Eu me chamo J. e sou de Recife. Gosto muito do seu blog e sempre que posso dou uma visitinha. Ainda estou em um processo de construção do meu feminismo, e os textos do seu blog tem me ajudado muito.
Estou escrevendo para falar de algo que tem me deixado com um misto de tristeza, revolta e decepção: um caso de racismo na família. E ainda mais vindo de uma criança, meu primo de oito anos.
Eu vi esse menino nascer e crescer, dei todo o meu carinho e minha atenção. Infelizmente ele se tornou uma criança mimada, cheia de vontades, que não respeita nem nossa avó. Vejo essa personalidade dele, em parte, como um reflexo da negligência da mãe, que nunca foi uma pessoa responsável e paciente a ponto de educar um filho. Quando ele vem aqui em casa a gente tenta impor respeito, ser paciente com ele. Mas é só ele voltar para casa que as coisas pioram; as tias continuam mimando, a mãe e a avó continuam acobertando as birras.
De uns tempos para cá, meu primo tem passado dos limites. Recentemente fiquei sabendo que a mãe dele andava ameaçando colocá-lo em uma escola pública, devido ao baixo rendimento nos estudos, e ele dizia que não iria de jeito nenhum pois nessas escolas "só tem menino negro". Outra vez, a mãe dele contou para mim que ele ficava irritado quando alguém dizia que "estava preto" devido ao bronzeado da praia. E ela ria, achando graça, mesmo sendo negra assim como minha avó, minha mãe e minhas outras tias. Imediatamente eu rebati e disse a ela que deveria censurar meu primo sempre que falasse essas coisas. Ela entendeu e assegurou que iria fazer isso, mas logo percebi que não adiantou de muita coisa.
Semana passada ele passou alguns dias na minha casa. No sábado eu e minha irmã fomos levá-lo de volta, e no meio do caminho para o ponto de ônibus, meu primo se distanciou de nós e saiu da calçada, indo para o meio da rua. Antes ele tinha murmurado algo como "fulano vai roubar vocês", mas no momento eu não entendi.
No fim do percurso, ao longe nos deparamos com um idoso que mora na mesma rua que a nossa. Ele é negro e tem algum tipo de deficiência na perna. Ao vê-lo se aproximar, meu primo chegou perto de mim e sussurrou "a gente vai passar perto do deficiente?" ou algo do tipo.
Aí eu não aguentei mais. Depois de passar pelo senhor e cumprimentá-lo, repreendi meu primo. Chamei a atenção dele por zombar da deficiência alheia e perguntei, com todas as letras, se havia ficado com medo de cruzar com o senhor porque ele é negro. Minha irmã se juntou a mim e contou que havia notado meu primo indo para o meio da rua por causa de um rapazinho negro que havia saído de uma das casas. Ralhamos com ele, demos destaque ao fato de que ele próprio tinha traços negros e que não podia se sentir superior a ninguém por causa da cor da pele. Ele ouviu tudo calado, ressabiado, e não disse mais nada.
Não consigo deixar essa história pra lá, Lola. Contei tudo para minha mãe, que também ficou triste e chocada. As pessoas costumam rir nessas situações, ignorar, afinal "ele(a) é só uma criança". Para mim é justamente aí que está o problema; quando uma pessoa começa a reproduzir discursos preconceituosos desde pequena, a situação só tende a piorar.
E meu primo está crescendo, logo entrará na pré-adolescência. Meu medo é que ele passe de racismo velado a atitudes mais extremas, como discriminar algum colega negro, agredir. Que ele se torne um desses machistas nojentos, homofóbicos e racistas que andam por aí; pois sei bem que, onde há um tipo de opressão, o espaço se abre para muitas outras.
E meu primo está crescendo, logo entrará na pré-adolescência. Meu medo é que ele passe de racismo velado a atitudes mais extremas, como discriminar algum colega negro, agredir. Que ele se torne um desses machistas nojentos, homofóbicos e racistas que andam por aí; pois sei bem que, onde há um tipo de opressão, o espaço se abre para muitas outras.
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E ainda vem gente me dizer que não existe racismo no Brasil, sinceramente...
Desculpe a prolixidade do texto, Lola, mas eu precisava contar isso. Demonstrações de preconceito durante a infância deveriam ser tratadas com mais seriedade, é o que penso.
















































