sexta-feira, 2 de março de 2018

LOCADORAS DE VÍDEO FAZEM PARTE DA MINHA VIDA

Paulo querido em sua locadora no Copan

Anteontem fiquei bem nostálgica e um tanto emocionada. É que chegou até mim a existência de um documentário chamado CineMagia: A História das Videolocadoras de São Paulo, de Alan Oliveira. Fui correndo assistir ao trailer, crente que encontraria meus dois ex-patrões. Dito e feito. Aí vi também o vídeo com a pré-estreia do doc, realizada em novembro. E lá estavam eles novamente.
Meu primeiro emprego foi numa locadora de vídeo, quando eu tinha 19 anos. Era 1986, uma década antes da internet, muito antes dos dvds. O que havia eram fitas de vídeo cassete (que precisavam ser rebobinadas e, em ambientes úmidos, mofavam rápido). O mercado do vídeo ainda engatinhava, já que não era muita gente que tinha o aparelho. Praticamente não existiam fitas seladas. Era quase tudo pirata.
E foi no meio desse ambiente que eu, cinéfila, respondi a um anúncio no jornal (eu vivia em SP) e consegui um emprego (com algo quase tão em extinção quanto o vídeo -- carteira de trabalho) na Montevídeo, que ficava na Consolação. Não era só uma locadora, mas um "supermercado do vídeo", como a loja se intitulava. Vendia vários acessórios para montar uma locadora, como estantes, capas, etiquetas. 
Foi um prazer trabalhar com cinema. Eu, que já era rata de locadora, passei a ver dois ou três filmes por noite. 
Não permaneci muito tempo naquele emprego. Não lembro por que saí (talvez pra fazer um estágio não remunerado numa agência de propaganda?), mas eu era jovem e inquieta.
Paulo hoje
Tive a sorte de, já no primeiro trampo, conhecer gente tão boa. Meus dois patrões, Paulo e Elisio, continuaram sendo meus amigos. Nos anos seguintes, nos víamos com frequência. Eu andava de moto na garupa do Paulo (acho que foi a única moto em que andei na vida), e de vez em quando íamos ao cinema à tarde (existe maior sensação de liberdade que pegar sessão de cinema à tarde?). Quando meu pai morreu, em 1993, Paulo me ajudou muito. Eu não tinha conta em banco e, naquele momento, estava desempregada, o que dificultava abrir uma conta. Paulo falou com seu gerente, me levou ao banco, e consegui abrir a conta. Pouco depois, me mudei pra Joinville.
Elisio hoje (ou há
uns dois anos)
Com o Elísio também vivi altas aventuras. A gente caminhava pelo centro de SP tarde da noite. Ele conhecia todos os lugares e não tinha medo de nada (demorou pra eu entender que as pessoas é que tinham medo dele). Ríamos muito, pois Elísio sempre foi um palhaço. Sabe quando a pessoa parece séria, nem sorri muito, mas tem um senso de humor ácido? É o Elísio. 
Depois que saí da locadora, ainda fiz uns bicos pra eles. Eu fazia capas de vídeo. Recortava imagens de revistas, colava, fazia uma sinopse, escrevia com minha máquina elétrica, juntava tudo com cola mesmo. Eles ainda guardam com carinho essas capas. Muitos anos depois, Elísio me contou que gostava de acreditar que essa experiência me inspirou para que eu me tornasse cronista de cinema. 
Paulo e Elísio deixaram a Consolação pouco depois de eu sair, trocaram o nome da locadora e a abriram no famoso edifício Copan. Elísio vendeu sua parte da sociedade faz tempo e dedicou-se à marcenaria. Paulo continua com a Video Connection no Copan, num grande ato de resistência (e ele segue andando de moto).
Eu narrei essa parte do meu passado num post de outubro de 2008. Oito anos depois aconteceu uma dessas coisas que fazem a gente amar a internet. A filha do Paulo apareceu no blog e deixou este comentário no post:
Paulo e sua filha Daniela
"Adorei seu relato (apesar de me sentir um pouco enciumada com as 'andadas' de moto e sessões de cinema à tarde com o Paulo, hahaha). Sou filha do Paulo, esse a quem você se refere com tanto carinho, e saiba que ele e tio Elysio sempre falam de você com essa mesma ternura! Sabe, somos umas das últimas vídeo locadoras de SP, e temos até hoje fitas VHS com capas que você fez! Se não for incômodo, me escreva contando como está sua vida hoje, tenho certeza que meu pai ficaria muito feliz em saber de você, e se quiser, lhe enviarei algumas fotos de suas capas para recordar!"
Claro que mandei um email pra Daniela, que é psicóloga. Ela me respondeu enviando algumas fotos dela com os pais, do Elisio, e essa imagem de uma das minhas capas.
O texto diz: "Esta é a quarta parte, e não o final de Jason: afinal, como um morto pode voltar a morrer? Isto é o que o pequeno Tommy (Corey Feldman, de Conta Comigo) queria saber. Este é um capítulo importante, já que Tommy protagoniza os próximos episódios. Depois, ele pára num hospício -- por que será? --, onde ele tenta superar seu traumático encontro com Jason".
Ri bastante com a sinopse que escrevi -- imagino que ninguém escolhia um filme baseado nos meus textos.
Hoje a Video Connection não tem funcionários além do Paulo. Dani e sua mãe (esposa do Paulo há décadas) às vezes ajudam na locadora. 
E assim eles resistem numa atividade já declarada extinta em tempos de streaming.
Ver o trailer do documentário me despertou toda essa nostalgia. As locadoras de vídeo sem dúvida fazem parte da minha vida. Mas o tempo passa pra tudo e pra todos. Menos pro Paulo, que já tem mais de 60 anos mas continua igualzinho. 

20 comentários:

Felipe Roberto Martins disse...

Saudades! Também sou desta época! É a nossa memória afetiva.

Renato disse...

Eu nasci em 1993 mas na minha infância me lembro de ir em locadora de vídeo com meu pai e minha irmã. Era um lugar que eu adorava ir por ter tantas opções de filmes. A última vez que devo ter entrado numa locadora de vídeo cassete foi em 2004 (o último ano que usamos vídeo cassete lá em casa).
Sinto falta desse ambiente de películas.

Anônimo disse...

Linda história! Como os idiotas podem te chamar de antihomem e comuna se você mantêm amizade com seus patrões até hoje? Não sabem o quê dizem!

Viviane disse...

Pois é, anon de 8h33, a Lola, diferente desses malucos que não largam do pé dela, é uma pessoa normal, que valoriza as amizades... e nos brinda com essa história para começarmos bem nosso fim de semana.

Anônimo disse...

E é bonitão esse seu ex-chefe, Lolinha...

Kasturba disse...

Na minha infância ir à locadora era uma festa! Ainda mais véspera de feriados, que tinha sempre promoção de 5 filmes por um preço mais baixo...
Claro que é maravilhoso a praticidade que a evolução tecnológica nos proporciona, mas ter ali incontáveis filmes à disposição a qualquer momento na netflix, tira um pouco do encanto que ir à locadora proporcionava

Iêda disse...

Adorei o texto, Lola. Também sou da época das locadoras de vídeo. Que saudades!

Anônimo disse...

Se fazia muitas amizades nas locadoras, fliperamas, lan halses, hoje em dia os jovens ficam infurnados nas redes sociais e video games.

Anônimo disse...

Saudades da locadora! E das fitas rebobinando, kkkk E que filha linda a do Paulo!

Anônimo disse...

Ficar vendo filme é gostoso, né??
Trabalhar que é bom...

lola aronovich disse...

Mascutroll, o post é sobre meu primeiro emprego, que foi numa locadora. Sabe? Emprego, trabalho, labuta... Já ouviu falar? Mamis segue pagando tudo pra vc?

Anônimo disse...

Esse chefe aí sempre foi gatão?

Anônimo disse...

Mas que emprego é esse? Ficar assistindo 3 filmes por dia??
Por isso que eu não contrato comunistas.

Entendem agora por que Cuba é tão atrasada???

lola aronovich disse...

Eu assistia os filmes em casa, não no trabalho, ô babaca. E o que qualquer coisa tem a ver com Cuba? Vai pastar, mascutroll das 21:00.



Sempre foi gatão, anon das 19:25... Suspiros.
E também sempre foi casado e fiel à esposa (que é uma simpatia).

Anônimo disse...

Será mesmo? Será mesmo?
A gente quando realmente trabalha numa coisa, não quer nem ver essa coisa quando chega em casa...

Tipo alguém que trabalha no mc donalds, o cara nem quer ver sanduíche na frente.

Será que esses filmes eram vistos em casa mesmo??????

Joana disse...

Rindo litros da lógica do mascutroll. Quer dizer, então, que nenhum ginecologista quererá ver boceta, quando chegar em casa? Kkkkkkkkkkkkkkk. Rindo até o ano que vem.

Anônimo disse...

Não é? Kkkkkkkkkkkkk

Júlia Elias disse...

Criei o hábito de todo sabado alugar filmes. Tinha sabados que me esquecia, mas meu avô (com quem fui criada) me lembrava e lá iamos alugar.
Hoje apenas uma locadora está aberta na minha cidade. Está que é a mais antiga, e que ainda possui fitas...Assinei Netflix e o Torrent é a minha segunda casa.
Tempo...tempo...tem...t

Adecio Moreira Jr. disse...

Lola. Assisti a esse doc ontem. Já está disponível no Google Play para alugar por R$6,90. Você vai adorar.

DaniCBPereira disse...

Lola!! Vi hoje seu email, aqui da locadora...logo vim procurar seu post e me emocionei!! Obrigada pelo carinho. Eu e meu pai rimos muito aqui com as lembranças!! Vou compartilhar em meu face, tudo bem?
Beijão
Dani e Paulo