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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

SOMOS TODOS NANDO MOTTA

Fiquei sabendo hoje de uma notícia que me deixou indignada: Luciano Hang está processando o excelente cartunista Fernando Rosário Motta por uma charge publicada em setembro no site Brasil 247.

Em agosto, foi noticiado em todos os jornais que a mãe do dono da Havan morreu em fevereiro de covid, depois de servir como cobaia ao ser tratada com o kit covid num hospital da Prevent Senior. O negacionista Hang foi chamado para depor na CPI da Covid pra se explicar se teria alterado a causa de morte da mãe (assim como havia tentado fraudar a do pai em 2010, que se suicidou).

Foi em cima desses fatos que o chargista Nando Motta fez sua arte: colocou figuras conhecidas do terror, como Chucky, Jason, Hannibal e o palhaço Pennywise do filme It, para chamar de "monstro" uma, como direi, figura conhecida do terror brasileiro. Mas o empresário sonegador tem uma equipe de advogados prontinhos para entrar com ações contra qualquer um que criticá-lo, já que o bilionário tem ambições políticas: quer ser senador por Santa Catarina. 

O youtuber Felipe Neto informou no mês passado que Luciano Hang "processa jornalistas e críticos a cada 26 dias, em média. Contra mim, ele já perdeu duas vezes. Agora processou de novo. Se perder, eu quero música" (pasmem: Hang processou Felipe porque o influenciador o "xingou" de "desgraçado"). É notório que o Véio da Havan tenta intimidar através da justiça e do poder da grana dezenas de jornalistas. Do Nando Motta, está exigindo R$ 50 mil de indenização por danos morais e a remoção da charge. Uma ameaça flagrante à liberdade de expressão.  

Não é a primeira vez que a extrema-direita persegue artistas. Ano passado o estupendo cartunista Renato Aroeira foi "investigado" pelo Ministério da Justiça por, numa de suas charges, associar o nazista Bolso ao nazista quando o pior presidente pediu que seguidores invadissem hospitais para verificar se estavam ocupados por pacientes com covid (a ação foi arquivada em maio último). Aroeira se pronunciou agora

"O Véio da Havan (aliás, mais novo que eu), o Luciano Hang, está processando o chargista Nando Motta. Por causa de uma piada... O que passa na cabeça de alguém que quer processar uma piada? Que quer proibir uma charge? Sim, passa exatamente isso que todo mundo pensou. O Nando não cometeu nenhum crime: apenas desenhou  -- de maneira brilhante, como sempre -- o que ele viu. E o que ele viu foi o óbvio: Luciano Hang é um monstro. Um monstro terrível, um dos vários que estão aí à solta... Mas é ridículo. Um monstro muito ridículo. Tão ridículo que processa chargistas. Bem, Lulu... A má notícia é que somos muuuuuuitos. E a charge continuada... Continua. Agora pra assombrar você, Véi..." 

A #chargecontinuada a que Aroeira se refere foi uma iniciativa da revista Pirralha, que ano passado reuniu 109 cartunistas para apoiá-lo

Agora estão fazendo o mesmo por Nando. Algumas dessas fantásticas "charges continuadas" ilustram este post. 

Há também várias hashtags de apoio no Twitter, como Somos Todos Nando, Somos Todos Nando Motta, e Chargistas Contra Censura. 

Obviamente não precisa ser chargista pra se posicionar contra a censura e o assédio jurídico. Vamos tds espalhar a arte do Nando e as charges continuadas dos seus colegas cartunistas. 

Será que o Véio da Havan e seu timinho de advogados conseguem calar todo mundo? 

E como fica a imagem do empresário bolsonarista que usa seu dinheiro (da próxima vez que você for cobrado, peça também 115 anos para saldar uma dívida) para tentar silenciar críticas? 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

SOMOS TODOS AROEIRA: GOVERNO NAZISTA PERSEGUE CHARGISTAS

Duas notícias inquietantes, e a meu ver interligadas, fizeram muita gente erguer as sobrancelhas. 
A primeira foi que a Folha de SP e quatro de seus cartunistas têm que se esclarecer criminalmente na Justiça a respeito de cinco charges que criticavam a violência policial no Brasil em dezembro. 
Foi quando uma ação policial durante um baile funk na favela de Paraisópolis causou nove mortes. Cartunistas incríveis como Laerte, Bennet, João Montanaro e Claudio Mor deixaram registrado o seu espanto através de charges contundentes, que publico aqui.
Só que, seis meses depois, uma associação bolsonarista chamada Defenda PM (de SP) considerou as charges "constrangedoras" e interpelou seus autores. Esse pedido de esclarecimento criminal serve como prelúdio a uma ação penal. 
A gente que é de esquerda e constantemente processada sabe que quase sempre esses processos têm como objetivo, muito mais do que ganhar a ação, incomodar e tentar silenciar. No caso, a tentativa é de calar chargistas, que se expressam através de ilustrações.
A outra notícia é que uma charge de Renato Aroeira (com quem compartilhei uma live da TV 247 no sábado; ele é uma simpatia, e muito inteligente) perturbou o governo. Pouco depois de outra declaração criminosa de Bolso -- esta incentivando seus seguidores a invadirem hospitais --, Aroeira fez esta charge brilhante:
A Secretaria Especial de Comunicação (Secom) avisou que Aroeira e o jornalista Ricardo Noblat (o primeiro a compartilhá-la) serão processados por crime de falsa imputação contra Bolso. 
Eu aposto que Bolso vai perder o processo. Afinal, há jurisprudência! Em fevereiro do ano passado, uma desembargadora do Rio decidiu que esta charge -- também do Aroeira -- não ofendia a honra de um sujeito que posa tranquilamente para fotos com nazistas. 
O capetão nazista perderá novamente!
A ameaça de processo criou uma onda de solidariedade para Aroeira, com a tag #SomosTodosAroeira e uma petição pela liberdade de expressão, que já conta com mais de 60 mil assinaturas. 
Vários chargistas criaram cartuns em sua homenagem. Outros reproduziram a charge de Aroeira usando seus próprios traços.
Sem medo, Aroeira também fez uma charge respondendo à ameaça de processo.

Pra mim é inacreditável que tudo bem mandar invadir hospitais (ainda mais em tempo de pandemia!), mas chamar de nazista quem manda invadir hospital dá processo.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

FACADA FEST, UM ATO QUE PERTURBA BOLSO E SEUS LACAIOS

Ontem de manhã o pessoal do Facada Fest entrou em contato comigo, e pouco depois saiu uma matéria extensa na Folha de SP sobre o coletivo de punk rock de Belém. Hoje o #FacadaFest chegou ao topo dos Trending Topics do Twitter. 
O festival acontece na capital do Pará desde 2017, ou seja, bem antes da "fakeada do mito". Em junho do ano passado, Carluxo se incomodou com uma das imagens de divulgação do festival, que mostrava um palhaço com faixa presidencial sendo empalado por um lápis. Um ex-delegado e agora deputado federal do Pará pela extrema-direita compartilhou o cartaz na sua rede social. 
O autor da imagem do palhaço, o artista Paulo Victor Mauro, explicou que, quando fez a arte, o país estava no meio das manifestações em defesa da educação. "Por isso me deram a ideia de fazer o lápis, que representa a educação, derrotando essa palhaçada. [...] Não tem incitação de matar ninguém. Não passamos a ideia de fuzilar oposição", alfineta ele. 
Mas Carluxo não viu desse jeito, e tuitou: 
"Tá valendo tudo nesse país da p*taria da esquerda. Está na hora de agir antes que seja tarde". Os organizadores então adiaram o festival, já que ele aconteceria em lugar aberto (em frente ao Mercado de São Brás) e poderia atrair reaças para brigar. O Facada Fest 3 foi remarcado em julho para um lugar fechado. Porém, meia hora antes do início, quase vinte viaturas policiais chegaram para impedir o evento. Inventaram que um dos alvarás estava vencido.
Finalmente, após a mobilização da esquerda contra a censura, o Facada Fest ocorreu dois meses depois, com grande sucesso. E ainda gerou outras edições em cidades como Belo Horizonte, Campinas, Curitiba e Marabá (com cartazes que também incomodam muito). 
Mas a censura não dorme em serviço. 
Graças ao presidente do Instituto Conservador, que fez representação criminal contra os organizadores por crimes contra a honra de Bolsonaro, o assunto acabou na Procuradoria-Geral da República e no Ministério da Justiça, comandado por Sérgio Moro, que ordenou a abertura de um inquérito por apologia ao crime. Depois Moro negou que a investigação foi sua, mas que "poderia ter sido" (mentira!). Ontem quatro integrantes do coletivo foram chamados para depor na Polícia Federal.
Uma das fundadoras do Facada, Josy Lobato, aponta que o Facada Fest não é um festival de rock, mas um ato político e cultural. E ela compra a briga: "Ficamos surpresos, mas não vamos parar por conta disso [do inquérito, da perseguição policial]. O Facada nasceu na periferia, já sofremos violência todos os dias. Se incomoda é porque estamos fazendo barulho".
Segue o manifesto que o Facada me enviou ontem:
SERGIO MORO PERSEGUE FESTIVAL DE ROCK PARAENSE
Cartaz de Marabá, PA
Os integrantes do festival de rock Facada Fest foram intimados a comparecer a Polícia Federal para prestar depoimento. Em despacho assinado pelo Ministro da Justiça, Sergio Moro, e pelo Procurador Geral da República, Augusto Aras, a organização do festival é acusada de "apologia de crime" e "crimes contra a honra" do presidente da república, Jair Bolsonaro. O motivo, alega o Ministro da Justiça, é a ilustração do cartaz do evento. Em tom satírico, ela mostra o triunfo da educação sobre o obscurantismo ao retratar um palhaço empalado por um lápis. Realizado em junho do ano passado, o Facada Fest foi um sucesso de público e não registrou nenhuma ocorrência policial, além de ter arrecadado brinquedos para o instituto infantil Bianca e Adriele. Os depoimentos acontecem hoje [ontem] às 14:00 horas, na sede da Polícia Federal em Belém do Pará. 
A perseguição ao Facada Fest começou em junho do ano passado. Na ocasião foram mobilizadas quase duas dezenas de viaturas -- entre PM, Polícia Civil, Choque, Secom e Bombeiros -- para reprimir o evento, que acabou sendo cancelado e realizado um mês depois. Com um público estimado em três mil pessoas, o Facada Fest contou ainda com shows de rock, punk rock, hardcore, rap, oficinas de reciclagem e compostagem de lixo, exposição de artes plásticas, leitura de poesia e arrecadação de brinquedos para o instituto Bianca e Adriele, que cuida de crianças carentes no bairro da Pratinha, região metropolitana da capital paraense.
Com tantos problemas ocorrendo neste momento no Brasil -- motim das polícias militares, degradação ambiental na Amazônia e os indícios cada vez mais fortes de ligações entre políticos e milicianos -- causa-nos espanto o uso do aparato judicial e policial de nosso país na repressão de um festival de música. Criminalizando a atividade artística e a liberdade de expressão, garantidas pela Constituição de 1988, a Constituição Cidadã.
Seguiremos em frente. Certos de que o bom senso e a justiça prevalecerão. E que, em respeito a nossa Constituição, o direito à atividade artística e à liberdade de expressão será assegurado.
NÃO NOS CALARÃO.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

O QUE DEVE SER CANCELADO? EIS A QUESTÃO

Ainda não vi o Especial de Natal do Porta dos Fundos, que está causando tanta polêmica que os reaças promoveram um boicote à Netflix. Eles, que são tão contra o politicamente correto, agora pedem a censura. 
Eu só vi o trailer, e não me pareceu grande coisa. Eu continuo amando A Vida de Brian, um grande filme do Monty Python que a Igreja Católica boicotou em 1979. 
E adorei esse sketch que o Saturday Night Live fez em 2013, o Jesus Uncrossed (Jesus Descruzado). 
Deixo com vocês o texto que o padre Francys Silvestrini Adão SJ publicou no seu Facebook.

Algumas considerações sobre a polêmica do momento: cancelar ou não cancelar a assinatura da Netflix por causa do "Especial de Natal" produzido pelo grupo Porta dos Fundos.
1. Blasfêmia e sátira estão em dois campos de sentido diferentes. A blasfêmia é uma possibilidade de desvio dentro da comunidade de fé. A sátira é uma linguagem e um recurso crítico do campo das artes, de tipo humorístico.
O especial do ano passado
ganhou o Emmy
2. Quando, por diversas razões, os humoristas tentam entrar no campo religioso, é importante distinguir o “alvo” que querem atingir. O “alvo” da blasfêmia é Deus. O “alvo” da sátira é a imagem de Deus projetada publicamente por aqueles que dizem crer nEle. Os que se utilizam da sátira falam sobre nós, nossas crenças, nossas práticas; não sobre Deus.
3. A sátira se constrói com caricaturas: às vezes, exagerando traços que vão na linha da crença comum, para fazer enxergar o que não se vê; às vezes, construindo imagens chocantes, para provocar criticamente a crença comum.
4. Um grupo de humor não tem, em si mesmo, compromisso com o Jesus dos Evangelhos. As igrejas cristãs, essas sim, deveriam sempre ter. Num momento em que uma figura de Jesus domina a cena pública, com implicações políticas para toda a população, essa “figura” (que, como qualquer interpretação, nunca será idêntica a Jesus) pode se tornar alvo de todos os sujeitos de uma sociedade.
5. Ninguém precisa gostar de um grupo de humor (este, pessoalmente falando, não é o estilo que aprecio). Mas este desconforto e revolta que vários cristãos estão sentindo podem ser um alerta: a sátira, talvez, nos coloque diante do verdadeiro risco de blasfêmia que estamos correndo (nós, que cremos). Não esqueçamos: nas Escrituras, Deus transmitiu sua mensagem até mesmo pela boca de uma mula!
6. Ocasião, então, para um exame de consciência: a imagem de Jesus que temos projetado publicamente (em palavras e em gestos) é, realmente, aquela que nos transmitem os Evangelhos? Trata-se dAquele que, encarnando-se na periferia da periferia daquele tempo, veio trazer Vida em abundância para todos? Somos reflexo do Jesus que -– para anunciar a vitória da graça sobre as infidelidades de todos nós -– preferiu caminhar e conversar com pecadores, prostitutas, pobres e doentes, ao invés de convencer sacerdotes do Templo, mestres da Lei e fariseus?
7. Será que a caricatura satírica, para muitos desagradável, deste controverso “Especial de Natal” não seria uma ocasião favorável para examinarmos a possível caricatura blasfemadora que muitos de nós, crentes, estamos projetando no espaço público de nosso país? Declaramos guerra a um “mundo perdido”, sem considerarmos nossa sempre necessária e contínua conversão à Santidade de Deus, que deseja que nenhum de Seus filhos se perca?
8. Neste tempo de Advento, façamos nosso próprio “Especial de Natal”, agradável a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo: cancelemos todas as falsas imagens de Jesus que estamos consumindo e divulgando. Abracemos, de modo definitivo, o Jesus dos Evangelhos, o Cordeiro manso e humilde de Deus, o Anunciador incansável da Misericórdia do Pai, o Único que é uma Boa Notícia para nós e para todos.
PS.: Não estou jogando com teorias... Se não ficou claro, que fique agora: há, no mínimo, silêncio nosso diante dos feminicídios, invasões e assassinatos em terras indígenas e quilombolas, precarização do direito dos idosos, truculência com pessoas pobres que não cometeram crime (inclusive crianças!)... Segundo a mais sólida doutrina cristã, essas pessoas são "imagem de Deus". O risco de blasfêmia ao qual faço alusão é absolutizar símbolos (ainda que importantes) e relativizar vidas (sempre insubstituíveis). Seria o contrário do que fez Nosso Senhor Jesus Cristo.
As imagens usadas para ilustrar o post são escolhas minhas, não do padre