segunda-feira, 28 de novembro de 2005

CRÍTICA: A FEITICEIRA / Rebolando o nariz

Não me lembro direito de “A Feiticeira” na TV, que passou aqui na década de 60. Poderia até dizer que não é da minha época, mas não sei se iria colar, já que me recordo bastante bem de “Jeanie é um Gênio”, que é da mesma data. Essas comédias muito tolinhas mostravam mulheres que ainda não trabalhavam fora obedientes a seus homens, mas havia um quê de pré-revolução sexual, porque os homens em questão não primavam pela inteligência. Como filosofou o maridão, esses caras eram uns manés. Se ele tivesse um gênio em casa (ao que eu disse, “Como assim, SE?”), não teria o menor constrangimento em pedir montes de desejos pra ela. Daí ele olhou pra mim e implorou, “Dá pra pelo menos varrer a casa?”, e eu: “Sim, meu senhor e mestre. Quer que eu te traga a vassoura?”. Porque eu sou assim mesmo, servil. No entanto, desconfio que as séries não eram boas. Elas provocam certa nostalgia porque a gente que era boa na ocasião, jovens e magrinhas. Mas voltando a nossa atração principal, eu poderia dizer que não me lembro de “A Feiticeira”, o filme que vi anteontem. Não é o tipo que fica na memória. Aliás, a comédia merece a pergunta “Por que esses filmes são feitos?”, o que já é uma pergunta um tanto cretina, porque todos os filmes são feitos pra ganhar dinheiro. Se o critério de avaliação for financeiro também, “Feiticeira” não levantou vôo de vassoura na bilheteria (quequié, nunca viu? Já fiz trocadilhos piores).

Mas não é o pior dos programas. A história até que se esforça: a Nicole Kidman, dona do nariz mais comentado do showbiz, fora o do Michael Jackson, é uma bruxinha de verdade, convidada pra ser a estrela do remake de “A Feiticeira”. O ator principal parece que era pra ser o Jim Carrey, acabou sendo o Will Ferrell, comediante famoso deles lá. Eu gostei dele, ainda mais quando ele exagera. Mas não dá pra entender como uma moça com superpoderes quer ser normal. Pior ainda: ela escolhe Hollywood pra ser normal. O filme da Nora Ephron (de “Mensagem para Você”) já abre com a vista aérea de um subúrbio cheio de piscinas, onde a renda familiar anual deve ser um pouco mais alta que a média americana, que é de apenas 52 mil. Ahn, dólares, gente. Em seguida a Nicole terá que rebolar bastante o nariz de um jeito meio esquilo. Isso não parece fácil de fazer, mas por quinze milhões de verdinhas, eu aprendo.

Ter um arsenal de magia é o meu sonho de consumo desde que o pedreiro fez a última obra aqui em casa. Isso de torcer o nariz ou cutucar a orelha (um tanto anti-higiênico, mas é por uma boa causa) e pronto, a parede tá pintada, e o DVD foi instalado, é o que eu queria receber de presente de natal. Talvez o filme pudesse explorar mais esse lado. Ou talvez a gente se divertiria mais se encarasse “A Feiticeira” como trash. Tá, sei que é difícil ver um produto que custou US$ 85 milhões como trash. Mas a comédia tem a sua cota de truques fofinhos. Um é o Michael Caine, que, com seu sotaque britânico (ele já tem título de sir?), traz dignidade a qualquer besteira americana, de “Tubarão IV” à “Miss Simpatia”. Ok, não vamos exagerar. Outro truquinho é a voz do Frank Sinatra embalando parte da trilha sonora. Pena que os atores ficam falando por cima da música. E tem a metalinguagem, as auto-referências.

Mas é uma dessas ironias da vida, né? Antes Hollywood temia a TV, agora a copia, quero dizer, a homenageia. E se você também só é da época de “Jeanie é um Gênio”, o filme deve sair ano que vem. Pois é, já tô até te vendo gritando de emoção.

Um comentário:

Luz! disse...

Lolinha,

Acho que você nem deve ler, né?

mas enfim, é só um comentário bobo. Só pq vi A Feiticeira recentemente. Eu não sou da contemporânea da série, porque tenho 20 anos, mas via as reprises que a RedeTV transmitiu por volta de 2003 ou algo assim. Eu era apaixonada tanto pela Samantha quanto pela Jeannie. Eu já tinha algumas insatisfações com os modelos donas-de-casa-servis que elas incorporavam, mas gostava de todo modo.

Quando soube que seria lançado um remake, fiquei animadíssima. E foi tão frustrante! Quando aluguei e vi pela primeira vez, não gostei! E até hoje, quando volta e meia ele passa em algum canal e eu resolvo ver, de bobeira, me arrependo.

Acho péssimo, mal construído, pobre, sem atrativos. Enfim, sem graça. Não gosto do bobalhão que faz o par da Nicole (embora ache legal que o filme mostre um ator de Hollywood assim bobalhão e egocêntrico).

Só do que gosto é de alguns pontos que vc citou, como as referências e metalinguagens. E só. Embora eu o esteja aqui relembrando, ressuscitando um post antigo sobre o filme como esse, de fato podemos nos perguntar: pra quê filmes assim são feitos???

Esperava uma homenagem melhorzinha...