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segunda-feira, 5 de junho de 2017

GUEST POST: NÃO ADIANTA SÓ DESLIGAR A TELEVISÃO

Naílle Conceição é estudante, negra, feminista, e escreve para a Obvious. Ela nos brindou com este texto sobre o poder nefasto da TV. 

O caso José Mayer nos trouxe dois exemplos sobre feminismo. Um foi a belíssima movimentação de mulheres dentro e fora da Globo cobrando um posicionamento da emissora e o cumprimento da lei, e outro foi como o feminismo é temido e necessário, a partir de declarações de homens e mulheres a favor de Mayer, mesmo depois da divulgação de uma carta aberta onde ele confessava o assédio e pedia desculpas. 
Atrizes como Betty Faria e Maitê Proença saíram em defesa do autor, acompanhadas de Caio Blat, Oscar Magrini e Aguinaldo Silva. Alguns desses citados chegaram a culpar a figurinista Su Tonani pelo assédio que ela sofreu, expondo o quanto as discussões sobre a cultura do estupro se mostram necessárias.
A emissora, assustada com a proporção do protesto, resolveu afastar o ator da próxima novela que participaria, levando muitos a elogiá-la pela atitude, mesmo a contragosto. Porém, como lembrou uma juíza, a emissora possui um histórico de machismo naturalizado em suas produções, com direito a relacionamentos abusivos e rivalidade feminina exacerbados. 
Ainda no mesmo período, a expulsão de Marcos Harter do Big Brother Brasil engrossou a mensagem que foi o tema da campanha: Mexeu com uma, mexeu com todas. Apesar do programa não ser o melhor exemplo para assuntos que envolvam ética e conteúdo, as imagens da advogada Vivian Amorim explicando à vítima Emilly Araújo a violência que ela sofreu e depois lhe dando um abraço foram um exemplo perfeito de sororidade, já que as moças não eram amigas.
Em tempos onde as problematizações estão em alta, assuntos como feminismo, racismo, homofobia e apropriação cultural começaram a ocupar espaço na mídia. As emissoras de televisão tiveram que acompanhar o público e se mostrar a favor das pautas. A Globo chegou a ser elogiada por exibir beijos entre casais homoafetivos em diversas novelas; porém, alguns desses beijos foram usados apenas como artifício para levantar audiência, como na novela Em Família, que apresentou o casal Clara e Marina. O primeiro beijo das duas foi anunciado semanas antes da exibição. O fato da primeira negra protagonista de Malhação em mais de vinte anos trouxe esperança para o público, mas ela foi destruída após os primeiros capítulos. 
Joana foi um conglomerado de estereótipos. Ao contrário de suas antecessoras, todas estudantes, a personagem era faxineira e não sabia quem era seu pai, já que sua mãe teve um caso com dois homens ao mesmo tempo, e Joana quase repetiu a história, se o relacionamento com um dos rapazes, que eram irmãos, não tivesse caído no gosto do público. A vilã Bárbara, gordofóbica, racista e xenofóbica, foi adorada pela audiência mesmo depois de gritar que Joana não poderia ser sua irmã porque era negra, pobre e nordestina, refletindo a ideologia da maioria dos telespectadores.
A novela em que José Mayer e Su Tonani trabalharam juntos se chamava A Lei do Amor e trazia exemplos pesados de machismo todos os dias. Com três enredos de infidelidade, as mulheres brigavam entre si e inocentavam os maridos. O personagem de Mayer constantemente chamava a ex-mulher e mãe de seus filhos de “vadia” e a mulher que dizia amar de “quenga”. Em determinado capítulo um personagem disse que o caos surgiu no mundo quando uma mulher deu de cara com outra.
No meio de tantos erros, a novela da sete, Rock Story, vinha se mostrando um acerto ao tratar de assédio e pornografia da vingança. O personagem Léo Régis, provavelmente inspirado no cantor Biel, se vingou da ex-noiva espalhando fotos íntimas dela na internet e sofreu as consequências do ato. Tempos depois Léo assediou a personagem Manu e a abordagem chamou atenção, pois a moça estava de topless em uma praia no momento do assédio, chegando a ouvir que a falta de roupa era um convite, argumento comum dos machistas. 
As tramas foram muito bem executadas e a autora Maria Helena Nascimento foi elogiada pela crítica. Outro ponto positivo de Rock Story era a inserção de atores negros em personagens não estereotipados, como um médico e o advogado interpretado por Rocco Pitanga. Mesmo com esses acertos, a novela se mostrou bastante equivocada em dois casos envolvendo assédio e agressão.
A personagem Mariane perseguiu durante anos o protagonista Gui Santiago, chegando a ser presa por isso. Ela também engravidou dele e abandonou o filho anos depois. Manipulada por um inimigo de Gui, ela chegou a procurá-lo várias vezes e caiu de uma escada bêbada. Foi convencida a acusá-lo para desmentir em rede nacional depois. Mariane é o perfeito estereótipo de mulher louca obsessiva, construída de modo que fica praticamente impossível ter empatia por ela. 
Além dela a novela nos apresentou Nanda, secretária de Salomão e apaixonada por ele. No começo a jovem apenas tentava se aproximar do homem por quem sentia atração, depois inventou para a namorada dele que após uma recusa Salomão a havia trancado em um quarto e viajado para outro estado.
Quando a armação foi descoberta e o casal se reconciliou, Nanda surtou. Literalmente. Agora a personagem está internada em um sanatório. Simplesmente louca. 
Em relação à trama de Mariane, surgiram boatos de que a autora Maria Helena Nascimento e os atores Vladmir Brichta e Aline Moraes não concordaram com a trama. Maria Helena então colocou um adendo através de Diana (Aline Moraes) onde a personagem falava de maneira quase didática o quão prejudicial para as mulheres são as falsas acusações e o fato de que somos desacreditadas na maioria das vezes e a dificuldade que temos em denunciar.
Ao parar e contar a quantidade de mulheres loucas em uma novela é estarrecedor relembrar as estratégias para conquistar um homem, desde fingir gravidez até doença terminal. Os homens que cometem loucuras são apenas apaixonados e tudo segue seu caminho, mesmo sequestrando mocinhas na reta final para que o herói venha salvá-la
Na semana passada, a trama que chamou atenção foi na novela A Força do Querer, de Glória Perez, cujos trabalhos anteriores sempre foram carregados de merchan social, como a interessante abordagem do tráfico internacional de pessoas em Salve Jorge. Em Força a personagem Cibele estava noiva de Rui, que a traiu em uma viagem para outro estado e trouxe a outra menina escondida para o Rio de Janeiro. 
O rapaz não teve coragem de contar à noiva que não desejava se casar e havia engravidado a moça, que ele tentava mandar de volta pro Pará visando se livrar do problema. Rui chegou a ser violento com Cibele, colocando o dedo em seu rosto de maneira autoritária, mas a moça foi a uma delegacia no capítulo de 29/05 aumentando a história e solicitando o uso da Lei Maria da Penha. Nas respostas ao tweet de Glória, que comentava a novela durante sua exibição, alguns homens e mulheres criticavam a personagem e diziam que “a justiça seria feita”, mostrando como as mulheres são mentirosas. 
No mesmo capítulo, o personagem Eugênio conversou com o amigo Caio sobre a aproximação de Irene e seus temores em relação a isso. Meu pai, que assistia à novela com a família, criticou a trama porque Eugênio iria trocar a esposa por uma mulher que não era mais bonita, e criticou Irene porque estava tentando conquistar Eugênio. 
Quando eu argumentei que ele era o principal errado pois devia respeito e fidelidade a sua esposa, com quem ele tinha dois filhos e agora um neto (Eugênio é pai de Rui), ele quis encerrar o assunto. Imagino que minha casa não deve ter sido a única com esse tipo de discussão, nem que meu pai foi o único a culpar Irene. O próprio enredo faz isso ao apresentá-la como grande vilã da novela, ao passo que Eugênio é apenas um homem tentando recuperar seus sonhos e sua felicidade. 
Sabe-se que na vida real a situação é outra, mas até novelas que tentam abordar violência doméstica falham na mensagem. Em A Regra do Jogo a situação de Domingas foi resolvida com a chegada de um príncipe misterioso que simplesmente se instalou na casa dela, fazendo serviço doméstico sem camisa, exibindo seu belo tanquinho. O marido abusivo foi embora porque quis, e se outro homem não aparecesse ela continuaria sendo humilhada e espancada.
A personagem não teve voz para mudar a própria história. Meu medo é que as telespectadoras que se identificaram com a situação tomassem o final da trama como verdade absoluta e se calassem ainda mais para a violência e os abusos. 
Uma das poucas novelas que tratou violência doméstica de maneira correta foi A Favorita, do mesmo autor de A Regra do Jogo (João Emanuel Carneiro), pois mostrava a personagem Catarina redescobrindo sua beleza e o amor que a cercava: família, amigos, filhos. No final ela desiste de outro casamento porque sentia que aquilo iria limitá-la e faltavam coisas para ela viver, e ela foi vivê-las. 
Há alguns meses, na mesma semana todas as novelas exibidas na Globo apresentaram uma mulher voltando para atormentar a vida do ex parceiro. 
Elas foram Loretta em Sol Nascente, Laila em Rock Story, e Laura em A Lei do Amor. Loretta havia abandonado marido e três filhos por um homem rico, Laila havia traído Salomão e fugido com o amante deixando apenas um bilhete, e Laura, apesar de não ter vindo ao Brasil por Pedro, acabou dormindo com ele e atrapalhando seu romance com Helô. Foi como se as mulheres não tivessem mais o que fazer da vida a não ser atormentar o “coitado” do ex que já tinha seguido em frente. Um exemplo de como as mulheres são loucas e maldosas e os homens são todos uns santinhos.
Assim como nos casos Mayer e BBB, a agressão de Victor da dupla Victor e Léo fez com que vários homens se sentissem ameaçados por mulheres. Como eles conseguem dizer absurdos como “as mulheres fazem isso pra prejudicar a vida dos homens”, quando os casos de mulheres estuprando, assediando, agredindo e intimidando homens é praticamente zero?
Para esses machistas convictos, vocês estão assistindo Garota Exemplar demais.
É muito bonito e muito importante ver mulheres se mobilizando em prol da causa, mas infelizmente não é o suficiente. Temos muitos focos de incêndio para apagar. De um lado existem os machistas de outrora que influenciam os novos, do outro mulheres que renegam o movimento que lhes deu voz e direitos, e ainda há a mídia. Toda vez que uma família se reúne na sala para ver essas representações maquiadas do cotidiano é como se naturalizasse o que está na tela. 
Mas quando abrimos as páginas dos jornais, a realidade vem de punho fechado em nosso estômago, mostrando que as mulheres ainda sofrem diversas violências que são julgadas como naturais, mas não são.
Devemos continuar protestando para impedir que a próxima Su seja assediada, devemos continuar nossa luta diária e se possível nos esforçar mais para que situações lamentáveis como essas das novelas não continuem a aparecer. Mas a responsabilidade nessa questão não é só nossa. 
Antes da #MexeuComUmaMexeuComTodas a Globo planejava limpar a imagem de Mayer no fim do ano, assim como ensaiou com Victor. Se não fosse por aquelas atrizes, a dona deste blog, eu, você e as muitas outras feministas espalhadas pelo Brasil, esse seria mais um caso de impunidade. A tarefa é árdua e cansativa, mas é preciso continuar, pois não é a vida que imita a arte. A arte imita a vida. E eu quero ver o resultado dos nossos esforços na internet, na televisão e na vida.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

"A VERDADE É QUE A REDE GLOBO COISIFICA AS MULHERES"

A juíza federal do Trabalho Roberta Araújo, de Pernambuco, escreveu em suas redes sociais um texto que vale a pena compartilhar (apesar de certo tom moralista). 
Capa didática do Meia Hora, 11/4
Ela não menciona a expulsão de Marcos do BBB17, mas é preciso lembrar -- se a Globo realmente combatesse a violência contra as mulheres, não teria colocado um tipo como Marcos no programa. A heroína, no caso da expulsão do agressor, foi a delegada Márcia Noeli, que mandou a polícia entrar na casa para investigar lesão corporal em Emilly.
O texto da juíza Roberta:

Queridas, antes de divulgar e exultar com a postura da Globo em “punir” José Mayer por assédio ou afastar Otaviano Costa do vídeo show por rir de atitude machista do Big Brother lembrem-se de que foi a Globo que universalizou entre nós a cobiça por Anita, apresentada como uma “ninfeta” ousada que seduzia um homem casado e com idade de ser seu pai.
Foi a Globo que nos apresentou Angel, uma adolescente que permeou o imaginário dos desejos mantendo um ardoroso caso com o marido da sua própria mãe.
Foi a Globo que em Laços de Família envolveu o Brasil na polêmica trama em que a jovem filha rouba Edu, o namorado da mãe, interpretado por Reynaldo Gianecchini.
Foi a Globo que em Avenida Brasil nos trouxe como núcleo de comédia a trama com três mulheres envolvidas com o mesmo homem -- o empresário Cadinho -- e que declinam das suas vidas e dignidade para se sujeitarem a viver com ele, mesmo após se descobrirem enganadas.
Em Império, a Globo preencheu o imaginário de desejos com a trama do charmoso Comendador que mesmo casado com Marta mantinha um fogoso affair com uma menina mais jovem que sua própria filha.
Foi a Globo que fez o Brasil se divertir com o programa Zorra Total, que tinha em seu quadro principal duas amigas em um vagão, sendo uma delas, a Janete, bolinada de várias formas e tocada em suas partes íntimas com a batuta de um maestro enquanto a sua amiga Valéria, ao invés de defendê-la, dizia: “aproveita. Tu é muito ruim, babuína. Se joga.”
Então queridas, quando essa emissora diz em nota que “repudia qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito” está em verdade sendo dissimulada e ofensiva por nos considerar alienadas ou parvas. A verdade é que a Rede Globo coisifica as mulheres, naturaliza a violência, os abusos e assédios, incentiva o desrespeito, ridiculariza o papel e a posição da mulher e subalterna nossa dignidade.
São mensagens explícitas e subliminares como as que esta Rede Globo universaliza e crava no imaginário masculino brasileiro que estupram, abusam, ferem e vitimam milhares de Mirellas que habitam entre nós.