quarta-feira, 23 de abril de 2008

FEMINISMO PRA QUÊ?


1o quadrinho: “Bom, eu não sou feminista nem nada, mas a gente merece iguais oportunidades de trabalho”.
2o quadrinho: “Acho que as mulheres precisam de licença-maternidade e creches infantis decentes, mas não pense que sou uma dessas feministas lunáticas”.

3o quadrinho: “Não acho justo que mulheres recebam 70 centavos para cada dólar que um homem ganha, mas não é que eu seja feminista nem
nada”.
4o quadrinho: “A gente pode ter um longo caminho pra percorrer ainda, mas acho que o feminismo está bastante datado, não?”. Uma mão patriarcal lhe dá um tapinha nas costas e diz: “Boa menina”.


Tem tanta coisa fascinante pra falar sobre O Mito da Beleza, livro da Naomi Wolf (foto) de 1990 que só li agora, que vou separar em pedacinhos. Pra gente que é mulher deveria ser leitura obrigatória. Pros homens inteligentes, também. Porque homem inteligente é feminista, se garante, não tem medo de perder seu lugar na sociedade, e quer mais é que todas as minorias tenham direitos iguais. Pra mim, inteligência não rima com preconceito.

O termo “feminismo” é duro, eu sei. Uma amiga me contou que esteve numa conferência tida como feminista nos EUA em que cinco acadêmicas foram convidadas pra falar. E todas as cinco, incluindo minha amiga, abriram sua participação dizendo: “Na realidade, eu não me considero feminista”. Isso num ambiente universitário! Alguma coisa séria deve ter acontecido. No início dos anos 80, mais da metade das americanas dizia ser feminista. Com o backlash (o retrocesso que tomou conta do mundo) na década do Reagan, com a ênfase que se deu à “família tradicional” (cuja mensagem pra mulher é clara e reduz-se à “Saiba o seu papel”), feminismo virou palavrão. Apenas lésbicas e/ou mulheres mal-amadas podem ser feministas. É isso que a falta de homem causa. Porque tudo no mundo, óbvio, gira em torno dos homens. Temos inveja do pênis.

Sei. Não é recente o estereótipo que feministas são ogras horrendas, mulheres falidas e masculinas, que se dedicam a essas causas esdrúxulas porque não conseguem arranjar marido, e por isso decidem castrar todos os homens. Desde que as feministas pioneiras passaram a exigir o direito a voto, lá por 1850, esses clichês começaram. E é incrível como as próprias mulheres caem direitinho nessa ladainha. Será que param pra pensar pra quem interessa essa divisão? Quem ganha nesse jogo que faz mulheres desconfiarem de outras mulheres? Quantas vezes você já ouviu uma mulher dizendo que prefere trabalhar com homens?

Hoje o que mais escuto, sempre que exponho meu feminismo, é que ele não tem mais razão de ser. As mulheres, afinal, conquistaram tudo que queriam. Ocupam 50% dos cargos de chefia no planeta. Ganham o mesmo que o homem. Não têm jornada dupla (ou tripla). Ocupam metade dos cargos governamentais. Podem usufruir da sua sexualidade como bem entendem. Não apanham mais dos maridos. Não são mais estupradas. Não são avaliadas somente pela aparência. E, desde a infância, meninas e meninos são criados com a mesma liberdade. De fato, como dizia um anúncio de cigarro, “You've come a long way, baby” (“Você traçou um longo caminho, baby” - melhor nem mencionar que nunca vi anúncio dirigido a homem ter um tom condescendente desses e chamar o cara de bebê).

Minha opinião sincera? Não foram só as conquistas que ainda não ocorreram, mas o próprio retrocesso da década de 80 ainda não terminou. Muito do que foi conseguido com a revolução sexual acabou se perdendo. Mas a situação é pior, porque antes a gente sabia que precisava lutar. Hoje finge que está tudo bem e que não há mais necessidade. E feminismo segue sendo palavrão.

16 comentários:

Ju Salvadori disse...

Lolinha,

Gosto muito de acessar o seu blog pois toda vez que entro encontro algo novo rolando - uma lista de filmes, uma crítica bem-humorada ou uma discussão mais séria. Apesar de discordar contigo em muitos pontos acho fenomenal essa sua capacidade de levantar certos assuntos e os trazer a baila. Sobre a questão do feminismo, devo dizer que concordo contigo. Estamos vivendo um retrocesso. Uma pena que tudo que tantas mulheres lutaram para conseguir esteja sendo jogado na lata de lixo. Certas coisas são sintomáticas. Um exemplo é a cultura hip hop. Sinto muito, mas ela é extremamente misógina. Claro que agora há algumas rappers mulheres e toda uma contestação, mas em seu cerne, e no mainstream, ela é extremamente misógina, objetifica a mulher e lhe tira o status de sujeito. Agora, voltanso para nossa realidade, outro fato sintomático é a existência de delegacia de mulheres. Se estivéssemos em condições iguais, porque cargas d'água precisaria criar-se uma delegacia de mulheres? A resposta óbvia é a de que mulheres são vítimas da violência, que é perpetrada por quem, pelos seus companheiros, sejam eles namorados e/ou maridos. E, sejamos francas, o feminismo, como corrente de pensamento, ou seja, intelectualizado, deu-se em principalmente em países anglo-saxões. E os europeus, de maneira mais heterogênea. Isso não invalida o que conseguimos por aqui, mas, venhamos e convenhamos, a diferença é grande. E, se analisarmos por outro ângulo, temos outro tipo de (re)pressão, mais contemporânea, menos aberta e muito prejudicial, que é a do corpo. Não á-toa a indústria que mais cresce no Brasil é a de cosméticos e estamos em segundo (?) lugar no ranking mundial com relação a remédios para controlar o apetite, as anfetaminas. Isso num país em que quantos por cento mesmo da população vive abaixo da linha de pobreza? Acho que realmente há algo muito errado ainda em relação á igualdade entre os sexos.

lola aronovich disse...

Juzi, vc apareceu! Que bom, fico muito feliz mesmo. (a Ju é uma das minhas melhores amigas e uma das pessoas mais inteligentes e articuladas que conheço). Obrigada pela contribuição, Ju. Concordo com tudo que vc diz. Eu estou devendo essa série de posts sobre o excelente livro da Naomi Wolf. Neste fim de semana finalmente organizei este, e já tenho mais dois preparados. Tem muita, muita coisa pra falar sobre o mito da beleza, que é um assunto fascinante pra nós mulheres, e tb pros homens que quiserem entender como se exerce uma dominação realmente eficiente. Vc sabe, através dos nossos emails, que eu sempre suspeitei que o padrão de beleza mais inatingível surgiu durante a revolução sexual. Mas era só um palpite meu. E agora finalmente leio um estudo (de 18 anos atrás!) falando isso, documentando tudo. Acho o livro um super eye-opener. Pra mim tá dando um grande embasamento teórico pra me aceitar como sou e querer lutar ainda mais contra essa dominação.
E sobre o feminismo ser "branco" e "elitizado" demais, é verdade. A maior parte dos movimentos sociais surgem na classe média. Mas pra gente, que é classe média, o feminismo americano e europeu não está tão distante. Pras mulheres pobres, sem dúvida, há uma distância considerável. As reivindicações são outras. Mas isso não invalida o movimento. Até porque mulher pobre sofre com violência doméstica, exploração do trabalho, violência e tudo mais, só que com o fardo muito maior de ser pobre. Elas tb exigem creches, condições melhores de trabalho, fim da violência. Pra mim, são feministas. Mesmo que não aceitem o rótulo... Apareça mais, Juzinha!

Juliana disse...

O estereótipo realmente é que "Apenas lésbicas e/ou mulheres mal-amadas podem ser feministas." Mas quer coisa mais burra que estereótipo? Só o preconceito, onde o estereótipo se encontra.

"Ocupam 50% dos cargos de chefia no planeta. Ganham o mesmo que o homem. Não têm jornada dupla (ou tripla). Ocupam metade dos cargos governamentais. Podem usufruir da sua sexualidade como bem entendem. Não apanham mais dos maridos. Não são mais estupradas. Não são avaliadas somente pela aparência. E, desde a infância, meninas e meninos são criados com a mesma liberdade."

Ha! Ha! Ha! Inacreditável que tenha gente que pense assim. E o pior é que isso não vai mudar nem tão cedo, é só olhar a língua. Lembra daquele papo que galinha pra homem é "positivo" e pra mulher é negativo? se o homem trai é socialmente aceitavel, mas se a mulher trai é uma vagabunda.

Sinceramente, nem sei se isso algum dia vai mudar porque homens e mulheres são historica, física, social e biologicamente diferentes. Essas diferenças podem ser amenizadas, mas nunca serão anuladas, só se nos tornássemos seres assexuados. Mas que bom que existem pessoas lutando por uma mudança, por mais utópica que seja. A estagnação seria mto pior.

Acho que eu sou socialmente pessimista.

lola aronovich disse...

AH! Apagou o meu comentario, computador miseravel. Ainda bem que eu nao havia escrito muito. Entao, Ju, so porque somos diferentes nao quer dizer que possamos ser tratadas de forma diferente. Os direitos devem ser iguais. Ate porque muitas dessas diferencas sao construcoes sociais. Continuamos vivendo num mundo patriarcal. Mas acho que da pra mudar. Ja ajudaria muito se maes e professoras passassem a educar as criancas para um mundo mais tolerante e menos preconceituoso.

Juliana disse...

Concordo e, gênero (haha), número e grau que os direitos devam ser iguais, para todos os seres humanos. Homens ou mulheres, héteros ou gays, brancos, negros, amarelos, rosas ou azuis. Acho que devem ser respeitadas as diferenças e características de cada um, era mais ou menos por aí que eu queria ir. Não sei se estou conseguindo me expressar direito hoje, isso é coisa pra gente sentar e ficar papeando ao vivo e a cores...
E a sociedade patriarcal traz problema para os homens também, que são educados para serem os garanhões perpetuadores da espécie, durões, fortes e trabalhadores, sendo que mtas vezes eles se reprimem, não mostram sentimentos, não choram,... eu acho chorar tão natural e tão necessário quanto rir. Tá certo que eu choro à toa e rio mais à toa ainda, mas o homem tem que ter o mesmo direito de poder chorar sem ser chamado de bicha ou coisa que o valha. talvez eu tenha um problema com o termo feminismo por ele parecer se opor ao machismo, ai, não tô mesmo conseguindo me explicar hoje...

lola aronovich disse...

Sem duvida, Ju, o modelo de sociedade que vivemos eh pessimo pra todos, homens e mulheres. Deve ser uma droga ter que "provar ser homem" a cada dia. Eh uma estupidez tremenda, e provavelmente esse tipo de "cartilha interna" que fica martelando nas cabecinhas deles so os faz mais violentos. Homem tb sofre discriminacao, so que eh beeeem diferente. E em geral pra homem eh mais facil falar/pensar "Fuck it! Vou fazer o que eu quero" que pra mulher. Acabei de ler um post muito legal (eh, minha tese nao ta rendendo hoje - "hoje"?!) sobre uma mulher que ta ficando careca, e como isso equivale a ser menos mulher. Ai uma pesquisa mostra que, entre as mulheres inglesas perdendo o cabelo, 63% pensam em suicidio. Imagina se matar por causa de cabelo! Nunca vi homem pensar em se matar por ser careca. Ah, pra quem quiser ler, ta aqui: http://kateharding.net/

Renata disse...

Demorou algum tempo, mas hoje em dia eu assumo sim: sou feminista! o fato de ser lésbica só complicava a situação porque justamente não queria cair nos estereótipos que você fala. I was a closeted feminist...

Mas lendo as tirinhas da Alison Bechdel, uma cartunista lésbica e feminista genial, eu tirei uma das minhas frases favoritas:
"Feminismo é teoria, lesbianismo é prática!"
Não que eu ache isso mesmo, só acho engraçada. Acho que você ia gostar das tirinhas dela, se tiver tempo dá uma olhada:
www.dykestowatchoutfor.com

Um abraço,

www.oraculodelesbos.blogspot.com

lola aronovich disse...

Ha, "closeted feminist" é boa, Rê! Taí um bom termo pra definir boa parte das mulheres que se recusam a assumir seu feminismo.
Bom, assim como tá cheio de feminista que não é lésbica, deve ter bastante lésbica que não é feminista, né? Só que eu sempre espero mais de minorias inteligentes e organizadas!

Nalu disse...

Eu amei esse livro também. Deveria mesmo ser leitura obrigatória, acho que já escrevi alguns posts sobre ele, vira e mexe eu lembro dele. Excelente. Mexeu comigo muito e eu ficava pensando como queria ter lido ele mais nova. Abraços.

lola aronovich disse...

Já pensou se todas as mães e filhas de 12, 13 anos lessem o livro? Acho que seria uma revolução, Nalu. Porque põe muitas coisas em xeque.

juliana rodrigues disse...

Adorei a resenha feita pro livro, vou até usar um trecho do que foi dito em um trabalho que estou fazendo, sobre o estereótipo feminino no hard rock 80 (hair metal).

Mas fico triste em ler que as mães/professoras deveriam ensinar as crianças a serem feministas, ler o livro com elas etc. De novo a ideia de que é responsabilidade da mulher a educação dos filhos.
É torcer a ordem dos acontecimentos e colocar a "vítima" no papel de algoz. É o mesmo que dizer que o machismo existe porque as mulheres criaram mau os filhos, ensinaram isso para eles.

O fato é que ausencia tambem educa, ainda que com maus valores. Homens tambem educam, portanto. E, num mundo em que a informação circula de maneira cada vez mais rápida, em que a vida privada se torna cada vez mais pública, em que se tem menos tempo para estar em casa pois deve-se trabalhar/estudar todo o tempo, a sociedade acaba educando muito mais do que a família. Alias, isso já era ha muito uma realidade para os homens, que tinham larga vida pública e liberdade.

O fato é que, em um mundo em que os pais trabalham muito e as crianças fazem mil atividades na rua (cursos, esportes), e em casa são criados pela televisao, video game, orkut e msn, pela ausencia dos pais, fica mais claro que é a sociedade que cria e impõe valores.

Portanto, não é uma obrigação apenas das mulheres ensinar a igualdade de genero, mas de todos nós, homens e mulheres, que fazemos parte dessa sociedade.

Fernanda Alves disse...

Enriquecedor demais esse post. Me fez pensar em uma série de coisas. No entanto, (e talvez eu esteja errada)o termo feminismo me soa muito próximo do termo machismo. Pq se o machismo reafirma que os homens são superiores às mulheres, o feminismo serviria para dizer o contrário? Pq se for, eu discordo. Queria um termo que significasse igualdade. Igualdade em direitos, em liberdade, etc.

RaoNeo disse...

E desde quando mulher é minoria?

Gustavo disse...

RaoNeo, mulheres são minorias sim, minorias sociais! Não é só o número de indivíduos que compõe certo grupo que vai determinar se este é ou não uma minoria, mas também a relação de subordinação (dominação) à outros grupos.

rony disse...

Nunca me senti Obrigado a provar ser homem, eu sou homem, perante a vida, sendo forte e convicto. Tudo isso, não pra provar que sou homem, pois a opinião alheia não me incomoda. Tudo isso é apenas o que faz um homem: sua atitude perante a vida, com coragem, honestidade e generosidade. Faço comida com prazer, ajudo nos afazeres domésticos. Assim como conheço algumas mulheres preguiçosas, tenho amigos que adoram preparar um rango caprichado pra suas mulheres amadas- os mesmos caras que fazem piadinhas machistas de vez em quando, só pra se divertirem.
E quanto as mulheres, eu as aprecioo, respeito edefendo, se necessário, com minha vida - assim como fizeram os tais "machistas" de antigamente, nos campos de batalha das guerras, por exemplo.
Conheço muitas mulheres bem sucedidas, que ganham quantias equivalentes a suas qualificações, as vezes superando muitos homens, quando menos qualificados.
Acho que existe muito mito e hipocrisia no feminismo moderno.
Se um idiota lhe manda um comentário pervertido, ignore, para que ele se sinta mais idiota ainda. Se um tarado ou um canalha qualquer lhe persegue ou maltrata de alguma forma, procure se defender - qualquer delegacia comum se apressa a defender uma mulher. Não é preciso organizar militância em um movimento político.
É preciso tomar cuidado para nao cair no erro de enxergar todo problema pela ótica de uma ideologia. É preciso buscar a verdade objetiva e pra isso e necessário estudar muito e manter a calma.
Quem combate com ódio, faz merda.

Tati disse...

Que post maravilhoso!E eu não me canso de ler o seu blog. Olha que já estou aqui há horas!