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sexta-feira, 14 de abril de 2017

"A VERDADE É QUE A REDE GLOBO COISIFICA AS MULHERES"

A juíza federal do Trabalho Roberta Araújo, de Pernambuco, escreveu em suas redes sociais um texto que vale a pena compartilhar (apesar de certo tom moralista). 
Capa didática do Meia Hora, 11/4
Ela não menciona a expulsão de Marcos do BBB17, mas é preciso lembrar -- se a Globo realmente combatesse a violência contra as mulheres, não teria colocado um tipo como Marcos no programa. A heroína, no caso da expulsão do agressor, foi a delegada Márcia Noeli, que mandou a polícia entrar na casa para investigar lesão corporal em Emilly.
O texto da juíza Roberta:

Queridas, antes de divulgar e exultar com a postura da Globo em “punir” José Mayer por assédio ou afastar Otaviano Costa do vídeo show por rir de atitude machista do Big Brother lembrem-se de que foi a Globo que universalizou entre nós a cobiça por Anita, apresentada como uma “ninfeta” ousada que seduzia um homem casado e com idade de ser seu pai.
Foi a Globo que nos apresentou Angel, uma adolescente que permeou o imaginário dos desejos mantendo um ardoroso caso com o marido da sua própria mãe.
Foi a Globo que em Laços de Família envolveu o Brasil na polêmica trama em que a jovem filha rouba Edu, o namorado da mãe, interpretado por Reynaldo Gianecchini.
Foi a Globo que em Avenida Brasil nos trouxe como núcleo de comédia a trama com três mulheres envolvidas com o mesmo homem -- o empresário Cadinho -- e que declinam das suas vidas e dignidade para se sujeitarem a viver com ele, mesmo após se descobrirem enganadas.
Em Império, a Globo preencheu o imaginário de desejos com a trama do charmoso Comendador que mesmo casado com Marta mantinha um fogoso affair com uma menina mais jovem que sua própria filha.
Foi a Globo que fez o Brasil se divertir com o programa Zorra Total, que tinha em seu quadro principal duas amigas em um vagão, sendo uma delas, a Janete, bolinada de várias formas e tocada em suas partes íntimas com a batuta de um maestro enquanto a sua amiga Valéria, ao invés de defendê-la, dizia: “aproveita. Tu é muito ruim, babuína. Se joga.”
Então queridas, quando essa emissora diz em nota que “repudia qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito” está em verdade sendo dissimulada e ofensiva por nos considerar alienadas ou parvas. A verdade é que a Rede Globo coisifica as mulheres, naturaliza a violência, os abusos e assédios, incentiva o desrespeito, ridiculariza o papel e a posição da mulher e subalterna nossa dignidade.
São mensagens explícitas e subliminares como as que esta Rede Globo universaliza e crava no imaginário masculino brasileiro que estupram, abusam, ferem e vitimam milhares de Mirellas que habitam entre nós.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A FÚRIA DE DUNGA CONTRA A GLOBO, E VICE VERSA

Dunga na coletiva de imprensa.

Com o final do semestre (preparar provas, corrigir provas, entregar notas, além de mil e uma reuniões) mal dá tempo pra acompanhar a Copa do Mundo, quanto mais ficar por dentro das polêmicas fora de campo. Então apenas ouvi falar (e depois vi o vídeo) sobre o Dunga ter sussurrado palavrões contra um tal de Alex Escobar, repórter da Globo, durante uma coletiva. Ou foi contra um tal de Tadeu Schmidt? Enfim.
Nunca gostei do Dunga como jogador, e não sei se gosto como técnico. Vai depender de como o Brasil se sair na Copa. Mas imagino que ser técnico da seleção brasileira deve ser um trabalho penoso. Em época de Copa, é pior que ser presidente. Se cair um avião em qualquer parte do território brasileiro, a culpa será dele. Mas Dunga deveria se controlar mais para não se estressar.
Já pela Globo eu não tenho apreço nenhum. Bom, eu mal vejo TV, mas considero a emissora dos Marinho algo nocivo pro país. Fico feliz que o ibope esteja caindo a cada ano e que a Globo já não tenha mais tanta influência pra eleger os governos que quer. Por outro lado, creio que a Vênus Platinada produz bom entretenimento, puro escapismo, de vez em quando. O que detesto é essa mania de exclusividade global. A Globo paga para só ela poder transmitir o desfile das escolas de samba do Rio, e aí não passa a escola campeã, porque não muda sua programação. A Globo paga pra só ela poder transmitir o Oscar, e aí fica passando BBB. A Globo paga pra só ela poder transmitir sei lá qual evento esportivo, e aí só passa alguns minutinhos, e o espectador que não tiver TV a cabo que se lasque. Amei assistir às Olimpíadas de Inverno pela Record, e espero que ela repita a excelente cobertura nos Jogos Olímpicos de 2012 e na Copa de 2014.
Pelo que entendi, a briga da Globo com o Dunga acontece porque o técnico não está deixando que a emissora faça suas reportagens exclusivas com a seleção. E vamos admitir: não tem que deixar mesmo. Por que uma emissora teria direito a “furos de reportagem” (que geralmente se limitam a narrar o que um jogador está comendo)? A seleção não está na Copa para dar entrevistas; tá lá pra treinar e jogar. Uma coletiva de vez em quando já tá mais do que bom pra uma mídia que adora criar factóides. Nossa mídia faz na Copa o que ela faz na política. É só uma fábrica de notícias falsas que perdem qualquer importância no dia seguinte.
Pra mim, a Globo tem todo direito de criticar o Dunga. E vice versa. A gente geralmente se esquece dessa segunda parte, acreditando que a mídia pode tudo. É estranhérrimo quando alguém critica a mídia e logo gritam “estão acabando com a liberdade de imprensa!”. Parece que a liberdade de expressão só é um conceito importante quando é exercido pela grande mídia.
A Globo tentou manipular o público pra ficar contra o Dunga, e se deu mal. Um montão de gente apoia o Dunga e considera a Globo o suprassumo da arrogância. Agora, um movimento no Twitter sugere um “Dia sem Globo”, que seria agora na sexta. Ahn, gente, sexta tem Brasil e Portugal, e não existe a menor chance de eu perder esse jogo. Não tenho TV a cabo e a Band, que também faz a transmissão, não pega bem aqui em casa (e pra mim os apresentadores da Band são tão péssimos quanto o Galvão Bueno). A tela do meu computador é pequena pra que eu veja o jogo pela internet, sem falar que a banda larga não é tão larga. Organizem alguma coisa longe da Copa, e talvez eu colabore. Já não vejo TV normalmente mesmo...
Conheço um montão de gente que nunca muda de canal. Deixa na Globo eternamente. Considerando a qualidade da televisão, nem sei se posso sugerir pra eles usem o controle remoto e tentem novos canais. O melhor mesmo é ver menos TV. Muito, muito menos. Mas não na Copa, pô!
Tudo isso foi só pra dizer que morri de rir com esse vídeo do Dunga incorporando o Michael Douglas em Um Dia de Fúria. Aviso: tem palavrão a dar com o pau, gordofobia e sotaquefobia (acabei de inventar o termo, eu acho). Quer dizer, pelo que li nos comentários do YouTube, teve gente que não gostou do sotaque gaúcho que deram pro Dunga. Eu adorei. Assista, se ainda não assistiu (eu sou sempre a última a saber). O vídeo ajuda a entender melhor o caso, ao mesmo tempo que faz chorar de rir.

quinta-feira, 2 de setembro de 1999

DESCULPEM A NOSSA FALHA

Não há motivos para comemorar os 30 anos do Jornal Nacional


De uns tempos pra cá, o Jornal Nacional passou a terminar sua edição dizendo "boa noite", se a última notícia havia sido boa, ou "até amanhã", se o fato fosse trágico. Imagino que os narradores comemorariam os 30 anos de existência do noticiário com um sonoro boa noite. Enquanto nós, telespectadores, estaríamos pendendo mais para o
"até amanhã". Ou até nunca mais, que seria melhor.

Talvez a Globo tenha motivos para celebrar esses 30 anos da nossa "Voz do Brasil", versão televisiva. Ainda é o programa mais assistido no Brasil, se bem que a audiência caiu de 70 pontos de Ibope, nos anos 80, para os 40 atuais. Mesmo assim, 40 é ponto que não acaba mais, permitindo que a Globo cobre cifras estratosféricas para suas inserções comerciais.

Para qualquer pessoa que não tenha a televisão como única fonte de informação, que leia jornais e revistas e questione o que vê, o Jornal Nacional não assusta. A lavagem cerebral só funciona com aqueles (que não são poucos) que acreditam em tudo que aparece na telinha, no estilo "Deu no New York Times" - o que sai é lei. E não é à toa que o jornal se chame nacional, já que continua sendo o porta-voz da moral e de qualquer governo federal.

Quando você pensa em Jornal Nacional, quais são as primeiras imagens que vêm à sua mente (fora o Cid Moreira; deixa o velhinho no Fantástico anunciando mister M)? Eu me lembro de quando, em 1982, a Globo manipulou os números das eleições para governador do Rio - o escândalo Proconsult. O JN tentou eleger qualquer um que não fosse seu arquiinimigo Brizola na marra. Não deu certo por pouco.

Em 1984, época das diretas-já que a emissora de Roberto Marinho não mostrava, a Globo estava tão impopular (apesar de altamente popular no Ibope) que não podia sair com as caminhonetes com o logotipo, sob o perigo de ser apedrejada. O slogan para quem participou dessas manifestações era inolvidável: "O povo não é bobo; abaixo a Rede Globo!". O tempo provou que o povo é bem bobinho sim. Tanto que chorou com a morte de Tancredo. O JN do dia pôs no ar a comovida Fafá de Belém cantando o hino, e a gente se derramou pelo nosso novo Tiradentes.

Após o JN ter sido fiscal do Sarney, promovendo o cruzado a torto e a direito, foi a vez de dar uma mãozinha na eleição direta para presidente. A Globo tinha seu candidato: Collor. Dizer que a emissora só beneficiou o primeiro Fernando na edição daquele famigerado debate é injusto. Desde o início da campanha, em 1989, deu muito mais destaque e elogios a Collor. O debate editado e as imagens dos seqüestradores do Diniz com camisetas do PT foram só a gota d'água, o toque de mestre.

O orgulho global por haver eleito seu escolhido não durou muito - e talvez tenha sido aí o começo da despolitização do JN. No final de 1992, o país parou... Mas não para assistir ao impeachment de Collor, e sim por causa do assassinato de Daniela Perez. A morte da atriz recebeu cobertura mais ampla do que a deposição do presidente.

Eu ainda me lembro vagamente das eleições do ano passado, quando o JN omitiu uma candidata de SP e tirou do segundo turno a Marta Suplicy. E, com os discursos do Arnaldo Jabor, sempre bem afinados com os da Globo, o JN permanece bastante político. A própria despolitização tem por trás um projeto político. Quando o JN gasta metade dos seus escassos vinte minutos para falar da macaca Capitu, pode apostar que alguma notícia importante está sendo esquecida. Na véspera da privatização das teles, só pra ficar num exemplo clássico, o JN foi dedicado à Sasha. O diretor do JN alega que é o povo que está alienado, e que a Globo só segue a tendência. O que veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Hoje, o JN é uma mistura de Video Show, uma vitrine para as atrações globais, como o Globo Repórter. É um programa de variedades, mas que continua cumprindo bem sua missão de alienar, disfarçar, e manipular. Não há o que festejar. Como diriam os apresentadores após a notícia ruim, até amanhã.