Dois dias depois do pleito, já foram criadas pelo menos duas contas hilárias mostrando o arrependimento de eleitores de Bolso, o Jair me arrependi e o BolsoRegrets.
Eles não estão felizes com a nomeação de Alberto Fraga (um que foi filmado reclamando do valor da propina, e que hoje cumpre pena em regime aberto) para ministro. E alguns descobriram agora que o mito quer juntar o Ministério da Agricultura com o do Meio Ambiente. Putz, vocês não viram os debates, mores?
As coisas não começaram bem. Aliás, nem começaram! Ontem ficamos sabendo de um secretário de uma pequena cidade de MG que gravou um vídeo dizendo que "o país mudou e agora nós vai perseguir mesmo", referindo-se principalmente a homossexuais. O vídeo vazou e o cara deu a velha desculpa de que "era zoação".
Foi no momento que tuitei sobre o caso que a Jana entrou em contato comigo, falando de um texto que havia escrito para o Justificando. Perguntei se eu poderia reproduzi-lo no blog, ela permitiu. Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Faz excelentes vídeos semanais sobre linguagem e comunicação no Youtube. Seu Twitter também é muito bacana.
Eu estava tendo uma conversa com um eleitor de Bolsonaro e dois elementos me chamaram atenção porque outras conversas que eu acompanhei ou vivenciei apresentavam essas mesmas duas características (dentre outras). Ficava no ar a ideia de que ou 1) não se deve levar tão a sério o que ele diz, por ser apenas “da boca pra fora” ou 2) as falas dele são frequentemente tiradas de contexto, por isso não são entendidas, junto com “ele faz teatro, é uma piada”.
Eu, como linguista, confesso a você que fiquei com a pulga atrás da orelha: será que estou sendo injusta ao criticar (e temer) as falas do candidato? Será que estou levando tudo muito a sério, sem “esportiva” nenhuma?
Pois aqui vem um spoiler: não, não estou sendo injusta e também não perdi a esportiva. Deixe-me explicar a você o porquê.
Em fala recente transmitida pela internet, o candidato diz, após falar sobre os profissionais do campo e a atenção que quer dar a esse grupo: “vamos botar fim em todos os ativismos do Brasil”. E continua dizendo que vai “tirar o Estado do cangote de quem produz”. Esse é o contexto da fala que afirma acabar com o ativismo. Nessa fala, o contexto não traz qualquer afirmação adicional que suavize ou modifique a noção de “botar fim” nos ativismos. E ela parece bastante literal –- ou você é capaz de reconhecer aí qualquer sentido metafórico para o emprego do termo?
Em outra fala recente, no Acre, Bolsonaro pega o tripé de uma câmera, aponta para cima, movimenta-se como se estivesse atirando e diz: “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. É ovacionado em seguida. Ele, um candidato à presidência, exemplifica, encoraja, estimula e valida a violência através desse tipo de manifestação. O gesto, acompanhado da afirmação categórica de fuzilamento de um grupo de indivíduos, sequer há como ser compreendido, outra vez, metaforicamente. Qual metáfora carregaria a afirmação de fuzilamento, quando acompanhada do gesto que denota uma arma atirando?
Vamos supor, no entanto, que para os dois exemplos, o sentido metafórico seja possível. E seja algo como “não deixar aparecer”. Uma das características principais de uma democracia é justamente a existência de vozes dissonantes, de existências diversas que manifestem sua opinião e co-existam. Se um candidato à presidência propõe não deixar que esses discursos e vozes se materializem, onde estará a democracia?
Trago aqui apenas dois exemplos, recentes, mas há inúmeros outros. Todos eles são representação da e estímulo à violência. E se é isso que o candidato oferece às pessoas, é isso que seus ouvintes podem levar em conta. Todas as nuances interpretativas são trazidas pelas pessoas que o acompanham e que, de alguma maneira, acreditam que ele não fará exatamente o que diz. Não são nuances trazidas da fala do candidato.
E se você chegou até aqui, atenção: a linguagem é a maneira como moldamos e construímos o mundo em que vivemos. É através dela que vamos nos entendendo como sociedade, como grupo.![]() |
| Este caso aconteceu na 2a, e a Mari conta aqui. |
Quero crer que o próprio Bolsonaro não pegará uma arma e atirará em alguém que pensa diferente dele. No entanto, seu posicionamento –- seus discursos, seu comportamento, suas ações -– molda a sua posição como candidato e valida os discursos, comportamentos e ações de seus eleitores. Inúmeros deles podem se sentir seguros em manifestar posturas violentas e preconceituosas, dado que o candidato à presidência propaga atitude e discurso semelhantes, mesmo que “apenas de brincadeira”. Não à toa surgiram inúmeros casos de violência vinculados ao nome de Bolsonaro durante o primeiro e o segundo turnos.
Você poderá dizer: “mas, Janaisa, Jair Bolsonaro não tem controle sobre as ações de outras pessoas. Ele não as acompanha vinte e quatro horas por dia, não tem como saber o que acontecerá”. No entanto, ele carrega em seus ombros a responsabilidade sobre a maneira como aguça a violência em seus eleitores através de seus discursos. Assim como tem responsabilidade sobre a maneira como desautoriza a existência de diferentes grupos de nossa sociedade.
A linguagem é, neste caso, a materialização da violência.
O racismo, a homofobia e a misoginia não nasceram com Bolsonaro, isso todos sabemos. Seus discursos, no entanto, ao invés de minguarem essas manifestações, potencializam e justificam sua existência.
A linguagem, meus caros, é a cola que liga e molda uma sociedade. É de responsabilidade dos candidatos -– e de seus eleitores –- zelar para que suas manifestações não fortaleçam ou revivam posturas excludentes e violentas.
Não há como competir com a violência. Porque a partir da violência, não há discussão, não há reflexão. Há apenas imposição -– de ideias, de comportamentos, de discursos. E essa imposição se revela e se fortalece através da linguagem, da comunicação. E é isso que Bolsonaro, tristemente, representa. Por isso, eu só posso dizer a você: sim, é preciso levar as falas de Bolsonaro a sério, porque a violência que promovem é séria, muito séria.









































