segunda-feira, 5 de outubro de 2015

60 ANOS DE LOLITA, UM LIVRO MARAVILHOSO E POLÊMICO

Em meados de setembro o romance Lolita marcou 60 anos de sua publicação. 
Apesar da trama (o relacionamento sem dúvida abusivo de um homem de quase 40 anos com uma menina de 12), eu amo o livro de Nabokov. Minha dissertação de mestrado, defendida há pouco mais de dez anos, foi sobre como a ironia do romance é transcrita para suas duas versões fílmicas (a de Kubrick em 1962 e a de Lyne em 1997). Não é sobre gênero. Você pode lê-la inteirinha aqui, em inglês. 
Paula Mesquita, repórter do site Lado M, me contatou para uma entrevista, que publico aqui, na íntegra. A matéria da Lado M está aqui.

- Na sua opinião, qual o valor e a importância do livro de Nabokov para a literatura e para a sociedade, de um modo geral?
Minha resposta: Lolita é uma obra-prima, um livro maravilhosamente escrito. Ele trata de um tema terrível, a pedofilia, mas reduzir o livro a este tema é absurdo. Lolita é narrado pelo pedófilo Humbert Humbert, um sujeito pedante e insano que constantemente fala conosco, leitores e "membros do júri", tentando justificar suas ações. Não convence ninguém. Ou melhor, convence muito pouca gente. 
James Mason, o Humbert de Kubrick
Uma das graças do livro é justamente esse contraste que existe entre o narrador, que se acha tão inteligente e equilibrado e que acredita que todos são inferiores a ele, e o personagem, um verme covarde. O narrador, por exemplo, pensa ser irresistível para todas as mulheres que cruzam o seu caminho. Mas o que vemos no dia a dia de Humbert são várias mulheres, principalmente Lolita, resistindo. Humbert é ridículo, e Lolita sabe disso.
A versão de Adrian Lyne
O incrível é que vários leitores interpretem o que Humbert diz como pérolas de sabedoria. Levá-lo a sério é levar o livro a sério, não como uma das obras mais irônicas já escritas. Respeitando Humbert -- algo que Lolita e Quilty definitivamente não fazem --, o leitor começa a dar importância ao que ele diz, como a definição que ele cria de "ninfetas", meninas demoníacas de até 14 anos que seduzem homens adultos. Este é um pedófilo falando. É óbvio que ele vai querer romantizar o que ele faz e culpar a vítima.

- Lolita é considerado um livro polêmico por tratar do relacionamento de um homem mais velho com uma menina. Por mais que a temática seja, portanto, pedofilia, há quem romantize, tratando-a como uma história de amor. Como você vê essa questão? Você acha que o fato do livro ser narrado do ponto de vista de Humbert influencie a perspectiva do leitor?
Sim, tem quem veja o livro como uma história de amor por causa do final. Humbert é um ser abjeto que passa o livro inteiro explorando Lolita. Ele se casa com Charlotte, uma mulher que ele detesta, só para poder ficar perto da sua filha de 12 anos. 
Ele pensa em dar pílulas para dormir para Lolita para poder abusar dela enquanto ela dorme. Ele dá pílulas para Charlotte, para que ela durma e não o incomode. Ele fantasia matá-la. Ele odeia meninas com mais de 15 anos, quando elas não são mais ninfetas. Ele pensa em engravidar Lolita, ter uma filha com ela para poder também estuprá-la, e largar Lolita quando ela já não for mais ninfeta. Ele paga Lolita por sexo e depois rouba seu dinheiro para que ela não possa fugir. Quer dizer... como esse cara pode ser herói pra alguém? Como pode ser levado a sério e visto como sábio? 
Mas, no fim, ao se reencontrar com Lolita (que fugiu dele), que já tem 17 anos e está grávida, ele implora para que ela largue o jovem marido e fique com ele. Ela recusa. E ele se arrepende do que fez com ela. Mas esse arrependimento é convincente? O narrador passa 300 páginas contando sobre como abusar de uma menina é um paraíso, tentando nos convencer como isso é normal e saudável, e no final há um parágrafo em que ele diz que não deveria ter removido Lolita daquele coro de crianças que ele ouve de longe. 300 páginas versus um parágrafo, e a gente se convence de que aquela foi uma trágica história de amor por causa de algumas linhas?
Se o livro fosse narrado por algum dos três outros personagens principais (Lolita, Charlotte ou Quilty), ele seria completamente diferente. Lolita certamente não descreveria o que viveu do jeito que Humbert descreve. Mesmo através da narração não confiável de Humbert, vemos Lolita chorando toda noite antes de dormir, vemos Lolita tentando fugir. Dificilmente Lolita seria um livro tão deliciosamente engraçado se fosse narrado por ela. É possível amar o livro sem amar Humbert. E mais ainda -- sem endossar a pedofilia.
Você lê Psicopata Americano, por exemplo, de Bret Easton Ellis, narrado por um milionário playboy que gosta de torturar e matar pessoas, principalmente mulheres e, a menos que você tenha sérios problemas, você não vê Patrick Bateman como um herói ou um modelo a ser imitado. Não sei como tanta gente interpreta Lolita como um convite à pedofilia, um embate entre puritanismo e liberdade. Puritanismo é não querer que meninas de 12 anos sejam exploradas sexualmente por homens adultos? De qual liberdade estamos falando? Liberdade para quem? 

- De que forma você vê o estereótipo da ninfeta, como a Lolita que Nabokov criou nos anos 1950, sendo perpetuado na sociedade nos dias de hoje? De onde você acredita que venha essa atração de homens mais velhos por mulheres jovens?
O estereótipo da ninfeta realmente pegou, o que pra mim é inacreditável, porque é toda uma sociedade se baseando nas opiniões de um narrador fictício, um pedófilo, e dando-lhe razão. O próprio Nabokov não ficou feliz com a popularização do termo ninfeta: “Fora do olhar maníaco do senhor Humbert não há ninfeta. Lolita, a ninfeta, só existe através da obsessão que destrói Humbert. Esse é um aspecto essencial de um livro singular que tem sido distorcido por uma popularidade artificial”.
Brooke Shields e Susan Sarandon em
Pretty Baby, 1978
Mas a popularidade do conceito de ninfeta já foi maior. No final da década de 1970 e até o começo dos anos 80 tivemos vários fotógrafos lançando livros com fotos eróticas de meninas de dez, treze anos. Tivemos filmes que, embora muito bons por outros motivos, seriam impensáveis hoje, como Menina Bonita, de Louis Malle, que mostrava uma Brooke Shields de 12 ou 13 anos nua, ou mesmo Lagoa Azul, Quando as Metralhadoras Cospem, e Taxi Driver, que erotizavam meninas. 
Natassja Kinski, aos 15 anos, foi um dos maiores símbolos sexuais da década de 80. Luciana Vendramini posou para a Playboy com 17 anos em 1987. Hoje isso não seria permitido. A pedofilia só passou a ser mais combatida nos anos 90, e aí a mentalidade mudou. Hoje continuam fazendo editoriais de moda com meninas púberes em poses sexuais, mas essas representações são muito criticadas.
A atração pela ninfeta, pela Lolita, ainda existe hoje, decerto, mas creio que é vista mais como perversão que como algo aceitável. Lembro de um episódio de A Sete Palmos em 2004 em que Nate, um dos protagonistas da série, conversa com um amigo de infância, que agora tem quase 40 anos e é pai de uma adolescente. E esse amigo lhe conta como sente-se atraído pelas amigas da filha, meninas de 13, 14 anos. Nate (e a série) tratam o sujeito como alguém deplorável, não um modelo a ser seguido. E é estranho que homens interpretem Humbert como um modelo.
Vejamos Beleza Americana, filme de 99 que dialoga muito com Lolita. O próprio nome do protagonista, Lester Durham, é um anagrama de "Humbert learns", Humbert aprende. Então Lester flerta com a ninfeta -- a irmã da filha, que na realidade não é uma ninfeta, e sim uma adolescente de 16 anos --, mas no final, ao saber que ela é virgem e que a imagem de adolescente experiência que ela tenta passar é só aparência (o tema do filme é como os EUA são um país hipócrita de aparências), não faz sexo com ela. E isso é visto como amadurecimento do seu personagem. 
Aya Kiguchi com 13 anos
Mas ainda segue firme na pornografia a ideia de transar com cheerleaders (mais velhas que ninfetas), e no Japão temos o fenômeno das Lolicons. Realmente não entendo essa fantasia tão masculina de querer fazer sexo com meninas. Pode ter a ver com um ideal de pureza, de querer ser o primeiro na vida de uma menina. O padrão de beleza da sociedade também é muito jovem. É aceitável que homens tenham parceiras muito mais jovens, mas não menores de idade, pelo menos hoje em dia na sociedade ocidental. 
E no entanto o tráfico de meninas e a prostituição infantil são frequentes, porque há uma clientela enorme pra isso. Não dá pra entender. Eu vejo um menino de 13 anos como ele é, um menino, não um potencial parceiro sexual. Só posso concluir que essa atração sexual de homens mais velhos por meninas é um sintoma de que algo vai mal no modelo da masculinidade.

domingo, 4 de outubro de 2015

TUTOR, NÃO DONO

Como sei que vocês querem papear, e não tenho post programado pra hoje, vou colocar algo bem levinho, com imagens fofas de animais.

Mas antes, um aviso da organização de defesa dos direitos dos animais que apoio aqui em Fortaleza.

Obviamente que muita gente que acha que preocupação com a língua é algo ridículo (e já ouvi gente de esquerda dizer que é algo burguês -- dói muito pra pessoas de Letras ouvir isso!) vai falar que modificar os termos que usamos para os nossos bichinhos é o cúmulo do absurdo.
 

Mas não é. A língua reflete o que pensamos. E é ruim mesmo se achar dono de um animal ou de uma pessoa. Só que tenho várias dúvidas. Posso usar pronomes possessivos, dizer "meu Calvin, minha Izabel"? 

Não vejo por que não. Claro que há problemas com possessivos, como no caso de "Precisamos defender nossas mulheres", frase frequentemente dita por homens. E o verbo ter, tudo bem? Eu tenho um gato? Se ele soubesse falar humanês, Calvin provavelmente diria que tem uma pessoa. Aliás, uma não: três.

Outra coisa que deixei passar totalmente é que semana passada, na quinta, foi o World Vegetarian Day. Pra quem quer se tornar vegano, o Robson já deu todas as dicas.

Conversem à vontade. De preferência, sem esses comentários chatos de "O país tá afundando e vocês estão falando de bichos".

Sim, estamos. E aí, vai proibir? Bom domingo pra vocês!

sábado, 3 de outubro de 2015

CONTRA O FIM DA SECRETARIA DE POLÍTICAS PARA AS MULHERES

Já pagamos a nossa dívida pública brasileira, feita principalmente durante a ditadura militar (regime que tantos reaças querem de volta) dezenas de vezes. Quase a metade de todo o orçamento brasileiro vai para o pagamento desta dívida. 
Se talvez não seja desejável deixar de pagar a dívida, porque traria instabilidade (mais do que já temos?), é possível, no mínimo, auditá-la. Foi isso que foi feito no Equador -- uma auditoria cidadã da dívida. Chegou-se à conclusão de que 70% da dívida equatoriana nunca existiu. Vinha de contratos fantasmas, ilegais, de corrupção pura e simples. 
Por que não fazemos o mesmo aqui no Brasil e passamos a pagar "apenas" 30% da dívida? Desta forma haveria muito mais dinheiro pra saúde, pra educação, pra segurança. Precisamos de mais Estado, de mais serviços públicos, não menos. 
Qualquer reforma ministerial, como a anunciada ontem, economizará migalhas. 
Acaba-se com secretarias importantíssimas para verdadeiras mudanças, quando essas secretarias deveriam ter mais recursos. E poderiam ter mais recursos, se o Brasil (e o mundo) não seguisse um modelo tão neoliberal. A crise não é só brasileira, é mundial. E não é crise de um governo. É a crise do capitalismo, de um sistema que se mostra esgotado. E como custa caro manter o capitalismo!
Na reforma, três secretarias pequenas (a das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos) foram reduzidas ao Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos. Essa unificação representa um retrocesso. Na quarta-feira, a campanha #PermaneceSPM, originária em Pernambuco, entregou a carta abaixo à presidenta. 
Leia a carta pública assinada por mais de 100 instituições. Assine a petição! A luta continua.

À Excelentíssima Sra. Presidenta da República Dilma Rousseff 
A instituição de Organismos de Políticas Públicas para as Mulheres pelo Poder Executivo é uma proposta dos movimentos feministas e de mulheres que resistiram à ditadura, lutaram e lutam por um estado democrático que garanta a inclusão dos direitos das populações femininas em nosso país. Por este motivo, não podemos, não devemos e não vamos renunciar, em nenhuma hipótese, a esta estratégia de inclusão da causa das mulheres nos Poderes da República, necessária para transformar o Estado Brasileiro. 
Um país signatário de acordos internacionais voltados para o empoderamento das mulheres e que possui uma legislação avançada como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, não pode abdicar de um instrumento político necessário à construção da igualdade entre homens e mulheres. 
É preciso não perder de vista que esses organismos representam o compromisso do Estado Brasileiro, e não de um governo, com a reparação das desigualdades entre homens e mulheres, da mesma forma que sua quebra, representa o enfraquecimento extremo do governo que a propõe e executa. 
Presidenta, querer brecar a função política e social das ações afirmativas em favor das mulheres, retira-nos dos nossos lugares conquistados com a redemocratização do país. Reduzir a nossa autonomia de ministério, subjugando-nos a construir uma gambiarra institucional, é reprimir a repercussão democratizante da igualdade no conjunto das relações sociais em todo território nacional. 
Esta é a motivação das forças retrógradas que defendem e exigem o fim destas políticas, mas essa execução não pode ser carimbada pela senhora. Hoje, a justificativa é a crise econômica. Em outros tempos, eram outros os argumentos; o desejo e a ética que os regem, continuam os mesmos. 
É preciso coragem, determinação e resistência para enfrentar essas forças que há séculos oprimem e exploram as mulheres, as populações não brancas e as minorias políticas. É com coragem, determinação e resistência que a sociedade civil permanece lutando para garantir representação dentro dos governos, no sentido de que suas questões sejam escutadas e contempladas pelas políticas públicas. 
Presidenta, a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), assim como a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), são resultados de séculos de lutas sociais protagonizadas pela maioria da população. 
Os sujeitos políticos dessas conquistas são aliados, são irmãos na vivência cotidiana da violência opressora, mas fizeram a escolha política de enfrentar suas discriminações, constituindo-se em sujeitos independentes entre si, ou seja, titulares de causas específicas. Sua entrada no aparato do Estado, sua participação efetiva na governança, portanto, a sua inserção nas instâncias de decisão da administração pública deve preservar e definir de forma específica espaços, atribuições e recursos. Dessa forma, nada pode tirar de cada um desses segmentos o direito à autoria de suas lutas e de reafirmarem suas causas, exigindo o quinhão que lhes cabe dentro do governo, isto é, um ministério especializado. 
É incoerente e desanimador que este protagonismo seja negligenciado, especialmente neste momento em que consolidamos avanços e, através das Conferências de Políticas Públicas para as Mulheres que acontecem em todo o país, nos referendamos e nos fortalecemos no firme propósito de alcançarmos “Mais direitos, participação e poder para as mulheres”, conforme tema pautado pela Conferência Nacional, convocada pela Presidência da República e coordenada pelo Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres e pela SPM-PR. 
Neste perigoso cenário político para a democracia e o desenvolvimento do país, é inaceitável que haja retrocessos nesse campo, principalmente que a primeira mulher presidenta do Brasil entre para a história como a responsável pela extinção da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. 
Por tudo isso, nós mulheres que abaixo assinamos esse documento, exigimos do Governo Federal um posicionamento em consonância com a construção de um país mais justo e igualitário. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

UM CASO ESCABROSO DE QUASE ABUSO SEXUAL INFANTIL

O PM Ricardo Alves
Não sei se tenho algo de relevante para falar sobre este caso, mas ele me chamou muito a atenção e pode gerar boas discussões sobre a eficácia da exposição.
O caso, terrível, foi noticiado anteontem. Um policial militar chamado Ricardo Alves, que trabalha no 14o Batalhão em Sousa, no sertão da Paraíba, mas aparentemente vive no Ceará, era amante de uma mulher divorciada. Não sei todos os detalhes, mas parece que Ricardo era casado. Sua amante tem duas filhas, uma de 14 e outra de 6 anos. E Ricardo e essa mulher trocaram algumas mensagens tenebrosas no Whatsapp (clique para ampliar):
Ricardo pediu uma "prova de amor" à amante, que seria transar (sem consentimento o verbo correto é estuprar) com a filha de 14 anos: "Quero que faça meus gostos", exigiu ele. A mulher responde: "Eu nunca ia mim perdoa por isso" (sic) e "Faço de tudo por vc isso não", "Ela é virgem", "Ela tem q escolher com quem tem de perde [a virgindade] n eu". 

Ricardo insiste: "E kero te beijar na boca enquanto meto nela... realiza esse sonho meu... prove q me ama mais q td... Faz minha vd?? Ninguem nunca vai saber... so vc e eu!". A mulher responde: "N entendi vc quer tranza com ela (?) É isso (?) Sera q mim ama mesmo ou isso é so pra mim fazer seus gostos (?)".

Ricardo continua: "Se vc deixasse dava pra fazer td q ela nem pensava em se acordar... Eu ia acabar de vez com essa obcessao..." A mulher pergunta: "Pq xegou esse ponto (?) Eu te amo de mais Ja tou ficando louca faço tudo q vc quiser menos a virgidade de ... Agora vc nunca mim amouu agora to vendo". E Ricardo: "Amor?? kd vc? Saiu e nem me respondeu? Ta certo.. Tou indo para o quartel tomar um banho e dar um cochilo..."

Na mensagem, pelo jeito a última, ele diz "Ja tou em sousa", e ela pergunta: "Vai vim aqui em casa (?)". Ele responde: "Vou... Eu trouxe o remedio... 6 e 15 eu passo em sua cs pra te entregar.... Vc der um geito de as meninas tomar, dope as duas q meia noite eu vou ai..."

Felizmente, a menina de 14 anos viu a conversa no celular da mãe, tirou print, e o enviou a uma terceira pessoa, que não se sabe quem é. Mas essa pessoa colocou os prints no Facebook, e foi graças a essa atitude que ficamos sabendo deste caso hediondo.
Ricardo foi afastado da PM, que vai investigar se os diálogos eram mesmo dele, ou de alguém querendo incriminá-lo. Na manhã de quarta, ele admitiu que era ele o autor. 
Porém, a defesa que seu advogado pensa em adotar é algo de outro mundo. Rijalma Júnior, advogado do acusado, declarou: "Realmente aconteceu a situação da conversa, que chegou a vazar. Mas ele em momento algum tinha a intenção de manter relação sexual com as menores. Ele falou aquilo, pois foi a única maneira que ele encontrou para encerrar o namoro. Mas ele está arrependido e disse que se soubesse que teria essa repercussão toda, teria encerrado o relacionamento de outra maneira". 
Não é amor
Imagino que ninguém em sã consciência acredite nessa história de que Ricardo inventou ser pedófilo para terminar o relacionamento.
A mãe das meninas fugiu desde que o caso veio à tona (ela reapareceu e deu a sua versão). As garotas estão com uma tia, e depois devem ir viver com o pai, segundo o Conselho Tutelar. 
Enquanto a polícia conclui o inquérito, Ricardo aguarda o fim das investigações em liberdade. Ainda não entendi se ele será apenas exonerado da PM por "desvio de conduta", ou se pode ser condenado a alguma pena. Pode? Antes de cometer o crime?
Não vou de maneira alguma isentar a mulher de culpa, mas é bom lembrar que, pelas conversas, ela não aceitou dar a "prova de amor" a Ricardo. Lógico que ela mesma deveria ter tirado os prints da conversa, terminado o relacionamento, e se dirigido à delegacia mais próxima para denunciar Ricardo.
Mas isso adiantaria? Até que a polícia fizesse alguma coisa -- se fizesse, já que o próprio Ricardo é PM em Sousa, uma cidade pequena com menos de 70 mil habitantes --, poderia ser tarde demais. Não estou dizendo que não é para denunciar (sempre deve-se denunciar, e talvez o Disque 100, para denúncias de abuso sexual infantil, fosse mais indicado que ir à delegacia), mas, neste caso, foi a exposição na internet que causou toda a indignação e impediu que o abuso fosse adiante.
As meninas ainda correm risco, a meu ver, pois estamos falando de uma cidade pequena num país com grande ausência do Estado. E a mãe também pode estar em situação de perigo. Mas este caso hediondo é mais uma prova de que expor algo ou alguém na internet pode ajudar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

GUEST POST: MINHA EXPERIÊNCIA COMO IMIGRANTE BRANCO NA PF

Relato do D.:

Desde que descobri o seu blog há uns meses através da minha esposa que tenho andado a pensar em lhe escrever sobre o que presenciei na Polícia Federal brasileira quando, como imigrante, passei por lá para obter algumas informações relativamente ao visto de trabalho.
A situação passou-se há 2 anos numa pequena cidade do sul do Brasil. Tinha ido até o sul do Brasil para fazer um estudo do mercado local e das oportunidades de negócio que poderiam haver para a empresa onde trabalho. Quando verifiquei que havia a probabilidade de ter que ficar mais tempo que o possível com visto de turismo/ negócios, e como sou casado com uma cidadã brasileira, decidi ir à Polícia Federal para tentar perceber quais seriam os documentos necessários e qual o processo para conseguir um visto permanente.
Ao chegar à Polícia Federal deparei-me imediatamente com uma situação estranha que foi a ausência de qualquer tipo de ticket que iria permitir definir a priorização do atendimento a quem tinha chegado primeiro. Foi-me indicado para sentar numa sala onde havia dois conjuntos de cadeiras que separavam quem ia renovar passaporte e quem ia fazer vistos. 
Logo que entrei fiquei com a sensação que ia ter que esperar para ser atendido já que os lugares para o visto estavam quase todos ocupados por uma dúzia de imigrantes negros. Sentei-me, com toda a minha brancura europeia, e acomodei-me para a longa tarde que certamente me esperava. (Digo com toda a minha brancura europeia porque a meu ver terá alguma influência no decorrer desta narrativa.)
Logo depois de me ter sentado saiu um dos agentes federais para falar com um dos imigrantes negros e começou uma discussão onde o imigrante reclamava por achar que os seus direitos estavam a ser desconsiderados, e onde o agente dizia repetidas vezes que ele estava “no meu país”, que ele “era um agente federal e podia prender”, e que “estás no meu país, tens de ter atenção como falas”, e “eu sou a lei” (isto tudo em inglês) lembrando-me imediatamente o Judge Dredd.
Depois dos ânimos terem-se acalmado e como só ia pedir informação, decidi anunciar-me ao agente para tentar compreender se estava no sítio certo para pedir aquele tipo de informação, e também para compreender como era o processo de atendimento. O agente, estando ainda meio exaltado, fez um gesto para me sentar e esperar. Assim o fiz.
Pouco depois o agente voltou a sair da sala onde estava a atender as pessoas e começou a perguntar a cada uma das pessoas que esperavam para ser atendidas para que viessem e a verificar os documentos que traziam. Expliquei novamente a minha situação e ele depois de verificar toda a gente voltou para dentro. 
Passados 2 minutos saiu uma pessoa (um imigrante negro) que tinha acabado de ser atendido e eu fui imediatamente chamado, embora tenha sido o último a chegar. Ao entrar na sala verifiquei que havia duas mesas, uma com o agente que já tinha conhecido, e uma com uma agente que tinha acabado de atender o imigrante negro. 
A agente esfregava vigorosamente as mãos com desinfetante, e o imigrante negro ainda não tinha saído totalmente da porta. Achei a situação peculiar mas continuei e sentei-me na cadeira.
Comecei a apresentar o meu caso e a explicar a situação e fui tratado com imensa delicadeza e respeito. A agente foi muito prestativa. 
Chegou ao ponto de o segundo agente que estava a atender outro imigrante negro, de se levantar da mesa dele, deixar de o atender, para me vir atender juntamente com a outra agente que já me atendia para poderem verificar qual seria a melhor opção para eu conseguir o visto permanente. Durante todo o meu atendimento fui atendido pelos dois agentes federais enquanto o outro pobre imigrante ficou esperando.
Depois de esclarecido o meu caso e de me terem explicado como podia obter o visto e quais os documentos que seriam necessários, cumprimentei os agentes (afinal, tinham sido incrivelmente prestativos) apertando-lhes a mão (eu próprio ofereci a mão para apertar, digamos que estava curioso), e virei as costas e saí da sala. 
Grupo de haitianos comemora a
 residência permanente no Br
Ao sair, fiz um compasso de espera como se estivesse a verificar o meu celular e meio desapercebido olhei novamente para dentro da sala, e para espanto meu, ninguém a desinfetar as mãos. Portanto, cheguei mais tarde, saí mais cedo, e ainda tive serviço preferencial. Teria tido a mesma experiência se fosse haitiano ou nigeriano?