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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A NOITE MAIS ESCURA DO CHILE

O pior aconteceu num dos nossos países vizinhos: a extrema-direita voltou ao poder no Chile. Dias tristes e perigosos para toda a América Latina. Publico aqui o texto da jornalista Isabela Vargas. Isabela é mãe da Gabriela, feminista e integra a coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile, que organizou os protestos do #EleNao no Chile.

Pra quem está em Porto Alegre, no dia 20 de dezembro, a partir das 18h30, no Espaço Cultural Maria Maria, Isabela estará lançando seu livro Viajando na Cordilheira - Um Diário de Vida, não de Viagem. É uma coletânea de textos sobre as vivências de uma jornalista brasileira como imigrante no Chile. 


O candidato ultraconservador de extrema direita Jose Antonio Kast é o novo presidente do Chile. Isso significa que a partir de 11 de março de 2026 teremos uma administração muito parecida com a da Argentina e dos Estados Unidos. 

Mas como explicar esse voto dos chilenos depois dos protestos em 2019 que levaram Gabriel Boric à presidência? Aliás, quando Boric foi eleito presidente, derrotou justamente Jose Antonio Kast nas urnas. Só que dessa vez, os chilenos deram um recado claro: quase 60% dos eleitores votaram por um governo ultraconservador.

Vários fatores ajudam a entender o que aconteceu no cenário político chileno. Em primeiro lugar, desde o início da gestão Boric a mídia tradicional bateu todos os dias no governo. Os programas de TV transmitiram a sensação de que o Chile é um dos países mais violentos do mundo e que a segurança pública era um tema urgente.

Em segundo lugar, a escolha da ex-ministra Jeannette Jara, integrante do Partido Comunista, para concorrer à presidência, na minha humilde opinião, também foi um fator chave. Nas prévias, confesso que não votei nela, mas na socialista Carolina Tohá.

A minha escolha foi simplesmente pensando em responder à pergunta: quem tem mais possibilidades com o eleitorado? O Partido Comunista do Chile tem excelente quadros, mas ao mesmo tempo enfrenta uma forte resistência por parte dos eleitores chilenos. Por isso, o Boric ganhou as prévias contra Daniel Jadue, também do PC, na eleição anterior.

Em terceiro lugar, e não menos importante, a estratégia de campanha do Kast nessa eleição foi evitar os temas justamente onde suas opiniões são mais conservadoras. Dessa vez, o enfoque foi totalmente no tema da segurança pública, com um forte discurso xenofóbico, e na economia, prometendo muito sem detalhar suas propostas.

Um aspecto muito importante é que Kast sabia que maioria das eleitoras evitou votar nele em eleições anteriores. Por isso, nessa eleição ele preferiu não falar sobre os direitos das mulheres pensando em conquistar o eleitorado feminino. Apesar disso, no discurso de encerramento de campanha no primeiro turno, em Viña del Mar, uma das frases de Kast foi: “Vamos falar de Deus novamente, da pátria e da família”. 

Igualzinho ao Bolsonaro. Aliás, ele é muito próximo ao ex-presidente brasileiro recentemente condenado. Assim como Bolsonaro, Kast é um admirador de Pinochet e de outros militares condenados por violações de diretos humanos durante a ditadura militar. O mais famoso deles é Miguel Krassnoff, um dos oficiais do exército envolvidos no planejamento e administração de Villa Grimaldi, campo de detenção usado para a tortura de cidadãos chilenos no regime de Pinochet.

É muito estranho pensar que apenas quatro dias depois de celebrar o Dia dos Direitos Humanos, o Chile escolha como presidente justamente um político que ignora que este país ainda procura 1.469 pessoas. Como se fosse pouco, Kast em reiteradas ocasiões afirmou sua intenção de perdoar os responsáveis ​​diretos por essas violações que fazem com que muitas famílias continuem à espera de desparecidos políticos. Hoje, o Chile voltou atrás em inúmeras conquistas e talvez nunca mais saia desse lugar de retrocesso e escuridão. 

terça-feira, 14 de novembro de 2023

IRINA KARAMANOS, A MAIS JOVEM EX-PRIMEIRA DAMA DO CHILE

Publico aqui mais um excelente post da nossa correspondente oficial no Chile, a jornalista Isabela Vargas (que, além de jornalista, também é mãe da Gabriela, feminista e integrante da coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile). 

Perguntei pra ela se lá no Chile as pessoas andam preocupadas com as eleições da vizinha Argentina, que no domingo pode eleger o maníaco da serra elétrica Javier Milei, causando um grande estrago em toda a América Latina. Ela respondeu que no Chile todos estão em campanha contra o texto da nova constituição, que foi escrito por um conselho constitucional formado pela extrema-direita. O plebiscito está marcado para o dia 17 de dezembro. "Torce por nós!", pede ela. "Tem muito retrocesso no novo texto. Consegue ser pior que a constituição do Pinochet".

A gente não tem um minuto de paz! Mas leiam sobre essa decisão da (ex) primeira-dama chilena e avaliem se pode influenciar outras primeiras-damas. Nossa Janja, sabemos bem, é alvo constante da extrema-direita daqui, mas parece gostar de ser primeira-dama (ela tem opção?). Eis o post da Isabela:

Na última semana, as redes sociais do Chile sacudiram com trechos do TED Talk com a ex-primeira-dama chilena Irina Karamanos Adrian. Num dos vídeos, ela explica os motivos que a levaram transformar o papel tradicionalmente atribuído às companheiras dos presidentes eleitos nas democracias modernas.

O argumento é muito interessante e bastante válido. Na visão de Irina, o cargo de primeira-dama é resultado de afeto e não de um processo democrático. Por conta disso, ela abandonou o cargo em dezembro de 2022, mas antes disso, fez as transformações necessárias.

Na apresentação do TED Talk, Irina explica que nem ela, nem ninguém mais, sonha com ser primeira-dama do Chile, quando se pensa em um futuro profissional. No caso dela, é fácil de entender, especialmente, porque além de feminista, militante do mesmo partido do Gabriel Boric (Convergencia Social), ela tem um excelente currículo, especialmente na área acadêmica.

Irina é formada em Artes Visuais e estudou Ciência Política, Educação e Antropologia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Além disso, tem diploma em Diversidade Linguística pela Universidade Autônoma de Barcelona.

Aliás, em se tratando de diversidade linguística, o currículo dela realmente impressiona. Ela fala espanhol, alemão, inglês, indonésio básico e grego. Recentemente, começou a estudar Kawésqar, língua do povo originário no extremo-sul do Chile e que é falada por apenas uma pessoa.

Na apresentação do TED Talk, ela explica que enfrentou muitas críticas no início do governo Boric, quando tomou a decisão de assumir o cargo de primeira-dama. Apesar de ter deixado claro desde o início que a sua intenção era fazer uma mudança nos rumos do gabinete, as principais organizações feministas no Chile não gostaram nada.

Mesmo assim, ela encarou de frente o desafio e começou o trabalho. Aos poucos, foi repassando as fundações ligadas ao gabinete para determinados ministérios. O trabalho foi concluído em dezembro do ano passado, quando ela anunciou sua saída do Palácio La Moneda.

Oficialmente, Irina Karamanos continua acompanhando Gabriel Boric em eventos protocolares. No entanto, ela agora retomou a sua militância política dentro do partido que os dois fazem parte, além de participar dos TED Talk.

Em sua primeira participação, ela teve a oportunidade de contar como está combatendo os estereótipos de gênero. Para Irina, ao abandonar e extinguir o gabinete de primeira-dama, ela está devolvendo o poder político a quem realmente pertence, ou seja, para pessoas que foram diretamente eleitas pelo voto e, desse modo, protegendo a democracia.

Considerando que os dois são muito jovens (ela tem 32 e ele, 37) e de uma geração que veio realmente para promover mudanças na velha estrutura tradicional da politica, me parece muito interessante a atitude dela. Vamos ver se os próximos governos eleitos irão manter e respeitar essa inovação.

Um dos trechos da palestra dela que mais me chamou a atenção foi quando ela mencionou como temos forte no nosso imaginário a imagem do homem sempre acompanhado, principalmente, aqueles que ocupam cargos de poder. 

E não pude deixar de lembrar do Boric na cerimônia de abertura dos Jogos Pan Americanos sozinho, brincando com o sobrinho dele, um bebê de apenas alguns meses nos braços.  A primeira coisa que eu pensei: onde está a Irina?

Por outro lado, nunca me causou estranheza ver a Dilma sozinha, acompanhada da filha e do netinho em eventos protocolares importantes. Assim como a Bachelet, que desempenhou os dois mandatos [de presidenta do Chile] como uma feliz divorciada. Realmente, são estereótipos que levam muito tempo para se desconstruir. O importante é que a Irina Karamanos está dando os primeiros passos para romper essas estruturas. Acho que isso é super válido.

Se realmente, veremos essas mudanças respeitadas no futuro, não temos como saber. O que estamos testemunhando agora é uma grande inovação, num mundo que está mudando muito, especialmente no Chile, onde as mulheres e o movimento feminista cada vez mais ocupam seu legítimo espaço na disputa política.  

Eu observo com muita alegria esse movimento porque minha filha de 8 anos já tem assimilado que o futuro é feminino. Recentemente, estudando os gregos em História no colégio ela ficou chocada quando viu que as meninas não recebiam educação escolar, somente os meninos. É muito bom saber que daqui pra frente, as mulheres querem sair desse espaço de estar à sombra de alguém simplesmente porque elas não querem e sabem que podem mais. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

PERDEMOS O PLEBISCITO, MAS A LUTA CONTINUA

Ontem a América Latina sofreu uma derrota marcante: o Chile não aprovou sua nova Constituição! Minha correspondente no Chile, a jornalista Isabela Vargas, conta como foi e como está sendo. Ela é feminista, mãe da Gabriela, e integra a coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile, que organizou os protestos do #EleNao no Chile.

Difícil escrever esse texto porque ainda estou em choque e processando a dura derrota do #Apruebo no plebiscito de ontem que poderia enterrar para sempre a constituição de Pinochet no Chile. Com quase 100% das urnas apuradas, o resultado mostrou que 61,86% dos chilenos optou pelo rechazo (rejeito) enquanto apenas 38,14% votou apruebo (aprovo) quando consultados sobre o texto da nova carta.

Quando eu ouvi o discurso do comando da campanha, por volta das 22 horas, comecei a chorar. Depois do choro, não conseguia dormir. Meu marido, que é fotógrafo e trabalhou na cobertura direto do comando do #Apruebo, chegou em casa arrasado e rasgou todas as bandeirinhas do Chile que ele tinha colocado para decorar a casa por conta das festas pátrias, celebradas em setembro.

Foi uma derrota acachapante. Nem nos meus piores pesadelos poderia esperar um resultado tão ruim como esse. A gente tinha medo, sim, de uma derrota, mas ninguém esperava um percentual dessa magnitude. Foi um verdadeiro terremoto que abalou as estruturas na esquerda chilena.

Por que os chilenos não aprovaram o texto?

A proposta da nova constituição previa, entre outras mudanças, um sistema de saúde pública, a igualdade entre homens e mulheres na politica, reconhecimento dos povos originários do Chile, extinção do Senado e criação de câmaras regionais, ampliação do acesso à moradia e serviços sociais. Por que, então, os chilenos não aprovaram o texto?

Ainda é cedo para fazer uma leitura calma e detalhada, mas tem alguns fatores que indicam o que aconteceu aqui. O primeiro deles são as já conhecidas fake news que foram muito usadas, assim como ocorreu na campanha presidencial no Brasil, em 2018. A equipe do #Rechazo espalhou várias mentiras, inclusive com cópias da Nova Constituição alteradas. O tempo usado para desmentir essas inverdades custou caro, já que não foi possível mostrar todas as boas propostas do novo texto.

A deputada Emilia Schneider, primeira mulher trans eleita recentemente, denunciou um panfleto produzido pela campanha do Rechazo que distorcia totalmente a proposta de Educação Sexual nas escolas. A ideia era justamente prevenir os abusos de menores e o panfleto pregava que o objetivo era ensinar as crianças desde cedo a ter relações sexuais. 

Representantes da direita que fizeram parte da Convenção Constitucional foram flagrados nas ruas distribuindo esse tipo de material. Apesar das denúncias, nada foi feito. Principalmente, na cobertura da mídia comercial, grande aliada da direita nessa disputa. Os convencionais ganharam amplo espaço para difundir suas mentiras e havia poucos jornalistas capazes de confrontá-las, raras exceções como a jornalista Mónica Rincón, da CNN Chile.

Mais recursos para mentir

Os porta-vozes do #Rechazo também tiveram acesso a mais recursos e puderam viajar a vários lugares do Chile. A campanha gráfica também foi muito mais presente nas localidades, além da publicidade em redes sociais. Diferente do segundo turno da campanha do Gabriel Boric para presidente, quando Izkia Sichez rodou o país de porta em porta pedindo votos, desta vez, alguns poucos convencionais saíram a percorrer o país. 

Outro aspecto fundamental foi o papel de alguns representantes da DC (Democracia Cristiana), a mesma que traiu e abandonou o Allende na primeira oportunidade. Embora a orientação do partido tenha sido pela opção Apruebo, a senadora Ximena Rincón dedicou bastante tempo e recursos para fazer campanha pelo Rechazo. Obviamente, ela pensava em seus próprios interesses, já que a nova carta extinguia o senado chileno.

Clima de terror e voto obrigatório

Além disso tudo, é importante destacar que os meios de comunicação passaram os últimos meses veiculando diariamente não apenas as mentiras sobre o texto da nova constituição, como também promoveram uma intensa campanha de terror com relação à segurança pública. Depois de atacar sistematicamente a figura da Ministra do Interior, Izkia Sichez, responsável pela segurança nacional, os ataques se transforaram em notícias diárias denunciando roubos, assalto, violência, criando um clima de terror de norte a sul. 

Logo após o resultado do plebiscito muita gente questionava como era possível localidades que vivem escassez de água, como Petrorca, rejeitar o novo texto. A resposta: eles não têm água, mas têm televisão em casa. 

Outro aspecto que considero relevante é o voto obrigatório nesse pleito. Diferente das eleições anteriores que definiram a opção por uma nova constituição e o presidente com voto facultativo, nesta eleição, todos eram obrigados a votar sob pena de multa. No meu local de votação, havia vários idosos, inclusive, de cadeiras de rodas e com sondas. Todos eles muito amorosos com os militares que faziam a segurança e um deles chegou a dizer: hoje vamos acabar com isso. 

Fiquei muito triste. Fui votar de manhã bem animada. Levei minha filha comigo, afinal, 4 de setembro marcava também os 70 anos do voto das mulheres no Chile. Minha filha esperou na fila, entrou comigo na cabine e fez questão de depositar o voto na urna. Eu sinto que a decepcionamos porque essa mudança não era para as atuais gerações, era para ela e para os que virão depois dela. 

Hoje, especula-se que haverá uma reforma de gabinete no governo do Boric e apontam que os dois primeiros a saírem seriam o secretário geral da presidência, Giorgio Jackson, e a ministra Izkia Sichez. Nos próximos dias, veremos o que vai acontecer. Por enquanto, choramos e tentamos entender o que foi que aconteceu. Uma coisa é certa: a luta continua porque o Chile ainda precisa responder ao que o povo definiu no plebiscito de outubro de 2020, onde deixou claro com quase 80% dos votos válidas que a população quer uma nova Constituição. Seguimos. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

AFINAL, QUEM QUEIMOU O METRÔ NO CHILE?

Bolso fechou o debate da Band no domingo com chave de ouro, fazendo o que faz o tempo todo: mentindo. Insinuou que o atual presidente do Chile, Gabriel Boric, era um terrorista queimador de metrô. Criou uma crise diplomática com uma nação hermana.

Pedi pra minha correspondente no Chile escrever sobre isso. Publico o texto da jornalista Isabela Vargas, mãe da Gabriela e feminista, que integra a coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile, e que organizou os protestos do #EleNao no Chile. Fala, Bela!

O Chile foi o assunto mais comentado do Twitter e nos principais meios de comunicação no início dessa semana. O motivo não foi o plebiscito mais importante na história recente do país que votará no próximo domingo, 4 de setembro, o texto da nova constituição, elaborado numa assembleia constituinte escolhida pelo povo chileno. Nada disso... Quem colocou o Chile nos assuntos mais comentados foi o presidente do Brasil com mais uma de suas declarações desastrosas.

No debate realizado pela rede de TV Band, em suas considerações finais, Bolsonaro atacou o candidato que lidera as pesquisas de intenções de voto nessas eleições, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Bolsonaro criticou a afinidade de Lula com lideranças de esquerda no continente citando Maduro (Venezuela), Fernández (Argentina), Petros (Colombia) e Gabriel Boric, presidente do Chile, quem – segundo Bolsonaro – incendiou o metrô de Santiago. 

A acusação infundada não me surpreende. Com bastante frequência vejo tweets de bolsonaristas tentando assustar os eleitores brasileiros usando imagens antigas do estalido social que sacudiu o Chile em outubro de 2019 como se fossem atuais. Na época, as manifestações foram marcadas pelo confronto direto dos manifestantes com a polícia chilena, os Carabineros de Chile. 

Quem queimou o metrô?

Um dos eventos mais marcantes foi o incêndio do metrô de Santiago, que até hoje não teve um desfecho porque a investigação ainda está em curso. O ataque ao metrô sempre foi motivo de suspeitas porque os protestos começaram com os estudantes que reclamavam do aumento dos preços das passagens. A forma de luta era pular as catracas e entrar no metrô em grupos.

Rapidamente, os jovens ganharam a simpatia e a solidariedade dos demais usuários desse serviço de transporte. Na mesma medida em que eles ganhavam apoio e visibilidade, a equipe de segurança do metrô e os Carabineros intensificavam o uso de força física contra os manifestantes. 

No dia em que eclodiu o estalido, várias estações do metrô foram palco dos protestos. Por conta disso, o metrô fechou mais cedo e encerrou suas atividades muito antes das 23:00 horas naquele dia. Naquela mesma noite, do 18 de outubro de 2019, um incêndio em série destruiu várias estações do metrô.

A partir disso, o governo decretou Estado de Emergência e qualificou o incêndio como atentado terrorista. Quando Bolsonaro se refere a Boric como autor dos incêndios, não só está mais uma vez mentindo, como também comete um grave deslize diplomático. 

É mentira que o atual presidente do Chile tenha relação com os incêndios do metrô de Santiago. E aí reside a maior ironia desta mentira bolsonarista. Todas as evidências, até o momento, indicam que os responsáveis pela queima dos vagões foram justamente integrantes da polícia chilena.

Uma reportagem da emissora La Red, exibida em maio deste ano, incluiu imagens das câmeras de segurança que mostram claramente o ingresso dos policiais na estação de metrô. A equipe entra, revisa a estação, desce até onde estão os carros e, quando os policiais saem, as imagens captam fumaça, indicando que o fogo já tinha começado. Depois da reportagem, dois funcionários dos Carabineros foram identificados e indiciados pelo Ministério Publico, que investiga os eventos daquele 18 de outubro de 2019. 

Como o governo do Chile reagiu às declarações de Bolsonaro?

Obviamente, o governo do Chile respondeu imediatamente após as declarações de Bolsonaro, que repercutiram nas redes sociais. A ministra de relações exteriores, Antonia Urrejola, se manifestou no dia seguinte, durante uma atividade do governo, numa coletiva. Ela afirmou que as acusações são graves “não só porque acusam ao presidente e ao governo de atos gravíssimos e delitos, mas também a todos os chilenos e chilenas que têm como presidente a Gabriel Boric”.

Além da declaração, o ministério divulgou uma nota oficial e convocou o embaixador do Brasil no Chile, Paulo Roberto Soares Pacheco, para prestar esclarecimentos sobre o acontecimento. 

A porta-voz do governo, Camila Vallejo, também se referiu às declarações do presidente brasileiro. “Lamentamos que a relação bilateral com o Chile tenha sido usada politicamente na campanha presidencial brasileira. É injustificável que o presidente Bolsonaro tenha acusado nosso presidente, democraticamente eleito, ao dizer falsidades graves”, afirmou em declaração veiculada em redes sociais e nos canais oficiais do governo chileno.

A mentira como método

Nada disso parece abalar o mandatário brasileiro, que reafirmou suas declarações logo após a repercussão negativa. Totalmente indiferente às criticas, no dia seguinte, ele voltou a insistir na mentira. 

A reação do governo chileno foi firme e necessária, especialmente no contexto atual que o país vive, em que deve decidir se enterra da uma vez por todas a constituição do ditador Augusto Pinochet, ídolo de Bolsonaro, e abre caminho rumo a um novo Chile, onde a nova carta magna começa a reescrever a história do pais exatamente assim: “O Chile é um estado social e democrático de direito. É multinacional, intercultural, regional e ecológico”.  

Eu voto #Apruebo e, por isso, no próximo dia 4 de setembro votarei para aprovar o texto da nova constituição. Também votarei aqui no consulado chileno no próximo dia 2 de outubro para eleger Lula presidente e recuperar a dignidade do nosso povo brasileiro. Os chilenos já mostraram que isso é possível e eu acredito neles.