Mostrando postagens com marcador mães. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mães. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

ALERTA ÀS MÃES E PAIS DE ADOLESCENTES

Outro dia uma escritora americana, Joanna Schroeder, escreveu uma thread no Twitter que viralizou (passou dos 180 mil likes). Como o que ela disse é muito relevante, e como eu vivo dizendo algo parecido (pais, vocês precisam saber o que seus filhos fazem na internet, porque imagina que tragédia se eles se tornam terroristas), pedi ao querido Vinícius Simões para traduzi-la.

A thread de uma mãe sobre garotos
brancos e propaganda da extrema
direita é leitura obrigatória para pais
Você tem filhos adolescentes brancos? Preste atenção.
Tenho observado o comportamento online dos meus filhos e percebi que as redes sociais e os vloggers estão ativamente lançando as bases em adolescentes brancos para transformá-los em supremacistas e membros da alt-right [“direita alternativa”, uma nova leva de conservadores de extrema direita identificados com a supremacia branca que ganhou fôlego na segunda década deste século].
Eis como:
É um sistema que acredito ser propositalmente criado para desiludir garotos brancos para longe de pontos de vista progressistas/liberais [liberal aqui deve ser entendido como costuma ser empregado na política norte-americana, isto é, algo próximo do “esquerdista” usado no Brasil].
Primeiro, os garotos são inundados por memes com piadas sutilmente racistas, sexistas, homofóbicas e antissemitas. Sendo garotos, eles não veem as nuances e os repetem/compartilham.
Depois eles são chamados à atenção por essas piadas/ frases/ memes por pais, professores e crianças (principalmente meninas) na escola e online. Os garotos então sentem vergonha e constrangimento –- e a vergonha é a força que, acredito, leva as pessoas às suas piores decisões.
Exemplo de meme antissemita
O segundo passo são os garotos consumindo mídia com temáticas do tipo "as pessoas estão muito sensíveis" e “você não pode dizer mais nada!”. Para esses meninos, isso soará legítimo -- eles estão tendo problemas por “nada”. Essa narrativa permite que os garotos abandonem a vergonha -– substituindo-a por raiva.
E de quem eles sentem raiva? Mulheres, feministas, liberais, minorias étnicas, gays, etc etc. Os chamados "floquinhos de neve especiais". E não há ninguém lá para desmontar a falácia do “floquinhos”.
Esses garotos estão sendo configurados -– eles são colocados como bolas de beisebol em um pino e atirados direto para fora do parque. E NINGUÉM parece notar isso acontecendo -– exceto, ao que parece, mães de garotas adolescentes que veem o assédio bizarro que suas filhas sofrem. 
Me chame de floquinho de neve
especial mais uma vez
E, claro, mães como eu, que vigiam as redes sociais dos filhos.
Esses meninos são frequentemente de famílias progressistas ou moderadas -– mas seu comportamento online e hábitos de visualização são muitas vezes ignorados.
Aqui está um alerta vermelho prévio: se o seu filho reclamar de como as pessoas andam sensíveis para se ofenderem com uma piada, ele já está sendo exposto e a caminho. Intervenha! Olhe seu Instagram Explore junto com ele. Explique o que está sob esses memes. Explique por que “se sensibilizar” não é uma piada, o que um gatilho de estresse pós-traumático realmente é. 
Evoque empatia sem envergonhá-lo. Lembre a ele que você sabe que ele é uma boa pessoa, mas explique como a propaganda funciona. A propaganda faz com que pontos de vista extremos soem normais devido a pequenas quantidades de exposição ao longo do tempo -– tudo com o propósito  de converter pessoas a pontos de vista mais extremistas. Diga ao seu filho que ele não precisa ser enganado por ninguém.
Steve Bannon, responsável pelo
crescimento da direita online
Adolescentes possuem um impulso inato em direção à independência, e, uma vez que este sistema é exposto, é provável que eles passem a questionar as intenções dos memes e vloggers. Diga que você está sempre presente, não julgando, mas olhando para o conteúdo e tentando identificar a mentira -– sem julgamento.
Então não julgue!
Você pode também assistir a shows políticos cômicos com ele, como Trevor Noah, John Oliver e Hasan Minhaj. Fale sobre o que torna suas piadas engraçadas -– quem é o alvo das piadas? Eles fazem piada com o opressor ou com o oprimido? Nossos garotos querem se identificar com caras engraçados. 
Um jovem ativista da extrema direita
faz o sinal de "ok", símbolo de
supremacia branca (eu, Lola, só
 descobri agora)
Dê-lhes John Mulaney, Hannibal Burress, Hasan Minhaj, Neal Brennan, Dave Chappelle... e depois converse com seus filhos sobre essa parada engraçada. Explique. (Também apresente a eles comediantes mulheres, obviamente, mas isso não vem ao caso aqui). Mostre a eles que comédia progressista não é sobre ser “politicamente correta” ou segura. Frequentemente é sobre expor sistemas opressivos -– que é a coisa mais distante de “segura” ou delicada possível.
Desmonte essa besteira de "floquinho de neve especial" e “vitimismo” de uma vez por todas. Pergunte ao seu filho: quem é mais “vitimista”: a pessoa que se ofende com racismo/ sexismo e quer ativamente ajudar a acabar com o preconceito? Ou a pessoa que se sente ofendida por quem diz “Boas Festas” em vez de “Feliz Natal”?
Acima de tudo, precisamos nos manter engajados e desafiar nossos filhos sem constrangê-los. Tenho sorte, meus filhos são inteligentes e têm um pai inteligente, crítico e progressista, que não tem medo de apontar a besteira quando vê. Mas vi TANTOS garotos brancos sendo vítimas desse sistema. Então cuidado.
Obrigado ao comentarista que compartilhou essa thread sobre jornalistas que fizeram o trabalho real sobre este assunto. @Max_Fisher, você é um herói por isso.
IFunny se tornou um pólo
do nacionalismo branco
E alguém sugeriu essa entrevista relevante com um ex-supremacista branco sobre como ele se radicalizou (e conseguiu sair).
Outra grande fonte que li em algum momento e tinha me esquecido. Essa é uma história de pais verdadeira. Eu não sei quem eles são, no entanto. Um trecho: “Aos 13 anos, de repente sem amigos, ele não poderia entender como estava sendo manipulado ou como a tecnologia tornava mais fácil para a alt-right online encontrá-lo”.
Mais uma fonte!

domingo, 13 de maio de 2018

FELIZ DIA DA MATERNIDADE COMO ESCOLHA

Quando comecei a escrever este texto eu e o maridão íamos começar a preparar um super almoço pra minha mãe. Ontem eu fiz o pavê, que tá calmamente aguardando na geladeira a hora de ser devorado.
A gente não é muito de comemorar datas comerciais, como o dia das mães. Ainda mais porque o aniversário da minha mãe Nelly é 15 de maio, quase colado a essa data. Hoje, portanto, vamos celebrar mesmo é o aniversário dela. Na terça ela faz 83 anos. Está bem, embora já tenha estado muito melhor. A chikungunya que ela (e tanta gente aqui de Fortaleza) pegou no começo do ano passado tirou bastante da sua mobilidade. 
Mas vamos ver se ela melhora logo! Ela faz musculação (ano passado fez pilates, não ajudou muito) e se mantém agitada. Faz alemão (fez inglês, fez francês), sempre vem pro meu curso de extensão (há uns sete anos; é minha aluna mais assídua), participa de vários eventos. Fico feliz que ela continue tão ativa, e feliz também por ela e o Silvinho se darem tão bem (agora fez 20 anos que ela veio morar com a gente, primeiro em Joinville, desde 2010, em Fortaleza). 
Eu nunca quis ser mãe, e não me arrependo nem um pouco. Silvio, vulgo maridão, também nunca quis ser pai, com a diferença que ele não é chamado de "seco" ou considerado inferior ou julgado por isso. Não vou nem dizer que foi uma escolha que fizemos juntos, porque, na realidade, antes de nos conhecermos (quase 28 anos atrás) já tínhamos decidido que esta não seria nossa missão na Terra. Mas pra mim é bem emblemático que reaças (invariavelmente antifeministas e machistas) sejam tão contra as escolhas das mulheres que eles não aceitam que eu escolhi não ser mãe. Pra eles, eu sou estéril. Eles não acreditam que alguma mulher pode não querer ser mãe. 
Outra bobagem é achar que uma mulher que optou por não ter filhos odeie crianças. Eu já tive minha fase de "detesto criança" (creio que era uma espécie de autodefesa contra tantas cobranças), mas foi só até de fato conviver com uma. Aí eu vi como elas são inteligentes, espirituosas, divertidas. Lógico que eu só ficava com a "parte boa" do relacionamento com criança -- não tinha que trocar fralda, não tinha que botar pra dormir, não tinha que obrigar a comer ou fazer lição de casa. Mais ou menos como pai separado faz, certo? Eu só servia pra criança rir, pular em cima, jogar pôquer, dançar. 
Com o amadurecimento do meu feminismo eu fui vendo também que "odiar criança" é ser contra as mulheres, é ser contra a sororidade. Afinal, a maior parte das mulheres adultas são mães, e a sociedade impõe a elas o cuidado dos filhos (lutamos contra essa imposição, mas isso não apaga a realidade). Quando olhamos feio pra uma criança que chora num lugar público, quando não permitimos que uma mãe leve seu rebento pra uma aula na universidade, não estamos apenas condenando a criança, mas a mãe dessa criança. Muitas são mães solo, não têm com quem deixar a criança (de novo: lutamos por creches, mas enquanto não conquistarmos esse direito, a realidade é que muitas mães precisam levar o filho para onde for). 
Sem falar que inúmeras mães são feministas, e vice versa. Aliás, um dos tipos de mensagens que mais recebo nessa década de blog é como uma mulher se descobriu feminista, ou como seu feminismo foi reforçado, depois que ela virou mãe (principalmente mãe de menina). "Odiar criança" é ser contra nossas irmãs. É ser contra nós mesmas.
O feminismo caminha junto com movimentos de direitos maternos. 
Creio que hoje isso soa bastante óbvio, mas eu me orgulho de, mesmo não sendo mãe, sempre ter falado no meu bloguinho sobre maternidade, sobre parto natural, sobre amamentação, sobre violência obstétrica, e tantas outras pautas que mães feministas trazem pra cá. 
Lutar contra a imposição da maternidade, lutar a favor  de direitos reprodutivos e da legalização do aborto, não é ser contra a maternidade. E não precisa ser feminista pra entender isso (mas ajuda!). 
Hoje, dia das mães (lembrar que é uma data comercial, instituída pelo capitalismo para vender mais -- é a segunda data mais lucrativa do ano, só perde pro natal -- não significa que devemos deixar de agradecer as nossas mães por tudo que fizeram e fazem por nós) é um dia em que aqueles "cidadãos de bem" celebram de um jeito bem diferente de nós. É o dia em que eles desejam "feliz dia das mães" ao mesmo tempo em que impõe que a missão de toda mulher é ser mãe, ao mesmo tempo em que escolhem quais mães prestam e quais não prestam. É o dia em que eles salientam sua posição contra o aborto ao mesmo tempo em que lamentam que eu e outras feministas não fomos abortadas. É um dia bastante hipócrita pra eles, digamos.
Acho que pra nós -- nós, as bruxas, as netas de todas as bruxas que eles não conseguiram queimar -- dia das mães é um dia pra celebrar a maternidade como escolha, pra saudar todas as mães, pra lembrar que não ser mãe não faz de ninguém menos mulher, pra, mais uma vez, exercer nossa sororidade. Feliz dia das mães!

quarta-feira, 9 de maio de 2018

MÃE E FILHA, UNIDAS DE NOVO

São experiências assim que fazem o trabalhão de manter um blog feminista durante uma década valer a pena! Esses dias recebi um email da L.: 
"Obrigada por manter o seu blog tão maravilhoso! Depois de muito ler o seu blog e me inspirar com a sua história feminista e de luta (e de muitas e muitas mulheres), mandei a carta abaixo a minha mãe (com a qual eu não falava há anos!). Depois de ler essa carta, retomamos nosso contato de mãe e filha, mas, mais ainda, nosso contato e relacionamento entre mulheres independentes e destemidas.
Graças ao seu blog, consegui me colocar no lugar da minha mãe, sem julgar, e tentar entender tudo que ela passou (em 20 anos de relacionamento abusivo com meu pai) e o que a levou a tomar as atitudes que tomou. Enfim, sinto que você é uma pessoa muito importante na minha vida sem mesmo te conhecer.  E escrevo apenas para te dizer: obrigada!"
Esta foi a carta que L. mandou para sua mãe:

Mãe,
Que saudade de te chamar de mãe. Saudade de você. Do seu carinho e amor de mãe. Saudade da nossa convivência. Das nossas conversas, risadas e até das discussões. Saudade dos seus conselhos, ensinamentos e de tudo que você me passou por palavras ou por exemplos.
Eu tenho muito de você. Sou muito, muito grata a tudo que você me deu. Não só a vida, claro, mas tudo. Cada ação, cada decisão que tomei e tomo na vida são embasadas por ti. Pela autonomia, pelo senso de responsabilidade, pela autoconfiança, pelo bom senso e pelos valores que você me passou. Tenho muito orgulho da mulher adulta que sou hoje e devo tudo a ti.
Daqui a exatamente uma semana, eu vou defender meu Doutorado em Ciências. Cinco anos e meio de graduação em Química e mais cinco anos e meio de Doutorado. Uma jornada que se finaliza em uma semana. E por isso eu gostaria de te contar. E também te agradecer. Agradecer pelo apoio durante a escola, as Olimpíadas, as aulas de inglês... Meu Deus, se eu tivesse maturidade suficiente para entender na época o quanto você se desdobrava por mim (por nós, na verdade), eu te agradeceria imensamente todos os dias. Eu te ajudaria mais. Eu teria sido mais amável. Mais grata. Eu não conseguia (e até hoje não consigo) entender de onde vinha tanto amor. Obrigada.
Eu converso com minhas amigas mais próximas e elas invejam a mãe que você foi e o nosso relacionamento mãe/ filha. Obrigada por nunca ter me dito “não” sem explicação. Por nunca ter me dito para casar virgem ou para não fazer sexo. Por nunca ter me feito odiar o meu corpo. Por ter tratado de menstruação, beijos, sexo, vagina, pênis... com muita naturalidade. Por nunca me reprimir. Por nunca me calar. 
Hoje, como mulher adulta e feminista, percebo o quanto você garantiu que eu mantivesse a minha autonomia, autoestima e me meu valor como mulher, com total poder sobre minhas decisões e escolhas, mesmo que nem sempre sejam as melhores... Mas você sempre me permitiu errar e falhar também. Muito, muito obrigada. Eu vejo tantas mulheres adultas que odeiam a si mesmas, ou que se metem em péssimos relacionamentos, ou infelizes, mal informadas, cheias de culpas, medos e tabus. Mas você me criou para ser independente, destemida, responsável e feliz. E por isso eu sou muito grata a você.
Eu tenho muita admiração por você. Sua coragem de ter terminado um relacionamento tão ruim, quando todos te diziam para você seguir nele. Sua coragem em não se calar. Em recomeçar. Em estudar e trabalhar. Sua coragem é a maior que já vi e me causa muita admiração, e me inspira. Eu espero que você esteja feliz no seu trabalho, na sua vida pessoal, com suas amigas, com você. Nem espero que você esteja em um relacionamento amoroso, porque do jeito que os homens são uns inúteis, eu te desejo é tranquilidade (risos). Eu desejo que você esteja feliz com sua vida e decisões.
Eu e os mais chegados da família te amamos muito e sentimos muito a sua falta. Eu gostaria muito que você retomasse o nosso contato. Te mando essa carta (e também por e-mail e Facebook) como uma tentativa de reaproximação. Até hoje não consigo entender perfeitamente o que nos levou a essa situação. Mas proponho que tentemos resolver. Por favor, responda essa carta. Eu gostaria muito de ouvir de você sobre essa situação nossa e também de saber como você está.
Torço para que você esteja bem e feliz. Torço também para que um dia possamos nos ver e nos amar outra vez.
Para finalizar, um poema que me remete a você (e que está na epígrafe da minha tese):
“A bagagem
O que levarei na mala
Senão a minha nudez
A esperança de encontrar-te
Ao menos uma vez
Para dizer-te: vou a marte
Amar-te foi o mais belo
Que podia acontecer-me.” Líria Porto
Muita saudade. Te amo. L.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

GUEST POST: UMA MÃE E SEU FILHO

Fabiane publicou este texto recentemente no seu Facebook, e me pediu para espalhá-lo aqui no blog. 
Diz ela no email: "Gostaria de ajuda para compartilhar um pedaço da minha história de vida. Um caso onde esse machismo opressor reina, onde poder e influências movem vidas, mesmo que isso custa a vida de uma criança que terá que arcar com as consequências de uma vida sem escola. Quero pôr a boca no trombone, tô cansada desse mundo que só quem tem dinheiro é que presta".
Toda minha sororidade a Fabiane e seu filho.

Vai ter textão sim, para explicar a situação que uma mãe e seu filho estão sofrendo, numa relação abusiva e de alienação nos últimos anos.
“Existe um pai oferecendo recompensa por notícias de seu filho que ele diz desaparecido desde janeiro de 2018".
Ele paga bem.
Mas desde janeiro de 2017, também existe uma mãe lutando discretamente para que seu filho tenha direito de conviver com ela, falar com ela, vê-la, e que possa voltar pra casa.
Desde então, essa mãe, que vivia há 10 anos numa relação abusiva, que sofria violência física e emocional de um homem ciumento e controlador, que se julga o dono da verdade absoluta, sentiu-se ameaçada. Sua vida corria risco, ela estava fora do país, sem um centavo nas mãos. Desejava trazer o filho de volta para casa com ajuda financeira de amigos, mas ele, o abusivo, estava em posse do passaporte da criança e se negou a dar a autorização para viagem. Queria obrigar a mãe a manter-se do seu lado, usando a criança como moeda de troca, como sempre havia sido. Mas essa mãe, decidida, arriscou a dar um novo rumo na sua vida. Voltou ao Brasil para buscar na justiça o direito da guarda do filho, sem ser obrigada a conviver com esse homem controlador.
Aqui, ela começou a vida quase do zero, depois do fim desse relacionamento, dependendo da defensoria pública para poder concluir a volta do filho.
Mesmo contra a vontade da mãe, e sem autorização dela, o pai pegou o filho e velejou por várias ilhas do Caribe e depois do outro lado do Atlântico, sem fazer a mínima questão de atender todos os telefonemas diários ou fazer qualquer outro tipo de contato e dizer onde o filho estava. Queria satisfazer apenas as suas vontades. O filho, com quase oito anos, mal sabia ler e escrever, e nunca teve o direito de frequentar a escola pelo estilo de vida que o pai impôs, onde não era permitida rotina.
Escola é lugar onde as crianças são doutrinadas, quero meu filho longe disso -- o pai dizia.
O ego dói, não é suportável aceitar que aquela porcaria de mulher se empoderou e largou dele, o ex-marido, ou ex namorado. Um ex tão bom, daqueles que não permitem ter amigos que não sejam os dele, que não te dá um centavo pra comprar a comida do almoço dele, que não te deixa dar um passo sozinha, se engraça com qualquer bonitinha e colecionava casinhos. E ainda diz que você é louca.
Bem-vindos ao ano de 1936. Só que não, é 2017, o ano que se foi.
Quanto mais o tempo passava, maiores eram as palavras de ódio proferidas do filho pra mãe, que hoje relata que as palavras eram ordem do pai. O contato, cada vez mais escasso, se tornou nulo, três meses antes da juíza em Portugal autorizar a busca do filho, finalmente. Um ano se passou. Ó céus.
Meio mundo mexeu pra descobrir o endereço deles, já que o pai omitia e também mentia a localização. 
Até que depois a Interpol localizou e foi lá fazer uma visita. Caracterizou-se o rapto internacional de menor, pois não havia nenhuma autorização da mãe para o pai estar viajando com o filho, tão longe de casa, e o processo da mãe pela busca do filho corria desde março de 2017.
Ainda, a Interpol equipe multidisciplinar do judiciário português, constatou que o barco estava em condições desumanas. É, a porcaria de 1936 foi embora, e é impossível que o capitão lave uma louça ou lave um banheiro. Pra ele, isso é tarefa de mulher.
Com investigação social por meio de psicólogos e assistente social, a criança foi diagnostica com dificuldade de socializar e atraso do desenvolvimento cognitivo, tudo pelo sonho e o egocentrismo do pai.
Então, pai e filho prestaram depoimentos, e a juíza do tribunal de Setúbal ordenou que a criança voltasse para o Brasil em dez dias, e que o pai providenciasse a passagem, pois ele tem condições financeiras, e ele pode.
A alegação dele era de que desejava fixar residência em Portugal ou qualquer outro lugar da Europa, bem longe da mãe. Parece que queria puni-la com a ausência do filho, já que ela não queria mais viver ao lado do "melhor marido".
Ele dizia ao filho que logo teria uma nova mãe, e mandava o filho repassar isso a ela, em tons de ódio. Numa noite portuguesa, deixou seu filho sozinho, trancado no barco, que estava ancorado, voltando pela manhã. E o "melhor marido" mostrou seu lado paterno.
Pelo perigo de morarem a bordo, levando em conta o risco de fuga do pai com o filho, a juíza então ordenou que a criança ficasse em um orfanato até a passagem ser comprada, no prazo máximo de 10 dias. Mas a passagem não foi comprada. E o filho ficou no orfanato por 15 dias, por capricho desse pai, que não queria permitir que seu filho voltasse a ver a mãe.
E então, corridos os 10 dias, a juíza, assim como o Itamaraty, autorizou que a mãe fosse buscar seu filho.
Com a ajuda de amigos, coração apertado, saudades sem tamanho, ela foi. Seu filho olhando pela janela do orfanato, de touca de lã e jaqueta grossa, esperando a mãe que quase já havia esquecido o rosto, pois o pai sumiu com as fotos dela que ele tinha. Quanta saudade naquele abraço!
Agora, só faltava pegar o passaporte pra levá-lo de volta pra casa, mas o pai se negava a devolver o documento. Só o fez com medida judicial e sendo intimado a comparecer imediatamente na delegacia, para entregar.
No dia seguinte, no tribunal, a mãe foi buscar o passaporte do filho. De repente, o pai aparece, com uma liminar de guarda compartilhada. Oi? Como assim?
Uma guarda compartilhada, dada por um processo aberto no dia 19 de janeiro de 2018, em Curitiba, sendo que o processo da mãe já existia em Florianópolis desde junho 2017.
Por que ele não pediu a liminar em Florianópolis, onde já existia o processo em andamento, e onde a mãe tem casa própria? Será que é por ele ter amizades influentes na cidade de Curitiba?
Ele conseguiu essa liminar em três dias, de guarda compartilhada, sendo que pai e filho estavam morando em Portugal, e a mãe, morando no Brasil.
A mãe não teve direito de ser ouvida nessa comarca para analisar os fatos, ou sequer foi pedido vistas ao Ministério Público, por se tratar de um caso grave envolvendo rapto internacional.
Isso pode?
Guarda para um pai, que nunca permitiu que seu filho frequentasse uma escola, que não trabalha, não tem residência fixa, e diz que vai fixar lar na casa da mãe debilitada de saúde e muito idosa. Uma avó que já mora com a filha e outro neto adulto. Numa casa onde a criança não terá seu próprio quarto, e irá dividir a cama com seu pai.
Sim, o pai conseguiu um documento importante no Brasil na Comarca de Curitiba, mesmo tendo a decisão do Ministério Público Federal em Santa Catarina proferindo o seguinte:
“Segundo consta dos documentos anexados (peças sigilosas) a genitora já se encontra na posse do filho, retornando para sua residência nesta comarca. Os fatos contidos naqueles documentos são suficientes para evidenciar a necessidade imediata de deferimento do pedido de guarda provisória, em especial para proteção do infante. Quanto à convivência com o genitor, pelas mesmas razões, opina o Ministério Público pela suspensão das visitas até a realização de Estudo Social, o que se requer com urgência. De outra parte, tendo em vista à preservação dos direitos da criança, requer-se a intimação da parte requerente para emendar a Inicial, incluindo requerimento de alimentos em face do genitor, ora requerido.”
A justiça do Brasil não vale em Portugal, e então a juíza portuguesa manteve a decisão da mãe poder levar seu filho pra casa, mesmo sem o passaporte, pois o consulado do Brasil em Lisboa fez um documento de emergência.
Entenderam que a mãe cumpria a medida judicial daquele país, e foi sensata. Após investigar o caso de perto, decidiu que o melhor para a criança seria retornar ao convívio da mãe.
Mãe e filho finalmente entraram no avião, com proteção da polícia portuguesa, antes dos velhinhos e cadeirantes.
O pai, com desejo de contrariar a justiça portuguesa e causar transtorno, comprou uma passagem no mesmo voo, pra fazer valer sua liminar quando desembarcasse em território brasileiro.
Foi preso na imigração do aeroporto em Lisboa, ordem da juíza. Concluiu-se que o pai oferecia risco para a mãe e o filho.
No Brasil, a mãe matriculou imediatamente seu filho numa escola particular, excelente, com infraestrutura impecável. Com quase 9 anos, no primeiro ano fundamental, com crianças de 5 e 6 anos.
Apesar da felicidade da criança, tudo foi interrompido no primeiro dia de aula. Mandaram ele ir morar na casa da avó, com o pai, que nunca quis vê-lo na escola, que não trabalha, mas paga bem.
A mãe entende que é muito importante para um filho conviver com o pai e com A MÃE, e quer que o filho restabeleça o convívio com o pai o mais breve possível, pois o filho não tem culpa do pai que a mãe escolheu para ele.
Porém, quer garantias de uma justiça justa, e que, no mínimo, haja uma audiência de conciliação. Que o juiz se disponha a ouvir as partes, e que considere os fatos reais que constam no processo. Inclusive, a decisão do Ministério Público. Que respeite o processo que pré-existia antes da liminar concedida.
Se, de fato, esse pai quer tanto o bem do filho, porque não aceita a justiça de Florianópolis? Será que os fatos atuais do judiciário diários da televisão estão presentes neste processo? Se a justiça é a mesma em todo território brasileiro, qual o medo do processo não ser julgado em Curitiba?
Além da liminar da guarda conseguida em três dias, o juiz agora também já deu mandado de busca e apreensão. A mãe corre risco de ir para a prisão, sem nunca poder ter sido ouvida em audiência. Princípio da Imparcialidade, em casos assim, é imprescindível.
É isso que foi feito em Portugal, TODOS FORAM OUVIDOS.
E a mãe, ela sumiu.
Mas o pai paga bem, pra quem der informações. Quer levar seu filho para morar numa cidade bem longe.