quarta-feira, 3 de abril de 2019

A LUTA VALE A PENA: "VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHAS"

Observem só como a luta é necessária e vale a pena!
Semana passada a jornalista Amanda Audi publicou matéria no The Intercept Brasil mostrando um absurdo. Denian Couto, comentarista reaça e um dos maiores destaques da Joven Pan e da TV Record do Paraná, foi acusado de ameaçar de morte a ex-noiva Giulianne Kuiava, colega dele na emissora. A matéria trazia uma gravação em áudio, cheia de ofensas de Denian a Giulianne. A gravação já havia sido levada ao grupo RIC (o conglomerado de comunicação dono dos veículos), que nada fez. 
Além disso, Denian também é acusado de agredir física e/ou verbalmente outras quatro mulheres. Ele, óbvio, nega. No entanto, se não fosse a matéria de Amanda, e o protesto do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado (Sindjor) na frente da emissora, Denian continuaria lá, com total impunidade. Anteontem ele foi demitido.
Reproduzo aqui o texto que a jornalista Giulianne (Giuli) publicou na sua página no Facebook no dia 28 de março. É um texto corajoso, de uma mulher que, apesar de ouvir do ex-noivo "Eu vou te matar se você não calar a sua boca", não se calou. 
Esse é um texto sobre violência doméstica, ameaça, abuso psicológico e omissão. E não, hoje não vou falar sobre nenhuma história que acompanhei como jornalista. Hoje vou falar sobre a minha história. 
Se você passa por algo parecido, esse texto é pra te ajudar. Ou, se você conhece ou desconfia que alguém do seu ciclo já passou por alguma dessas situações, faça essas palavras chegarem até essa pessoa. 
Vivi um relacionamento abusivo. Descobri mentiras doentias, fui xingada dos nomes mais baixos que vocês possam imaginar. Palavras que nenhuma mulher no mundo, sob hipótese alguma, deveria ter que ouvir. Fui ameaçada. Sim, ele disse -- com todas as letras -- “eu vou te matar”. 
Isso tudo foi por ligações. Não sei qual a sua crença. Sei que naquela noite, acredito que Deus desviou minha rota. Eu, que estava indo pra casa do homem em questão, não cheguei até lá. Por sorte. Por fé. Por ter lembrado da reportagem que fiz no dia anterior, sobre a morte da Daniela. Uma moça linda, jovem, cheia de vida, que levou dezenas de facadas do próprio marido, pai da filha dela. Uma criança de apenas dois anos com a qual ele tirava fotos e dizia que amava. Mas, fez a pequena assistir a morte da própria mãe. 
Quando recebi a primeira ligação ameaçadora, me veio na cabeça a imagem da cortina rasgada, dos respingos de sangue na parede. E foi como se em câmera lenta eu pudesse ver o sangue da Daniela escorrendo pelos dois degraus da casa dela, onde eu estive. Eu vi o sofrimento da mãe e do padrasto da Daniela. A família dela nem sabe. Aliás, pouquíssimas pessoas sabiam até agora. Mas, a Daniela me salvou. 
Hoje eu entendo muito sobre a dificuldade que as mulheres que vivem esse tipo de situação tem de expor o que passaram. Eu faço depois de quase dois meses do ocorrido. Faço porque assim como a Daniela me salvou, esse texto pode te salvar. Ou salvar alguém que você conhece. 
Voltando um pouco... No começo ele era o cara mais incrível do mundo. Me mandava vídeos de declarações de amor. Fez um churrasco pras minhas amigas e falava aos quatro ventos que eu era a mulher da vida dele. Fui pedida em namoro em uma semana. Em casamento, com pouco mais de um mês de relacionamento. Me assustei com a velocidade das coisas. Mas eu merecia alguém assim, né?! Ele dizia que meu espanto era normal já que -- segundo ele -- eu nunca tinha sido assim tão amada. Manipulou meus sentimentos. Identificou minhas fraquezas e sonhos. Me assumiu no trabalho. Íamos juntos em todos os lugares. No parque, no shopping, em bons restaurantes. Nunca foi nada escondido. 
Como desconfiar?! Ele queria que eu engravidasse. Mas as mentiras mais sórdidas começaram a ficar aparentes. Mentiras envolvendo uma criança. Mentiras envolvendo família. Mentiras envolvendo os mais diversos tipos de situação. Terminávamos. Ele sempre invertia o jogo. Usava do meu bom coração pra mentir, de novo. Dizer que precisava da minha ajuda pra lidar com os problemas dele. Eu voltava. Até que voltei pela última vez. Descobri a última mentira dele pra mim. Traições sórdidas, que na verdade atingiam mais as outras envolvidas -- que têm vínculos mais fortes com o fulano -- do que a mim. Fiquei chocada de como ele poderia fazer isso com elas. Como ele poderia fazer isso comigo? Quem era de verdade o cara por quem me apaixonei?! Eu perguntei isso pra mim mesma. E a resposta, teria na sequência. 
Mas, você nunca desconfiou? Não é possível. Como pode ser tão inocente? Tão trouxa?!
Antes dele, eu fui casada. Com uma pessoa incrível. Mantivemos a civilidade depois do término. Meus relacionamentos anteriores eram saudáveis, com brigas, é claro. Mas nunca com falta de respeito. Eu não conhecia o mal. Até então. 
Ele já dava indícios de agressividade, sim. Fui alertada por várias amigas, que já tinham passado por relacionamentos abusivos. Mas eu? Tão 'esperta’. Ele? Tão inteligente, bem sucedido. Um cara de opinião forte, de discurso convincente. Admirado por tantos que o escutam e replicam suas ideias. Ele?! Não. Como poderia ter dentro de si duas faces tão diferentes?
Sim, ele. Eles. Vários. Tantos que estão por aí. Tantos que eu ajudei a noticiar. 
Mas, quando chegou a minha vez, eu me escondi. Contei pros meus pais. Falei pra alguns colegas mais próximos, da minha convivência. Tive que pedir ajuda. Ir pra casa de uma amiga por medo. Tirar minhas cachorras de casa por uns dias. Mas do resto, me escondi. Por medo. Por insegurança. Tentaram me “aconselhar” a não fazer o boletim de ocorrência. Por ser ele. Quem sou eu perto dele? Você é peixe pequeno. Ouvi. E era... Mas isso tudo me fez ser maior. 
Não teremos como te defender. Disseram. Estamos num mundo machista. Disseram. 
Tinham razão. 
Mas o mundo não é só machista. Os homens não são só ruins. 
Hoje eu entendo a dificuldade que as mulheres têm pra denunciar. Eu demorei uma semana. Por medo, por insegurança. 
Chorava, tinha crises de falta de ar só de pensar que poderia encontrar com ele. Porque sim, essa possibilidade existia, e ainda existe. Ainda choro. Eu. Que sempre fui tão forte. Ele poderia ficar ainda mais exaltado com a denúncia. Estava prestes a viajar, poderia me agredir e ir pra longe. Mas, quem poderia garantir que ele não voltaria a me procurar se eu não fizesse nada? Ninguém. Mas pelo menos, com a denúncia, ele se sentiria menos à vontade pra tentar qualquer coisa. 
E logo eu? Que já vi tantas ameaças se concretizaram não denunciaria? Mesmo eu sabendo da importância disso, nunca quis agir por vingança. Mas sim, agir por segurança. E justiça. Iria contra tudo o que sou não denunciar. Contra tudo o que eu acredito. Contra tudo o que eu prego. Denunciei. 
E vc, deve denunciar também. É preciso quebrar o ciclo da violência doméstica. Quem fica impune, se sente a vontade de repetir a agressão. Uma, duas, três, várias vezes. Até que o pior acontece. A ameaça pode se concretizar. 
Eu sofri e sofro com a omissão de muitos. Se vc sabe de alguém que está nessa situação, não seja omisso. Ajude. Acolha. Pegue pela mão. 
Com esse texto, me exponho. Corro riscos com isso, por conta daquele mundo machista que tanto me avisaram que existe. 
Também me avisaram sobre a justiça dos homens, que muitas vezes é falha. Concordo. Muitas vezes erra, e muitas vezes acerta. Na dúvida, eu prefiro confiar que no final a verdade vence. E que a justiça de Deus… Ah, essa não falha. 
Hoje me sinto um pouquinho mais forte. Ainda estou em tratamento. Ainda tento entender o porquê (se é que existe um) estou passando por tudo isso.
Mas, hoje sou maior. Maior o suficiente pra encarar o que estou passando. Maior o suficiente pra compartilhar minha história tão -- e somente -- a fim de ajudar a quem possa estar passando por algo parecido. E, talvez, ser uma Daniela pra alguém.
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Escrevi esse texto há quase um mês. Não sabia se um dia publicaria. Tinha vontade, mas não tinha certeza sobre a exposição. Sobre como ficaria, principalmente minha família. Agora, que a questão veio a público e descobri que eu não fui a única vítima, espero que com esse texto eu possa ajudar mais mulheres que estão passando pelo o que eu passei. Força. Vocês não estão sozinhas.

10 comentários:

Anônimo disse...

Isso é o que dá quando se relacionam com o bicho mais escroto da face da terra: O homem. Eles são seres mais sórdidos, cretinos, canalhas e covardes. São a escoria da criação divina.

A violência deste tropeço contra a jornalista, só tem só tem uma explicação: Ele foi mal-comido.muito mal-comido.

Fez bem em denunciar e mandar o lixo para o seu devido lugar.

Beijos e você não esta sozinha.

Anônimo disse...

Pelo menos esse lixo foi demitido,serve de exemplo para
outros descompensados, tem que segurar essa língua suja na boca e parar de ameaçar as mulheres.
E acho que ela deve processar esse animal,crime de ameaça é muito sério.

Denise disse...

Toda minha solidariedade a Giulianne. Parabéns por ter tido tanta força em denunciar e se expor. Uma tristeza que Daniela, e outras tantas mulheres, não tenham tido a mesma sorte. Quando os homens vão parar de nos matar e agredir?? Talvez só quando deixe de ter a certeza da impunidade, quando a vergonha e o linchamento público comece a pesar sobre eles ao invés de sobre as mulheres vítimas...

Anônimo disse...

Giulianne é como todas as corajosas que encaram ser a luz no meio da escuridão. Todo o respeito do mundo por ela!

Uma luz puxa outras, que um dia nenhuma mulher se sinta acoada e solitária diante de uma situação dessas!

Anônimo disse...

Até a ONU pede intervenção na Venezuela, será que dá pra apoiar Juan Guaido agora?


https://oglobo.globo.com/mundo/onu-nao-esta-altura-das-circunstancias-na-venezuela-diz-autora-de-relatorio-da-human-rights-watch-23571120

Anônimo disse...

A sociedade já está percebendo que não dá mais pra fingir que não aconteceu nada, as consequências chegando pra esses homens violentos e potenciais assassinos. O único problema é que todo o sistema muda muito devagar

Marina disse...

12:42, não vai estar dando não...

Anônimo disse...

Marina, vc leu o texto do link?

"A HRW trabalhou com pesquisadores da Faculdade Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins e entrevistou 150 pessoas. O documento é uma dura crítica ao governo de Maduro, considerado o grande reponsável pela crise humanitária que assola o país."

Alan Alriga disse...

Denuncie sempre ao menor sinal de violência, de um grito para um soco é um pulo.

Anônimo disse...

Anônimo das 17:02 o texto não é sobre a Venezuela. Quer ajudar a Venezuela? Há o programa de voluntariado da ONu, faça postagens nas suas redes sociais, mas pelo amor da Deusa, para de usar a Venezuela para passar pano para machista assassino brasileiro. Um problema de cada vez, os problemas das mulheres brasileiras também importam.