo a que nos querem condenar.

Mais capazes de quê, eu cheguei a me perguntar?
De ser "socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres".
Citando Rosa Luxemburgo, me despeço com um imenso beijo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ENFRENTANDO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

A paquistanesa Malala Yusufzai luta por um estado laico

Neste post citarei algumas notícias que repercutiram esta semana, e pedir pra que vocês falem mais sobre elas. Todas lidam com o tema da violência contra a mulher, e como domingo é dia de enfrentamento a essa violência, nada mais adequado que discutir alguns casos.

Ameneh Bahrami, uma iraniana de 34 anos que atualmente mora na Espanha, foi perseguida durante meses por um stalker (qual a palavra pra isso em português?), um colega da faculdade em que cursava Engenharia Eletrônica. Em 2004 esse stalker, pra se vingar das inúmeras recusas de Ameneh, jogou ácido sulfúrico em seu rosto. Além de ficar com o rosto totalmente desfigurado, ela perdeu quase toda a visão.
Ameneh entrou na justiça para poder aplicar a Lei do Talião (olho por olho, dente por dente) e cegar seu agressor. Mas, na última hora, ela desistiu: “No fundo eu nunca quis aplicar a Lei de Talião. Jamais poderia fazer isso, não sou selvagem. Eu queria mesmo chamar a atenção para o caso e evitar que outras pessoas passem pelo que sofri”.
A notícia inteira, com o relato de Ameneh, está aqui.
Só vou adiantar que sou contra pena de morte e leis movidas por vingança. Defendo os direitos humanos.   

Não estou acompanhando a série da Globo, Suburbia. Já li gente de movimentos negros falando a favor e contra a série. Hoje a Isabela me enviou um email questionando o segundo estupro em menos de um mês exibido por Suburbia. As imagens são terríveis e podem ser triggering (ativar péssimas lembranças) para quem já passou por isso. 
No primeiro estupro, exibido no primeiro dia da série, a protagonista, Conceição, que é empregada doméstica, é estuprada por Cássio, o namorado da patroa. Não sei por que o título da página diz “tenta estuprar”. O pior é que a música de fundo escolhida foi uma romântica do Roberto Carlos. Não fica claro na cena o que aquela canção está fazendo ali. Na descrição da Globo está escrito que “o desejo de Cássio falou mais alto”.
Estupro é definido como desejo falando mais alto -– é isso, produção?
Ontem foi a segunda cena de estupro. Conceição aceita ir a um motel com o namorado para comemorar o aniversário dele, desde que ele “a respeite” e “não avance o sinal”, já que ela quer se casar virgem (o que é estranho, pois ela já havia sido estuprada antes, mas não sei se a Globo segue o mesmo conceito de estupro da Lei número 12.015, de 2009). No motel, o namorado não aceita não como resposta e tenta estuprá-la várias vezes, até que ela consegue fugir.
Mais uma vez, a descrição no site da Globo fala em “não conseguir se segurar” e “forçar a barra”.
Cultura de estupro é justamente isso: é fazer com que estupro não seja visto como estupro. Quando se usa um eufemismo (desejo falou mais alto, não conseguiu se segurar, forçou a barra), está se dizendo que estupro não existe, ou que não é um crime sério.
Nem toda cena de estupro incentiva o estupro. Acho que é possível ver as duas cenas de estupro de Suburbia como uma denúncia contra o estupro, o que é bem diferente de filmes misóginos como Sobre o Domínio do Medo, em que a vítima "provoca" (no conceito de cockteaser) e gosta do estupro. Em Suburbia, Conceição definitivamente não quer fazer sexo com nenhum de seus agressores. Creio que até os misóginos de plantão conseguem interpretar as cenas como algo indesejável e sem consentimento. Mas, quando a série adiciona detalhes irônicos, como música do Roberto Carlos, ou descreve cenas horríveis com eufemismos em suas páginas de divulgação, o dano está causado.

Recebi este email da amiga de U., uma moça que prefere não se identificar:
“Eu sou aluna de uma Universidade de Santa Catarina no curso de Pedagogia. Estou na sétima fase, falta um semestre para eu me formar. Recentemente comecei uma relação amorosa com um professor da Universidade, estávamos em uma relação de namoro. Ele tinha me apresentado à mãe, ao pai, saíamos juntos, dormíamos juntos. Na noite de 15/11, no apartamento dele, fui agredida. Levei um soco no olho esquerdo sem motivo. Fiquei com muito medo e receio de denunciar, pela situação de poder instalada na relação. No sábado de manhã, fiz o boletim de ocorrência, depois de assumir que precisava fazer algo com a violência que tinha sofrido.
Porque se eu, formada em Jornalismo e estudante de Pedagogia, não fizesse algo sobre isso, sentiria a impotência comigo mesma. Fui registrar o BO de agressão na 6ª DP da Agronômica. Quando cheguei na Delegacia da mulher, criança e adolescente, fui recebida por um agente, que em resposta a pergunta de uma amiga se podia me acompanhar, falou que eu deveria aprender a me defender sozinha. 'Ela precisa aprender a se defender sozinha'. A frase dele foi chocante em um primeiro momento, mas não me senti acuada, muito pelo contrário. Comprovei que mulheres fragilizadas são muito maltratadas pelo sistema e por isso, sentem-se intimidadas e relutam em seguir com a denúncia.
Se essa experiência puder ser ampliada para que possamos levar algo dela conosco, sinto que não a vivi a troco de nada. Então, o roxo em meu rosto será reinventado e muitas ações em pessoas boas terá despertado. A violência só tem cara a partir do momento em que escancaramos sem anseios de seguir em frente. Ser mulher em uma sociedade patriarcal e machista, que trata a diversidade como doença mental não é uma tarefa fácil. Mas as mudanças só acontecem quando estamos dispostas. A minha disposição é grande e constante. Perene. Nesse momento, preciso de apoio. É o pedido mais franco e desarmado que faço a todas e a todos. Outras pessoas calaram diante de casos parecidos. Falar (e escrever) é o que sei fazer. Faço disso frente de uma luta.”
U., parabéns pela coragem em denunciar essa violência.
UPDATE: A diretora do centro ficou do lado da aluna. O professor foi afastado de suas funções. E tudo indica que o caso será julgado. Isso já configura uma vitória.

Finalmente, uma boa notícia: as meninas paquistanesas atacadas por extremistas talibãs voltaram à escola.
Em outubro, Malala Yusufzai, uma paquistanesa de 14 anos, e suas amigas também adolescentes, foi atingida a tiros, inclusive um na cabeça, por extremistas que exigem uma interpretação única do islã, que põe as mulheres em eterna postura submissiva. Malala era conhecida porque, desde os onze anos, tinha um blog em hindi para denunciar atos de violência. Ano passado, ela recebeu o primeiro Prêmio Nacional da Paz, criado pelo governo paquistanês. Tudo que Malala quer é um estado laico.
O grupo de extremistas, porém, quer que a religião controle toda a vida da população. É contra a educação para meninas, por exemplo. E por isso ameaçou Malala. E cumpriu a ameaça, atirando em meninas, do jeito mais covarde possível.  
Malela continua no hospital, em recuperação. Suas amigas, que também foram baleadas, conseguiram voltar à escola, o que é um trunfo.
Pra quem acha que esses pensamentos bárbaros acontecem apenas em países muçulmanos, só queria dizer que esta semana mesmo li num fórum mascu, além dos já tradicionais “Por que mulher quer fazer faculdade?”, uma mensagem de um dos administradores dizendo que mulher trabalhar fora de casa deveria ser crime. 
Se dependesse desses lunáticos e de outros conservadores, como os americanos que disseram nas últimas eleições que o direito da mulher ao voto deve ser retirado, viveríamos num mundo fundamentalista cristão.
Mais um motivo para levarmos a sério o Dia Internacional da Não-Violência contra a Mulher. Este é um dia de luta.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CRIACIONISTAS EXPLICAM OS DINOSSAUROS

Mas ninguém explica a Nana Gouveia

Nossa! Pra desligar o cérebro, fui dar uma fuçadinha num fórum mascu e lá um cara citou um artigo que provava cientificamente que dinossauros e humanos coabitaram a Terra durante um certo tempo. Claro que, sendo aquele um fórum mascu, ninguém achou o papo estranho. Pelo contrário, consideraram a discussão muito relevante.
Ah sim, imagino que você queira saber a prova científica irrefutável comprovando que humanos e dinos viviam juntos. Há muitas. Uma é que existem registros de desenhos de bichos parecidos com dinossauros nas cavernas. Mas a maior é esta: “Se Deus fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe durante os seis dias da Criação (Êxodo 20:11), então obviamente o homem coexistiu com os dinossauros, bem como com todos os outros animais que entretanto desapareceram.”
Obviamente! Dãã!
Eu me lembrei imediatamente do que o comediante Bill Maher disse: que, para um cristão fundamentalista, Flintstones é documentário. Agora que as eleições presidenciais americanas já passaram, e os conservadores lunáticos que creem nessas coisas perderam (mais uma vez, aleluia!), já dá pra rir disso sem medo. Os EUA não são apenas o país mais poderoso do mundo. São também o terreno mais fértil para quem leva a bíblia no seu sentido literal. Lembra do espanto que causou este post?
É uma pedra no sapato dos criacionistas explicar a existência dos dinos. Porque, sei lá, quando a gente pensa em Adão e Eva no paraíso, a figura do Tiranossauro Rex disputando maçã com a serpente não é exatamente a que vem à mente. E também não dá pra simplesmente fingir que dinossauros nunca existiram. Quer dizer, que se danem os fósseis e outras provas, mas como esconder Jurassic Park das crianças? Impossível! Portanto, os criacionistas, em vez de negarem os dinos, inventam que eles foram nossos animais de estimação. Até fazem parques de diversões para mostrar como vivíamos juntinhos e felizes. As crianças adoram!
Porém, pra demonstrar por a mais b que dinos e humanos foram conterrâneos e contemporâneos, é preciso mais que convencer os gurizinhos. Então os criacionistas realmente foram atrás de evidências sólidas. E olha só como eles sustentam sua teoria (lembre-se: você está vendo gente que nega que a evolução aconteceu falando cientificamente de como tudo que aparece na bíblia é literal e verdadeiro): para eles, toda vez que a bíblia menciona dragões (e parece que são nada mais nada menos que 35 vezes), ela no fundo está dizendo dinossauros. Sacou? Onde está escrito dragão, leia-se dino. Vem em notas de rodapé?
Livro de ilustrar para crianças: Jesus provavelmente cavalgava dinossauros

Criacionistas não tentam explicar muito se havia ou não dinos na Arca de Noé. Pelo jeito não, porque eles creem que os dinos sobreviveram à enchente, só que entraram em extinção por causa do clima pós-enchente, e das condições hostis. A prova disso é que a expectativa de vida do homem, que era de 900 anos, caiu para 400, depois pra 200, e depois pra 100. Lógico que a expectativa dos dinos também caiu! De sei lá quantos anos pra... extinto!
Outro fator que colaborou para a extinção dos dinos é que nós humanos os caçávamos para comer. Quer dizer, eles não se chamavam dinossauros, um termo que foi inventado apenas em 1841. Naqueles tempos de Noé, a gente os chamava de dragões, ok? Homens das cavernas caçavam dragões. Acho que já vi um quadrinho do Piteco com um dragão.
Certo, então dinos eram no fundo dragões, e as escrituras sagradas estão cheias de dragões, mas e aquela história de que dragões cuspiam fogo? Ah, isso também é verdade, porque sempre que o pessoal das antigas falava de animais que cuspiam fogo, falavam de dragões. Por que não falavam dos terríveis hamsters cuspidores de fogo?, pergunta o apresentador (um ótimo argumento). Ademais, tá na bíblia. Parece que dinos, ou melhor, dragões, eram muito comuns na época de Jesus. Não sei por que o Novo Testamento não mostra Jesus curando dragões!
Outra prova da coabitação entre humanos e dinossauros é que, segundo os criacionistas, quinhentos anos atrás um cara matou um dino (ou um dragão) e o levou inteirinho prum museu. E por aí vai. Mas confesso que fiquei confusa: os dinos (que no fundo eram dragões) não foram extintos após a enchente? A enchente não foi um pouquinho antes de 1800? Será que os dinos ainda estão entre nós? A lagartixa que vi ontem na minha parede conta como uma dinossaura?
Criacionistas ficam revoltados que as escolas públicas, com dinheiro dos contribuintes, ensinem mentiras às crianças. Como essas escolas esquerdistas ousam mentir para os nossos filhos, inventando que dinos viveram há milhões e milhões de anos, quando eles estavam aqui até 1809? Foi Satanás que fez os humanos obscurecerem esta grande glória de Deus. E é por isso que devemos educar nossos filhos em casa (homeschooling).
Entendo que qualquer pessoa minimamente sensata esteja pensando que eu inventei tudo isso e que não é possível que, num país tão rico quanto os EUA, exista tanta gente doida. Mas estamos falando de um país em que a evolução é considerada apenas uma teoria e, portanto, não é mais ensinada em escolas de vários estados. Uma das perguntas mais comuns que se fazem hoje a um candidato a qualquer cargo político é “Você acredita na evolução?”.
Quero que um dragão incendeie meu nariz com seu bafo se eu estiver mentindo!
Prova cabal da co-existência de dinos e humanos: desenho de um dinossauro encontrado em caverna pré-histórica. As setas indicam onde estão cauda, pescoço e cabeça.