terça-feira, 22 de janeiro de 2008

DE CHORAR: PIORES FILMES DE 2007

Felizmente, meu instinto falou mais alto e percebi que “Norbit” seria o primeirão de qualquer lista dos piores de 2007, mesmo sem vê-lo. Também dei muita sorte em estar nos EUA durante metade do ano e, assim, poder escolher melhor o que assistir. Dessa forma, consegui escapar de “Deu a Louca em Hollywood”, “Ela é a Poderosa”, “Acampamento do Papai”, “A Volta do Todo Poderoso”, “Treinando o Papai”, “Maldita Sorte” (só o trailer foi suficiente pra povoar meus pesadelos. Um blogueiro esperto notou: “A gente sabe que um filme é péssimo quando se pega dizendo 'A Jessica Alba é boa demais pra estar nessa droga'”), essas bombas. E tenho certeza que várias produções sobre o Natal são igualmente hediondas (tô pensando em “Titio Noel”). Mas vi filmes terríveis. “A Estranha Perfeita”, “Sydney White” e “Minha Mãe Quer que Eu Case” foram alguns deles, assim como “Número 23”, “Mandando Bala”, “Diário de uma Babá”, “Invasores”, e “Vidente”. Pra colocar filmes de maior calibre nessa lista, não gostei nem um pouco de “Juno”. Pode não estar merecidamente entre os piores de 2007, mas tá fresquinho na minha cabeça. E um que ocasionalmente consta na lista dos melhores do ano de alguns críticos me decepcionou demais: “Zodíaco”. E qual foi a pior superprodução do ano? Bom, eu teria que escolher entre “Bússola de Ouro”, “Transformers” (o maridão quer saber: “Mas aquilo era mesmo um filme?”) e “Piratas do Caribe 3” (puxa, pensando bem, eu dormi nos três).

Dez dias depois de eu escrever o parágrafo acima, um blogueiro decidiu pegar todas as listas de críticos americanos dedicadas aos piores filmes e fazer uma compilação geral. Então vamos comparar a lista dos americanos com a minha, que nem ousa colocar os filmes em ordem. Adivinha quem ganhou de lavada entre os críticos?

1. “Norbit”, óbvio. Espero que o Eddie Murphy se lembre com carinho desse troço que tirou dele o Oscar de coadjuvante por “Dreamgirls” (a votação da Academia e a estréia da catástrofe ocorreram na mesma época).

2. “Minha Mãe Quer que eu Case”. Realmente, é horrível. Faz tempo que não via a Diane Keaton tão constrangida. Já em abril, falando de “Ratatouille”, escrevi que “Minha Mãe” não podia ser melhor que qualquer outra coisa feita no planeta (é que não sou masoquista e tinha pulado “Norbit”).

3. “Licença para Casar”, aquela em que o Robin Williams faz um padre. Como tenho muita experiência, acho que vou passar a fugir de qualquer filme cujo título contenha as palavras “Casamento”, “Casar” e variações. Eu já evito toda e qualquer comédia sobre o Natal, e só tenho a ganhar.

4. “Número 23”. Eu falei, eu falei. Tadinho do Jim Carrey. E esse foi o único filme que ele fez no ano.

5. “Albergue 2”. Escapei deste. Há um termo pra essas produções sádicas, “torture porn”, algo como “tortura pornográfica” ou “pornô torturístico”, sei lá. Mas que tem sérias aproximações com o gênero pornô, isso tem. Por incrível que pareça, vi “Turistas” na TV a cabo outro dia e constatei que ele não se enquadra no gênero “torture porn” nem na minha lista dos piores de 2007. É apenas um filme ruinzinho, como tantos outros. E que fala muito mal do Brasil.

6. “Eu os Declaro... Marido e Larry!”. Ahn, eu defendi essa comédia. Ela não é engraçada, mas gostar ou não dela tem mais a ver com considerá-la homofóbica ou uma defesa dos gays. Pra mim a mensagem final é “tudo bem ser gay”. Preconceituoso é o público adolescente que comparece pra ver esse filme, não o filme em si.

7. “A Volta do Todo Poderoso”. Graças a Deus só vi o trailer (uma pá de vezes). Além de ser a comédia mais cara da História, tem o Steve Carell, que considero um gênio por causa do “The Office”, como um Noé atual. Duas pequenas considerações: um sujeito tentou viver seguindo a Bíblia à risca, o que incluiu deixar crescer uma longa barba, e escreveu um livro sobre o assunto. Gostaria de lê-lo. A outra consideração é que 10% dos americanos pensam que Joana d'Arc foi esposa de Noé, por causa da arca, sabe? Esta comédia foi dirigida a esse público, imagino.

8. “300”. Sim, soa meio injusta a inclusão desse megasucesso na lista. Não tenho nenhum grande amor pelo filme, mas não o colocaria entre os piores jamais. É um bom entretenimento ver tantos homens com barriga-tanquinho ao mesmo tempo. Só me preocupa que adolescentes aprendam História através desses épicos.

9. “Antes de Partir”. Até agora só vi o trailer desta comédia com Jack Nicholson e Morgan Freeman. Parecia bastante ruim, mas os produtores ainda tinham esperança que sobrasse alguma indicação ao Oscar pro Jack. Pelo jeito danou-se.

10. “Southland Tales”. Não vi. Havia um ou outro crítico falando bem quando a ficção científica foi lançada, mas mantive distância ao notar que um dos atores principais era o The Rock. Cruzes.

E finalmente, outros que quase ficaram entre os top ten, segundo os críticos americanos: “Piratas do Caribe 3”, “Maldita Sorte”, “Hannibal – A Origem do Mal” (não é mau!), e... “Juno”! Ufa! Ainda bem que não fui a única alma no universo a não gostar de “Juno”.

Resta saber se as Framboesas de Ouro trarão alguma surpresa. Mas uma coisa você pode apostar: TODOS os piores chegam ao Brasil. Todos. E não só ao Brasil, mas ao resto do mundo também. Vários dos melhores só passam nos EUA. Será que fazem de propósito, só pra me enervar?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

MELHORES DE 2007 - E CHEGAM A 10!

Antes de divulgar minha lista dos melhores filmes de 2007 (a maior parte ainda não chegou ao Brasil, mas deve chegar até março), preciso explicar que só incluí produções faladas em inglês. Passei metade do ano nos EUA, e embora eu tenha visto e gostado de “Tropa de Elite” e “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias”, não os considerei pra esta lista. Lá vai. Vou começar pelo topo, pra te poupar de ir direto pro fim da página.

1. Senhores do Crime (Eastern Promises, estréia prevista no Brasil: 8/2) – David Cronenberg faz sua obra mais forte e acessível desde “Gêmeos, Mórbida Semelhança”, que já tem duas décadas. De quebra, traz a grande interpretação de 2007, do Viggo Mortensen, e uma cena espetacular em que ele luta nu. Imperdível.

2. O Nevoeiro (The Mist, estréia 14/3 - a estréia no Brasil já foi cancelada três vezes) – Por que só o Frank Darabont (de “Sonho de Liberdade”) consegue adaptar bem o Stephen King pro cinema? Não consigo me lembrar de um filme de terror mais eficiente em toda a década, e é o melhor terror baseado no King desde “Iluminado”. E não é só um filme de terror. É sobre o que aconteceu com os americanos depois daquele fatídico 11 de Setembro.

3. Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, estréia 1/2) – o melhor filme dos irmãos Coen desde “Fargo” deve faturar o Oscar. É uma obra-prima até a metade. Depois se perde bastante, e o público literalmente vaia o final, mas ainda assim é um grande filme.

4. Desejo e Reparação (Atonement, estreou em janeiro) – uma bela história sobre amor, culpa, e o poder da escrita.

5. Sweeney Todd, O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (estréia 8/2) – por favor, vá sabendo que é um musical. Um musical do Tim Burton, sem esperança, sombrio, canibal, e com o Johnny Depp cantando, mas um musical mesmo assim. Eu amei.

6. Across the Universe (estreou em dezembro) – não é todo mundo que gostou. Mas, pra mim, junte músicas dos Beatles e o visual mais esplendoroso de 2007 e a gente tem um clássico. Vai se tornar cult com o tempo.

7. O Assassinato de Jesse James (estreou em novembro) – um faroeste lento e pensativo com excelentes atuações do Brad Pitt e Casey Affleck. O filme teve problemas, brigas entre diretor e produtores, e ficou na prateleira dois anos antes de ser lançado. Valeu a espera.

8. Sangue Negro (There Will be Blood, estréia 15/2) – meio faroeste, meio drama, meio épico sobre a ganância e crueldade. Outro que se perde no terço final, e todavia consegue ser um grande filme. Nem tenho certeza da ordem de “Sangue” nesta minha lista. Podia estar mais pra cima.

9. SOS Saúde (Sicko, estréia 25/1) – mais um fantástico documentário de quem parece ser o único americano de esquerda, o Michael Moore. Fala do sistema falido de saúde nos EUA e o compara com o de outros países de primeiro mundo. Fica mal pacas pro império.

10. Longe Dela (Away from Her), empatado com Once (ambos sem previsão de estréia no Brasil) – dois filmes independentes e íntimos, o primeiro um drama com a Julie Christie (talvez a favorita pro Oscar) sobre Alzheimer e casamento; o segundo um musical muito romântico e nada convencional.

Explicações: gostei de “Na Natureza Selvagem”, “Medo da Verdade”, “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”, “Superbad” (acho que, na segunda vez, gostei mais de “Os Simpsons”), e “Ultimato Bourne” (se bem que, pra mim, o melhor filme de ação foi “Duro de Matar 4”), mas não o suficiente pra colocá-los na lista.

Ainda não vi alguns filmes bem-cotados entre os críticos, como “Persepólis”, “I'm Not There”, “O Caçador de Pipas”, e “O Escafandro e a Borboleta” (tenho um pouco de preconceito pra ver algo com esse título, confesso).

Esses filmes constam em várias listas de melhores de outros críticos, mas não na minha, de jeito maneira, porque me decepcionaram profundamente: “Juno”, “Conduta de Risco” (Michael Clayton), “Zodíaco”, “Os Indomáveis” (3:10 to Yuma), e “O Preço da Coragem” (A Mighty Heart). Quero dizer, TODOS os filmes sobre a intervenção americana no Oriente Médio decepcionaram, mas nenhum mais que este último.

No geral, 2007 foi um bom ano pro cinema americano. Duvido que nos outros anos eu conseguiria pinçar dez filmes pra fazer uma lista dos melhores...

Leia a lista dos piores aqui.

domingo, 20 de janeiro de 2008

CRÍTICA: DESEJO E REPARAÇÃO / Nada a reparar

Receosa com as comparações a “Paciente Inglês”, fui ver “Desejo e Reparação” com um tanto de má vontade. Mas esse espírito se diluiu logo, e no final chorei bastante. Até aí, nada de mais. Eu choro em comercial de TV. Depois encontrei o romance de 2001 do Ian McEwan pra ler e pude constatar que o filme é extremamente fiel ao livro. Mas já ao sair da sessão tive que reconhecer que “Desejo” é uma bela produção, uma das melhores de 2007, e merece ser indicada ao Oscar.
É a história de uma garota de 13 anos que, em 1935, na mansão onde mora na Inglaterra, vê uma cena bastante erótica entre sua irmã mais velha (interpretada pela Keira Knightley, de “Piratas do Caribe” e “Orgulho e Preconceito”) e o filho do jardineiro (o lindo e baixinho James McAvoy, que já foi fauno em “Crônicas de Nárnia”, médico idealista em “O Último Rei da Escócia”, e galã em “Becoming Jane”, mas só vai virar astro de verdade após “Procurado”, que estréia em junho). Por não entender o que vê, a menina acusa o rapaz por um crime que não cometeu. Corta pra Segunda Guerra, onde a garota virou uma enfermeira cheia de culpa, o James é um soldado numa França arrasada, e a Keira é outra enfermeira, sonhando em reencontrar seu amado (ah, o amor jovem!, que não envelhece nem enfraquece com a rotina...). Ou seja, a protagonista é a menina (vivida por três atrizes), não os pombinhos, e isso faz com que soe estranho que a Keira e o James tenham sido nomeados pro Globo de Ouro. Não é por nada não, mas a Keira aparece quanto, meia hora do filme? E a personagem da guria é muito mais interessante. Na infância ela tem o ego do tamanho de uma roda gigante, e é mais que um projeto de escritora. Ela teima em construir os roteiros em sua volta. Na juventude ela se odeia, e só na velhice pode se reconciliar com o casal e com si mesma. Não é só a vida dos dois que que ela mutila, é a dela também. Mas há um detalhe indicando que ela não se torna tão sábia e humilde. “Atonement”, o título em inglês, não significa apenas reparação – tem um sentido mais religioso de penitência mesmo. Trata-se da reconciliação entre Deus e humanos. Quem é Deus nesse cenário, se não a escritora com poder de alterar destinos? E quem são os meros mortais? No fundo, tudo é ficção. Narrar uma história é inventá-la. Ah, e tem outra coisa: quanto tempo demora pra se perdoar alguém, ou a si próprio? Se uma criança comete um erro terrível, ela não deve ser perdoada?
Só posso recomendar um filme que suscita tantas discussões filosóficas. Mas o mais incrível é como um ótimo livro foi bem transposto pro cinema (tem os mesmos defeitos também. Por exemplo, na primeira parte, a passividade da personagem da Keira diante das acusações, e o excesso de coincidências, de tudo acontecer no mesmo dia, tudo na frente da menina). Uma adaptação mais preguiçosa seria muito mais literária, com direito à narração em off. Mas não, “Desejo” é mais ambicioso. O que há de mais literário é a linda trilha sonora, com batidas de máquina de escrever. Christopher Hampton já havia feito um roteiro brilhante, o de “Ligações Perigosas”. Este pra “Desejo” é mais complicado, porque o livro vai e volta no tempo, com vários pontos de vista. Acho que o roteirista e o diretor Joe Wright, de “Orgulho e Preconceito”, resolvem bem os problemas. Só a longa tomada sem cortes na praia já deve render uma indicação ao Oscar, porque tem cinco minutos ininterruptos, super bem coreografados, que aparentam levar o dobro do tempo. É que tanta coisa acontece nesse período: não basta mostrar o horrível esqueleto de uma roda-gigante e passar por centenas de extras. Cada extra tem que estar se mexendo, ora cantando, falando sozinho, vomitando, brigando. Fiquei pensando na série de TV “Extras” e também em “Um Convidado Bem Trapalhão”. É só um figurante cometer um errinho que eles têm que filmar essa sequência inteira de novo! E matar mais cavalinhos. Aliás, por que atirar nos cavalos? (é por que os soldados vão sair da praia, e não querem deixar os cavalos pros alemães? É pra comer os cavalos? É por não poder alimentá-los? Não fica claro). É uma cena marcante, não dá pra negar. Ao mesmo tempo, é o maior caso de exibição cinematográfica dos últimos tempos. É o diretor dizendo: “Vejam como eu sou bom e sei movimentar uma câmera!”.
As comparações com “O Paciente Inglês” são incômodas e injustas. “Paciente” é baseado numa obra literária, começa nos anos 30, continua na Segunda Guerra, e tem uma enfermeira entre seus principais personagens. Quer dizer, pensando bem, é bastante parecido, mas “Paciente” nem era tão ruim assim, era? Minha impressão é que ficamos revoltados quando varreu os Oscars. Esse sucesso dificilmente vai se repetir com “Desejo”, que é bem mais íntimo, bem menos épico – apesar dos heróicos cinco minutos na praia – que “Paciente”. E muito superior. Faz pensar na prepotência e no poder de todas as narrações.

P.S.: A cena da acusação me fez lembrar de “Uma Passagem para a Índia”, da mulher assustada com a descoberta da sua sexualidade. E da culpa que sente. A estrutura é similar. Moça vê algo que não deve na floresta, e culpa algum inocente, um subalterno, que vai pagar caro pelo erro alheio.
P.S.2: Durante a sessão, tentei buscar maneiras de absolver a menina. Fiquei pensando: se ela não tivesse errado, o James não teria ido pra guerra de qualquer jeito?

P.S.3: Li o artigo de uma figurinista explicando como levou meses pra desenvolver o maiô branco da Keira no início do filme. Tinha que ser dos anos 30, mas devia ter relevância com os dias de hoje. E todo mundo só fala no vestido verde que a Keira usa. Tá vendo o que é o star system?

sábado, 19 de janeiro de 2008

CRÍTICA: SICKO SOS SAÚDE / Um sistema doente

Aqui em Detroit não há muitos cinemas. Os famosos multiplexes ficam mais nos shoppings dos subúrbios, e impressiona como a programação deles é uniforme: só o circuitão comercial! Assim, fomos ver “Sicko” num cinema que não é bem um cinema. É mais um bar, com ingressos a 2 dólares. O pessoal bebe, assiste ao filme, e não conversa com o amigo ou atende celular. A única desvantagem é que todo mundo fuma, argh! De qualquer modo, é incrível o timing do documentário na nossa vida pessoal. Sabe qual foi nossa maior dor de cabeça ao chegar nos EUA? Contratar um plano de saúde, um pré-requisito do governo americano pra estudante estrangeiro poder permanecer no país. A universidade queria nos cobrar os olhos da cara por um plano. Após muita pesquisa, encontrei outro um pouco menos caro. Mas sei muito bem que, se tiver que contar com assistência, vou sofrer pra tê-la.


Este documentário do grande Michael Moore (dos excelentes “Roger e Eu”, “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11 de Setembro”) conta que cinquenta milhões de americanos não têm plano de saúde. Isso é o quê, um em cada seis? E os que têm não estão em situação muito melhor, pois dependem exclusivamente de empresas privadas, que visam o lucro em primeiro lugar.

O filme narra inúmeros casos escabrosos. Uma mulher que trabalha num hospital e tem plano de saúde pra toda a família não consegue tratamento pro seu marido com câncer. Outra que também tem cobertura através da empresa em que trabalha vê sua filha morrer, porque a companhia arranja uma desculpa pra não arcar com o prejuízo. Um casal com plano de saúde, que até tinha uma boa vida, precisa viver de favor na casa dos filhos após ir à falência ao pagar os impostos do plano. Um cara perde dois dedos e precisa escolher qual dos dois quer costurar de volta: o do meio, que vai sair por 60 mil dólares, ou o anular, por módicos 12 mil. E por aí vai. Mas o mais chocante, e também o que ganhou maior publicidade, é o dos heróis das Torres Gêmeas. Como esses bombeiros não têm direito à tratamento, Michael leva alguns pra Guantanamo, onde os militares americanos afirmam que as instalações hospitalares são de primeira. A hora em que ele põe a bandeirinha americana no barco é de fina ironia. Já que Guantanamo não os aceita, Michael os leva pra Cuba. Lá eles são super bem atendidos, e de graça (o documentário se perde um pouco em seguida e foge do tema ao mostrar bombeiros cubanos homenageando os americanos. Mas aí já estamos no fim. O pedacinho que eu não gosto vem antes: expatriados ianques falando sobre suas vidas em Paris).

Há também vários momentos preciosos, e o humor típico do Michael, como na hora em que ele mostra uma americana cruzando a fronteira pro Canadá pra tentar atendimento lá, e justifica: “Somos americanos. Quando a gente precisa pegar alguma coisa num outro país, a gente invade”. É difícil de acreditar, mas existe realmente americano se casando com canadense só pra conseguir assistência médica. Tem até um site pra isso, hook a canook. Mas talvez meu momento preferido seja quando o Michael tá na França, correndo atrás de algum vestígio que indique que as pessoas precisam, sim, pagar algo num hospital público, e ele encontra um caixa. Ahá! Pra quê serve um caixa, se é tudo grátis? É que o governo francês dá dinheiro pro paciente gastar com transporte na volta pra casa...

O documentário é um tratado defendendo os ideais da esquerda, e tem mais é que ser provocativo. À certa altura Michael inclui imagens de uma Inglaterra em frangalhos, após a Segunda Guerra, e a decisão de reconstruir o país com assistência médica gratuita para todos. Um ex-membro do Parlamento fala de democracia, e diz que, se um país pode pagar seus cidadãos para matar pessoas em guerras, pode perfeitamente bem pagar saúde e educação. É uma questão de priorizar as necessidades. E não resta dúvida que a prioridade do Bush é o “combate ao terrorismo” (bota aspas nisso).

Claro que o Brasil não é nenhum modelo de sistema de saúde gratuito, mas não é essa a discussão. Os EUA são o país mais rico do mundo, um verdadeiro império. O Brasil é um país pobre. E, ainda assim, eu e o maridão, que não pagamos plano de saúde privado, temos acesso a um SUS bem razoável quando precisamos (se não morássemos em Joinville seria diferente, eu sei). Eu já imaginava, mas depois de ver “Sicko”, tenho certeza: se eu ficar doente, prefiro o SUS de Joinville ao plano de saúde que comprei aqui.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

CRÍTICA: INVASORES / Meu ex-marido vomitou em mim

Ok, sei que o título acima é asqueroso, mas entenda: o filme também é. “Os Invasores” é a quarta e pior versão do livro “Invasores de Corpos”. A primeira é dos anos 50, em preto e branco, e hoje parece bem datada (alguns interpretam como uma parábola anti-comunista; outros como sinal do macartismo). A terceira foi um produto dos anos 90 que não deixou rastros, apesar do hype da época. E a segunda é disparada a melhor. Essa de 78 é uma ficção científica muito massa. Lembro do Donald Sutherland com seu grito silencioso (dez anos antes do Al Pacino em “Poderoso Chefão 3”), e do cachorro com a cara do seu dono, literalmente. Mas esta quarta investida é risível. Sério. Ri em voz alta em vários momentos, e eu não era a única.

Algum tipo de vida extraterrestre invade a Terra e começa a substituir os humanos por seres mais passivos. O contágio se dá através de saliva, e em filme de terror isso significa não beijiinhos, e sim vômito. Como a Nicole Kidman faz uma psiquiatra, vai chegar uma hora em que uma senhora tá tendo um chilique no meio da rua, e a Nicole passa e diz: “Essa mulher foi minha paciente”. Quer dizer, a gente podia viver sem ouvir uma frase dessas sendo proferida por uma vencedora do Oscar. A pobre Nicole sofre no seu labuto, escutando seus pacientes reclamarem que “Meu filho não é meu filho”, ou “Meu marido tá agindo de forma estranha. Outro dia estrangulou nosso cachorro...”. A super psiquiatra diz: “Fique calma, vou te prescrever um remédio mais forte”, no que a gente espera que a paciente retruque: “Pra mim?! Dá remédio pro meu marido! Pro meu cachorro!”. A situação vai piorando, até que um grupinho vai visitar um diplomata russo muito doente. Eu disse doente? O cara tá coberto dos pés à cabeça por uma gosma verde, e todo mundo o trata como se ele tivesse uma febrinha!
Eu costumo gostar muito desses filmes de fim do mundo e epidemias mortais.E amo a idéia de não poder dormir, ou a gente vai acordar outra pessoa. A versão de 78 aborda esse temor brilhantemente, assim como parte da série “A Hora do Pesadelo”, em que o Freddy Krueger mata suas vítimas nos sonhos. Mas esta gosma, pelo amor de Deus, deve ser uma das piores atuações da Nicole. O que ela fez, pôs Botox nos lábios? Eu só ficava pensando no grande Tony Curtis em “Quanto Mais Quente Melhor”, fazendo cara de pato pra parecer uma mulher. E nos raros instantes em que eu não pensava nos lábios inchados da Nicole, pensava no seu cabelo. Tem alguma cena em que ela repete o penteado? É impressionante: o mundo tá acabando e a moça ora surge com cabelo enrolado mais curto, ora cacheado mais comprido, ora liso... Só depois li que o estúdio não aprovou a versão do diretor de “A Queda” e chamou um outro pra refilmar algumas cenas. Isso explica o penteado flutuante da Nicole. Mas nada explica o ridículo de certos diálogos e situações. Por exemplo, a Nicole dá instruções pra que seu pimpolho lhe aplique uma injeção no peito se ela dormir. Pensei que ela iria dizer, “Lembra de ‘Pulp Fiction’? Faz igual”. É patética a sequência em que a Nicole e o Daniel Craig (o último James Bond, aqui sem ter o que fazer) estão num jantar, e a Nicole diz qualquer baboseira e todos ficam falando como ela é brilhante, e de repente comentam como é perceptível que o casal se olhe e se goste tanto. Hã? Eu nem tinha notado que eles estavam na mesma mesa.
“Invasores” tenta levantar dúvidas razoáveis, como se viver num mundo com pessoas sedadas seria mais agradável que viver num mundo onde os humanos são humanos (ou seja, matam, estupram, fazem guerras). Ahn, só queria lembrar que nem todos os humanos agem assim. Só a parcela masculina. De qualquer jeito, se a gente pudesse castrar, digamos assim, os homens de seus instintos violentos, valeria a pena? Depende. Isso iria querer dizer que todo mundo passaria a agir como um Stallone, sabe, alguém sem nenhuma expressão? Não sei. Um mundo sem psicólogos até vai, mas um sem cachorros?!

P.S.: Acho que preciso repetir – pobre Nicole. Ela tá se especializando em remakes medíocres, tipo “A Feiticeira”, “Mulheres Perfeitas” (com temática parecida: virar uma esposa de Stepford é também ser substituída por alguém sem expressão, que não vai reclamar nunca), agora este. O que virá a seguir, “Lassie”?