quinta-feira, 7 de maio de 2009

BAREBACKING, UMA PRÁTICA CONDENÁVEL

Por que se arriscar?, eis a questão.

Já faz um tempinho, um leitor recomendou esta reportagem que saiu no Jornal do Brasil. É sobre barebacking, uma prática que está tomando conta de algumas (poucas) festas gays. Envolve organizar uma orgia para que os participantes transem sem camisinha. Às vezes, homens com o vírus do HIV são convidados, numa espécie de roleta russa. Eu nem sei o que falar sobre o assunto, fora que considero isso horroroso. O fim mesmo. Como alguém pode querer se infectar com uma doença que não tem cura - só pra se ver livre da camisinha? Queria esclarecer uma coisa: não considero orgia uma prática condenável. Faz quem quer. Tampouco considero homossexualidade uma prática condenável. Aliás, nem prática é. Homossexualidade é uma orientação sexual, só, assim como heterossexualidade e bissexualidade. Mas barebacking eu acho condenável. No entanto, vale lembrar que a AIDS não é uma “doença gay” (que os religiosos chamam de castigo de Deus) há tempo. Hoje em dia, apenas 21,7% dos portadores de HIV são homossexuais. Ou seja, a enorme maioria é hétero. Para elaborar sobre barebacking, pedi pra Adriana Calábria, especialista em doenças sexualmente transmissíveis, e que já nos brindou com um ótimo guest post sobre AIDS, a escrever sobre isso. Mais uma vez, ela fez um excelente trabalho. Confiram, e não deixem de visitar seus blogs, aqui e aqui.


Você contrairia um câncer (se isso fosse possível, claro) de livre e espontânea vontade? Certamente que não. E o vírus HIV? Se você responder não, saiba que nem todo mundo pensa como você.
Quem pratica barebacking não pensa assim. Pra quem não sabe, nem nunca ouviu falar nisso, eu explico: o bare (para os íntimos) é uma moda que começou nos Estados Unidos e não é tão nova (existe desde 2002). Ela teve início quando alguns gays americanos começaram a promover “festas de conversão” para disseminar o vírus HIV, e assim “ ficarem livres do uso do preservativo”. Em pouco tempo, a prática não ficou restrita a festas, passou a ser um comportamento, e o fetiche passou a ser justamente correr o risco. Em outras palavras: roleta russa em forma de sexo.
Como não podia deixar de ser, um dia a moda chegou em terras tupiniquins. Em janeiro foi publicada uma matéria falando dela. Na matéria, vários homossexuais falam que essa é uma maneira de se libertar da camisinha. “Promoveram” a AIDS a uma doença simples e tratável!
Antes de mais nada, vou logo esclarecer que essa prática está longe de ser unanimidade entre os gays. Hoje em dia, a comunidade gay é muito consciente dos riscos da AIDS e se previne bastante. Mas existem exceções. Portanto, não comecem a jogar pedras em todos, por causa de uns poucos. Mas sem dúvida, o barebacking é um retrocesso enorme. HIV é algo muito sério, e não tem cura. Está longe de ser uma doença simples. Tratável sim, mas simples, ela não é e talvez nunca vá ser!
Pra começo de conversa, não se pega HIV e se esquece que ele existe. A partir do momento da descoberta do vírus, começa um acompanhamento médico constante. O HIV destrói as células de defesa do organismo. É preciso realizar exames periódicos de contagem dessas células (CD4 e CD8) para controle. As idas ao médico começam a fazer parte da rotina. Pra quem imaginava se libertar, adeus liberdade!
Quando essas células baixam demais, começam as doenças oportunistas. A AIDS propriamente dita. A AIDS não é uma doença em si, ela é apenas uma porta de entrada de doenças. Ninguém morre de AIDS, morre das doenças causadas pela baixa da imunidade.
O coquetel, sem dúvida, é uma grande ajuda para os portadores de HIV. Mas está longe de ser uma solução. A quantidade de remédios é enorme (por isso o nome coquetel): em média se toma entre oito e dezesseis comprimidos por dia! Detalhe: rigorosamente no horário. Tem remédio que só pode ser tomado na hora da refeição. Outros, precisam ser tomados longe das refeições... Imaginem como é ter que organizar a rotina dessa maneira!
Os efeitos colaterais são um capitulo à parte: tonturas, cólicas, diarréias, inflamações no fígado... Apenas pra citar alguns deles. E ainda não acabou: Nem sempre se acha de cara a combinação certa, aí é preciso mudar. Ou então, o vírus se torna resistente, e é preciso passar para outra combinação. E no caso de parar de tomar o coquetel, aí sim que a coisa complica de vez, pois as mutações do vírus são constantes e ele adquire resistência. Pra voltar a tomar os remédios é preciso descobrir uma nova combinação e por aí vai... E aí, me digam se é fácil! Ufa! Eu cansei só de escrever!
Se alguém pensa que vai se ver livre da camisinha, pode esquecer! Portadores de HIV podem (e devem) ter vida sexual normal. Mas não podem, e nem devem, deixar a camisinha de lado, para evitar novas infecções pelo vírus. Não existe apenas um tipo de vírus, e a combinação de dois ou mais tipos acelera o desenvolvimento da doença.
Estagiei no Hospital Oswaldo Cruz em Recife, na oncologia pediátrica. Esse hospital é referência em doenças infecto contagiosas, entre elas a AIDS. De vez em quando eu era “emprestada” para o DIP, que é o serviço que atende pacientes com AIDS. Numa dessas vezes aconteceu um fato que ficou marcado na minha cabeça. Nunca vou esquecer do desespero de um turista francês que chegou ao hospital. Ele havia sido assaltado em Porto de Galinhas e o ladrão havia levado seus remédios, junto com a mochila. Ele voou para Recife, antes até de dar queixa na polícia. O medo de ficar sem os remédios era maior. Ele sabia dos riscos que corria caso parasse de tomar o coquetel de uma hora pra outra. Felizmente, tudo foi resolvido e ele recebeu os remédios.
No Brasil, o coquetel é de graça. O governo o distribui, mas o custo sai do meu e do seu bolso, e não é barato. Cada paciente pode custar até cinco mil reais por mês! Se a moda do barebacking pega, o rombo no nosso precário e doente SUS vai ser enorme.
Mas você pode estar aí pensando: “Eu tô fora disso, afinal não sou gay, nem ando por orgias onde se pratica roleta russa”. Sim, você pode não fazer nada disso, mas se transa sem camisinha, você também aderiu à moda, mesmo sem se dar conta. Barebacking não é apenas uma prática entre homossexuais. Os héteros que insistem em transar sem camisinha também estão praticando barebacking e se envolvendo em altos riscos. Achou ruim? Não ache. Mude. Se você não se previne, ou pratica os métodos alternativos que falei no outro post, está na hora de rever seus conceitos.
AIDS está bem mais perto do que a gente imagina. E o melhor remédio ainda é se manter longe dela, usando camisinha sempre.

Update em março de 2015: Seis anos depois deste post, agora se fala em criminalizar o barebacking. A entrevista deste antropólogo e sociólogo da Columbia é muito interessante. 

35 comentários:

asnalfa disse...

o texto é bom apesar de fazer uma leve condenação aos homossexuais...
os pastores devem amar esse texto e esse assunto...

Amanda disse...

Lola, estou escrevendo para dizer que linkei seu blog. Leio sempre, gosto muito e linkei (espero que não se importe).
O comentário está um tanto fora de contexto, mas os posts estão devidamente lidos!

L. Archilla disse...

asnalfa, pára com essa mania de perseguição. no texto está bem claro q não há problema algum em ser gay ou fazer orgias. o problema é a falta de camisinha. e os pastores, se lessem esse texto, achariam uma heresia a parte onde diz "tudo bem ser gay ou fazer orgias, desde q com camisinha".

Masegui disse...

Asnalfa, meu filho, leia o texto novamente, procure interpretar corretamente, leia 10 vezes se for preciso.

Espere umas 3 horas, leia tudo novamente, pense muito a respeito e só depois faça seu comentário.

É isso ou eu vou ser obrigado a repetir o que todo mundo já sabe...

éden-san disse...

é a busca desmedida pelo prazer... pra mtos, o que vale é o prazer, por mais momentâneo e irresponsável que seja... triste, mas verdade.

e isso não se restringe só ao prazer sexual. inclusive, no trecho "Você contrairia um câncer (se isso fosse possível, claro) de livre e espontânea vontade? Certamente que não.", a palavra 'certamente' está mal empregada. de fato, costuma-se injetar forçadamente e, as vezes, abundantemente, substâncias estranhas ao nosso organismo só para sentir prazer, mesmo sabendo-se que isso aumenta o risco de malefícios à saúde, principalmente de cancêr... né? (mais especificamente álcool, nicotina, cocaína, vários remédios...)

asnalfa disse...

Gente... olhem esse trecho!!

Ela teve início quando alguns gays americanos começaram a promover “festas de conversão” para disseminar o vírus HIV, e assim “ ficarem livres do uso do preservativo”.


Como se fosem os gays que inventarm o sexo sem camisinha!!! Tem uma comunidade no orkut, que postarm fotos de adolescentes trepando com uma mendiga esequer usaram camisinha e tiraram foto!! E tb ja mostram homens levando garotas de programa pro motel e fazendo tudo sem camisinha.... Essa materia nao passa de um modo bem educado de dizer que AIDS é uma doenca de gay, e que ser gay é doente!!! E ainda falam que gay custa muito caro pra saude brasileira.. esqueceram de dizer dos fumantes e dos gordos que querem reducao de estomago!!!

pronto metem o pau denovo em mim!!

lola aronovich disse...

Asnalfa, o assunto é espinhoso, mas é real. Tanto eu quanto a Adriana tivemos todo o cuidado de dizer que não se pode generalizar, que é apenas uma minoria de gays que pratica barebacking. O parágrafo que vc menciona não tem nada de mais. É factual. Realmente é esse o propósito de algumas festas bare: fazer uma espécie de roleta russa para que mais gente possa se contaminar com o HIV e “se livrar” da camisinha. Se eu fosse me guiar apenas pela reportagem do JB, nem prestaria muita atenção (apesar da reportagem estar bem feita, é de alguém que esteve numa dessas festas e entrevistou pessoas). Mas já li vários artigos de americanos gays condenando o barebacking. Ou seja, é real. É um retrocesso gigantesco. E a gente tá falando de uma reportagem publicada no JB, não uma comunidade do orkut. Tem diferença... Nem a reportagem nem o post aqui dizem que “AIDS é doença de gay, e que ser gay é doente”. Pelo contrário, no post está escrito textualmente que apenas 21,7% dos pacientes com AIDS são gays. O tratamento de AIDS custa muito caro, sim. Isso também é fato. Custa caro independente de ser aplicado a héteros (a enorme maioria dos pacientes) ou a homossexuais. Ninguém está falando que se corte o coquetel. Mas querer se contaminar propositadamente e se lixar pro custo do tratamento é fogo. Nenhum fumante quer ficar doente. Eles fumam apesar dos riscos, não por causa dos riscos. Se grupos héteros estivessem promovendo festas bare pra converter pessoas saudáveis em portadoras de HIV, a nossa indignação seria a mesma.

L. Archilla disse...

meto, com prazer.

a matéria fala que gays criaram a tal festa de conversão, não q tenham criado o não-uso de camisinha.

Dreamer disse...

Chocante!

Giovanni Gouveia disse...

Off Topic: Adriana, conheces a (minha prima) Prof.ª Raquel Cavalcanti Soares?


Quando a AIDS deixou de ser uma doença, invariavelmente, letal, começaram essas "brincadeiras" de mau gosto. SE outras DSTs já são indesejáveis, imagina HIV...

Adriana Calábria disse...

Asnalfa:

Eu nem deveria responder ao seu coment. Mas vou.

Querido, os gays não inventaram o sexo sem camisinha, mas inventaram o Barebackink, isso é fato. Procure se informar, please!

Eu sei, que as pessoas andam fazendo sexo sem preservativo. Mas o texto é sobre Barebacking.

Eu nem vou comentar o resto das suas insinuações.

Acho que você deve procurar um terapeuta, essa sua mania de perseguição, tá ficando chata!

Adriana Calábria disse...

Éden-San:

Quando as pessoas usam as substâncias que você está falando elas não estão procurando deliberadamente o Câncer. Muitas nem sabem dos riscos, afinal vivemos num pais onde as pessoas geralmente tem pouco acesso a informação.
No entanto, quem pratica o Bare, sabe dos riscos, e procuram contrair o HIV por vontade própria.

Srta.T disse...

*ai ai*

Asnalfa, tô na dúvida entre três opções aqui: ou você é muito burro e não sabe interpretar textos, ou é mal-intencionado e quer se fazer de vítima. A pequena diferença entre o trecho do texto a que você se refere e esses casos do orkut que você citou é a seguinte: os gays americanos que "lançaram" o barebacking o fizeram com o intuito de, deliberadamente, propagarem o vírus da AIDS, sob o pretexto de que quando todos tivessem AIDS, todos poderiam fazer sexo sem camisinha. A contaminação, nesse caso, é o fetiche da prática, e por que não dizer, o objetivo dela. Tanto que criaram um termo - barebacking - pra isso.

Por outro lado, qualquer um que faça sexo desprotegido, de qualquer orientação sexual e com quantas pessoas for, é um irresponsável e está se colocando em risco. No entanto, isso pode ser por ignorância (acredite se quiser, AINDA existe gente que crê que a camisinha não funciona para prevenir o contágio pela AIDS, como gente que acha que ela não evita a gravidez), por imaturidade, por burrice mesmo (aquela velha história do "nunca vai acontecer comigo"). Mas em nenhum desses casos (se houver exceções, são insignificantes de tão poucas) as pessoas querem conscientemente se contaminar. Deu pra entender ou quer que eu desenhe?

Em tempo: infelizmente, foram gays americanos que lançaram a prática e deram nome. Poderiam ter sido homossexuais, poderiam ter sido bissexuais. Direcione sua revolta a esses caras que tiveram essa brilhante idéia, são eles os culpados por mais esse prejuízo aos gays.

Adriana Calábria disse...

Giovanni:

Conheço, sim. Cursei umas duas disciplinas com ela na UFPE.

E também tenho a cópia de sua dissertação de mestrado.

Bjsss

Giovanni Gouveia disse...

Eu nem fiz mestrado... ;P

Masegui disse...

É, não tem jeito, sou obrigado a repetir: Asnalfa é um idiota!

éden-san disse...

ai, asnalfa...

vamos parar com essa mania de achar que o mundo é dividido em gays e homofóbicos? isso me cansa e não parece que vai nos levar a grandes conquistas em termos de igualdade e respeito... só a mais 'retaliação' e antipatia... =(

asnalfa disse...

Bela forma de argumentar Masegui...se eu te chamasse de idiota a Lola apagaria meu comentario. Afinal todos te protegem aqui... apenas eu sou o desgracado da historia!!!

Anônimo disse...

Asnalfa-beto funcional, cite em que parte do texto há uma "leve condenação aos homossexuais". Que eu saiba o texto está condenando um comportamento de risco, independentemente de quem o pratique.

Anônimo disse...

"Ninguém está falando que se corte o coquetel. Mas querer se contaminar propositadamente e se lixar pro custo do tratamento é fogo." É isto aí Lola!
Acho que as pessoas são livres
para as suas festas mas paguem os seus preços.
Seu artigo é ótimo.
Bom dia de mãe proceis!
Fatima/Laguna

asnalfa disse...

Cadêo barebacking dos heteros???

Por isso que todo hetero deveria ser morto!!!! hetero nao presta!! Heteros e religiosos deveriam ser queimados pra virar asfalto! ninguem quer saber pra aprovar casamento gay. Deveria ser destruida todos os templos relgiosos desse país.

Giovanni Gouveia disse...

Eita, Luiz Mott às avessas...

O Cinema me Enganou disse...

Lola e Adriana,

Parabéns pelo post. Informação de qualidade aqui! Adorei e aprendi, não sabia de nada disso. Não só por enfocarem o assunto do bare, mas por ressaltarem que aids não tem cara e independe da orientação sexual, parabéns!O recado é claro. Vamos nos cuidar!

Elisa

Adriana Calábria disse...

Giovanni:

É a dissertação de mestrado dela, carapálida!!!! hehehehehe!

Bjsss

Sidney Crivelari disse...

Não conhecia o termo e nem sabia da existência do fato.
Li seu blog, o do JB e fiquei pasmo.
Postei o assunto no meu blog e fiz um link com vc e o Jb.
Muito bem escolhido o assunto que merece uma divulgação mais ampla.
Abraços

Pablito disse...

Lolets. Saudades! Sei que ando sumido mas é por pura falta de tempo. Eu sempre passo, leio, fico morrendo de vontade de comentar mas nao consigo... vc merece muito mais do que apenas um segundo corrido do meu dia! Mas esse asunto é ´serio e naopodia deixar passar. PARABENS PARABENS PARABENS pelo post. É a primeira vez qu eveijo alguém tocar no assunto. Quem é gay e "frequenta o meio" sabe muito bem que essas fetsas REALMENTE existem. EU já fui convidado para VÀRIAS mas nunca fui. Mas mesmo asim, ja vi coisas que muita gente nem imagina que existam! Nao acuso nem aponto o dedo na cara de ninguem.. cada um faz do corpo o que quer... nao sou santo também, mas existem coisas que eu nao consigo fazer. Aprendi a usar camisinha pq sem ela a transa nao rola tranquila... sempre fica aquela sombra rodeando a cabeça. Camisinha nao tira prazer.. eu acho até sexy o ato de colocar... mas sexy mesmo é você oferecer segurança, respeito e proteção para seu (SUA) parceiro (A).

(nao desisti daquele quest post... so preiso de cabeça e coragem para escreve-lo...)

Jairo Regio disse...

Asnalfa...leia esta passagem do texto:
"Barebacking não é apenas uma prática entre homossexuais. Os héteros que insistem em transar sem camisinha também estão praticando barebacking e se envolvendo em altos riscos."

Tu entendeu ou quer que desenhe ??

Camarada, o munda não tá dividido em PARTIDO DOS GAYS UNIDOS e PARTIDO DO ORGULHO HÉTERO como vc imagina...

Leia o texto novamente com a alma desarmada, faz favor !!!

Beijo para Adriana.

Srta.T disse...

Cara, coisa errada no meu comentário, último parágrafo: "Poderiam ter sido heterossexuais, poderiam ter sido bissexuais." Pronto, corrigi.

Louis. disse...

Nossa, Lola, eu sei que não foste tu que escreveste o texto, mas ele está horrível.

No intuito de fazer um texto panfletário sobre os riscos da AIDS, a autora transformou duas coisas diferentes - bugchasing e barebacking - em uma só, depois ela esquece completamente do assunto, dando a discussão por encerrada e deixando de lado toda a questão sobre a moralidade da prática, e parte a relatar os infortúnios de quem tem HIV.

Primeiro, barebacking é uma gíria que se refere a sexo sem preservativo, apenas isso.O uso da palavra por heterossexuais caiu em declínio na depois da década de 60 pela invenção da pílula e só foi voltar a ter uso freqüente nos anos 80, desta vez pelos gay.

Com surgimento da AIDS, e da consolidação do uso de camisinha na comunidade gay, os que preferiam sexo anal sem camisinha passaram a ser diferenciados dos que a utilizava por essa palavra, transformando-a em um sinônimo de sexo anal desprotegido.

Bugchasing, essa sim, é a pratica da busca deliberada de contrair HIV usando, dentre outras formas, sexo anal bareback, preferencialmente passivo com Infectado ativo.

Gerou-se controvérsia, porque se misturou os dois termos. Soma-se a isso que boa parte da população acha que ainda somos grupo de risco e temos um bom motivo para sensasionalismo.

A humanidade foi bareback por milênios, todas as mulheres que engravidam de modos naturais o fazem por sexo bareback, todos os seus leitores, por conseqüência, nasceram de uma relação deste tipo.

Mistifica-se a coisa como se fosse antinatural não usar camisinha, quando a realidade é o contrario e, por mais campanha que se faça, as pessoas sempre fizeram e vão continuar fazendo sexo sem camisinha. Pode-se as convencer da importância do seu uso, pode-se ensiná-las, mas sempre, sempre haverá uma boa parcela da população que não utilizará.

Tu falas tanto em patrulha da normalidade, mas olhe só o que estás a fazer, estás a dizer como e as pessoas devem ou não fazer suas praticas sexuais, como devem ou não viver suas vidas. É crime, por acaso, não compartilhar com o resto da população o desejo de ter vida longeva e, para isso, abdicar da sua satisfação plena?

É de meu entendimento que, se todos nessas festas sabem o que querem fazer, e o fazem por vontade própria, isso é problema deles. Vão viver 10 a 15 anos a menos, mas vão curtir essa vida menor, muito mais. Vejo isso como um retorno ao romantismo, o querer morrer cedo, mas dessa vez com um hedonismo numa escala que só a revolução sexual conseguiu libertar.

Se você acha que esses HIV positivos que contraíram por vontade própria não devem receber tratamentos gratuitos, ai é outra questão. Creio que fumantes também não deveriam, seguindo essa lógica, e pessoas que, mesmo sabendo dos riscos de câncer da exposição à fumaça de escapamento, insistem em andar sem mascaras de oxigênio e, ainda pior, dando mal exemplo as crianças, também não deveriam receber tratamento gratuito, no caso de padecerem de câncer.

Que seja revoltante ver alguém deliberadamente querer diminuir a sua vida, eu entendo. Mas partir disso para querer dizer o que é correto e incorreto, ainda mais vindo de ti, Lola, eu não consigo aceitar.

ps.: sim, eu sei que não foste tu que escreveste o texto, mas, creio eu, se não concordasses não o teria publicado, ou o teria, com ressalvas.

Kaká disse...

Eu nem sabia que esse negócio de barebacking existia! Nossa, como tem gente louca no mundo!!!! Beijos, querida!

Kaká disse...

"É crime, por acaso, não compartilhar com o resto da população o desejo de ter vida longeva e, para isso, abdicar da sua satisfação plena?

É de meu entendimento que, se todos nessas festas sabem o que querem fazer, e o fazem por vontade própria, isso é problema deles. Vão viver 10 a 15 anos a menos, mas vão curtir essa vida menor, muito mais. Vejo isso como um retorno ao romantismo, o querer morrer cedo, mas dessa vez com um hedonismo numa escala que só a revolução sexual conseguiu libertar."

Louis, pode não ser crime, mas é, no mínimo, estranho. Fulano deliberadamente fazer uma coisa que ele SABE que pode infectá-lo com um vírus de uma doença que não tem cura? Se a pessoa quer morrer cedo, poxa, tem outras maneiras muito menos sofridas e muito menos dramáticas. Eu realmente não entendo uma pessoa que escolha ficar doente, ainda mais uma doença que não é uma simples gripe.
E, retorno ao romantismo?? Eu entendi sim do que você está falando, mas... sério que você pensa assim? Isso pra mim pode ser tudo, menos retorno ao romantismo. É burrice, mesmo, coisa de gente que não tem amor à própria vida e ao mesmo tempo não tem coragem de fazer nada pra mudar isso.

lola aronovich disse...

Oi, Louis. Eu realmente endosso o que a Adriana escreveu. Acho essa prática de barebacking (que, como vc disse, há controvérsia sobre o termo, e muita gente que pratica o bare não separa bare de bugchasing) horrível. Eu já havia ouvido lido sobre ela em alguns blogs americanos GLBT que também são contra a prática. Pedi pra Adriana escrever o texto (que não é panfletário nem é sobre os riscos da AIDS - é mais sobre o transtorno que é viver com AIDS, e como é estranho supor que viver com uma doença incurável possa ser liberador) porque os praticantes de bare pregam que é ótimo estar infectado. E não é. Hoje em dia o antinatural é NÃO usar camisinha, Louis. Não dá pra dizer que “as pessoas sempre fizeram e vão continuar fazendo sexo sem camisinha”. A AIDS está aí faz trinta anos. É uma droga que ela tenha surgido e interrompido uma revolução sexual, mas aconteceu. E mudou os hábitos das pessoas, principalmente dos gays. Agora, infelizmente, uma nova geração de pessoas não vê mais a AIDS como doença fatal, e isso está levando a uma nova mudança de costumes. Mas existe uma diferença grande entre não ser mais uma doença que mata rapidamente, graças a um coquetel de remédios, e uma doença que exige tratamento pro resto da vida. É difícil entender que alguém possa “curtir essa vida menor muito mais” apenas por que não vai mais transar com camisinha. Vai substituir a camisinha por dez pilulas diárias de remédios e uma gama de efeitos colaterais. Achar que não é possível ter “satisfação plena” só por causa da camisinha é incrível. Mas nem eu nem a Adri estamos fazendo uma cruzada contra o bare, e nem defendemos que quem se contamina propositadamente deve deixar de receber tratamento. Mas é uma irresponsabilidade grande do pessoal que pratica, e foi isso que tentamos alertar. Oi, Louis. Eu realmente endosso o que a Adriana escreveu. Acho essa prática de barebacking (que, como vc disse, há controvérsia sobre o termo, e muita gente que pratica o bare não separa bare de bugchasing) horrível. Eu já havia ouvido lido sobre ela em alguns blogs americanos GLBT que também são contra a prática. Pedi pra Adriana escrever o texto (que não é panfletário nem é sobre os riscos da AIDS - é mais sobre o transtorno que é viver com AIDS, e como é estranho supor que viver com uma doença incurável possa ser liberador) porque os praticantes de bare pregam que é ótimo estar infectado. E não é. Hoje em dia o antinatural é NÃO usar camisinha, Louis. Não dá pra dizer que “as pessoas sempre fizeram e vão continuar fazendo sexo sem camisinha”. A AIDS está aí faz trinta anos. É uma droga que ela tenha surgido e interrompido uma revolução sexual, mas aconteceu. E mudou os hábitos das pessoas, principalmente dos gays. Agora, infelizmente, uma nova geração de pessoas não vê mais a AIDS como doença fatal, e isso está levando a uma nova mudança de costumes. Mas existe uma diferença grande entre não ser mais uma doença que mata rapidamente, graças a um coquetel de remédios, e uma doença que exige tratamento pro resto da vida. É difícil entender que alguém possa “curtir essa vida menor muito mais” apenas por que não vai mais transar com camisinha. Vai substituir a camisinha por dez pilulas diárias de remédios e uma gama de efeitos colaterais. Achar que não é possível ter “satisfação plena” só por causa da camisinha é incrível. Mas nem eu nem a Adri estamos fazendo uma cruzada contra o bare, e nem defendemos que quem se contamina propositadamente deve deixar de receber tratamento. Mas é uma irresponsabilidade grande do pessoal que pratica, e foi isso que tentamos alertar.

Louis. disse...

Não posso concordar que seja irresponsabilidade, eles sabem o que querem, tem suas justificativas e estão concientes das consequencias. Se tu concordas ou não, isso é outra coisa, tens o direito de discordar, mas isso não faz deles irresponsaveis.

Quando aos tratamentos e pílulas, não acho que quem se auto-contamine comece o tratamento em seguida, e sim fique esperando o tal período de latência que é de anos, atá que a doença finalmente apareça.

Creio que a questão de ser ou não libertador tenha relação com a quão desesperadora a vida dessas pessoas é, o quanto elas devem sofrem com a ansiedade de poder ou não ser contaminado, há de ser quase patológico, sim, precisa estar num nível de stress muito grande para dizer, chega! Todo mundo vai morrer mesmo, não me importo se só vou viver mais uns 10 anos, pelo menos não vou viver pensando todo o segundo que para obter o meu prazer posso me contaminar com uma doença mortal, porque oi, eu já vou ter ela, não existe mais o 'se'.

Porque, mesmo que se use camisinha para sexo anal/vaginal, o que é bem pratico e confortável, quase ninguém o faz para sexo oral masculino, e , muito menos, feminino.

Digamos que esses que viraram bugchasers tenham uma vida sexual hiperativa, como já foi relatado em diversos estudos, com 10 uns parceiros semanais. O numero que mais se ouve é que sexo oral sem camisinha tem um risco de 10% de contaminação, numa média.

Essa pessoa está exposta, mesmo com proteção anal, a dez vezes esses 10% de contaminação por semana.

Por isso que não é "só o fato de usar ou não camisinha" que vai tirar o prazer. Camisinha é um símbolo, um símbolo do medo de uma geração, e a nova está cansada de ter medo.

Acho que as pessoas de hoje valorizam a vida demais em termos de tempo, e menos de conteúdo. Esperança de vida de 75 anos é uma coisa nova.

Morrer com 30 anos era normal há 200 anos atrás, o ciclo da vida era esse, assim é na natureza, os animais não vivem com osteoporose mancando com muletinhas por ai, eles morrem,e morrem muito antes disso.

Nós ficamos parados vendo televisão, indo as compras, trabalhando, temos toda uma ciência médica para garantir que morreremos os mais velhos possíveis, para que?
Para controlar a natureza, apenas isso.

Eu não estou dizendo que concordo com a pratica, acho horrível, assim como acho horrível amigos meus que usam drogas pesadas,.Para mim isso não é valido, e gostaria que não fosse para eles, porque não quero perdê-los. Mas não consigo aceitar uma pressa tão grande em julgar as pessoas e julgar o que é certo e o que não é no que elas fazem com suas próprias vidas.

André Nunes disse...

Lola, é muito surreal esta busca desenfreada pelo prazer extremo. Lembro que o principal fator que levou-me a abandonar a escalada em rocha foi a súbita decisão do meu amigo de escaladas em fazer algumas partes das subidas sem cordas e equipamento de proteção. A minha preopcupação naquele momento era só uma: como falaria para a família dele que ele morreu em uma queda. Acho que o mesmo comportamento existe com relação as drogas. Tipicamente os usuários começam com uma levinha só para deixar alto e depois de aumentar as doses passam para psicotropicos mais potentes.
Isso pode ser explicado pelo fim do trabalho braçal onde para combater o tédio os homens buscam experiências extremas. O lado ruim disso é que morrem mais cedo, matam ocasionalmente e contimuam com a mesma vida sem sentido pois os caminhos que seguiram não serve para realiza-los enquanto seres humanos. As saídas para uma vida comum terminam com a própria vida.
Acho que vale a pena você abordar este tipo de comportamento em algum post.
andnun_a_yahoo.com

lola aronovich disse...

Interessante isso que vc apontou, Louis, sobre o desespero e o medo desse pessoal mais promíscuo de se infectar com o vírus, e como se infectar com o vírus propositalmente os liberaria desse medo. Não pensei nisso, e a reportagem do JB tampouco abordou esse aspecto. Abordou apenas o lado hedonista de se liberar da camisinha, mas não da liberação do medo de pegar AIDS. Não acho que isso justifica o comportamento, mas certamente é um lado instigante. É meio como o pessoal que morre de medo de pegar câncer de repente pegar câncer...


André, concordo, muito legal sua colaboração. Acho uma boa comparação, isso de barebacking com escalar montanhas (e praticar outros esportes radicais) sem proteção. Quando eu leio a notícia de que um alpinista morreu, sempre fico com pena, lógico, mas não consigo parar de pensar que o cara se colocou num comportamento de risco. Podem dizer que a gente corre o risco de morrer até ao sair de casa, mas vamos admitir: o risco não é o mesmo. A proporção não é a mesma de jeito nenhum. Boa parte do prazer nesses esportes radicais é o componente de risco. Quando alguém morre, sabia do risco que corria. Mais pra frente, eu penso também que esse tipo de comportamento coloca em risco outras vidas. Um alpinista desaparece, e uma equipe tem que ir atrás, procurá-lo. Não condeno quem pratica esportes radicais, mas confesso que fico mais chateada quando alguém morre num acidente do dia a dia, como ao cruzar uma rua, ou esperando num ponto de ônibus. E quanto a quem pega o vírus da AIDS numa festa bare, aí não tem como ficar com pena. É o objetivo da festa!