sexta-feira, 8 de julho de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO: PERSEGUIÇÃO FUNDAMENTALISTA A PROFESSORXS

O famigerado projeto Escola Sem Partido ainda nem foi aprovado (e, se depender da maioria dos professores de todo o país, jamais será), mas conservadores já estão colocando suas manguinhas de fora.
Uma discussão proibida em escolas
que proíbem estudantes de pensar
Como todo mundo sabe, reaças elegeram como seu inimigo número 1 a "ideologia de gênero" (entre muitas aspas, pois é tanto uma ideologia quanto qualquer outro pensamento; por exemplo, achar que homens e mulheres têm papéis diferentes na sociedade também é uma ideologia). Não sabem nada sobre gênero, espalham mentiras, juram que aulas fariam meninos virarem meninas (ou que alguém quer que isso aconteça). Ou sejam, são trogloditas completos, mas as Câmaras de vereadores e nosso Congresso estão repletos dos mais ignorantes desses fundamentalistas cristãos.
Junte-se a isso a crença reaça de que professorxs são todos comunistas loucos pra doutrinar os filhos alheios. Ora a gente quer transformar menino em menina, hétero em homo, ou fazer com que todas as criancinhas sejam marxistas. Qualquer pessoa que já entrou numa sala de professores (tanto na educação fundamental quanto na superior) sabe que a realidade é bem diferente. Grande parte dos professores é conservadora. Se não fossem, nossas escolas provavelmente seriam melhores.
Porém, acredito que mesmo os professores conservadores sejam contra esta verdadeira Lei da Mordaça que é o Escola Sem Partido. O projeto quer proibir que as pessoas se expressem em sala de aula. O alvo é exatamente qualquer professor que pronuncie a palavra "gênero" na escola. 
O mais chocante é que os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) sugerem há duas décadas que discussões sobre gênero e tolerância sexual façam parte da rotina escolar. Reaças acham que é algo recente!
Vejam este caso que aconteceu agora numa escola em Brasília: uma deputada cristã se incomodou porque um professor pediu para sua turma do segundo ano do ensino médio um trabalho sobre homofobia. Pois é, discutir homofobia é doutrinar adolescentes! Como se a homofobia não existisse, ou como se não fosse dever de todo o país combatê-la! Tem quem combata homofobia (e machismo, e racismo), e tem quem combata quem combate homofobia. De que lado você está?
Pedi para Roselene Cândida, arquivista, mestranda em Ciências da Informação pela UnB, servidora pública e moradora em Ceilândia, DF, para que escrevesse sobre este caso escabroso.  

Clique para ampliar
Segunda-feira, dia 4 de julho. A cidade-satélite de Ceilândia, região da periferia que possui o maior número de eleitores do Distrito Federal, porém esquecida pelos políticos locais, foi bombardeada com uma notícia que atenta a democracia, a dignidade humana e a liberdade de expressão. 
A Deputada Distrital e Pastora Evangélica Sandra Faraj mandou o Ofício nº 008/2016-GAB18, encaminhado no dia 21 de junho de 2016, ao colégio Centro de Ensino Educacional nº 06 de Ceilândia, endereçado ao diretor da instituição. 
O ofício afirmava que a deputada ouviu de um responsável legal que era para fazer um trabalho de Biologia, em grupo, a respeito dos temas relacionados: homofobia, integração de gêneros, pansexualidade, relações poliamorosas e transexualidade. De acordo com o conteúdo do ofício, a deputada afirma que a Câmara Legislativa suprimiu as expressões “identidade de gênero” e “orientação sexual” da proposta encaminhada pelo Poder Executivo. Ou seja, o professor não poderia fazer o trabalho dentro de sala de aula.
Falar de política em igrejas tudo bem,
mas em escolas? De jeito nenhum!
A deputada é conhecida pelo seu posicionamento conservador e pelo projeto de lei 01/2015, conhecido como Escola sem Partido, em trâmite na Câmara Legislativa. Trata-se de um modismo conservador, criado pelo advogado paulista Miguel Nagib, inconformado com o professor da escola da filha ter comparado São Francisco de Assis com Che Guevara. 
Segundo Faraj, no mesmo ofício, a escola está intimada a entregar a resposta à Câmara Legislativa, no prazo de 30 dias, sob pena de Crime de Responsabilidade.
Tuíte do idealizador da Escola Sem Part
A situação causou perplexidade e revolta em todo o Distrito Federal, tendo em vista que se trata de uma forma perversa de censura a uma escola da periferia, que estava de acordo com os parâmetros curriculares vigentes. O Mídia Ninja vazou o conteúdo do ofício, que foi automaticamente disseminado por vários perfis do twitter. 
As pessoas ficaram bastante perplexas com o abuso de autoridade e a sanha de censura da deputada Faraj, cuja cruzada cristã assemelha-se em doutrinar suas ovelhas ao que ela apenas acredita que tenha que ser melhor para ela, mas não para o Estado Democrático de Direito e para a Constituição de 1988.
Slogan do site Escola Sem Partido
As autoridades locais não tardaram a agir diante desta insanidade. A Secretaria de Educação do Distrito Federal afirma que o Plano Distrital de Educação, sob a Lei 5.499/2015, contempla a discussão em sala de aula e o respeito às diversidades ética, cultural, sexual e de gênero. Ou seja, a afirmação da deputada de que houve a supressão de tais termos não condiz com a verdade. Ela não deveria questionar um item de algo que está em pleno vigor legal, segundo a Secretaria.
O Sindicato dos Professores do DF (Sinpro), uma das categorias profissionais mais fortes do DF, foi mais incisivo sobre as atitudes da deputada. A diretora Rosilene Correia afirma que o projeto de lei apresentado pela deputada é uma Lei da Mordaça e que o plano curricular está em pleno vigor.
Como reaças veem a educação
O Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF) afirma que foi aprovado em plenário uma moção de apoio à escola, que fez um trabalho afirmativo sobre a diversidade, para construir um trabalho de cultura à tolerância e paz. O CDCA/DF aprovou uma nota de apoio ao professor e vai pedir à Promotoria de Defesa aos Direitos da Infância e Juventude do DF para analisar a postura da parlamentar Sandra Faraj. 
A Deputada Federal Érika Kokay entrou com uma representação contra a deputada na Câmara Legislativa por quebra de decoro parlamentar. Segundo Kokay, a deputada não deveria ter mandado um documento de competência exclusiva da Mesa Diretora a uma escola. Além disso, a deputada teria ferido a dignidade humana e a liberdade de expressão.
O que podemos dizer do triste episódio de uma parlamentar, partidária da “Escola Sem Partido”, que tentou atingir, de forma leviana, uma escola da periferia? Que, apesar dos tempos sombrios do golpe, o sopro da democracia existe. E que todo trabalho pedagógico merece respeito, porque há supervisão da direção da escola, dos orientadores e dos professores da área. 
A cultura da tolerância e da paz merece ser cultivada em cada espaço escolar. Se cada parlamentar realmente estivesse preocupado com a realidade da periferia, não teríamos a desigualdade social como uma das maiores marcas que o Brasil sustenta. Porém, esta não é a preocupação da nobre parlamentar. A preocupação dos conservadores é mesmo brecar a diversidade, a tolerância, a democracia.
Laerte, sempre genial: contra camisas de força

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"CRECHES NÃO ESTÃO RECEBENDO MAIS CRIANÇAS"

Carolina Unzelte é repórter da J. Press, agência do Jornalismo Júnior da ECA-USP. Ela fez esta excelente reportagem como parte de um especial sobre a greve que está ocorrendo na universidade. 
Ela escreveu esta reportagem sobre estudantes da USP que são mães. Como a pauta para que as universidades tenham creches é de todas as feministas, pedi licença a Carol para reproduzir o texto aqui. 

“Eu deveria acordar às seis pra sair às sete e chegar aqui sempre no horário. Levo ela pra creche, vou pra faculdade e tenho aula das oito ao meio-dia. Na hora do almoço, tenho iniciação científica. À tarde, mais aula; pego ela e chego às seis em casa. Limpo a casa, lavo a roupa, faço comida, dou comida, dou banho, ponho pra dormir, arrumo a malinha dela, estudo e faço os trabalhos da escola.” Essa é como, idealmente, deveria ser a rotina de Ivy Tasso, estudante do último ano de Medicina Veterinária e mãe de Alice, de cinco anos. Como se pode imaginar, nem tudo se cumpre: “Nunca dou conta certinho. A gente faz algumas coisas, deixa de fazer outras”, ela diz.
Dados recentes da Universidade de São Paulo indicam que cerca de 48% de seu corpo discente — incluindo graduação, mestrado e doutorado — seja composto de mulheres. Números parecidos se mostram entre os ingressantes: dentre as 11 mil matrículas feitas neste ano na USP, mulheres somam quase a metade. Por outro lado, não há contagem igual do número de mães uspianas, nem mesmo nos questionários da Fuvest, a partir dos quais se calculam outros dados socioeconômicos. Mas não é impossível que, nos quatro anos — ou mais — que dura grande parte dos cursos, uma grande quantidade das 36 mil uspianas engravide e acumule, além dos papéis de mulher e estudante, o da maternidade. “Todas nós, de certa forma, estamos sujeitas a ter um filho na graduação”, aponta Ivy.
Segundo ela, sem as creches, sua continuidade no curso seria difícil, uma vez que levar Alice às aulas é inviável. “Como eu ia levar ela pra laboratório, pra hospital? Vou levar ela no meio de uma cirurgia? Não tem como.” Além disso, a experiência de estar numa sala de aula durante oito horas seria complicada para ambas. “[Se] pra mim, já é insalubre, pra ela seria impensável”, afirma.
“Não tenho do que reclamar”
A Creche Central, à qual a estudante se refere, encontra-se na Cidade Universitária. Assim como a Creche e Pré-Escola Saúde, a Creche e Pré-Escola São Carlos, a Creche da Carochinha (em Ribeirão Preto) e a Creche Oeste, também no Butantã, ela é administrada pela Divisão de Creches da Superintendência de Assistência Social (SAS), órgão responsável pelos serviços de apoio à permanência estudantil na universidade. As cinco creches atendem a filhos de funcionários, de estudantes e de docentes, sendo inclusive centros de referência em educação infantil. “A gente vê a diferença de uma criança que é formada nessa creche e em outra. Até a questão de argumentação, de escolhas, de ter noção de coletividade”, Ivy conta. “As vivências que ela [Alice] tem lá dentro, as atividades lúdicas e de experimentação, a nutrição balanceada, não tenho do que reclamar.”
A visão de Ivy é compartilhada por Thaïs Chauvel, mestranda na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e mãe de Lorena, de três anos e meio. Desde que tinha um ano e três meses, sua filha está na creche. “Tenho muita confiança no trabalho deles”, Thaïs conta. A gravidez no segundo ano da graduação em Letras, “apesar de não ter sido planejada, foi desejada”, diz ela, que em momento algum parou de estudar. “Ela nasceu em janeiro e não tranquei a faculdade. Descobri que estava grávida em maio e fiz o segundo semestre normal. Quando as aulas voltaram, voltei junto.”
Naquela época, para prosseguir com o curso, a solução de Thaïs havia sido a ajuda recebida pelo pai de Lorena. “Era o tempo de uma aula, umas três horas longe dela. Ele sempre trabalhou e alterou o horário dele de entrada pra ajudar. Eu tinha que correr mesmo.” De qualquer modo, não era fácil conciliar maternidade e vida acadêmica. “Eu não dormia à noite para fazer trabalhos”, ela diz. “É impossível escrever e estudar com uma criança no seu colo.”
“Quando conto para professores de outros países sobre a creche, eles ficam impressionados. Inclusive mostrei a creche para um deles”, ela afirma. Sua rotina foi muito aliviada com a vaga da filha. Com esse apoio, a estudante chegou até mesmo a atuar como professora do Centro de Línguas da FFLCH — uma maneira de aumentar, também, seu orçamento. “Eu gostava muito de dar aulas”, conta. “Ficava totalmente focada no que estava fazendo, sem me preocupar tanto com a Lorena, como acontecia quando estava estudando.” Agora, apesar de ter ficado na lista de espera para bolsa no mestrado, com a renda vinda de aulas particulares, a creche continua sendo fundamental para que Thaïs persista na vida acadêmica.
As creches recebem crianças de quatro meses aos seis anos de idade, também sendo um campo de pesquisa e de formação de estudantes da área de educação. Fazendo parte da Política de Permanência e Formação Estudantil — que, segundo Anuário Estatístico de 2015, recebeu cerca de 4,4% do Orçamento Geral da Universidade —, esses centros de educação infantil existem há mais de trinta anos e receberam verba de aproximadamente 8 milhões de reais em 2014.
A entrada de crianças na cheche é feita após uma seleção de cunho socioeconômico e seguindo uma distribuição pré-determinada: 40% das vagas são para filhos de funcionários, a mesma porcentagem destina-se aos filhos de estudantes e, geralmente, os 20% restantes são de filhos de professores. Estima-se que, atualmente, cerca de 600 crianças sejam atendidas. Desde 2015, no entanto, novas vagas não têm sido abertas. A situação também se agravou quando foi feito o anúncio do fim das inscrições de atendimento: àquela altura — era fim de janeiro —, já não era mais possível procurar as creches das redes municipal e estadual para o ano letivo.
“Não estavam recebendo mais crianças”
“Foi uma injustiça muito grande justo na nossa vez isso ser podado, da forma como foi feito”, conta Gabriela Pereira, estudante de Ciências Sociais e mãe dos gêmeos Tauã e Aruã. “As crianças foram selecionadas e ninguém entrou. Foi um telefonema do reitor para a SAS: pronto, não vai mais entrar criança.”
Atualmente, calcula-se que existam pelo menos 117 vagas ociosas entre as creches. A justificativa para a suspensão foi o Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV), que visaria a conter a crise orçamentária da universidade. Por esse programa, desligaram-se 1.472 de seus funcionários. A Comissão de Mobilização das Creches da USP, que conta com pais, professores e funcionários das unidades de educação infantil, vem lutando conta a precarização e pela abertura de vagas, promovendo eventos que incluem cirandas, passeatas com as crianças, aulas abertas e atos conjuntos com trabalhadores e estudantes, além de rodas de conversa.
“Fomos pegos de surpresa. Quando ingressamos, no Manual dos Calouros constava que haveria creche para filhos dos alunos. Eu falo no plural porque tem uma amiga minha na mesma situação”, aponta Gabriela. Além do acesso às creches, as uspianas que engravidam têm direitos excepcionais assegurados pela Lei nº 6.202, de 17 de abril de 1975, que lhes garante a possibilidade de desempenhar atividades acadêmicas, a partir do oitavo mês de gestação, em suas próprias casas. As mães ainda são dispensadas das aulas por três meses após o nascimento do(s) filho(s), período que pode ser prolongado com atestado médico.
Mas a falta de vagas ainda pesa. “A demanda da faculdade é muita e acabo ficando em desvantagem em relação aos alunos que não têm filhos ou alunos que têm filhos nas creches”, Gabriela conta. “Neste semestre, estou matriculada em três disciplinas; para duas estou conseguindo fazer as coisas, na outra eu não fiz nada.” Essa condição também põe a estudante em situações desagradáveis. Em conversas com professores, ela chega a chorar. “É humilhante você ter que se colocar nessa posição por falta de uma estrutura básica que antes existia”, completa.
“Eu não estou de braços cruzados, procuro alternativas”, diz Gabriela. Desde setembro do ano passado, Aruã e Tauã estão em primeiro e em segundo lugar na fila de espera para matrícula em creches públicas comuns. “Mas a média de espera é muito longa para o tamanho deles. Não tem vaga, não é fácil”, ela afirma. De qualquer maneira, a creche da Prefeitura não é a opção ideal: com os filhos dentro da USP, sua locomoção seria mais fácil. “Ter filhos é uma coisa que pode acontecer. Eu fiquei grávida e contava com esse apoio das creches.”
Para tentar contornar o impasse e evitar faltas, Gabriela chegou a levar os gêmeos à faculdade. “As pessoas foram bem solícitas, inclusive os professores”, afirma. “No entanto, algumas amigas minhas relataram dificuldades nesse sentido.” Apesar de frequente, mesmo com ela o bom tratamento não é unânime. “Acho que rola um preconceito por parte dos estudantes quando alguém está andando com as crianças pelos corredores dos institutos”, pontua. “Noto alguns olhares enviesados.”
Pryscilla Vaz, mestranda da Escola Politécnica e mãe de Catarina, de cinco meses, tem o mesmo problema de Gabriela. “Nas primeiras vezes que fui fazer o processo seletivo, eu já estava grávida”, ela lembra. “No caminho para a Poli, vi a Creche Central. E pensei — ‘nossa, isso vai ser uma mão na roda se eu conseguir vaga’.” Mas suas expectativas foram frustradas. “Cheguei a mandar email para lá perguntando como funcionava e nem recebi resposta”, conta. “Quando estava para começar as aulas, soube que não estavam recebendo mais crianças. Fiquei muito chateada.”
Para a filha frequentar as aulas, que ocorrem duas vezes por semana, a mãe de Pryscilla, que mora em Santos, vem para São Paulo cuidar da neta. “Vou fazendo as coisas conforme eu consigo. Sou aluna de dedicação exclusiva, então não trabalho”, diz a estudante. Dessa maneira, a possibilidade de uma creche particular é pequena. “A minha bolsa saiu agora e, por aqui onde eu moro, nem tem creche municipal. Por causa do valor, não tenho condições no momento.”
“Eu poderia me dedicar muito mais para o mestrado se eu tivesse um lugar de confiança pra deixá-la, que fosse próximo e pudesse amamentar quando necessário”, diz Pryscilla. “Ela precisa de cuidados o tempo todo, atenção e estímulos, uma série de necessidades”. Apesar das dificuldades, ela não pensa em desistir. “Eu tô vendo como vai ser, sem enxergar uma nova possibilidade por enquanto. Estou indo um dia de cada vez.” Gabriela pensa o mesmo. “Preciso me formar e ter uma boa colocação no mercado de trabalho porque tenho seres que dependem de mim”, afirma. “Mas, que é difícil, é.”
“Essa é uma luta de todas as mulheres”
A desvalorização dos papéis de mãe e dona de casa, que são acumulados além da função de estudante, também são um problema. “No documentário O Começo da Vida [filme brasileiro de Estela Renner produzido este ano], uma mulher diz que todo mundo considera que a mãe não faz nada. O trabalho dela é criar e educar um cidadão do futuro, ensinando a ter ética e responsabilidade”, fala Pryscilla. “E a sociedade considera que isso é nada. E que manter a casa limpa é nada. E fazer todas essas coisas é nada.” Gabriela concorda: “A cobrança não é por ser estudante. É por ser mulher. Sempre em cima de nós, mesmo aquelas que têm companheiro. Essa é uma luta de todas as mulheres.”
Ivy Tasso conta que, se não fossem os benefícios, “não teria nem começado” a graduação. “Foi decisivo o fato de ter a creche para que eu escolhesse por aqui, assim como ter o bandejão e a esperança de ter o CRUSP”, diz ela, que também foi aprovada na UNESP, mas não conseguiu um apartamento. A moradia estudantil disponibilizada para as mães, desde o final da década de 1980, se resume a doze apartamentos adequados para se morar com crianças, no térreo do bloco A do CRUSP, na Cidade Universitária, conhecido como o “bloco das mães”. Composto por essas mulheres e apoiado pela SAS, o projeto Mãe Cruspiana é uma iniciativa que promove debates, palestras e oficinas para melhorar a qualidade de vida dos pequenos moradores. De qualquer modo, estima-se que mais de trinta crianças vivam no CRUSP em situação irregular — ou seja, em apartamentos que não são planejados para recebê-las. Enquanto isso, os blocos K e L são utilizados para atividades administrativas da reitoria.
Gabriela acredita que as creches deveriam ser encaradas de forma mais ampla. “Não é um favor que a USP está prestando. A creche funciona como um polo formador e de cultura e extensão da Faculdade de Educação (FE)”, ela diz. “Estão tratando a gente de uma forma que não era pra ser, porque aqui é uma universidade de educação renomada e, como tal, precisa também desse foco de extensão.” Em um âmbito maior, o fim das creches representa a elitização da Universidade de São Paulo, ao impossibilitar que estudantes sem condições de pagar por serviços privados conduzam sua vida acadêmica. “É uma sensação de impotência muito grande. Tudo isso é muito desestimulante”, retoma. “A intenção da universidade realmente é colocar pra fora as pessoas que, assim como eu, vêm de uma classe mais popular. Cortar a permanência é fechar a universidade para essas pessoas.”
Uma das possibilidades especuladas para explicar a não abertura de vagas nas creches da USP é a de os planos da reitoria incluírem a municipalização das escolas de educação infantil, desvinculando-as da universidade e passando-as para a administração do governo municipal. “Durante as greves, é bem complicado ficar sem as creches”, diz Ivy Tasso. “Mas a gente sabe que é por uma boa causa, porque perder uma creche modelo dessa é inestimável.” Outra especulação é  que essa medida seria um prenúncio ainda mais sombrio: o fechamento das creches em definitivo. No entanto, procurada pela reportagem, a SAS não respondeu às questões levantadas.
ATUALIZAÇÃO: no dia 03/07/2016, em resposta à reportagem, a SAS, via assessoria de imprensa da USP, não esclareceu os motivos para o não recebimento de novas crianças, mas ressaltou que garante auxílio-creche para funcionários e professores no valor de R$ 596,96 por dependente. Também afirmou não haver previsão para a abertura de vagas. Quando questionada sobre a possibilidade de fechamento/ municipalização das creches universitárias, respondeu que “não há previsão para o fechamento”.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

DUAS IMAGENS QUE DEIXAM REAÇAS NERVOSOS

Esses dias, reaças fizeram um grande auê por causa de duas imagens não relacionadas. 
A primeira é essa que você vê aí em cima: na edição 94 da "Turma da Mônica Jovem", a protagonista diz "Meu corpo, minhas regras!" Ela está falando que não quer colocar aparelho nos dentes, mas o guru da extrema direita brasileira, Olavo de Carvalho, interpretou que ela estaria defendendo o aborto, ao utilizar um grito de guerra feminista. 
Como sabe qualquer pessoa que usa a cabeça para mais coisa além de separar orelhas, o "Meu corpo, minhas regras" se refere a qualquer coisa, desde o que foge à ditadura da beleza -- não querer alisar o cabelo ou se recusar a se depilar ou a endireitar os dentes -- a decidir com quem e quando vai transar, se quer ser mãe, como quer que seja o parto... Enfim, cabe a mulher decidir o que se passa no seu corpo. Não é muito difícil de entender, sinceramente. 
Não é fake!
Mas Olavão, este grande filósofo, está acostumado a espalhar mentirasPara ele, o que vale é esmagar adversários, arruinar a reputação de pessoas de esquerda, não argumentar nem usar a lógica. Portanto, imediatamente os seguidores do gênio saíram à caça da autora que estaria contagiando as criancinhas com ideias nocivas sobre aborto. E passaram a perseguir e ameaçar a roteirista Petra Leão. Esses são os homens de bem, defensores da família e da liberdade de expressão, aqueles que lutam contra a ditadura bolivariana instalada no país. Democráticos que são, fizeram campanha para que Petra perdesse o emprego.
Fica a pergunta, óbvio: e se a tirinha realmente estivesse defendendo a legalização do aborto? Não pode? Não, parece que não. Domingo um reaça conseguiu muitos RTs no Twitter ao divulgar essa besteira aí ao lado (clique para ampliá-la).
Ou seja, se você é a favor da legalização do aborto, você não pode gostar de crianças ou pedir doações para projetos para elas. Putz, reaças, vão tomar uma Pepsi pra refrescar a mente! 
A outra imagem que tanto perturbou os reaças foi esta. De duas crianças. Como me escreveu uma leitora: 
"A doula Gabriela Prado publicou uma foto linda dos filhos brincando de parto. A menina parindo e o menino assistindo. Choveram elogios para a foto e, claro, choveram críticas, também. Gente dizendo que ela estava tirando a inocência das crianças, que estava sexualizando, que estava sei lá mais o quê . Denunciaram a foto por nudez e obscenidade. Uma foto de duas crianças vestidas, brincando, mas uma delas com uma boneca por baixo da blusa, na barriga. Vai entender..."
Eu havia visto a foto antes de receber o email da leitora, mas pensava que a imagem era de outro país. Vi reaças dizendo que a mãe deveria perder a guarda das crianças! E depois somos nós feministas que odiamos crianças!
Gabriela, a doula e mãe, deixou este recado em sua rede social: "Faz parte da educação ensinar às crianças como se nasce e desde sempre conto aos meus filhos como eles nasceram. Diferente de algumas críticas não tem nada de nudez ou obscenidade nessa foto. Meus filhos sabem muito bem que bebês nascem pela vagina, que dói, mas que faz parte da vida. E brincando eles elaboram todas essas informações do jeitinho deles. Fico feliz que nossa foto esteja por aí, mesmo que recebendo críticas. Vamos pensar sobre a educação que damos aos nossos filhos no país das cesáreas?”
Pois é, Gabriela, você tem toda a razão. Mas estamos passando por um péssimo momento no Brasil, em que projetos como o Escola Sem Partido querem censurar professorxs. Conservadores insistem que educação sexual deve ser ensinada apenas em casa. Pais reaças vão continuar contando pros filhos que viemos da cegonha, porque eca, vagina?! Não, crianças nem podem saber que isso existe! 
Tempos sinistros, estes em que uma tirinha em quadrinhos de uma moça falando que quem manda no seu corpo é ela e uma foto de duas crianças felizes brincando de parir provocam a revolta da turminha que estacionou na década de 50.

terça-feira, 5 de julho de 2016

FASCISMO INVADE A UNIVERSIDADE PÚBLICA

Diego Vieira Machado, aluno morto na UFRJ

O crescimento da candidatura de um fascista como Bolsonaro e a ilegitimidade do governo golpista estão fazendo com que muitos neonazistas deixem os porões e passem a atacar à luz do dia.
Eles veem as universidades públicas como locais não de liberdade e diversidade, mas de doutrinação marxista. Consideram alunos e professores seus inimigos, e sentem que precisam invadir esses espaços. Há vários registros de atos fascistas recentes em praticamente todas as universidades. Em abril cartazes exigindo "menos empoderamento, mais empauduramento", com uma foto minha e o logo de uma estrela sendo penetrada por um pênis, foram fixados na USP e na UFRGS. Ao seu lado, com o mesmo logo, cartazes de "Bolsonaro presidente". 
Mais ou menos na mesma época, o centro acadêmico de História da UFC foi invadido. Em maio, foram promovidos dois "rolezinhos do Bolsonaro", mas estudantes e professores da UFC não permitiram que entrassem no campus. 
A perseguição ao ator Ari Areia, que em maio apresentou parte de seu monólogo "Histórias Compartilhadas" durante um evento sobre sexualidade e gênero na UFC, faz parte deste contexto de intolerância. 
Em junho, um grupo de quinze ou trinta fascistas foi bem sucedido em invadir a UnB. Usaram uma arma de choque, atiraram bombas, e gritaram para os estudantes "Gay safado parasita! Maconheiro! Vai pra Venezuela! É Bolsonaro presidente, porra!"
Neste sábado, 2 de julho, o aluno Diego Vieira Machado, da Escola de Belas Artes da UFRJ, foi encontrado morto, com sinais de espancamento e sem calças, próximo ao alojamento universitário na Ilha do Fundão. Diego era negro, bissexual, nortista, cotista, e tinha recebido ameaças. Haverá um protesto amanhã às 18h na Alerj -- "que nosso luto vire luta". 
Reproduzo aqui o texto que a professora e pesquisadora Ivana Bentes, da Escola de Comunicação da UFRJ, publicou no seu Facebook ontem, que reflete os tempos perigosos que estamos vivendo. 

A direita organizada quer disputar as universidades públicas! Crime de ódio dentro do campus da UFRJ no Fundão, a criação de páginas na linha do movimento MBL: "UFRJ LIvre" e "USP Livre" pretendem dar voz a estudantes e professores universitários da extrema direita. Eles apagam grafites e pichações nos muros da UFRJ contra o golpe, contra Eduardo Cunha, contra os fascismos, são contra cotas, contra greves e se dizem "liberais" e utilizam o discurso da "segurança pública" para pedir mais polícia dentro do Campus e repressão a todo tipo de comportamento libertário, repressão ao uso recreativo de drogas, ao invés de debaterem a violência e as mortes diárias produzidas pela polícia na "guerra contra as drogas" em todo o Brasil.
Ao lado do campo cultural, as universidades públicas sempre foram um ambiente de autonomia e liberdade e do pensamento crítico; esse ataque retrógrado e conservador disfarçado de "liberalismo" é a chegada dos grupos da extrema direita, da direita ostentação e tem a mesma estética, moral e pensamento obscurantista da "escola sem partido" e do MBL, Movimento Brasil Livre.
Querem conquistar estudantes e professores universitários! Sujeitos históricos da resistência e do pensamento crítico no Brasil.
A morte do aluno de Belas Artes da UFRJ, Diego Vieira Machado, de 22 anos, negro, morador do Alojamento Estudantil, encontrado morto num mangue, com sinais de luta, sem roupa e documentos foi lamentada por todos, inclusive pelos "liberais" que clamam por mais polícia e segurança no Campus. Na real se trata não de um problema de segurança, mas de homofobia, racismo, ódio!
"Alunos denunciam a homofobia do crime, porque um mês atrás Diego e outros alunos cotistas, negros e gays da UFRJ, receberam email com ameaças, dizendo que a universidade não era o lugar deles. Diego era de Belém do Pará", informa a página Tem Local que mapeia os locais dos crimes de ódio contra LGBTs no Brasil.
Reforçamos o alerta do colega e professor Carlos Azambuja: "A GloboNews cobrindo o assassinato do jovem estudante no Campus cita na sua matéria a página 'UFRJ Livre', que foi criada apocrifamente por gente que provavelmente nem sequer pertence à Universidade e que defende a 'escola sem partido'". Obviamente, a emissora está empenhada em dar credibilidade a este grupo apócrifo e dar-lhe um 'status' de porta-voz autorizado da UFRJ. Vamos denunciar mais esta 'construção' desde do seu início!
Coxinhas pedem menos Paulo Freire,
mais Alexandre Frota
Os discursos de ódio, os crimes de ódio, o ódio às diferenças, o conservadorismo como base das violências e humilhações cotidianas infringidas aos outros é algo urgente a se combater em toda sociedade, mas com mais força ainda, na nossa casa, na universidade pública!
A UFRJ é um microcosmo da sociedade, precisamos reagir contra esse avanço obscurantista! 
#‎foratemer‬ ‪#‎UFRJlivredefascistas‬ ‪#‎UFRJ‬