segunda-feira, 28 de novembro de 2005

CRÍTICA: FLORES PARTIDAS e PASSAGEM / Dois porres

Mesmo pra ver filme ruim eu tenho de ir pra Curitiba. Tá, admito que não foi bem pra isso que freqüentei as salas de cinema da capital paranaense. Vi lá um filme excelente, “Manderlay”, um mais ou menos, bonitinho, mas que não me faria sair de casa pra vê-lo, “Em Seu Lugar”, e dois pretensiosos e chatinhos, “Flores Partidas” e “A Passagem”. Posso estar enganada. Afinal, “Flores” levou o prêmio principal em Cannes, e tem quem aposte que a atuação de uma nota só do Bill Murray valha um Oscar. Pra mim não vale nem o preço do ingresso. Qualquer um pode encarar uma câmera por duas horas e fazer a mesma expressão deprimida. As top models fazem isso andando, e nem atuar elas sabem. Aqui o Bill é um grande conquistador de meia idade que recebe uma carta anônima rosa dizendo que ele é pai de um garoto de 19 anos. Graças a seu vizinho e único amigo, ele lista as cinco namoradas da época e vai atrás delas, quase todas loiras e mais jovens que ele. A gente nunca descobre como um sujeito antipático e sem graça como ele pode ter levado a Sharon Stone pra cama, mas ele realmente deve ser um super Don Juan, pois basta uma lolita olhar pra ele pra ela tirar a roupa. Ou isso ou o nu frontal não-explicado consta na cláusula contratual de filme independente americano. A rotina é repetida ad-náusea: Bill conversando com algum personagem feminino mal-construído, silêncios constrangedores, Bill ouvindo música etíope no caminho pra outro personagem mal-construído. Agora, muita gente considera “Flores” um maravilhoso filme de arte porque 1) leva a assinatura do Jim Jarmush, 2) a interpretação do Bill lembra um paciente em coma, 3) homem-sem-rumo-procura-filho é um tema tão Paris, Texas, 4) o filme não oferece resposta alguma, e 5) já mencionei o nu frontal e a música etíope? Só sei que passei uma hora e meia com o personagem do Bill e não descobri nada sobre ele. Apenas que ele é meio burrinho, né? No fim ele encontra quem ele acha que deve ser seu filho e, ao invés de perguntar, “Falando nisso, como é mesmo o nome da sua mãe?”, pra resolver o mistério, diz pro guri, “Você acha que sou seu pai”, o que faz o rapaz partir em disparada, lógico. Não sem antes o Bill proferir algo filosoficamente profundo, tipo o passado já foi, o futuro a Deus pertence, só temos o presente. Bom, isso deve soar muito profundo pra quem olha pra “Flores” e vê nele um filme de arte. Pra mim parece um clichê muito do banal. Mas eu sou aquela que não gostou de “Encontros e Desencontros”. Aliás, sou só eu que não agüenta mais ver caras deprês assistindo à uma TV desligada?

Se você tá revoltado(a) porque mezzo que contei o fim de “Flores”, pule o que planejo fazer com “A Passagem”. Mas eu acho que quem revela o final deste drama psicológico é o tradutor. Em inglês o filme chama-se “Stay”, que poderia ser “Permanência” ou “Fique”. Eu pessoalmente traduziria pra “Pode Ir, Meu Filho” ou “Já Vai Tarde”. Nesta gosma com uma linda direção de arte, o Ewan McGregor é um psiquiatra que namora a Naomi Watts e tem um paciente, o Ryan Gosling (a melhor coisa de “Cálculo Mortal”), que pretende se matar. O negócio todo é estupidamente confuso e a gente não entende se o Ewan é o Ryan, se algum deles ou todos eles já morreram, se eles see dead people, se é um pesadelo, ou se é só uma historinha que alguma mente fértil inventa antes de morrer. Tampouco entendi se o Ryan mata os pais ou se eles morrem num acidente de trânsito. Ou porque as calças do Ewan são tão curtas. Ou porque alguns trigêmeos ficam pipocando na tela. Mas até a metade eu fiz o enorme esforço de falar cá com os meus botões: “Fica fria, Lolinha. No final eles vão explicar tudo”. Daí chegou uma hora em que eu já não estava minimamente interessada na explicação. Quando o filme terminou, dei meu parecer técnico-científico: “Não entendi bulhufas”.

No meio do tédio fiquei pensando se, antes de morrer, eu preferiria ver o rosto do Ewan ou do Bill. Acho que o do Ewan, mas não em “A Passagem”. E se eu recebesse uma carta azul de algum ex-amante anônimo, eu iria querer rever todos meus ex-namorados? Isso certamente renderia diálogos mais interessantes que os de “Flores Partidas”.

O maridão, menos tolerante que eu, dormiu em ambas as produções.

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