sexta-feira, 26 de julho de 2013

GUEST POST: CLARISSES DE CARNE E OSSO

No começo da semana, durante a visita do Papa ao Palácio Guanabara, um grupo fez protesto contra o preconceituoso "Kit Peregrino". No meio do beijaço, um casal de mulheres sem camisa se beijou. Imagine a fúria dos reaças diante desse sacrilégio! 
Por falar em sacrilégio, amanhã, não se esqueça, é a Marcha das Vadias do Rio, que vai reagir contra a onda conservadora, exacerbada ainda mais com a visita do Papa (e, só pra lembrar, dia 3/8 participarei da de João Pessoa).
A B. Henriques, uma carioca que só tem 20 aninhos, me enviou este texto brilhante, que orgulhosamente publico aqui.

A foto acima foi postada segunda à noite pelo jornal O Globo na sua edição online. Só um prazer sadomasoquista justifica abrir a página de comentários, mas fui em frente. Desde um “Combatendo intolerância com mais intolerância” até o típico slut-shaming (“Depois querem ser tratadas com respeito”). Pior é saber que essas ideias muitas vezes saem até de grupos que se identificam como progressistas, muitos deles inclusive simpatizantes do movimento LGBT.
Colocando de lado se você acha certo ou não o que a foto representa, é claro pra qualquer um que a quebra de paradigmas sociais dela está em três fatos: 1) o beijo entre duas pessoas do mesmo gênero, que vai contra o ideal heteronormativo que rege nossa sociedade; 
2) os torsos nus das duas moças, contrariando valores patriarcais, e 3) o fato de elas estarem em frente a uma igreja, instituição que, por tradição, é homofóbica e machista (valendo frisar que eu estou atribuindo isso à Igreja enquanto instituição e não como verdade absoluta entre todos os fiéis. Afinal, uma generalização simplória dessa estaria ignorando grupos importantíssimos como o Católicas Pelo Direito de Escolher ou os milhares de fiéis que claramente se opõem a esses valores que excluem grupos historicamente marginalizados).
Considerando então o beijo da foto de forma isolada, o que há de errado num beijo? Fosse um casal heterossexual, seria nada mais do que a expressão de duas pessoas que estão envolvidas de forma mais do que platônica (mesmo que a moça nunca tivesse consentido com o beijo, como esta do lado). Um beijo entre um casal heterossexual na mentalidade social é completamente normal; mais do que isso, é esperado que aconteça. 
Fosse um beijo entre dois homens homossexuais, no entanto, as reações seriam diversas, desde o ódio manifestado em forma de violência, colocando-os em risco, a opiniões como “Ah, respeito a escolha deles, mas precisa ficar se expondo?” (o que, ainda que alguns tentem negar, é homofobia sim). 
No caso da foto do Globo, há o adendo de que a relação entre duas mulheres é fetichizada, primariamente, por homens e, consequentemente, vista como algo inerentemente sexual, obsceno.
Pare e pense quantas vezes você já ouviu alguém dizer, pra se mostrar muito liberal e transgressor, ao defender os direitos LGBT: “Ah, deixa os caras darem o c* em paz!”. Ou então um homem dizer de forma lasciva: “Pô, adoro lésbica!”. Enquanto um ignora a presença de mulheres na comunidade gay, o outro objetifica a sexualidade de todo um grupo, desprovendo-a de toda a complexidade inerente a qualquer envolvimento romântico e reduzindo-o a uma fantasia existente para satisfazer o male gaze
E é exatamente essa mentalidade que permite alguns a encararem a relação entre duas mulheres como um produto pornográfico, levando-os a categorizar a foto como desnecessária. Considerando os valores sociais com que somos bombardeados, é muito tentador seguir essa linha de raciocínio e dizer que talvez elas tenham passado dos limites. No entanto, porque nós insistimos em encarar a sexualidade de um determinado grupo como pertencente à esfera pública? 
A sexualidade de qualquer pessoa diz respeito a ela e somente ela, é a forma como ela expressa sua individualidade, seu direito de envolver-se (de forma consensual) com quem ela sente-se atraída, e não com quem a sociedade julga ser apropriado. O ato que essas moças se fizeram não tem poder de impedir todo um outro grupo de manifestar suas individualidades, de marginalizá-los. O beijo delas não força ninguém a esconder sua identidade, não tem poder de ameaçar a integridade física de um indivíduo ou de tirar vidas. A homofobia tem. 
Logo, o que elas fizeram nunca poderá ser equiparado -– como a pessoa que disse “combatendo intolerância com mais intolerância” sugeriu -- às ações de instituições que insistem em não reconhecer relações homossexuais, pois a ação dessas duas meninas não tem poder de oprimir e deslegitimar o grupo que as oprime.
Mudando o foco do beijo da foto para a nudez parcial apresentada pelas meninas, caímos numa discussão semelhante à anterior. O porquê de muitos terem se sentido afrontados com a imagem das duas está intimamente ligado à ambivalência com que a sociedade encara a figura feminina. 
É impossível passar um dia sem ser lembrado que o corpo feminino é uma mercadoria farta e está à venda. Propagandas de cerveja não estariam completas sem uma modelo de seios fartos para completar o produto, e o que seria da indústria automobilística sem suas propagandas que equivalem o valor de uma mulher ao de um carro, ambos posse de um homem? 
Os exemplos são abundantes, mas um acontecimento de alguns dias atrás diz muito sobre essa questão. Na matéria, um escultor de areia “troca” o fio dental de suas esculturas por uma saia em respeito ao Papa que vem dar-lhes a benção, pois aparentemente nossa anatomia -– mesmo que seja na forma de bonecas de areia expostas na praia -– é uma ofensa tão grande a Vossa Santidade que supera a ofensa a todo um gênero de ter seu corpo transformado em coisa pública, um mero elemento da paisagem, que está a mercê de homens de vesti-los e despi-los como lhes convêm. 
Talvez rapazes que falam que lésbicas são sexy ou os que acreditam que cantada de rua é elogio possam não entender, mas objetificação não é respeito, é uma forma -– consciente ou não –- de exercer poder ao reafirmar o status quo, diminuindo a realidade de todo um gênero a um mero fantoche sexual. É reafirmar um sistema de valores que aliena a agência de uma mulher sobre seu corpo e apropria-se dele para o prazer visual de um terceiro.
Daí, quando esse brinquedo sexual resolve tomar de volta em suas mãos como ela quer dispor de seu próprio corpo -- como as duas meninas da foto fizeram e como tantas outras moças já fazem há anos na Marcha das Vadias -- a opinião pública as acusa de vulgares, afinal seus corpos -– que não são propriedade delas e sim uma comodidade -– nada mais são do que obscenos. 
Obsceno é viver com pessoas que não enxergam que encarar a sexualidade e corpo de uma mulher como ofensa pessoal é a mesma mentalidade que permite casos de “estupro correcional”. Obsceno é ser representada por um homem que prioriza a imagem de sua cidade no exterior em detrimento da saúde mental e física de moradoras de comunidades marginalizadas. Obsceno é ser representada por ainda outro homem que reduz a individualidade de uma mulher ao seu poder de reprodução e que quer tornar os direitos dela inferiores ao de um embrião
Obsceno é viver num país onde se fala em liberdade de expressão para defender um "humorista" que perpetua a cultura de estupro ao trivializar a experiência traumática de milhares de mulheres, enquanto duas jovens exercendo seu direito de manifestação são recebidas com escárnio. Obsceno é o mesmo sistema que desdenha e faz notícia de duas moças que mostram ter controle sobre seus corpos permitir jovens a serem aliciadas desde a adolescência a se desprivarem de seus corpos e identidades ao transformá-los em mercadoria para turista. 
Obsceno é o sexismo, não o corpo feminino. Meu corpo não é obsceno, meu corpo não é pro seu prazer ou pros seus olhos, meu corpo não é para o Papa abençoar ou a sociedade controlar. Meu corpo é pra ser respeitado e visto como autônomo. Esteja ele de saia ou fio dental.
Quando as duas moças da foto escolheram essa forma de protestar, elas estavam cientes da atenção que ia recair sobre elas. Sabiam que iam chocar, que seriam massivamente criticadas. Mas, desculpe-me te tirar da sua bolha, ser mulher numa sociedade patriarcal é isso. Emprestando desse texto, é ser, desde o despertar da sua maturidade sexual, vilificada como “puta” por exercer seu direito de dizer “sim” e taxada de “santa” por exercer seu direito de dizer “não”. 
Talvez essas moças, como tantas outras, sejam Clarisses de carne e osso que já estão cansadas de serem vilipendiadas, incompreendidas e descartadas e resolveram libertar-se de suas próprias gaiolas, desafiando valores arcaicos e seus defensores. Talvez elas já estejam cansadas de ter sua privacidade invadida diariamente por homofobia e machismo disfarçados de moralidade pela sociedade, e o beijo seja o grito delas de “Basta!”, e não uma ofensa. O ato apenas representa duas meninas reclamando sua sexualidade e seus corpos, o que de direito é delas, e não propriedade pública, como somos ensinadxs a acreditar. 

48 comentários:

Vitória disse...

Pessoalmente eu adorei o ato das meninas, morri de rir com a cara que os fiéis fizeram e fiquei com a alma lavada por assim dizer. Por outro lado eu, como ativista, não protestaria em frente à uma igreja, mesmo que meu protesto não contasse com beijo na boca e nudez. Eu sei que protestar em frente à um templo é simbólico, eu sei que a crítica é sobre a instituição, mas não consigo deixar de lado os fiéis, e quantos dos fiéis são de fato nossos inimigos? Imagino a minha mãe que é simpática à causa feminista e lgbt saindo do templo e se sentindo hostilizada por ser católica (e ela se sentiria mesmo se fosse um grupo de pessoas protestando apenas com cartazes). De qualquer forma parabéns às garotas pela coragem.

Julia disse...

O texto é realmente incrível e muito bem escrito. Admiro a coragem dessas moças, porque tem que ser corajosa pra fazer isso e acho muito válido que tenha sido em frente a uma igreja. Não acho que nenhuma católicx a favor dos direitos LGBT e a causa feminista se sentiria ofendidx por isso.

jade b disse...

eu acho que vcs são bem hipócritas,elas fazem isso e ainda se doem se religiosos reclamam?

n tem sentido mesmo né,já que é muito normal ver duas mulheres semi nuas se beijando na rua,se fosse um homem e uma mulher semi nus se agarrando,religiosos teriam achado o máximo...

duvido muito que vcs ficariam quietas se religiosos invadissem a marcha das vadias.

otomes disse...

E esse fake mascu de Lola?

Vitória disse...

Pelo contrário Julia. Minha mãe é a favor de todas as pautas feministas e LGBTs, inclusive a legalização do aborto (mesmo sendo católica). No primeiro momento nem passaria pela cabeça dela que fosse uma crítica à instituição, mas sim aos católicos no geral. Ela se sentiria pessoalmente hostilizada. E isso foi ela mesma que disse, não eu.

Inclusive no papo que levamos comentando sobre a chegada do papa, ela disse "poxa, eu apoio a causa de vcs (ela inclusive me incluiu), pq vcs vão na porta da minha igreja protestar como se todos os católicos fossem inimigos?".

Depois eu expliquei a ela que o objetivo do protesto não era ser contra os católicos, mas sim contra a Igreja como instituição. Ela entendeu, mas se não tivesse ninguém que atentasse a isso, ela iria continuar com a mesma opinião (e vamos lá, nem todos são esclarecidos o suficiente para ter esse tipo de raciocínio).

Beatriz Gosmin disse...

Texto incrível.

Thomas disse...

Então estavam lá os católicos felizes e faceiros, celebrando a visita do Papa, que é uma figura muito importante para uma significante parte das pessoas católicas do mundo todo. Não é sempre que um Papa visita um país, portanto é uma ocasião muito especial para essas pessoas.

Aí um grupo de feministas mete o pé na porta, dá um tapa na cara dos católicos e tentam estragar a festa. Claro, é o direito de todos nós nos manifestarmos contra aquilo que nos incomoda. Mas quando você invade uma festa de um grande grupo de pessoas que só está curtindo seja lá o que eles curtem pacificamente, você está sendo mal educado, filhx dx putx e merece todo o escárnio que vier contra você.

Afinal, feministas são muito engraçadinhas. Quando é pra encher o saco dos velhinhos e jovens católicos curtindo o Papa, tudo bem. Se aparecer um grupo de católicos invadindo a Marcha das Vadias, brace yourselves, porque a Lola vai escrever ou publicar um textão histérico enorme e desnecessariamente dramático, para tentar provar que tal manifestação é inválida, desrespeitosa e "opressora".

Tudo o que eu li nesse texto foi um monte de balela, umas voltas absurdas, uns saltos argumentativos maiores que a ponte Rio-Niterói. A mina fala de cerveja, fala de bunda de areia, fala de sei lá o que porque fiquei cansado de ler e fui pulando os parágrafos.

Garotas, tudo o que aconteceu foi uma falta de educação por parte das feministas. Realmente acho que seria cortês da parte de vocês evitar tentar estragar a festa de gente que só tá ali pra curtir o Papa deles, nada mais que isso.

Se eles são conservadores, se eles acham que homossexualidade é pecado e tudo mais, não vai ser com falta de educação que vocês vão mudar a opinião deles.

Aliás, essa guerrinha de vocês contra as religiões muitas vezes perde o foco e fica ridícula. Vocês devem lutar contra a influência política da religião, que é algo que afeta a todos nós, independente das nossas crenças ou descrenças.

Esse mimimi de família religiosa que oprime a criança que é gay ou feminista e ela sofre e manda um guest post pra Lola é só isso: mimimi. Faz bem nascer numa família conservadora em cujas ideias você não concorda. Faz parte do seu crescimento moral e intelectual confrontar ideias que são passadas pra você desde o berço. É empoderador chegar na adolescência e se emancipar de tais ideias e construir as suas próprias. Meus pais são católicos e tentaram a lavagem cerebral clássica comigo desde o berço, e eu os agradeço por isso. Porque foi uma sensação incrível descobrir o mundo por mim mesmo quando cheguei na adolescência.

Eu não quero um mundo de gente criada a leite com pêra. Eu quero um mundo de gente que confrontou e derrubou as ideias dos pais e formou suas próprias ideias e valores. O mundo precisa de mais gente assim.

SEMPRE haverá gente conservadora, que não gosta de homossexuais, que odeia feministas e esquerdistas em geral, pois opiniões opostas são naturais dos seres humanos. E qual o problema disso? Nenhum, desde que eu não pise no pé deles e eles não pisem no meu.

Esse protesto foi uma vergonha. Se até os muçulmanos foram lá cumprimentar o Papa de boa e resistiram heroicamente ao instinto de estourar a cabeça dele, acho que vocês poderiam segurar as piriquitas um pouquinho de vez em quando também.

Thomas disse...

Um adendo: Toda vez que vocês chegarem numa manifestação religiosa de peitos de fora e praticando homossexualidades na frente dos crentes, vocês só darão mais força pra ojeriza que eles sentem de vocês.

O efeito de uma manifestação desse tipo é o contrário daquilo que vocês, supostamente, querem.

Mas talvez eu esteja sendo ingênuo demais. Talvez tudo o que importa pra vocês é a guerrinha Esquerda x Direita, numa disputa de quem consegue irritar mais o outro. O direitista vai postar num fórum machista um monte de merda pra irritar a Lola que, em contrapartida, faz posts pra tentar irritar os caras, o que inspira as "vadias" a marcharem de peito de fora segurando cartazes com o objetivo de também tentar irritar os direitistas.

É só uma gincana, no fim das contas.

Dona do Sexo -Bonobo rules,Jaçanã forever disse...

"equivalem o valor de uma mulher ao de um carro"
Agora nao so de carro(considerado coisa masculina pela sociedade esteriotipada),é de refrigerante,é de processador de computador e outros(unissex) que devem ter por ai.

Sara disse...

Nunca vou entender porque tanta gente se sente agredida por uma imagem que pra mim remete apenas ao sentimento de amor, um beijo não importa muito quais figuras humanas que estejam participando, deveria lembrar o que é de fato, só beijamos o q amamos (talvez como exceção o beijo de Judas)
Se houvesse o mínimo de justiça em nossa sociedade, não deveria haver um único ponto a ser criticado nessa cena, casais hetero beijam se em todos os lugares, mesmo DENTRO DAS IGREJAS E DIANTE DOS PADRES E RECEBEM SACRAMENTOS, os homens cotidianamente andam com seus torsos nús pelas ruas sem nenhuma recriminação.
QUE ABOMINAÇÃO COMETERAM ESSAS GAROTAS????

Veronica disse...

Se no lugar dos católicos estivessem evangélicos, ou kardecistas, ou candomblecistas, ou adventistas, ou umbandistas a repulsa seria a mesma.

Não acho que protestar em uma festa religiosa ajuda a causa feminista.

Qual religião apoia pessoas seminuas se beijando escandalosamente? Qual religiaão faz celebrações com pessoas seminuas?

Se a intenção do protesto era chocar e causar repulsa e antipatia, missão cumprida !!

Agora se a intenção era mostrar o quanto o kit peregrino é preconceituoso , o protesto passou longe do objetivo.



Liz Santiago disse...

O texto é maravilhoso, muito bem escrito.
Esse Thomas é folgadinho, ne? Quer que as feministas que ele tanto odeia (mas acompanha o tempo todo o blog da Lola pra criticar...isso é tesão reprimido) lutem contra a ingerência das religiões na política, porque isso sim afeta de maneira nefasta A VIDA DE TODOS NÓS. Q tal ele levantar a bundinha do sofá e lutar por ele mesmo? Esperar que o grupo feminista que ele detesta continue lutando e levando porrada sozinho, inclusive de gente como ele, é um pensamento meio bipolar, ou hipócrita, ou babaca?
Desculpe, mas essa criatura me irrita...
Thomas, vá se tratar.

Cyntia Campos disse...

Lola, dá só uma olhada nisso:
http://www.camaraempauta.com.br/portal/artigo/ver/id/4998/nome/Estudantes_de_Redes_da_UnB_dizem_que_calouras_serao_recebidas_com_um_estuprinho

Cris Roseno disse...

Por que protestar em frente à igreja em uma festa pela vinda do Papa? Porque o Papa é uma figura política de maior influência no mundo, ele representa a igreja imperialista que cospi regras morais à quase 2000 anos, saqueando culturas e delineando a sociedade patriarcal. O papa é pop! Graça à essa simpática igreja, milhares de de mulheres morrem ou são hostilizadas em hospitais e na vida porque a igreja não quer que regularize o aborto. A Igreja não nos respeita e destrói a vida de milhares todos os dias. Este protesto não é nada comparado a isto. bjus

Beatriz Henriques disse...

Thomas,

Obrigado pelos insights em relação ao meu texto. Sua confiança em afirmar que os saltos argumentativos de um texto que você não leu na íntegra são tão grande quanto a Ponte Rio-Niterói mostra todo o senso crítico usado na interpretação do mesmo.

Mas colocando isso de lado, a gente tem muito mais em comum do que você pode imaginar. Você disse que o que todos deveríamos lutar contra era a influência da religião na política – afinal vivemos sob um Estado laico. Concordo plenamente. No entanto, onde essa influencia começa?
Dependendo de quem estiver falando, muitos são os argumentos por trás da visita ao Papa ao Brasil. Você apontou ela como uma “festa dos católicos” – o que de fato é. Não duvido que, individualmente, quem participou da JMJ estivesse mais preocupado em entrar em contato com sua comunidade, com outros fiéis, do que pensar no que o Vaticano e a Igreja representam no plano político – o que é uma forma legítima de participar do evento. No entanto, também é fato que essa visita se deu em tempos de crise no Vaticano – crise essa que levou à renúncia Joseph Ratzinger e à nomeação do primeiro Papa latino americano, continente que historicamente é reduto de católicos e que abriga o país com maior número de católicos no mundo (Brasil). Continente também que durante os últimos dez anos foi tomado por políticos progressistas que trouxeram para suas pautas temas como: legalização de entorpecentes, legalização do aborto, casamento de pessoas do mesmo gênero, ou seja, temas que a Igreja Católica sempre foi contra. Por último, estatísticas também mostram que nos últimos anos a Igreja Católica tem perdido um número de fiéis significante no Brasil para as igrejas pentecostais, mais um indicativo de que ela vive um momento de crise.

Então, por mais que oficialmente o Papa não tenha vindo ao Brasil como chefe de Estado (ele negou o convite de Dilma de visitar Brasília, o que oficializaria sua visita como política) e sim religioso, como ignorar o oportunismo e a estratégia de fazer essa visita no Brasil? Como ignorar o fato de que a base com quem o Papa quer retomar contato também é massa de manobra, por ser um grupo tão sensível a políticas públicas? Como ignorar o fato de que o primeiro faux pas que Dilma cometesse com Bergoglio seria motivo para uma queda de sua popularidade (que já vai mal) com seus eleitores católicos?
Então quando esse grupo se reuniu nas ruas do Centro do Rio, seu protesto era contra a JMJ sim e sua influência política, contra a tradição da instituição, contra o próprio Papa, não os jovens e o os idosos que queriam manifestar sua espiritualidade. Da mesma forma que as manifestações durante a Copa das Confederações foi contra as instituições por trás da mesma (a FIFA e o governo brasileiro) e não os torcedores e jogadores, que queriam celebrar a “paixão nacional”. Da mesma forma que a série de manifestos provocados pelas ações do Feliciano na CDHM foram contra o dogmatismo religioso que ele queria aplicar a diversas leis e não aos milhares de fiéis que escolhem, em particular, reger suas vidas de acordo com tais dogmas. Da mesma forma que em 2011, quando Barack Obama esteve no Rio de Janeiro, a manifestação em frente ao consulado americano foi um protesto contra o Imperialismo norte-americano, nunca contra o povo daquele país.

Beatriz Henriques disse...

Quanto ao que você atribui ser “meter o pé na porta”, “falta de respeito”, “falta de educação”, “coisa de filhx da putx” dentre outros, de fato, é mais complicado abordar. Duas meninas se beijando ou duas meninas expondo seu torso só tem o poder de ser agressivo, só tem o poder de ofender, pelo que eles simbolizam. Quer dizer, pelos valores que damos a eles como sociedade. Um torso de homem nú nunca seria capaz de provocar tanto ódio porque aquilo nada mais é do que um corpo, é a expressão máxima de sua virilidade se o rapaz tem bíceps torneados e “barriga de tanquinho” ou então de quão looser ele é caso seja magrelo ou pior, tenha “peitinho” (e olha aí como o patriarcado machuca os homens também). Mas de mais a mais, é dele. O seio de uma mulher, no entanto não é visto assim. Seios esses que afagam e nutrem toda a humanidade, ao invés de ser o símbolo da força feminina é reduzido a uma arma de sedução, uma carta na manga (ou seria no decote?) usada como manipulação feminina. Seu único papel social (revisitando o exemplo das propagandas) é despertar a líbido masculina. Então o que essas moças estão fazendo, como eu já disse, é uma forma de resgatar sua anatomia como sua, e não como objeto sexual (mais ou menos o mesmo que foi feito com a palavra queer em países anglofônicos, onde a palavra inicialmente tinha uma conotação negativa, mas devido ao resgate feito por essa comunidade, hoje eles mesmos a usam a palavra para identificar seu grupo e o nome não tem mais o poder de ofender por não ser relacionado à sua conotação pejorativa).

Considerando o seu nome e o que você disse, deduzo que você seja um homem cis e hétero, logo, o seu privilégio não te permite entender o que é uma pessoa (ou todo um grupo) ter o poder de te envergonhar, de te rebaixar, de te atacar só por você possuir as características anatômicas que a natureza lhe atribui. Você nunca vai ter que saber o que é um policial, uma figura de poder, mandar você tirar sua camisa, cheirá-la e passa-la de mão em mão e te chamar de “vadia”, porque, se você tem seios, é claro que você deve ser uma criatura muito suja e baixa mesmo. (http://feridosnoprotestosp.tumblr.com/post/52979047001/atencao-relato-de-violencia-policial-cometida) E deixo claro que não estou falando isso como forma de te atacar não. Admitir o próprio privilégio não é vergonha nenhuma. Por exemplo, eu tenho privilégio de branco: eu tenho o privilégio de andar na rua à noite sem ter gente mudando de calçada com medo de mim (como o próprio Obama já relatou em entrevista), eu tenho o privilégio de saber que se eu cometer um erro, ninguém vai usar minha raça contra mim e falar que foi “coisa de preto” dentre outros.

Muitos defendem que a forma de manifestação das meninas é intolerante e que elas deviam considerar os fiéis. Seguindo a mesma linha de raciocínio, podíamos pedir mais tolerância por parte dos fiéis explicando que o instrumento que as meninas usam para protestar é completamente legítimo e tem fundamento, como a Vitória fez ao explicar pra mãe dela sobre o que era o protesto. Mas isso exige um bom meio de comunicação entre ambas as partes, e isso a gente sabe que é difícil. Daí o problema acaba virando uma questão de quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?
Em tempo, gostaria de parabeniza-lo por ter criado seus próprios ideais e suas próprias visões de mundo, independente do que sua família lhe ensinou. Só não use isso como forma de invalidar o sofrimento de pessoas que foram criadas sob uma mentalidade que não é simplesmente contra o que elas acreditam, e sim uma forma de não reconhecer sua agência. Eu, felizmente, fui criada por pais que me deram liberdade de seguir a religião que eu bem entendesse, mas não ache que só por isso as minhas visões de mundo (que não se limitam à religião) não são fundamentadas por muita leitura, análise e frequentes questionamentos.

Abraços cordiais.

Luiz F. disse...

O Brasil realmente é um país sexualmente muito confuso. As pessoas assistem na TV mulheres semi-nuas dançando em avenidas e aplaudem, mas não suportam ver um beijo entre pessoas do mesmo sexo.

Aninha disse...

Pessoas queridas! Um pouco fora do texto, mas queria muito compartilhar algo com vocês.

Tenho um irmão mais velho bem conservador. Assim, não o acho homofóbico a ponto de xingar um homossexual ou algo do tipo, mas sempre que conversávamos sobre direitos LGBT ele vinha com aquele papinho besta de: "casar para quê?", "direitos para quê?", etc e me acusava de "defensora dos fracos e oprimidos"

Aí ontem estava com ele no carro e mais dois colegas de trabalho dele. Nem participava da conversa, eles estavam falando do trabalho. Nisso os amigos do meu irmão começaram a falar de um cara: "Fulano é gente boa, pena que é bicha" seguido de várias piadas idiotas. Meu irmão ficou sério e falou super grosso com os amigos: "Vou corrigir a sua frase. Fula é muito gente boa. Ponto. A opção sexual dele, seja qual for, não deve ser discutida ou ficar tirando sarro dela."

Morri de orgulho. Anos e anos de discurso na orelha dele não foram em vão. Depois que deixamos os amigos deles, viemos conversando sobre o assunto e fiquei impressionada como a mente dele estava mais aberta em relação as questões LGBT.

Compartilhei isso com vocês para passar a mensagem positiva: NÃO DESISTAM!!! Se deu certo com o meu irmão (que tem um bottom do Geisel e acha que o governo militar foi a melhor coisa que aconteceu no Brasil) pode dar certo com muita gente ainda :-)

Julia disse...

Cris Roseno, dá cá um abraço.

afrolesbofeminista disse...

Que resposta em Beatriz...
Parabéns pela paciência em explicar o B A BÁ.

Como eu tenho orgulho de ser feminista.

Kittsu disse...

Vcs reivindicam todos os direitos, querem toda liberdade, mas não sabem nem respeitar a fé alheia. Acham que as pessoas não podem ter uma religiosidade ou fé que vá contra as práticas de vocês. Os orhminodenos não são obrigados a rever sua fé para aceitar o que vcs acham que eles devem aceitar. A palavra de Orhminod está escrita há mais de 20 mil anos, e ela não mudará. Quem não acreditar, tem todo direito de procurar outra religião, ou não ter religião nenhuma, mas não podem querer modificar a fé da maioria. Devem, sim, respeitar a religião alheia. Querem respeito, mas não respeitam ninguém.
E a palavra de Orhminod diz que demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo semi-despidas fazem parte de seu sagrado culto, doa a quem doer.

Luiz Prata disse...

Independentemente das reações de quem quer que seja, as meninas estavam no pleno direito delas. A rua em frente à igreja é espaço público e elas têm direito à livre manifestação.

E não há nada errado num beijo consensual entre duas pessoas adultas, isso não deveria chocar ninguém, estando ou não vinculado a um protesto.

No mais, adoraria estar na Marcha das Vadias o Rio, mas não atentei para data e acabei viajando para fugir do caos da cidade e visitar parentes no interior, com volta marcada para domingo. Mas mandarei boas vibrações.

Ana Carolina disse...

O texto é muito bonito, mas concordo com a Vitória e a Verônica. Para mim, para você, para nós feministas, a imagem é bonita e o protesto delas é completamente compreensível. Para a religiosa dentro da igreja, é um tapa na cara - e tem muitas pessoas religiosas, ainda que conservadoras, com muito mais tendências progressistas do que pode parecer à primeira vista e essas pessoas só se afastam com esse tipo de atitude.

Concordo que a luta é necessária e não é só com conversa educada que se muda algo, mas fico pensando em qual o objetivo do protesto em si (e que vejo bem diferente da Marcha das Vadias, p. ex.): fazer aquelas pessoas ali presentes refletirem sobre o quanto os homossexuais em geral e as lésbicas em especial são postos de lado na sociedade ou sobre a objetificação do corpo feminino, além de criticar a igreja católica como instituição? Se é essa a intenção, não seria melhor repensar o gesto? Ou querem "pregar para xs convertidxs", para quem entende exatamente o significado do gesto? Querem trazer mais pessoas para o feminismo, para a causa LGBT, pessoas essas que poderiam ser levadas à reflexão de outra forma ou querem agredi-las?

Sei lá, como disse, sei que precisamos de luta, do choque, mas não seria bom também um diálogo para angariar aliadxs? E olha que tem muita gente que é feminista e não sabe e até mesmo defensora da causa LGBT e não sabe, mas podem ser esclarecidas - e isso não vai acontecer num protesto desse tipo. Aliás, ainda pode virar um "por que vou te ouvir se você me agride naquilo que é sagrado para mim?".

Amana disse...

Perfeito, perfeito, adorei a reflexão...
E vou dizer mais: tenho pensado muito sobre como a sexualidade da mulher é infantilizada e tutelada em nossa sociedade.
Desde que pesquisei vários sites e postagens para escrever o guest post aqui pra Lola sobre a cura gay, reparei que basicamente se relaciona "gay" a homossexualidade masculina. 99% das piadas sobre isso, das frases nos cartazes nas manifestações, dos comentários homofóbicos se referem ao "ser gay" entre homens. A homossexualidade feminina fica invisibilizada até mesmo na luta contra a homofobia!
Só consigo atribuir isso à nossa sociedade machista, onde o que afronta aparentemente é o homossexual homem que supostamente se "rebaixa" à posição feminilizada. As mulheres que têm relações homoafetivas ficam invisíveis por várias razões, todas elas relacionadas ao machismo: porque são vistas como fetiche, se se enquadram no padrão de beleza feminina, porque são vistas como "confusas", "inexperientes", ou porque ainda não conheceram homens "de verdade" - submetendo-as aos terríveis estupros corretivos. Quer dizer, o desejo da mulher lésbica é negado em todas essas situações, porque ela é tida como alguém que, em última instância, "não sabe o que quer".
Tô pensando muito sobre tudo isso, especialmente pq tenho feito oficinas com jovens (rapazes e moças) sobre sexualidade, e muitas falas apontam para esse meu desconforto.
Quem sabe em breve consigo organizar as ideias e mando pra Lola publicar aqui?
Valeu pelo texto! Gostei muito!

Luiz Prata disse...

Por mais que eu concorde, em parte, com a Vitória e a Ana Carolina no que se refere à importância do diálogo, eu ainda acho que isso não desmerece nem invalida nem desmerece o ato das meninas. Ainda considero o beijo delas válido e legítimo, pelos motivos citados no meu cometário anterior.
Sei que não é essa a intenção, mas criticá-las aqui na caixa de comentários também soa como "pregar para xs convertidxs".
Se alguém tiver uma sugestão melhor para as moças, que as procure no Face, twitter, tumblr, etc e apresente a elas tais sugestões.
Ou que vá às ruas e proteste como achar melhor.

Ana Carolina disse...

Luiz,

Tava pensando melhor sobre o assunto, sobre o meu comentário, sobre o seu e pensando que depende do objetivo que elas tinham mesmo. Se chamar aquelas pessoas para a reflexão, elas fizeram MUITO ERRADO. Se é o choque (e o choque é necessário sim, compreendo muito bem e concordo), então retiro meu comentário pq nunca houve tentativa de diálogo, ao menos naquele momento, com aquelas pessoas.

Mas concordo e muito com a política de diálogo até por isso: tem muitas pessoas feministas e progressistas por aí mas que não sabem disso (coloquei o defensor dos direitos LGBT como "até" porque essa é uma causa que acho difícil militar inatamente, porém não impossível). Tem muitas pessoas dentro das igrejas que não concordam 100% com os dogmas conservadores (vi esses dias uma pesquisa com grande apoio dos jovens católicos ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, p. ex.). E acho que angariar aliados sempre é uma coisa boa, até para uma mudança maior de pensamentos. E não dá para chegar para uma pessoa conservadora e despejar todo o raciocínio de cara, ou tratá-la como inimiga em potencial, quando ela pode se tornar aliada.

E acho que isso que quis dizer, sei lá, temos uma tendência de falar só com quem é feminista, só com quem já tá na militância, sendo que tem várias pessoas na "zona neutra" que podem, com algum esclarecimento, vir para o nosso lado.

Mas aí já divaguei demais do que o post disse, essa é outra discussão...

Ellen Joyce disse...

Poxa, Lola, que texto maravilhoso! Sou muito sua fã!
beijo

Luiz Prata disse...

Ana,
como já disse, concordo com o valor do diálogo, e dialogar seria a minha postura. Eu acredito em angariar aliadxs. Mas até aí sou eu.
Eu não conheço as meninas, nem o histórico delas, nem as intenções. Por isso mesmo, e pelas razões antes mencionadas, eu não posso, não quero e não vou criticar o gesto delas. Eu não estava lá, elas estavam, com a vivência e as razões delas. Se eu estivesse lá, tentaria uma postura conciliatória, mas não as impediria.
Exatamente por isso as minhas duas sugestões nos últimos parágrafos do meu comentário anterior.

Vitória disse...

Luiz e Ana


Eu sempre achei e acho legítimo qualquer forma de protesto. O das meninas então foi lindo, fizeram o que muita gente tem vontade de fazer. Não quero de forma alguma tirar a legitimidade delas.

Contudo eu partilho a opinião da Ana de que movimentos sociais não podem falar para dentro, até pq se for assim, pq ter um movimento social? Movimento social serve para a interlocução com os de fora, para a sensibilização da sociedade em relação à algumas questões. Não estou querendo dizer que os movimentos devem se pautar pela opinião alheia, longe disso, mas eles devem ser estratégicos tb, do contrário é suicídio e mais atrapalha do que ajuda.

Por exemplo: eu participei da contramarcha do Malafaia em Brasília. Era um evento religioso e fui lá protestar. Contudo a marcha do Malafaia não foi uma simples marcha para Jesus ou algo do tipo, foi uma marcha em defesa da "liberdade de expressão" (que nós sabemos que é opressão), da família tradicional e contra o aborto. Os participantes dessa marcha foram lá conscientes de quem era o inimigo deles (nós feministas, vadias, viados e travas) e o discurso proferido lá era para nos combater. Conscientizar alguém era impossível, e a contramarcha serviu para marcar oposição, para mostrar para a mídia hegemônica ou não hegemônica que a sociedade não concordava com aquilo.

Meninas da marcha das vadias tb foram, tb tiraram a roupa, teve inúmeros beijaços. Mas ali sabíamos bem quem era o nosso inimigo, e não era (apenas) uma instituição, uma personalidade, uma simbologia. Eram os fundamentalistas religiosos que estavam há poucos metros de distância, que inclusive tentaram nos agredir diversas vezes.

Eu julguei que ali era oportuno protestar, e protestar para chocar, pq eles estavam realizando um evento cujo o único objetivo era atacar os ideais que eu e inúmeras pessoas acreditam. O que é diferente se eu fosse para a porta de um culto, por exemplo. Por mais que eu conheça o discurso das igrejas evangélicas (afinal eu sou dissidente do neopentecostalismo), ir para a porta de uma igreja em um dia normal de culto poderia ser suicídio. Nem todos os evangélicos vão ao culto semanal pensando em combater LGBTs. Muitos vão para exercer a religiosidade, muitas vezes aprendida e perpetuada dentro de casa, da mesma forma que minha mãe vai na missa para rezar e ouvir a homilia, mesmo não concordando com tudo o que a igreja diz. E aí é suicídio na medida em que existe o risco de afastar quem poderia se juntar à causa, e acabar hostilizando (mesmo sem essa intenção) quem nem de longe representa perigo para nós.

Nesse caso eu acho que o protesto seria mais bem sucedido se fosse em frente a algum prédio da CNBB (que combate nossas pautas de forma consciente e intencionada) ou na frente de alguma grande autoridade da Igreja.

Vitória disse...

Esses acima foram só alguns exemplos que eu dei, que certamente poderiam ser aplicados em outras ocasiões.

Estratégia é uma coisa que precisa ser pensada e repensada nos movimentos sociais. Protesto se faz no calor da emoção, mas tb precisa de uma boa dose de racionalidade e de cuidados, pq senão o tiro pode sair pela culatra.

Veronica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Patty Kirsche disse...

O corpo feminino é associado a sexualidade porque a mulher se forma socialmente na relação com o homem. É por isso que a palavra "mulher" tem semântica de esposa, mas "homem" não tem semântica de marido. O corpo feminino se forma pela percepção masculina dele, que predominantemente se dá pelo desejo sexual. Sexo é visto como algo sujo, principalmente pela influência do cristianismo. Ora, se o corpo feminino provoca desejo sexual no homem, então não pode ser bom. A rejeição ao corpo feminino é parte dum processo social de misoginia. O corpo feminino aparece como um objeto que precisa ser aprovado pelo olhar masculino e que para tanto exige bastante atenção das mulheres. Ainda nessa linha existem ideias de que a vagina é feia ou suja, a rejeição pela menstruação, e claro, a proibição de que seios sejam exibidos. Seios ofendem porque são femininos.

Cora disse...


só complementando, Patty Kirsche, a nudez feminina não ofende sempre. ela só ofende quando ela acontece segundo o desejo da mulher. a nudez feminina ofende quando a mulher é agente. quando a nudez feminina está a serviço do olhar masculino e a mulher se desnuda atendendo ao pedido masculino a nudez não é ofensiva e não é criticada. e nesse caso, quem critica a nudez será classificado de moralista, independente dos argumentos que use para fazer a crítica.

exemplos não faltam. #lingerieday, propagandas, revistas, novelas, musas de times de futebol, musas do esporte, musas de feiras de tecnologia, musas de blogs de nerds, musas de.... enfim, sempre que a mulher tira a roupa atendendo ao desejo masculino tá tudo ok (não que ela seja respeitada. não é. machistas NUNCA respeitam mulher, independente da forma como a mulher se comporte. machistas aceitam ou rejeitam. respeitar? NUNCA. mas machistas adoram mulher obediente. então louvam todas as mulheres que tiram a roupa sempre que são solicitadas a fazerem isso). em qualquer situação diferente dessa, a nudez feminina será severamente criticada e as mulheres hostilizadas com violência desproporcional.

e aí, séculos de uma absurda e incompreensível violência simbólica contra o feminino não representam nada quando comparado a duas mulheres que se beijam, como o thomas esclareceu tão bem (como ele sempre faz por aqui).

o q são séculos de tapas na cara cotidianos, não é? violento mesmo são duas mulheres sem blusa se beijando diante de uma igreja que transformou a misoginia da sociedade em algo divino.

Anônimo disse...

Olá boa noite,

Eu acho uma atitude estúpida, aliás uma grande palhaçada.
Veja bem, você discorda dos dogmas da Igreja Católica? É simples, não a frequente.
Li uma reportagem falando da Marcha das Vadias, de pessoas quebrando imagens religiosas e andando semi-nuas. Pra que isso? As mulheres não já andam semi nuas por aí? Já não vão sem calcinha a bailes funks? Já não abortam escondido? Já não traem os homens com o pretexto de ter os mesmos direitos que eles? Pra que essa palhaçada toda? Chamar isso de coragem? Não tem nada de socialmente útil aí, ninguém está se preocupando, arregaçando as mangas por que é desfavorecido socialmente, por quem está na miséria com fome e frio. E vem chamar isso de coragem e aplaudir, só porque tem a intenção de chocar os fiéis? Nossa, qual o objetivo do movimento mesmo? Fazer com que os católicos deixem sua religião só porque vocês não concordam conosco? Só porque nós não concordamos com o que vocês chamam de modernidade? Cadê o respeito que vocês querem se vocês são as primeiras a desrespeitar as pessoas. Mesmo vocês não gostando o Brasil é o maior país católico do mundo. Mesmo vocês não gostando existem pessoas como eu, e não são poucas, que apóiam sim os ensinamentos da Igreja. E não venham com aqueles argumentos batidos de pedofilia, de Idade Média. O papa Bento XVI já enfatizava que o número de fiés não era importante, o que importa é que nós sejamos verdadeiros fiéis. A quem não interessar, simples, caiam fora. Não entendo porque pessoas de fora querem mudar a essência da Igreja. Usem suas camisinhas, abortem, andem peladas, afinal vocês já fazem isso. Pra que desrespeitar os fiéis? Pra que distribuir camisinha na JMJ? Pra que faltar com respeito a uma autoridade papal, de grande influência mundial, uma pessoa idosa? Ah, só porque vocês não gostam do Catolicismo? Ah, tá.

lola aronovich disse...

Querido anon, eu não frequento a igreja católica. Mas os dogmas da igreja católica frequentam a minha vida. Graças à igreja, milhares de mulheres morrem todo ano por decorrência de abortos clandestinos. Aliás, sabe o que é irônico? Essas mulheres que morrem SÃO católicas. A maior parte das brasileiras que abortam são católicas, casadas na igreja e tal. Só que, por mais que elas sejam católicas, elas ainda acham que a igreja não deve mandar no corpo delas. Aliás, essa mesma igreja que proíbe o aborto também proíbe a pílula do dia seguinte, pílulas anticoncepcionais, camisinhas, aulas de educação sexual nas escolas, até divórcios! Eu não quero que os católicos deixem sua religião. Quero que os católicos deixem o Estado em paz. Quando que o Vaticano respeitará o Estado Laico?

Renan Rosenstock disse...

é difícil dizer que as feministas "são as primeiras as desrespeitar as pessoas", cara anônima: As mulheres (o feminismo veio depois... causa e consequência, saca?)são desrespeitadas pela igreja desde sempre. Especialmente pela católica, tão machista e paternalista quanto nenhuma outra. Quer dizer, uma mulher, por melhor e mais "beata" que seja, não "administra" uma igreja. O problema é que esse país é laico por constituição, portanto não importa se é majoritariamente cristão. Onde não há direito para todos predomina a intolerância, e talvez seja esse o maior pecado do cristianismo moderno. As meninas não chocaram os fiéis, os fiéis é que se chocaram. Existe uma diferença aí. E o Francisco não se chocará porque talvez ele seja tão mais próximo -em compaixão- dessas manifestações que todo esse catolicismo "carismático" ;)

Agora, também achei desnecessária a intervenção de quebrar imagens ou simular sexo com os objetos da igreja. Godard, Mishima, é possível chocar com a arte, muito além de intervenções que só se propõem a chocar por chocar.

Solidariedade e autonomia,

Anônimo disse...

Lola, eu reitero, que discorda, fique a vontade pra viver a sua maneira. Católicas abortando adoidado? Correção, pessoas que se dizem católicas. E no mais, esse tipo de protesto não serve para nada mais que gerar ódio e preconceito contra os católicos. Um pseudo-desafio a quem? A mim não é. Gostaria até de falar, quando eu disse "abortem", falei no sentido de que as pessoas realizam o aborto independente da posição da Igreja, não quis aqui, como católica, incentivar tal prática, só obviamente reconhecendo que ninguém vai deixar de abortar... se eu for ficara aqui pormenorizando o aborto, essa discussão não vai ter fim, porque na minha opnião é assassinato. É mais um desrespeito ao direito do outro. Eu fiquei contente por você ter dialogado comigo aqui. Que bom, que temos a capacidade de conversar com pessoas de opiniões contrárias. Quando as pessoas defendem o aborto, costumam apontar isso como a grande solução para muitos problemas das mulheres, mas esquecem os grandes riscos que elas mesmas correm. E o Brasil é um Estado Laico. Mas fomos colonizados por um país católico, muita coisa está enraizada e vai ser bem difícil ser mudada, apesar da decadência visível na sociedade, onde a gente vê sites importantes de notícias incentivando a infidelidade dentre outros. Eu acho que temos que ter muito cuidado em relação as pessoas. Nos colocar no lugar delas antes de qualquer atitude.

Patty Kirsche disse...

@Cora:
Mesmo qdo o corpo feminino é constituído a partir do desejo masculino, ele é coisificado, o que não deixa de ser uma ação de degradação. Segue um trecho de minha tese de mestrado no qual falo sobre a rejeição ao corpo feminino:

"Contudo, não é apenas a sexualidade feminina que recebe um desprezo sistemático. Também parece existir uma certa rejeição ao corpo feminino, parte de sutis manifestações misóginas. A princípio, pode parecer incoerente afirmar existir um desprezo pelo corpo feminino quando esse corpo aparece sendo cultuado em sua nudez pela mídia. Entretanto, essa é exatamente uma das manifestações dessa rejeição, uma vez que coisifica o corpo, atribuindo-lhe características de um produto a ser exibido, vendido, consumido, inspecionado e aprovado ou reprovado. O corpo feminino acaba sendo reduzido a um conjunto de formas, tamanhos, texturas e cores cuja principal função é agradar aos homens heterossexuais como objeto sexual para obtenção de prazer ou reduzido a sua função reprodutiva."

Anna disse...

Amei o texto e as repostas da autora ao fã incondicional de Lola. Favoritei :)

E eu concordo de comentários que dizem que a igreja se mete na nossa vida todo dia então a atitude das meninas não pode ser ofensiva (afinal né, pelo amor de deus, é simplesmente um protesto com duas pessoas se beijando) e nem ter sérias repercussões para os membros da igreja.. E foi impressionante ver o número de gente, que com todos os problemas do país, implorava no twitter para o papa salvar o Br do grave problema q é o homossexualismo (sic!) entre os jovens

Natascha disse...

Ainda não consegui formar uma opinião completa sobre o assunto. Entendo a manifestação das meninas e contra o que elas se posicionam e o porquê, só acho que é sim desrespeitoso com os fiéis. Por que? Poxa, se um religioso tivesse entrado na Marcha das Vadias aqui em Recife e começado a abençoar todas nós, eu teria me sentido aviltada!
A igreja católica é responsável pelos abortos e mortes das mulheres? Será gente? Acho que se nós, como povo, permitimos que a religião interfira a tal ponto no estado, isso é um problema de EDUCAÇÃO e CIDADANIA, não religião.
Não acho que tenha ajudado em nada no movimento, confesso, a não ser a criar mais conflito :( Acho que é muito válida a expressão do corpo nos protestos, mas não tem tanto alcance. Nossas ideias devem ser discutidas para todos, nas escolas, nos partidos políticos, nós temos que ir pra Brasília, temos que ser eleitas e votar com sabedoria. E isso sim vai nos libertar da jugo eterno da igreja sobre o estado, do patriarcado sobre as mulheres. Beijos com dorsos nus, por mais lindos que sejam, só vão nos levar até certo ponto.

Cora disse...


tens toda razão, Patty Kirsche. quis apenas dizer que nem sempre o homem se sente ofendido pela nudez feminina e que quando isso acontece, normalmente, a mulher está sendo agente (ela quer ficar nua, em detrimento do desejo masculino de vê-la nua) ou o homem não considera o local adequado (ELE não considera adequado. do contrário, a nudez também não seria ofensiva). nesse caso, o corpo feminino agride o homem e, claro, a forma como o homem tem de lidar com esse corpo que lhe agride é a violência verbal (os xingamentos), a hostilização, a depreciação, a agressão moral.

o feminino foi despersonalizado (e ao mesmo tempo sexualizado) de uma maneira tão absoluta, que muitos sequer conseguem imaginar um mundo em que mulheres sejam mais do que objetos nos quais os homens fazem sexo (porque nem como parceiras somos vistas, já que sexo é algo ruim pra mulher) ou do que objetos que procriam.

o corpo feminino é sempre coisificado. sempre sexualizado. e ele é demonizado, sim. considerado ofensivo, sim. mesmo que o homem louve a nudez que lhe serve (e ele louva, se derrete em “elogios” à mulher que se despe da forma e no momento em que ele acha adequados), aquele corpo é demonizado, pois se o homem não pode ter acesso a esse corpo, a violência acontece (através da despersonalização, da desqualificação e do xingamento, e alcançando, muitas vezes, a violência física). disse uma vez aqui no blog, que o homem saliva e chuta ao mesmo tempo. ele parece odiar o corpo que lhe desperta o desejo. e é sempre incapaz de ver naquele corpo uma pessoa. por isso nenhuma crítica a uma mulher acontece sem que se mencione o seu corpo (e sua sexualidade) de alguma maneira. um homem não consegue ver numa mulher alguém que sente, que deseja, que sofre, que erra, que acerta, que tem dúvidas, que tem defeitos, que tem qualidades, que é mais do que o corpo. tanto que um corpo feminino que não lhe desperte o desejo não merece também qualquer atenção ou afeto, no máximo alguma convivência indispensável, tolerável.

por isso mulheres acreditam que possam ser amigas de homens. e podem ser, porque mulheres veem os homens como pessoas e não como corpos apenas. homens são unânimes em dizer que é impossível a amizade entre homens e mulheres. porque não há outra função pra mulher que não seja sexual. então não há amizade possível. simplesmente porque não há afeto possível. não há camaradagem possível.

eu sempre achei que os machistas fossem assim. apenas os machistas. mas ultimamente tenho revisto isso. todo homem vê a mulher assim. alguns apenas não são tão estúpidos.

havia emendado um comentário pra você com um comentário à fala do thomas, por isso aquele texto meio frankenstein.

adoraria ter acesso à sua dissertação. tem como?

[]'s

Anônimo disse...

Deixa eu vÊ se entendi foram protestar contra um livrinho emitido por uma instituição onde ninguém ( ou poucas pessoas) seguem num lugar onde mais da metade dos peregrinos são a favor do casamento gay e do uso da camisinha?

Tem razão, foi muito importante fazer aquilo

Sara disse...

Obrigada por suas reflexões Cora, como sempre vc traz a tona percepções muito relevantes e que dão muito no que se pensar.

Luiz Prata disse...

Como disse Renan Rosenstock: "O problema é que esse país é laico por constituição, portanto não importa se é majoritariamente cristão. Onde não há direito para todos predomina a intolerância, e talvez seja esse o maior pecado do cristianismo moderno. As meninas não chocaram os fiéis, os fiéis é que se chocaram. Existe uma diferença aí. E o Francisco não se chocará porque talvez ele seja tão mais próximo -em compaixão- dessas manifestações que todo esse catolicismo 'carismático' ;)

Agora, também achei desnecessária a intervenção de quebrar imagens ou simular sexo com os objetos da igreja. Godard, Mishima, é possível chocar com a arte, muito além de intervenções que só se propõem a chocar por chocar."

Concordo.

lola aronovich disse...

Pessoas queridas, peço que, a partir de agora, os comentários sobre o casal que quebrou símbolos sacros na Marcha das Vadias no RJ no sábado, dia 27/7, sejam feitos no post sobre isso. Obrigada!

Feminista capitalista disse...

Eu não tenho muito pra acrescentar,porque sinceramente esse texto deve ser um dos 5 melhores que já li nesse blog, sensacional, tirou as palavras da minha boca e expressou tudo que eu penso e gostaria de dizer.


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Além disso, gostaria de afirmar que achei sim o protesto das duas garotas valídissimo e super necessário.
Apesar de muitos acharem que não se deve 'ofender' os católicos, vale lembrar que graças as crendices que essas pessoas fazem questão de sustentar em pleno ano de 2013 somos ofendidas diariamente.
Sim, digo diariamente,porque não há um dia da minha vida em que passe sem ouvir ou ler em algum canto/webiste/ e até mesmo textos pseudo-cinentíficos algo que inferiorize as mulheres em relação aos homens.
Isso não só alimenta nossas crendices de inferioridade e nos acaba com a auto-estima como é sistemático, porque acontece todo dia,quase toda hora, é machismo demais pra minha cabeça.

E no caso das manifestantes hostilizadas ainda há o agravante da homofobia/lesbofobia elas possivelmente são odiadas pelos próprios pais e consideradas 'nojentas' por não realizarem o sonho patriarcal deles de caminahrem vestidas de branco até o altar da igreja onde serão entregues pelos pais(como se fossem uma posse/objeto) a um homem que será o seu marido.

PORTANTO, elas tem TODO o direito de se insurgirem contra essa violência sistemática e de confrotarem conforme a própria vontade os valores dessa gente.
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O povo vem aqui e diz que a igreja católica não é a maior inimiga da mulher,mas o catolicismo é o berço do cristianismo e apenas ajuda a reforçar toda a misoginia praticada pelas demais religiões monoteístas, as quais, nós sinceramente TAMBÉM odiamos, apenas não podemos fazer vista grossa aos machismos da doutrina católica por ela supostamente ser mais ''light'',branda.

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Pra todos os engraçadinhos que vem aqui chamar as feministas de rebeldes sem causa, vale lembrar que é graças aos ensinamentos do cristianismo, é que a mulher foi violentamente reprimida sexualmente, tem até hoje dificuldades em obter orgasmos e foi até recentemente muito cobrada pela virgindade,porque na maravilhosa (NOT) visão da igreja, mulher tem que ser casta.


NÃO SÓ ISSO, como a igreja católica também é a responsável pela a imagem da mulher que cumpriu o seu 'papel de mãe' (é esse o papel da mulher na visão dessa mesma igreja, ser o reduto reprodutor que vai parir os filhos de algum homem, este sim um ser 'importante') sem ter que se contaminar com a 'sujeira' do sexo.

Ou seja,a mulher que é mãe, porém,virgem(oi?) e consequentemente ''pura''.

É daí também que vem o conceito de ''santa'',cobrado massivamente das mulheres até hoje.

Pois quem nunca viu alguma violência ou desrespeito a mulher ser justificado com a seguinte frase:
''Ela também não é nenhuma santa!''

Eu já ouvi isso milhares de vezes na vida, e PASMEM, esse argumento cretino eu já vi ser usado ATÉ pra justificar o assassinato da atriz Daniella Perez, ou seja o injustificável.

Só pra finalizar é graças aos ensinamentos da igreja (seja católica ou não,afinal elas não diferem tanto assim) que existem os mascutrolls, existe uma correlação direta entre a influência e os ensinamentos da igreja, e o que eles almejam e tem como valores de vida, só não vê quem não quer ou quem é muito cego.

POR ISSO, nós feministas temos TODA a razão do mundo em odiar a igreja, visto que nós também somos odiadxs por ela.

Feminista capitalista disse...

Patty Kirsche 17:03


No que tange a lingua portuguesa eu estou 100% de acordo com você, é isso mesmo, eu já tinha reparado há mais ou menos um ano atrás que todo mundo diz :
''Marido & Mulher''

Mas o contrário ,que seria
''Homem & Marida'' eu nunca ouvi uma vez sequer.
Detalhe que todos nós poderiamos simplesmente usar
''Esposo & Esposa''
pra colocar o casal em condição de igualdade,mas rararmente fazemos isso, eu mesma tenho que me policiar se não a frase ''Marido e Mulher'' insiste em surgir na minha boca, embora eu queira
abolí-la e subistituí-la por ''Esposa e Esposo'' .


Algúem possivelmente vai dizer que estou paranóica, mas pra mim isso é mais um tremendo indicio de que a sociedade considera que o papel da mulher é existir apenas pra ser a esposa (propriedade) de alguém e poder parir os filhos desse alguém,dando continuidade ao ''nome da família'.


Aliás,aproveitando o gancho,eu gostaria de ver esse assunto sendo debatido algum dia aqui no blog (que é o único que acompanho sempre)sobre o machismo da lei e o tradicionalismo, que basicamente obriga a mulher a adotar o sobrenome do esposo ao se casar, mas não permite que o homem adote o sobrenome da esposa,a não ser que ela faça mesmo pra que eles fiquem com sobrenomes idênticos,achei um absurdo isso e mais uma prova de como a mulher é considerada inferior ao homem nessa sociedade de merda!

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Outro grande exemplo do machismo em nossa lingua,que me incomoda profundamente é o fato da palavra
'HOMEM' ser considerada sinônimo do termo 'ser humano',já o contrário,não é verdade.
Ou seja, é como se os homens representassem por decreto, a sociedade, já as mulheres supostamente não são humanas o suficiente pra representarem o mesmo termo, a palavra 'MULHER' não tem o mesmo peso, isso ME INDIGNA.

Dona do Sexo -Bonobo rules,Jaçanã forever disse...

E levando em conta o que a Patty falou recordou-me de um programa num canal de tv de um ORGAO PUBLICO ELEITO DIRETAMENTE PELO POVO.Em que mostra cidadao, na abertura do programa,uns bonecinho, a unica bonecinha é uma mulher gravida-ai esta a unica serventia misogina sendo escancarada num programa que enfatiza CRIANCAS,olha a gravidade.É realmente uma coisa de vomitar.
Realmente este estado nordestino é um estado como SC,formado pela maioria direita,os famosos reacas.