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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

É PRECISO LEVAR A SÉRIO

Dois dias depois do pleito, já foram criadas pelo menos duas contas hilárias mostrando o arrependimento de eleitores de Bolso, o Jair me arrependi e o BolsoRegrets
Eles não estão felizes com a nomeação de Alberto Fraga (um que foi filmado reclamando do valor da propina, e que hoje cumpre pena em regime aberto) para ministro. E alguns descobriram agora que o mito quer juntar o Ministério da Agricultura com o do Meio Ambiente. Putz, vocês não viram os debates, mores?
As coisas não começaram bem. Aliás, nem começaram! Ontem ficamos sabendo de um secretário de uma pequena cidade de MG que gravou um vídeo dizendo que "o país mudou e agora nós vai perseguir mesmo", referindo-se principalmente a homossexuais. O vídeo vazou e o cara deu a velha desculpa de que "era zoação". 
Foi no momento que tuitei sobre o caso que a Jana entrou em contato comigo, falando de um texto que havia escrito para o Justificando. Perguntei se eu poderia reproduzi-lo no blog, ela permitiu. Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Faz excelentes vídeos semanais sobre linguagem e comunicação no Youtube. Seu Twitter também é muito bacana.

Eu estava tendo uma conversa com um eleitor de Bolsonaro e dois elementos me chamaram atenção porque outras conversas que eu acompanhei ou vivenciei apresentavam essas mesmas duas características (dentre outras). Ficava no ar a ideia de que ou 1) não se deve levar tão a sério o que ele diz, por ser apenas “da boca pra fora” ou 2) as falas dele são frequentemente tiradas de contexto, por isso não são entendidas, junto com “ele faz teatro, é uma piada”.
Eu, como linguista, confesso a você que fiquei com a pulga atrás da orelha: será que estou sendo injusta ao criticar (e temer) as falas do candidato? Será que estou levando tudo muito a sério, sem “esportiva” nenhuma?
Pois aqui vem um spoiler: não, não estou sendo injusta e também não perdi a esportiva. Deixe-me explicar a você o porquê.
Em fala recente transmitida pela internet, o candidato diz, após falar sobre os profissionais do campo e a atenção que quer dar a esse grupo: “vamos botar fim em todos os ativismos do Brasil”. E continua dizendo que vai “tirar o Estado do cangote de quem produz”. Esse é o contexto da fala que afirma acabar com o ativismo. Nessa fala, o contexto não traz qualquer afirmação adicional que suavize ou modifique a noção de “botar fim” nos ativismos. E ela parece bastante literal –- ou você é capaz de reconhecer aí qualquer sentido metafórico para o emprego do termo?
Em outra fala recente, no Acre, Bolsonaro pega o tripé de uma câmera, aponta para cima, movimenta-se como se estivesse atirando e diz: “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. É ovacionado em seguida. Ele, um candidato à presidência, exemplifica, encoraja, estimula e valida a violência através desse tipo de manifestação. O gesto, acompanhado da afirmação categórica de fuzilamento de um grupo de indivíduos, sequer há como ser compreendido, outra vez, metaforicamente. Qual metáfora carregaria a afirmação de fuzilamento, quando acompanhada do gesto que denota uma arma atirando?
Vamos supor, no entanto, que para os dois exemplos, o sentido metafórico seja possível. E seja algo como “não deixar aparecer”. Uma das características principais de uma democracia é justamente a existência de vozes dissonantes, de existências diversas que manifestem sua opinião e co-existam. Se um candidato à presidência propõe não deixar que esses discursos e vozes se materializem, onde estará a democracia?  
Trago aqui apenas dois exemplos, recentes, mas há inúmeros outros. Todos eles são representação da e estímulo à violência. E se é isso que o candidato oferece às pessoas, é isso que seus ouvintes podem levar em conta. Todas as nuances interpretativas são trazidas pelas pessoas que o acompanham e que, de alguma maneira, acreditam que ele não fará exatamente o que diz. Não são nuances trazidas da fala do candidato.
E se você chegou até aqui, atenção: a linguagem é a maneira como moldamos e construímos o mundo em que vivemos. É através dela que vamos nos entendendo como sociedade, como grupo.
Este caso aconteceu na 2a, e a Mari
conta aqui.
Quero crer que o próprio Bolsonaro não pegará uma arma e atirará em alguém que pensa diferente dele. No entanto, seu posicionamento –- seus discursos, seu comportamento, suas ações -– molda a sua posição como candidato e valida os discursos, comportamentos e ações de seus eleitores. Inúmeros deles podem se sentir seguros em manifestar posturas violentas e preconceituosas, dado que o candidato à presidência propaga atitude e discurso semelhantes, mesmo que “apenas de brincadeira”. Não à toa surgiram inúmeros casos de violência vinculados ao nome de Bolsonaro durante o primeiro e o segundo turnos.
Você poderá dizer: “mas, Janaisa, Jair Bolsonaro não tem controle sobre as ações de outras pessoas. Ele não as acompanha vinte e quatro horas por dia, não tem como saber o que acontecerá”. No entanto, ele carrega em seus ombros a responsabilidade sobre a maneira como aguça a violência em seus eleitores através de seus discursos. Assim como tem responsabilidade sobre a maneira como desautoriza a existência de diferentes grupos de nossa sociedade.
A linguagem é, neste caso, a materialização da violência.
O racismo, a homofobia e a misoginia não nasceram com Bolsonaro, isso todos sabemos. Seus discursos, no entanto, ao invés de minguarem essas manifestações, potencializam e justificam sua existência.
A linguagem, meus caros, é a cola que liga e molda uma sociedade. É de responsabilidade dos candidatos -– e de seus eleitores –- zelar para que suas manifestações não fortaleçam ou revivam posturas excludentes e violentas.
Não há como competir com a violência. Porque a partir da violência, não há discussão, não há reflexão. Há apenas imposição -– de ideias, de comportamentos, de discursos. E essa imposição se revela e se fortalece através da linguagem, da comunicação. E é isso que Bolsonaro, tristemente, representa. Por isso, eu só posso dizer a você: sim, é preciso levar as falas de Bolsonaro a sério, porque a violência que promovem é séria, muito séria.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

NÃO ACREDITE EM FAKE NEWS

Gente querida, eu falo sobre o direito de resposta de ontem amanhã. Agora não posso, estou viajando. 
Publico hoje o lindo texto da Annia Zzachi sobre o método preferencial de um certo candidato fascista: fake news.

Eu queria conversar sobre Fake News. Ou, no bom e velho português: boato, mentira, notícia falsa. 
Se tem uma coisa que todos já percebemos, é o amplo uso da mentira, principalmente pela direita, para difamar, caluniar, desviar a atenção e enganar na cara dura seus eleitores e as pessoas mais desavisadas. Vamos ser realistas, por favor. A tia da copa, o João da quitanda, o José do Uber [eu acrescentaria: a Lolinha da faculdade] não possuem conhecimento e tempo para realizar uma checagem, por mais que façamos propagandas simples e diretas. E mesmo que saibam, a maioria não se dá ao trabalho, porque a mentira que recebemos usualmente confirma pré-conceitos e discursos dos quais já concordamos. 
Ninguém está isento de cair em uma arapuca. Eu já caí, todos já caímos. Claro que existe a diferença entre uma fake news por afã de compartilhar algo logo, mas que estava equivocado (e que vem com retratação) e a fake news proposital, feita pra difamar e enganar.
Mas... por quê? Por que lançar mão de algo tão baixo, desonesto, mau-caráter?
Isso é uma técnica chamada firehosing of falsehood. "Fire hose" significa "mangueira de incêndio". A mangueira de incêndio é bem resistente e capaz de levar um volume grande de água, sob alta pressão e velocidade. A analogia é que a "água" seria a informação. Falsehood é mentira. Ou seja, você "leva mentiras em grande quantidade e com muita pressão para o público". O objetivo não é convencer ninguém que o que você diz é verdade, mas de questionar o conceito de "verdade". É uma técnica autoritária, suja e bem elaborada, com passos simples:
1 - A mentira é espalhafatosa e exagerada, em larga escala
2 - É transmitida de modo rápido, contínuo e repetitivo
3 - Não tem qualquer compromisso com a verdade material e objetiva
4 - Não tem qualquer compromisso em ser consistente. 
Quando o MBL, a família Bolsonaro, Putin, Trump, Le Pen, os pastores da bancada da bíblia, dizem uma mentira absurdamente descarada, não é porque são burros. Longe disso. Já repararam que eles fazem isso com uma frequência assustadora? E depois negam descaradamente que mentiram, mesmo com vídeo gravado da mentira? Eles sabem muito bem que estão mentindo. Eles nunca se retratam, nem se importam em serem desmentidos. O estrago já está feito. Usam intimidação, ataques em massa, bullying e humilhação se for necessário para calar as pessoas que os contradizem e expõem sua técnica. Lançam mão de seus minions, bots e o que for para que as mentiras e intimidações venham com tanta frequência, e com uma intensidade tão grande, que é impossível ignorar. 
Quando "todo mundo mente", "tudo é fake news", a realidade passa a ser aquilo que você pessoalmente acredita, e é esse o objetivo, tornar a realidade uma mera "opinião", um "ponto de vista" que você escolhe o seu e pronto. Já repararam quantos dizem coisas absurdamente preconceituosas e depois se justificam "ah, mas é minha opinião"? É por causa dessa realidade desconstruída. É um modo de dizer: "a realidade é o que EU digo que é, independente de ser verdade ou não". 
Não tem coisa mais humilhante que ter que provar que você está dizendo a verdade mesmo que ela seja óbvia. Isso é uma forma de obrigar as pessoas a gastarem energia e tempo para provarem que aquilo é mentira, ao invés de usarem esse tempo para conversar sobre outras ideias, até que você fique cansado demais e desista. O mesmo acontece em nível individual, quando falamos em "gaslighting": fazer com que a vítima duvide da própria realidade nada mais é que adquirir o poder de controlá-la aos seus caprichos. É por isso que agências de checagem não são eficientes contra firehosing, porque checar os fatos não é o ponto da questão. Fact checking (checagem de fatos) depende de um acordo comunitário sobre confiança e realidade, e esse acordo é defenestrado pelo firehosing de fake news. Isso significa poder, Lola, significa controle. Eles não estão preocupados em serem desmascarados porque a disputa não é pela verdade em si, é por QUEM domina a narrativa. 
Eu vou parafrasear Hitler aqui (sim, Hitler. Alguém melhor do que ele sobre chantagem, mentira e coerção?):
"Na Grande Mentira sempre reside uma certa aparência de credibilidade, porque as massas são sempre mais facilmente corrompidas pela sua natureza emocional do que conscientemente ou voluntariamente; por isso que em suas mentes simplórias eles são mais propensos a caírem na Grande Mentira do que em pequenas mentiras, uma vez que eles mesmos contam pequenas mentiras sobre trivialidades, mas se envergonhariam de armar uma farsa em grande escala. Nunca, em suas cabeças, fabricariam mentiras colossais, e eles não acreditariam que outros teriam a imprudência de distorcer a verdade de forma tão infame."
O que podemos fazer contra firehosing de Fake News, fascismo e toda essa propagação proposital de medo e instabilidade?
- Primeiramente, não devemos nos dirigir às pessoas respondendo e refutando as mentiras, mas já contando verdades de cara. 
Vou pegar o exemplo da entrevista do Haddad com o Bonner, da Rede Globo. (Não está exato, ok?)
Quando o Bonner diz "Quando é que o PT vai pedir desculpas por ser o partido mais corrupto da história?" (A pergunta deixa implícito que: 1- O PT é o partido mais corrupto da história e que 2- ele deve desculpas.)
Haddad não entra em pânico e diz "Mas o PT não é o partido mais corrupto, olha aqui esses dados, esses outros aqui são mais sujos, blablabla", esquece. Eles vão colocar as provas em cheque, vão continuar insinuando de modo implícito a mentira deles, vão tentar o máximo provocar uma contradição. 
O que Haddad respondeu: "O PT foi o partido que mais deu poder e independência à polícia para agir, inclusive para investigar os próprios membros do PT. Se o PT fosse aparelhar as agências de investigação como outros partidos já fizeram, ele não seria investigado, não é mesmo?" (Isso deixa implícito que o PT foi honesto e jogou limpo, deixou que a polícia pegasse inclusive os seus próprios membros. Ou seja: ele não negou que houve corrupção no PT, como a Globo queria que ele fizesse).
Pronto. Você expôs a falácia lógica, explicou o que aconteceu, não caiu na arapuca retórica e mostrou qual é o assunto que realmente importa. Ponha um ponto final na discussão. Deixe claro que você já disse a verdade, você tem as provas disponíveis, e que não precisa repetir ou debatê-la. A fonte está lá para consulta, quem quiser que se dê o trabalho, você já forneceu a prova do seu argumento. Lembre que o propósito deles é fazê-lo questionar o que é real ou não, custe o que custar. 
- Segundo, temos que deixar claro que nós entendemos o que eles estão fazendo, e abertamente explicar, sempre que pudermos, a tática deles. Só atacar as mentiras não nos dará credibilidade. Uma vez que fica óbvio a tática, todo o resto desmorona. 
- Terceiro, eles pregam um mundo em preto e branco, vencedores e perdedores, e eles não querem ser os perdedores. Na cabeça deles, não existe a possibilidade de todo mundo ganhar, se uma outra pessoa ganhar, automaticamente significa que ele perdeu. Quebrem essa mentalidade. Expliquem que para que um ganhe, outro não tem que perder. 
- Quarto, o pensamento simplista "bem X mal" é muito humano, nos ajudou a sobreviver por 300 mil anos. Você não vai conseguir falar de coisas complexas com quem não entende ou não quer entender isso. Quem vota no Bozo vota nele pelo que ele promete ser, e não pelo que ele é. A narrativa de Pai, Segurança, União pela Força, Homogenia e Moral de Bem já foi vendida, nada vai fazer com quem já comprou isso veja outra coisa.  A única coisa que você pode fazer para um convertido desses é tentar vender uma narrativa melhor, mais esperançosa, mais apelativa e que toque o lado mais sensível dele: a sensação de segurança e aceitação, recompensa justa pelo trabalho honesto. 
 - Quinto: de novo, estão misturando todos os bolsonaristas no mesmo balaio e não entendem porque não funciona. O bolsonarista dono de empresa não é o mesmo bolsonarista policial pobre. É como tentar vender um produto para o nicho errado. Você não vai conseguir vender um skate para uma velhinha com osteoporose para ela andar de skate. Mas e se você vender o skate para ela com a narrativa de que o neto dela vai gosta? 
- Sexto: aproveite a narrativa deles. Eles falam de Deus? Fale de Jesus e amor. Eles falam de Justiça? Fale de redenção, educação e perdão. Eles falam de moral e bons costumes? Fale de aceitação, amor ao próximo, "não julgarás como quiseres ser julgado". Segurança? Apoio e união da comunidade, oportunidades e dignidade para todos. Por aí vai. Sempre desmembre o que a pessoa realmente quer com um discurso extremo. 
Ela realmente quer combate à corrupção? Por quê? O que ela sente que está perdendo com outra pessoa sendo corrupta? É dinheiro para a saúde, para a educação? Use a retórica e a narrativa deles. FALE A LÍNGUA DELES. Pergunte a eles, descaradamente: "o que você quer para que tal coisa seja realidade?"
- Sétimo: os discursos homofóbicos, racistas, classistas e machistas têm um objetivo muito claro: homogenizar o eleitorado. A diversidade fortalece a ciência, as artes, a economia, a saúde, mas é péssima para governar. Quando se tem uma pluralidade alta de pautas, ainda mais em um país continental como o Brasil, é muito difícil seguir uma agenda. O fascismo é um modo eficaz de homogenização à força da população, apoiado em preconceitos já pré-existentes como patriarcado e racismo escravista. Por que vocês acham que o mercado adora estados totalitários? Porque é mais fácil investir em um governo estável, que atenda às demandas do mercado para lucro - especialmente quando vem acompanhado de promessas de redução de impostos e de flexibilização de direitos trabalhistas (ou seja, trabalho escravo). Logo, exalte como é bom a diversidade, o quanto ganhamos com isso, quantas boas ideias únicas nós temos por vivermos de tantas formas diferentes. Quantos nichos bons de mercado a gente pode criar com tanta gente diferente, quantas artes únicas, quantos cientistas com ideias bem boladas que descobriram algo por causa da cultura deles.
 - O fact checking não pode ser deixado de lado, mas não podemos depender dele. A gente usa fatos com quem está indeciso ou para quem é de fora, não para os convertidos. 
Bem, resumindo pois ficou bem mais longo do que eu esperava:
 - Exponha a tática óbvia deles, mostre que você está mais do que ciente do golpe sujo.
 - Não perca tempo com refutação, fale sobre os fatos e a sua narrativa.
 - Não caia na provocação nem no confronto direto.
 - Não caia na falácia de "bem" e "mal", "nós" e "eles". 
 - Desmonte a exploração (suja e perversa!) da insegurança do povo.
 - Seja socrático. Pergunte mais do que responda para entender a motivação das pessoas. 
 - Mostre que você é bem mais feliz vivendo de amor e aceitação do que de raiva e medo infundado. 
 - Exalte a natureza humana de ser generoso, comunitário ao invés de reforçar o egoísmo e o individualismo.

domingo, 27 de maio de 2018

MELHOR THREAD DO TWITTER ESTA SEMANA: PALAVRAS DIFÍCEIS PARA GRINGOS

Esta definitivamente foi a thread mais divertida que vi no Twitter esta semana (quiçá no mês!), cortesia da Shannon. Selecionei os que foram pra mim os melhores momentos:





segunda-feira, 17 de abril de 2017

A LÍNGUA QUE PRECISAMOS MUDAR

Faz algum tempo circulou nas redes sociais uma lista de palavras mostrando como elas são diferentes no masculino e no feminino. 
Por exemplo, “cão” é, entre outras coisas, o melhor amigo do ser humano, mas “cadela” é puta. “Pistoleiro” é um homem que mata pessoas, “pistoleira” é puta. “Aventureiro” é um homem que se arrisca e viaja; “aventureira” é puta. “Homem da vida” é um homem que adquiriu muita sabedoria ao longo da vida; “mulher da vida” é puta. “Homem público” é político ou estadista, "mulher pública" é puta. Muitos dos nossos políticos são ladrões, mas costumamos xingar as mães deles de putas. E o adjetivo “puto” quer dizer nervoso, irritado, bravo, mas basta colocá-lo no feminino para ele ter apenas um significado.
“Puta” é o insulto mais usado para xingar uma mulher. E a mulher não precisa ter feito nada pra isso: basta ser mulher. 
“Puta” está longe de ser o único insulto usado contra as mulheres
Praticamente todas as ofensas relativas ao caráter feminino têm conotação sexual. “Vadia” tem um significado totalmente distinto de “vadio”. Vagabundo pode até ser terno, como no desenho “A Dama e o Vagabundo”, o vagabundo Carlitos, o “Vai Trabalhar Vagabundo” da música do Chico. Já vagabunda não tem nada a ver com trabalho, a não ser que seja trabalho sexual. E não tem a menor chance de ser um adjetivo meigo. 
Quando a mulher não é xingada pelo seu caráter (sempre avaliado apenas pelo lado sexual), é pela sua forma física. Pense nos termos geralmente usados para insultar mulheres. Ou eles aludem a sua aparência, ou a sua sexualidade. “Mocreia”, “baranga”, “dragão”, e tantas outras palavras, não são expressões unissex. Elas servem apenas para mulheres (“barango” e “mocreio” não existem), e sua abundância mostra que ainda hoje avaliamos mulheres por sua aparência, acima de tudo. Não importam suas conquistas, não importa se a mulher em questão for doutora, cirurgiã, ou presidenta -- ela será julgada nos termos de um padrão de beleza racista, inalcançável, e que privilegia a juventude. Meninas aprendem isso desde muito cedo.
Elas também aprendem que sua sexualidade será vigiada e punida e que definitivamente há um padrão duplo. Ouvem o tio ou o pai perguntar pro irmãozinho quantas namoradas (no plural) ele tem, ou dizer a ele, jocosamente: “Prendam suas cabritas que meu bode está solto”. Entendem que elas são as cabritas, e que deveriam estar presas -- para sua própria proteção, claro. 
Em inglês, existem duzentos termos para designar uma mulher sexualmente ativa. E todos eles são pejorativos. Para designar um homem sexualmente ativo, existem vinte termos. E todos eles são positivos. O que esta simples matemática nos revela? Que, na nossa língua (porque em português não é diferente), não existe uma expressão elogiosa para mulher promíscua. Vivemos numa sociedade tão misógina que, através da linguagem, precisamos condenar constantemente a sexualidade feminina. 
E não é coincidência que palavras como “gênio” e “ídolo” praticamente só existem no masculino. Quando falamos em “gênia” ou “ídola”,  é sempre com ironia, com um sorriso de quem sabe que está deturpando a língua. O estranhamento que causa falar “gênia” ou “ídola” já é suficiente para apontar, tanto para a pessoa que fala quanto para a que escuta, que mulher não tem nada que ser elogiada pela sua inteligência.
A língua é um reflexo da sociedade que a usa. Se a nossa língua continua preconceituosa, é porque a sociedade continua preconceituosa. Ao mesmo tempo, a sociedade é moldada pela língua. As crianças crescem ouvindo “homem e mulher”, nessa ordem. Não é apenas pela língua que elas vão se dar conta dessa hierarquia, mas é também pela língua.