quinta-feira, 28 de maio de 2015

GUEST POST: TER FILHOS TRAZ FELICIDADE

A Marina me enviou este relato pra contestar um post antigo que escrevi:

Li o texto que você escreveu, "Mentiram para mim: ter filhos não traz felicidade" e gostaria de te escrever o que penso, baseado na minha experiência de vida.
Quando eu era mocinha (hoje tenho 32 anos), eu não gostava de pensar muito em casamento e nem em filhos, era a que dizia que casaria mais tarde da turma, e a única que dizia que teria apenas um filho.
Por fim eu engravidei do meu primeiro namorado, fui a primeira a casar e a primeira a ser mãe. E para uma menina que teve seu primeiro namorado aos 17 anos, isso foi um choque para toda a família.
Eu contei para minha mãe, que contou para meu pai, que ficou dois meses sem falar comigo, mas depois me perdoou. Aguentei frases ofensivas da minha mãe até completar três meses de gestação e casar.
Morei um ano e meio de aluguel, e depois me mudei para uma casinha, no quintal da minha sogra, "um presente de casamento para o jovem casal". Eu e meu marido éramos universitários quando eu engravidei, eu cursava o terceiro semestre de Fisioterapia e tinha acabado de pedir as contas do meu primeiro emprego (operava telemarketing). 
Meu então namorado casou comigo, e assumiu de cara uma garota da mesma idade que ele, universitária, desempregada e grávida. Ele saía de casa as 6 e pouco e só voltava depois da meia noite. E por assim foi a rotina por seis anos. 
Eu estudei até o oitavo mês de gestação e emendei férias com o parto, depois passei um semestre em casa e depois voltei normalmente aos estudos.
Me tornei uma aluna muito melhor depois da maternidade, de medíocre para a segunda melhor da sala, uma sala de jovens solteiros e bem providos financeiramente pelos pais. E eu pobre, dona de casa e mãe de bebê, e superei a todos nos resultados acadêmicos.
Consegui isso me amparando em toda ajuda que podia, de mãe, sogra a babá, tia, vizinha, etc. E da mesma forma que me formei, dei continuidade a tudo que gostava de fazer antes. Sair com o marido, cinema, sair com as amigas. Eu não me limitei e nem me restringi. Eu era jovem e não tinha vergonha de pedir favor para as avós. 
Foi difícil, hoje eu sei, mas eu me surpreendo ao perceber de como fiz parecer fácil.
Eu amei minha filha no momento que descobri que estava grávida. Ia e voltava de ônibus para a faculdade, carregando muitos livros, e achava fácil, ia em pé, ninguém me dava lugar.
Ser mãe foi uma experiência fantástica. Se os filhos trazem felicidade, sim trazem sim, e trazem também muitas contas, dívidas e preocupações. O que posso te dizer é que compensa. Mas por que compensa? Como explicar isso?
Caso você já tenha tido um filho, você já descobriu, mas caso não tenha tido eu vou tentar te explicar. Quando a gente tem um filho, a gente passa a amar outro ser, mais do que a gente ama a nós mesmos. O sentido da vida muda. Eu me tornei uma aluna melhor porque comecei a levar a sério a faculdade, pois vi nela uma forma de conseguir melhorar a minha vida financeira e desta forma dar uma qualidade de vida melhor para minha filha, que ainda não tinha nem nascido.
Depois que a gente passa a amar tanto um ser assim, a vida muda, mas a gente pode ser e manter coisas que fazíamos antes, tudo dependerá do apoio que recebemos e se estamos dispostos a aguentar certas coisas. É um jogo de ganhos e trocas. De escolhas.
Eu levei dez anos para ter outro filho, um menino, e nesta segunda gestação tudo foi diferente. Nesta eu planejei, nesta eu estava 10 anos mais velha, e nesta eu já tinha perdido a prática de cuidar de bebê e de tudo que temos que abrir mão quando temos um filho pequeno. 
Meu filho nasceu com refluxo, teve terror noturno e tem até hoje dermatite atópica, e com eles as coisas foram diferentes. Eu me limitei muito. Mas volto a falar, é um ser que a gente ama mais do que amamos a nós mesmos, então como imaginar nossa vida sem eles? Só enquanto a gente não os tem, depois que temos não tem volta, e não queremos que tenha. 
Os filhos em si trazem felicidade. Agora, se ser mãe torna a nossa vida mais feliz, vendo por um contexto mais complexo, eu não sei te dizer, se completa algo, também não saberia dizer, pois não tive tempo de sentir esta sensação de que falta alguma coisa como alguns casais sem filhos falam. 
Agora uma coisa eu sei, a natureza chama, acho que tudo isso é instinto. Instinto de perpetuação da espécie. Ele que gera este imenso amor, sensação de que vale a pena apesar de todas as dificuldades, e de que no final o percurso compensa.
Sendo mais fria e calculista, os filhos precisam se virar e cuidar dos pais quanto estes ficam velhos. 
Minha mãe juntamente com os dois irmãos estão fazendo "vaquinha" para pagar a clínica que minha avó reside. O mesmo ocorreu com o meu pai: ele e o irmão pagavam uma clínica para minha avó residir. E a avó do meu marido é idosa, mora sozinha, e os filhos revezam as visitas para que ela não fique só e tenha tudo que precisa, pois seu marido já faleceu. 
Filhos, quando crianças e adolescentes, trazem muitos gastos financeiramente falando. Mas no futuro eles entram com o retorno, a ajuda que os pais precisam, nem que seja de amor e carinho ou atenção. Mas em algum momento precisarão entrar com algum tipo de suporte, pois todo mundo envelhece e nem todo mundo tem o privilégio de viver são e independente até o último suspiro.
Ter filhos é uma experiência única, incrível, difícil, compensador. Ver os filhos crescendo, se desenvolvendo, não tem preço que pague. Mas quem fala que tudo são flores está mentindo.
Tem muitos casais que não estão bem e resolvem ter filhos, com toda certeza não dará certo, pois vários desafios serão acrescentados na vida de um casal que já não estava bem. Mas um casal que está firme e forte, e de repente sente que a hora chegou, acho que pode ser uma experiência muito positiva e que acrescentará.
Bom, desculpe o livro, espero que você tenha gostado.
Cada um escolhe se quer ter filhos ou não, e não sei o quanto isso irá acrescentar ou subtrair na vida de cada um, e nem se trará felicidade.

Meus comentários: Marina, continuo convicta na minha decisão de não ter filhos. Agora estou velhinha, vou fazer 48 anos, então mesmo que eu quisesse, não poderia mais. Mas não quero, nunca quis, e não me arrependo nem um pouco. Não acredito em instinto materno. Eu tive muita sorte. Decidi cedo que não teria filhos, encontrei um homem lindo com o mesmo desejo que eu, e conseguimos não engravidar. 
Não temos medo do futuro. A vantagem de não ter filhos é que se economiza bastante. Com esse dinheiro poupado, poderemos nos manter na velhice e na doença, espero (infelizmente, filho não é garantia que alguém cuidará da gente mais pra frente. Há inúmeros casos em que os filhos não ajudam). 
Acredito sim que filhos podem trazer felicidade. Meu post de cinco anos atrás foi mais uma provocação, baseado num artigo interessante cheio de dados que desmentiam o clichê de que ter filhos é uma maravilha. Você sofreu bastante preconceito por ter engravidado cedo e sem planejamento. Eu, como uma mulher que não tem filhos, sofri pressão constante para tê-los. Pressão que meu marido, por ser homem, não sofreu. 
E a pressão se dá através do senso comum de que eu sou uma mulher incompleta e infeliz por não ter cumprido minha missão na vida, minha plenitude como mulher. Balela. Eu me sinto muito completa e feliz. Conheço várias mães e pais incríveis, e as admiro pelo amor incondicional que dedicam aos rebentos. Mas essa não foi minha escolha. E eu tive o privilégio de poder escolher.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

"MINHA MELHOR AMIGA ABUSOU DE MIM"

A N. está passando por um problemão:

Nunca achei que fosse te mandar um relato como esse. Estou confusa e muito desconfortável.
Ontem minha melhor amiga, que conheço e confio há anos, dormiu em casa. Eu fui deitar enquanto o filme que assistíamos ainda estava na metade. De madrugada ela veio e deitou na minha cama me abraçando e tocou na minha vagina me masturbando. Eu acordei assustada, e virei pro outro lado. Ela imediatamente começou a acariciar as minhas costas, e em seguida senti que ia colocar a mão por dentro da minha calça do pijama. 
Eu não estava acreditando no que acontecia, e de forma brusca tirei a mão dela de cima de mim. Não olhei pro rosto dela, e nem me levantei da cama, apenas na mesma posição em que eu estava deitada, tentei para-la. Ela em seguida me chamou, eu não respondi. Continuei deitada.
Minutos depois ela saiu do quarto. Eu queria levantar e trancar a porta, mas sentia que seria muito hostil da minha parte. Quando eu estava voltando a dormir despertava com medo daquilo acontecer de novo.
De manhã quando acordamos, eu e ela fingimos que nada havia acontecido.
Tô tentando entender o que foi isso. Me ajude.
Estou sentindo o toque dela até agora, tenho repulsa. E tenho vontade de ter relação sexual com um homem que eu sinta desejo pra que esse sentimento desapareça.

Minha resposta: Isso que você contou me lembrou do começo do blog, mais de sete anos atrás. Eu tinha um leitor, gay, que também era blogueiro, e ele descreveu uma situação parecida. Ele tinha ido dormir na casa do melhor amigo, um rapaz hétero, e no meio da noite, enquanto o amigo estava dormindo, ele o acariciou. O amigo teve a mesma reação que você, pelo que me recordo. Eles acabaram não falando sobre isso. A amizade esfriou. Eu me lembro de ter dado um grande puxão de orelha nesse meu leitor. 
Sinto muito por essa experiência que você sofreu, N. Foi abuso. Você não tinha consentido, e ela foi lá e te tocou. Suponho que isso não seja tão incomum. Às vezes uma pessoa se apaixona pelo amigo ou amiga, e acha que basta um pouco de esforço, de tempero, pra amizade "evoluir" para outro nível. A gente conhece vários casais (héteros e homo) que se formam desse jeito. Mas é complicado se uma das pessoas não está a fim. E se ela não compartilha da mesma orientação sexual, o que parece ser seu caso. 
Sua amiga certamente não te "leu" corretamente, ou senão -- pior ainda -- ignorou a leitura, que dizia que você é hétero e não quer ter algo sexual com ela (foi o que eu compreendi pelo teor do seu email).
Eu acho que vocês duas precisam conversar, N. Como vocês são melhores amigas, vocês podem reparar isso, penso eu. Ela tem que pedir desculpas, explicar o que a levou a agir assim, e prometer que não agirá dessa forma de novo. E você vai ter que acreditar nela, ou não. Se você acha que não dá mais pra confiar nela, será o fim da amizade. 
Só você pode decidir o que quer fazer, querida.

terça-feira, 26 de maio de 2015

GUEST POST: "MEU PAI, PEDIATRA, FEZ EXAME GINECOLÓGICO EM MIM"

Este é o relato e pedido de ajuda da F.:

(Eu o deletei dois anos depois a pedido da autora, mas mantenho minha resposta).

Meus comentários: Sinto muito pela sua infância e adolescência tão tristes, F. Bom, eu evidentemente não sou médica ou psicóloga, e fico no aguardo que alguma pessoa possa te dar alguma luz. Mas acho que esses dois episódios juntos (ele te tocar durante o exame e pedir pra você fazer poses sexy na praia, e mais a obsessão sobre um possível namorado) podem configurar abuso sim.
Uma menina de qualquer idade pode precisar exame ginecológico, mesmo que ela não esteja necessariamente doente. Pelo que vi, existe uma área só pra isso, chamada ginecologia infanto-puberal. Mas não é o pediatra que faz. O pediatra pode recomendar um ginecologista, só que na criança ou adolescente virgem não há toque vaginal. Nesses casos, para avaliar útero e ovários, faz-se uma ultrassonografia pélvica. Quando a adolescente não é virgem, usa-se o espéculo.
Fora isso, não é apropriado que um médico atenda membros da própria família (nem a si mesmo). O Cremesp diz que esse é um consenso entre os médicos.
E que negócio é esse de psicólogas não quererem ouvir sobre um assunto que te assombra tanto? 
Procure outra psicóloga (uma que não tenha ligação nenhuma com seu pai). É certo que, mesmo sem o abuso sexual, teu pai te traumatizou em vários níveis. É algo que você vai precisar confrontar, cedo ou tarde. 
Torço para que um dia você consiga superar tudo isso.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

EU, MAIS OU MENOS BRANCA

Terça retrasada no final da tarde voltei de uma linda mesa sobre opressões e escrevi um simples tuíte:
Exemplo de reaça
Pouco tempo depois, montes de reaças no Twitter (esses são fiéis, acompanham tudo que escrevo, apesar de estarem bloqueados) passaram a ridicularizar o que eu havia dito. Mas, né, dane-se o que reaças falam e pensam. Só que algumas horas depois várias feministas negras (eu não conhecia a maioria que apareceu, nem elas me seguiam no Twitter) também passaram a zombar do que eu havia escrito. Pior: estavam furiosas.
As perguntas que elas faziam entre elas, não para mim, eram do tipo: Como assim, a Lola se identificar negra? Ela não é argentina? Ela não é judia? Ela não tem olhos azuis? Ela não tem cabelo liso? 
(As respostas seriam, respectivamente, sim, não, não -– meus olhos são verdes -–, e não, mas não entendi por que qualquer uma dessas características seria incompatível com alguém ser negro).
Pelo menos duas moças foram ainda mais longe: uma disse que queria me dar uma chinelada na boca por eu haver escrito aquele tuíte, outra, “tremendo de raiva”, disse que torcia para não cruzar comigo novamente na rua ou na universidade, porque sua vontade era de "meter uma mãozada nas fuça dela".
Não compreendo essa violência. Por que querer me bater? Por uma mulher negra (a moderadora da mesa) ter me identificado como negra? Por eu ter ficado feliz com isso? Ou por eu querer escrever sobre o assunto no meu próprio blog?
No meu tuíte eu sequer me identifiquei como negra. Disse apenas que fui identificada como uma, e que fiquei feliz. Por que não ficaria? Deveria ficar envergonhada? Deveria ter interrompido e corrigido aquela mulher negra, a moderadora da mesa, quando ela disse com orgulho, no fechamento do simpósio, de que havia lá três mulheres negras? Se eu tivesse feito isso, aí sim é que seria racismo, a meu ver.
Fui perguntar pra ela depois: “Você me identificou como negra?” E ela respondeu que sim. 
Eu na Casa TPM, em 2013
Ela disse que o fato de eu prender meu cabelo e que a melanina debaixo dos meus olhos dava a entender que eu era negra. Eu não entendi direito, confesso (brancos não têm olheiras? E ultimamente venho prendendo o cabelo porque a menopausa deve estar se aproximando e eu morro de calor). Conversamos um pouco, e eu disse que não me via como negra, mas também não me via como branca. E que já fazia tempo que eu queria escrever sobre essa minha identidade.
Toda a minha vida, eu me identifiquei como branca. E, pelo que sei, fui identificada como branca também, já que nunca sofri racismo. Mas aí comecei o blog, e vieram várias reflexões. Em primeiro lugar, eu também havia comprado aquela ideia de que na Argentina não havia negros. E não é verdade. 
Uma mulher que se identifica como
afro-argentina
Argentina também teve escravos negros. No tempo da colônia, um terço da população era negra. Mas esse povo foi dizimado  em guerras e epidemias de febre amarela. Enquanto os negros sumiam, os imigrantes europeus (brancos) desembarcavam. Nos anos 1920, mais da metade dos habitantes de Buenos Aires era formada por estrangeiros (meus avós ucranianos entre eles). Hoje, pouquíssimos argentinos se identificam como negros. Em 2013 foi criado um dia nacional do afro-argentino justamente para que mais gente possa ter orgulho de se reconhecer como tal. 
A linda que fez o meu cartaz e eu em
João Pessoa, 2013
Segundo que, com o blog, eu me tornei uma pessoa mais pública, mais ou menos conhecida dentro do mundinho na internet. E vi que montes de pessoas cismavam com meu cabelo. Pra elas, eu não ter cabelo liso era sinônimo de desleixo, feiura e falta de higiene. Dezenas de vezes me mandaram alisar e pentear o cabelo (como se, poder ser cacheado, estivesse despenteado). Antes disso, eu nunca tinha tido qualquer problema com meu cabelo. Gosto dele!
Daí passei a perceber que muitos dos meus inimigos não me identificavam como branca (já li que só superherói tem inimigos, mas, sei lá, eu já tive que fazer quatro boletins de ocorrência contra misóginos que me ameaçam e me difamam, então sim, eu tenho inimigos). Num fórum mascu que também é neonazista, eu sou às vezes chamada de macaca, e sempre de parda. 
Mestiço, tela de Portinari
E desde que comecei a palestrar (sobre gênero), tenho percebido minha relutância em me ver como branca. Aliás, até antes. Em várias crônicas de cinema, se eu tenho que falar da minha cor, está sempre lá: “mais ou menos branca”. Nas palestras, eu uso o exemplo da raça pra dizer por que os homens não podem ser protagonistas no feminismo: “Seria como se eu, que sou mais ou menos branca, quisesse liderar o movimento negro”. Eu não conseguia dizer “sou branca”.  Sempre saía assim, “mais ou menos branca”.
Minha mãe e meu pai na década de 80
Em pelo menos uma dessas palestras, cerca de um ano atrás, em Curitiba, uma senhora, negra, veio falar comigo depois pra dizer que, com esse cabelo, com essa minha cor, já estava na hora de eu repensar minha identidade racial. Naquele dia eu dei duas palestras em Curitiba e, depois da segunda, saí pra jantar com os alunos da UFPR que haviam organizado o evento, todos uns amores, super politizados, um papo excelente. 
Eu em Campina Grande, PB, 2013,
posando com leitoras queridas
Contei pra eles o que a mulher negra havia me dito, falei das minhas inquietações. Disse que, quando estive na Paraíba, depois de três dias de praia, eu havia “mudado de cor”. Essa foto, ao lado de mulheres brancas, pra mim é incrível. Eu não estou branca! Um dos estudantes que estava lá era negro, e perguntei pra ele se ele achava que eu deveria me identificar como  parda. Ele respondeu, com muito entusiasmo: “Claro!” A visão dele era que quanto mais gente se assumisse preta e parda, melhor pra luta. 
Ronaldo Fenômeno se declarou branco
em 2005
Aconteceram vários outros incidentes, e não vou narrar todos, porque o texto já está gigantesco. Mas, assim, quando fui renovar minha carteira de identidade, em fevereiro, aqui em Fortaleza, eu vi que a funcionária colocou para minha raça -– parda. Isso não vai na carteira, e creio que não é perguntado. Mas num dos itens os responsáveis têm que colocar a raça, e eu fui vista como parda. Só que, uns quarenta dias depois, quando fui depor numa delegacia, a escrivã escreveu branca pra mim. 
Minha mãe e eu no último natal
Fui conversar com minha mãe sobre isso. Sei que na família do meu pai são todos brancos. Meus avós, ucranianos, judeus, migraram da Ucrânia para a Argentina antes da primeira guerra. Mas da parte da minha mãe, eu não sei nada. Nunca conheci os pais dela, a irmã, nada. Nunca vi fotos. Minha mãe sempre foi muito misteriosa nesse sentido. Perguntei pra ela se havia algum antepassado negro na nossa família. Ela disse que não -– “Índios sim, negros não”.
Em março, dividi um quarto com uma blogueira negra bem conhecida e querida. Não vou citar o nome porque não quero envolvê-la na confusão. Não sei como começamos a falar sobre o assunto, mas ela disse que quando ela está de turbante ninguém duvida da sua negritude. Porém, quando ela está com o cabelão (lindo) dela, sempre vem gente dizer que ela não é negra, que a pele dela é clara. E ela concorda que, por não tomar quase nada de sol, fica com a pele descolorida mesmo. Mas o pai dela é negro. 
Até um tempo ela se identificava como mulata (hoje essa é uma palavra não aceita, pois vem de mula), depois como parda (mas muita gente do movimento negro defende que a pessoa parda deve se identificar como negra, que “parda” é um agrado ao mito da democracia racial). 
Aliás, um parênteses aqui, mais um: já participei de várias mesas em que havia um ou mais representante LGBT, um ou mais representante negro, e uma ou mais feminista. E quase sempre tem um momento em que a pessoa negra conta a história de quando “percebeu” que era negra, e não morena ou bronzeada ou mestiça. De quando se assumiu negra como identidade política, de luta, de combate às opressões. De quando passou a ter orgulho de ser negra. Essa é uma narrativa que nos aproxima bastante, porque feministas de toda cor também falam de quando se descobriram feministas. 
Mas voltando a essa feminista negra com quem dividi um quarto: no meio do nosso papo ela disse que nunca me viu como branca, principalmente por causa do meu cabelo. A dica que ela dava a qualquer pessoa que quisesse se identificar negra era: saiba se você tem antepassado(s) negro(s) na família antes e quais são.
Meus avós ucranianos com
minhas tias no colo em
1922, antes do meu pai nascer
Eu acho que não tenho. Mas só ter parentesco negro pode não ser suficiente. Mês passado, no curso de extensão sobre gênero, literatura e cinema, pedi pra turma ler um artigo da Sandra Azêredo, "O que é mesmo uma perspectiva feminista de gênero?". Ela narra que, no início da década de 80, quando foi fazer doutorado na Califórnia, explicou pra sua orientadora (a festejada Donna Haraway) que, no Brasil, há preconceito de classe, não de raça. Naquela época, Sandra ainda acreditava nesse mito. Mas passou a refletir sobre sua vida, e lembrou-se que, quando era criança, alguns colegas confundiram sua mãe parda com uma empregada doméstica. 
Em 2009 uma estudante (à esquerda) se
declarou parda e entrou na UFSM por
cotas. Uma comissão tirou-lhe a vaga,
pois não viu a aluna como parda
O artigo gerou uma discussão riquíssima na classe. Dois rapazes disseram que sabem que têm a pele escura, e por isso gostariam de se identificar como negros, mas têm o cabelo liso de índio e nenhum outro fenótipo negro. Portanto, sentiriam-se mal se entrassem no movimento negro, porque não gostariam de “roubar protagonismo”. E eles não estão sozinhos. Esses dias vi um comentário parecido numa rede social:

Neymar, numa entrevista aos 18
anos, disse que não era preto
É complicado determinar quem é negro e quem não é. Negro é quem a polícia vê como negro? Negro é quem é vigiado ao entrar numa loja? Quanto mais escuro, maior a discriminação e o preconceito contra essa pessoa, isso sabemos (é o que se chama de colorismo). Mas no caso desses meus dois alunos, quem decide se eles são negros? (eles mesmos, certo? Já que no Brasil a raça é autodeclarada).
Para muitos, o ex-presidente Lula é
mestiço ou não branco
Voltando a mim, que este post quilométrico é todinho sobre mim, sobre uma problematização minha da minha identidade: aquele mero tuíte da semana retrasada gerou uma revolta e tanto. E até agora não entendi o porquê. Não tenho o menor interesse em ocupar um espaço que não me pertence. Se nunca quis o protagonismo no feminismo, vou querer muito menos no movimento negro. Além do mais, identidade tem muito a ver com um sentimento de pertencimento. E obviamente não foi isso que senti como resultado do meu tuíte. 
Fui chamada até de racista por ter ficado feliz por uma negra ter me identificado como negra! Evidente que ser identificada como negra não faz de mim negra, assim como ser chamada de racista não faz de mim racista. Eu sempre lutei pelo fim de todos os preconceitos, pois considero que o combate ao racismo não cabe apenas aos negros, mas a todos (tal e qual o combate ao machismo e à homofobia é um dever de toda a sociedade, não só de mulheres e LGBTs).
Minha identidade racial agora é uma que eu percebi que venho adotando faz tempo: mais ou menos branca. Talvez um dia, quando ninguém estiver olhando (no Censo do IBGE, por exemplo, ou quando eu não tiver mais blog), eu seja realmente audaz e me diga mais ou menos preta.