terça-feira, 10 de maio de 2016

GUEST POST: MEU PRIMINHO E O RACISMO NA INFÂNCIA

A J. me enviou este relato: 

Eu me chamo J. e sou de Recife. Gosto muito do seu blog e sempre que posso dou uma visitinha. Ainda estou em um processo de construção do meu feminismo, e os textos do seu blog tem me ajudado muito.
Estou escrevendo para falar de algo que tem me deixado com um misto de tristeza, revolta e decepção: um caso de racismo na família. E ainda mais vindo de uma criança, meu primo de oito anos.
Eu vi esse menino nascer e crescer, dei todo o meu carinho e minha atenção. Infelizmente ele se tornou uma criança mimada, cheia de vontades, que não respeita nem nossa avó. Vejo essa personalidade dele, em parte, como um reflexo da negligência da mãe, que nunca foi uma pessoa responsável e paciente a ponto de educar um filho. Quando ele vem aqui em casa a gente tenta impor respeito, ser paciente com ele. Mas é só ele voltar para casa que as coisas pioram; as tias continuam mimando, a mãe e a avó continuam acobertando as birras.
De uns tempos para cá, meu primo tem passado dos limites. Recentemente fiquei sabendo que a mãe dele andava ameaçando colocá-lo em uma escola pública, devido ao baixo rendimento nos estudos, e ele dizia que não iria de jeito nenhum pois nessas escolas "só tem menino negro". Outra vez, a mãe dele contou para mim que ele ficava irritado quando alguém dizia que "estava preto" devido ao bronzeado da praia. E ela ria, achando graça, mesmo sendo negra assim como minha avó, minha mãe e minhas outras tias. Imediatamente eu rebati e disse a ela que deveria censurar meu primo sempre que falasse essas coisas. Ela entendeu e assegurou que iria fazer isso, mas logo percebi que não adiantou de muita coisa.
Semana passada ele passou alguns dias na minha casa. No sábado eu e minha irmã fomos levá-lo de volta, e no meio do caminho para o ponto de ônibus, meu primo se distanciou de nós e saiu da calçada, indo para o meio da rua. Antes ele tinha murmurado algo como "fulano vai roubar vocês", mas no momento eu não entendi.
No fim do percurso, ao longe nos deparamos com um idoso que mora na mesma rua que a nossa. Ele é negro e tem algum tipo de deficiência na perna. Ao vê-lo se aproximar, meu primo chegou perto de mim e sussurrou "a gente vai passar perto do deficiente?" ou algo do tipo.
Aí eu não aguentei mais. Depois de passar pelo senhor e cumprimentá-lo, repreendi meu primo. Chamei a atenção dele por zombar da deficiência alheia e perguntei, com todas as letras, se havia ficado com medo de cruzar com o senhor porque ele é negro. Minha irmã se juntou a mim e contou que havia notado meu primo indo para o meio da rua por causa de um rapazinho negro que havia saído de uma das casas. Ralhamos com ele, demos destaque ao fato de que ele próprio tinha traços negros e que não podia se sentir superior a ninguém por causa da cor da pele. Ele ouviu tudo calado, ressabiado, e não disse mais nada.
Não consigo deixar essa história pra lá, Lola. Contei tudo para minha mãe, que também ficou triste e chocada. As pessoas costumam rir nessas situações, ignorar, afinal "ele(a) é só uma criança". Para mim é justamente aí que está o problema; quando uma pessoa começa a reproduzir discursos preconceituosos desde pequena, a situação só tende a piorar. 
E meu primo está crescendo, logo entrará na pré-adolescência. Meu medo é que ele passe de racismo velado a atitudes mais extremas, como discriminar algum colega negro, agredir. Que ele se torne um desses machistas nojentos, homofóbicos e racistas que andam por aí; pois sei bem que, onde há um tipo de opressão, o espaço se abre para muitas outras.
Aqui neste site
Fico pensando quantas crianças por aí reproduzem os mesmos preconceitos, zombam do coleguinha do "cabelo ruim", do "nariz de porrote", como se diz por aqui. Como futura educadora, me preocupo com essas questões. O fato de ser alguém da minha família, que vi crescer e por quem, apesar de todos os fatores negativos, nutro afeto, dói muito. Mas poderia ser o primo de uma amiga minha, o irmão de uma desconhecida, a filha do padeiro da esquina. 
E ainda vem gente me dizer que não existe racismo no Brasil, sinceramente...
Desculpe a prolixidade do texto, Lola, mas eu precisava contar isso. Demonstrações de preconceito durante a infância deveriam ser tratadas com mais seriedade, é o que penso.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

QUEM NÃO QUER UMA INTERNET LIVRE?

Ontem à noite fui ao belo Dragão do Mar ver o documentário Freenet (veja o trailer aqui) e, após a exibição, participar de um debate com o diretor do filme, Pedro Eckman. Foi ótimo.
O documentário é excelente e você pode organizar uma sessão onde você trabalha ou estuda, basta preencher este formulário. Ele fala de diversos temas, desde o acesso à internet à liberdade de expressão, entrevistando um monte de especialistas e descrevendo a situação nos EUA, China, Quênia, Índia, Uruguai, e aqui no Brasil, claro. 
Na África, continente gigantesco que reúne um bilhão de pessoas em 54 países, apenas 16% da população tem acesso à internet. No Brasil é metade da população, o que ainda exclui uma enormidade de gente (cem milhões de brasileiros!). 
O filme mostra dois bairros vizinhos em São Paulo, Morumbi, um bairro nobre, caro, e Paraisópolis, uma comunidade. Do lado de lá todo mundo tem internet, mas do outro, o acesso é precário e caro. 
Freenet fala bastante também de Caramuri, uma cidadezinha a nove horas de Manaus. 
Lá finalmente chegou energia elétrica, mas sinal de internet, quando tem, é só em torno da pequena igreja local. As operadoras internacionais não têm a menor intenção de investir nessa comunidade. Felizmente, empresas minúsculas, nacionais, decidem instalar uma torre de 84 metros que atingirá três cidades ribeirinhas. E, agora com acesso à internet, a comunidade de Caramuri pode fazer campanhas para exigir estrada asfaltada e escola. 
Freenet vai até Detroit, cidade que conheço bem, pois vivi um ano lá, entre 2007 e 2008, durante meu doutorado-sanduíche. Lá acontece um verdadeiro monopólio da operadora Comcast. No país mais capitalista do planeta, na terra das oportunidades e do livre mercado, da nação que crê que o mercado se regulamenta sozinho, há monopólio de internet. Não sei quantas horas perdi ligando pro atendimento da Comcast pra reclamar que minha internet não funcionava. E não havia opção: era a Comcast ou a Comcast. 
Isso foi oito anos atrás, mas desconfio que a situação tenha piorado. Eu lembro quando surgiu a internet na minha vida, há quase duas décadas. Desde aquela época eu ouvia que em breve a internet seria rápida e barata, praticamente de graça. O que aconteceu com essas promessas? Hoje estamos à beira de um grande retrocesso com a ameaça do limite à internet. 
Freenet usa como exemplo de democratização da internet o Uruguai. A experiência do Uruguai é fascinante (e nem tudo isso está no filme; muito foi contado por Eckman durante o debate). No nosso país vizinho, nos anos 1990, como aqui e na Argentina, tudo foi privatizado. Mas houve um plebiscito com a população, que optou pela reestatização dos serviços básicos. 
Por isso, a internet é vista como dever do Estado. As operadoras privadas podem explorar a banda móvel, mas a internet fixa é responsabilidade do governo. Desta forma, o governo colocou internet grátis nas escolas públicas e praças, e deu computadores portáteis para os alunos. 
E lógico que internet deve ser vista como um serviço tão básico quanto água, luz e saneamento. É essencial em nossas vidas. "Se todos os direitos são universais, a internet, que é um instrumento para o exercício de muitos direitos, também deve ser de acesso universal", diz um especialista. O documentário dá vários exemplos: para se inscrever no Enem, segundo maior concurso do mundo, tem que ser online; para alunos verem notas; para conseguir uma moradia ou um emprego, são exigidos contatos online. 
Glenn Greenwald, o jornalista americano mais atuante durante todo o processo de impeachment, diz com muita sabedoria: "Existe uma grande promessa da internet de ser uma ferramenta sem precedentes para a liberalização, democratização e liberdade, e que ainda pode ser assim, se a internet for livre. Mas também existe a possibilidade da internet se tornar a pior e mais extrema forma de repressão e controle já vista na história da humanidade se nos tornarmos uma sociedade vigiada. Esta é a encruzilhada em que estamos". 
No final, o documentário tem a engenhosa ideia de tentar filmar conversas privadas de amigos num bar e registrar o que gente na rua faz nos seus smartphones. Invasão de privacidade? Sem dúvida, mas é exatamente isso que as corporações fazem com as informações que trocamos na internet. E a maior parte das pessoas ou não sabe, ou não se importa.
Como diz uma outra especialista, "A privacidade, como a liberdade, como a vida, é um direito, não uma mercadoria. E ninguém pode negociar com os direitos humanos". Como sabemos, a democracia não serve à população em geral, e sim às empresas. Portanto, não podemos dar a essas empresas o controle sobre a nossa liberdade.
Por essas e outras reflexões sobre uma ferramenta que usamos diariamente e que é tão fundamental, sugiro que você veja o documentário.
Em tempo: hoje, às 14:30, haverá uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Ceará, solicitada pelo deputado Renato Roseno (PSOL), com a presença de Eckman, representando o Intervozes, e de Flávia Lefevre, integrante da Proteste. 

sábado, 7 de maio de 2016

POR REGRAS DEFINIDAS NO MASTERCHEF

Anteontem uma leitora anônima deixou um comentário perguntando se eu acompanhava o MasterChef e se eu tinha visto "o racismo da galera contra a Gleice só porque a Gabi foi eliminada e ela não".
Eu respondi que sim, acompanho e adoro MasterChef, o único programa que vejo na TV. Mas que não tinha visto o "racismo da galera", até porque o programa é na terça e eu passei quarta inteira em Brasília, sem chegar perto da internet. Procurei as manifestações racistas ontem, mas não encontrei muita coisa (devem estar nos tuítes e páginas do FB, que não aparecem nos sites de busca). Só fiquei sabendo que a eliminação foi polêmica. 
O que aconteceu foi o seguinte: no que foi uma das provas mais difíceis de todas as três edições do programa (e eu nunca entendo por que os competidores ficam tão receosos quando têm que fazer doces; pra mim, cozinhar um bolo é bem menos complicado que um prato sofisticado salgado), os participantes foram forçados a preparar macarons. Aquele doce que não deve chegar perto de um alfajor e que eu eu me arrependo muito de não ter experimentado quando estive em Paris, cinco anos atrás, mas era caro e eu sou pão dura, digo, economicamente responsável. 
A maior parte dos participantes se saiu muito, muito mal na prova. As cores não estavam bonitas (corante demais), a massa não ficou lisinha. E isso que a gente não tem nem ideia do sabor. Mas sem dúvida as duas que se deram pior foram Gleice e Gabriella.
Gleice é uma jovem de 20 anos, pobre, negra, humilde. Ela comoveu quem tem coração logo na estreia desta edição do MasterChef, quando ficamos sabendo que seu irmão foi assassinado uma semana antes da sua audição. Ela é querida e simpática, e lógico que minha torcida é por ela e por Lee, mas eles são bem fracos, se comparados a alguns outros participantes. 
Gleice é inexperiente. Tem muita coisa que ela não sabe, ainda mais quando falamos na arte elitista da gastronomia. Suas chances de vencer o programa são minúsculas, talvez inexistentes. Porém, quanto mais tempo ficar, melhor pra ela e pra quem é a favor da diversidade.
Gabriella é também jovem, 28 anos, se não me engano, branca, loira, classe média, engenheira química. No começo do programa eu pensei que ela seria uma das favoritas, pois ela tinha boa técnica. No entanto, nos últimos dois episódios, decepcionou. E o MasterChef não é como um Aprendiz da vida, que leva em consideração a proeza do participante em todos os episódios. Nas provas culinárias, se alguém se sai mal, por melhor que seja, sai do programa.
Os macarons de Gleice
Foi uma decisão difícil pros jurados nesta terça. A regra era que cada participante tinha uma hora e meia (só uma hora e meia!) pra apresentar três macarons diferentes em cores e sabores. Gabi apresentou três iguais, aparentemente não muito ruins. Gleice apresentou três diferentes, mas todos com um aspecto horrível, de chiclete, e intragáveis, segundo um dos jurados.
Os jurados decidiram seguir a regra e eliminaram Gabi, o que deixou um monte de gente zangada, acusando o programa de favorecer Gleice por "pena". Acho esse tipo de crítica uma besteira. Mas também acho que as regras precisam ser melhor definidas. Afinal, na prova anterior Leonardo, o bonitão do programa, havia apresentado um bolo de apenas duas camadas, quando foram pedidas três. E ele não foi excluído. 
Se um participante não cumpre as exigências mínimas da prova, ele deve ser eliminado? Na minha opinião, sim. Mas e se mais de um não conseguir cumprir as exigências -- todos devem ser eliminados? Ou deve ser dado algum tipo de punição/ desvantagem e eliminar apenas o que não cumpriu as regras e entregou o pior prato? Nada disso está claro.
Que eu lembre, até agora, em nenhuma das edições, ninguém deixou de entregar um prato. Se um participante não fosse capaz de terminar a prova a tempo, ele deveria ser eliminado, certo? E então, vale mais a pena entregar qualquer coisa (como fez Gleice, e também Gabi, nesta última prova) ou não entregar nada?
Guilherme, Lee, Paola
Não acho que o programa foi injusto, só acho que as regras devem ser transparentes -- tanto pros participantes quanto pra gente. Gosto muito da Gleice, gostava muito da Gabi. Aliás, acho que não tem ninguém lá que eu não goste. Até o Guilherme, arrogante e intratável no começo, deu uma melhorada (se bem que isso de querer pegar todo o açúcar numa prova de doce pra deixar os adversários sem um ingrediente chave não é nem um pouco ético e não deveria ser permitido). Talvez quem eu menos goste mesmo seja o Fogaça, um dos jurados, grosso e mal-educado. 
Adoro o MasterChef e acho um avanço incrível que, numa área em que 90% dos profissionais são homens, duas mulheres foram as vencedoras das primeiras edições. Adoraria que uma mulher negra (ou um homem negro) ganhasse. Mas dificilmente será desta vez. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

COM NOVO GOVERNO, BOLSA FAMÍLIA PODE DEIXAR DE CONTEMPLAR 36 MILHÕES DE PESSOAS

A ministra Tereza Campello deu entrevista a blogueirxs na quarta

Quarta estive em Brasília para uma entrevista de blogueirxs com Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. 
Ministra (ao centro) com blogueirxs e
parte de sua equipe
(clique para ampliar)
E foi ótimo. Melancólico, mas ótimo. Acho que tirando o Congresso golpista, Brasília mais parece um velório. Todo mundo cabisbaixo e temeroso pelo futuro. E com razão: estamos diante de um gigantesco retrocesso, que pode jogar no lixo qualquer conquista social que o Brasil conseguiu na última década (em 2014, por exemplo, o país deixou pela primeira vez o Mapa Mundial da Fome, da ONU).
O governo Temer já anunciou que vai focar os programas sociais em apenas 5% da população mais pobre. O documento "A Travessia Social", que, segundo Campello, leva o mesmo nome do programa de Aécio, "um projeto derrotado nas urnas", propõe reduzir os beneficiários do Bolsa Família, que hoje são quase 47 milhões de pessoas, para 10 milhões. Entre as pessoas que deixariam de ser atendidas, 17% estão no Nordeste. 16 milhões têm menos de 15 anos.
O Bolsa Família, que custa uma mixaria aos cofres públicos (0,5% do PIB, ou cerca de 27 bilhões de reais ao ano; o cálculo é que cada brasileiro pague 5 reais por mês para manter o programa), representa uma revolução. Cada uma das 14 milhões de famílias contempladas recebe cerca de 165 por mês, o que pra mim, de classe média, é o valor da minha conta de luz, mas que pras pessoas pobres faz toda a diferença. 
Quase metade do Bolsa Família vem pro Nordeste, e quem mora aqui pode ver como a região mudou na última década. Eu vivo aqui desde 2010. Em 1990, passei um mês fazendo pesquisa de mercado em três capitais: Natal, Fortaleza e São Luís. Como minha equipe ia na casa das pessoas, pude presenciar o que é miséria absoluta -- casebres caindo aos pedaços com ratos no meio do entulho. Nas ruas, crianças pedindo esmola em todas as esquinas. Hoje é outro cenário. Lógico que a pobreza ainda existe, mas é em outro nível, incomparavelmente menor. 
Meu medo é que a gente recue um quarto de século. 
"Podemos voltar a perder gerações", disse Campello. "Seria a volta das crianças morrendo na seca". A ministra forneceu vários dados. Por exemplo, quantas crianças pobres chegam no final do ensino fundamental na idade certa? (as que não chegam na idade "certa" tem pouquíssimas chances de fazer o ensino médio e muito menos o superior). Em 2002, só 32%. Hoje, é quase 60%. Houve um salto de permanência da criança na escola, uma queda brusca na mortalidade infantil. 
Além disso, o Bolsa Família é bom pra economia: cada real "gasto" com o Bolsa Família devolve R$ 1,70 à comunidade. Esse dinheiro é consumido no comércio local e alavanca o comércio de muitas comunidades. (Tem um dado que a ministra não citou, mas que pra mim é emblemático: nas últimas eleições, pela primeira vez na história brasileira, o número de eleitores com nível superior completo superou o número de eleitores analfabetos). 
Para Campello, que está no governo desde o início do primeiro governo Lula, e que é ministra (até a semana que vem?) de Dilma desde seu primeiro mandato, é preciso parar de ver o Bolsa Família e outros programas como assistencialismo e pensá-los como uma rede de proteção. "São visões diferentes: proteção como ajuda ou como direito do cidadão?", questionou a a ministra.
Maíra Streit e Maria Frô
A jornalista Maíra Streit, da Fórum, (além dela, estavam presentes representantes do Sul21, Maria Frô, Cafezinho, Mídia Ninja, Jornalistas Livres) fez uma das perguntas que eu tinha planejado fazer, sobre como se deu o empoderamento feminino através do Bolsa Família. A ministra respondeu algo muito interessante que eu não sabia: no começo, quando se discutia se o cartão deveria ser dado à mãe, à mulher, e não ao pai, as feministas criticaram a decisão, dizendo que iria onerar duplamente a mulher. Hoje 93% das titulares do programa são mulheres. Campello diz que o pensamento não era que os homens gastariam com cachaça, e sim que, através da mulher, o dinheiro chegaria mais rapidamente à família. E deu certo. Com esse dinheiro vem um certo poder. 
Eu fiz mais ou menos esta pergunta: "Não é possível falar que o Bolsa Família configura uma revolução feminista, como disse a antropóloga da Unicamp Walquiria Leão Rego Domingues (porque os efeitos do machismo e do patriarcado não se acabam em uma década), mas um dos efeitos colaterais do programa certamente foi o empoderamento das mulheres. Mas, numa época em que a guerra contra a ideologia de gênero se transformou numa das maiores bandeiras dos conservadores, critica-se essa mulher, como você disse, ministra. 
"Nossa elite estacionou na ideia dos anos 1960, quando a mulher brasileira tinha em média seis filhos. Hoje ela tem menos de dois. E entre os beneficiários do BF a taxa de natalidade é menor. É o contrario do que a elite pensa, que os beneficiários são preguiçosos, encostados no Estado, não querem trabalhar, e ainda por cima têm mais filhos pra receber mais dinheiro do BF. Como vencer esse preconceito da elite? Porque sabemos que partidos de direita são a favor do BF apenas em períodos eleitorais. No resto do tempo, é bolsa esmola. É importante combater esse preconceito, ou nossa elite é tao arcaica que sempre terá essa mesma posição? E essa posição pode reduzir ou eliminar o BF?"
Campello respondeu que a maior solução contra o preconceito é a informação, e é justamente a comunicação que mais pecou nos governos petistas. Logo depois, ela acrescentou que "somos incompetentes na área da comunicação. O Brasil conseguiu em dez anos reduzir a miséria para um patamar que o Banco Mundial previu para o mundo em 25 anos, mas não conseguimos comunicar isso. Nós queremos que essa redução da pobreza seja o piso ou o teto?"
Miguel do Rosário, do Cafezinho,
faz pergunta à ministra
A ministra mencionou também um programa "democrático e barato", que foi a construção de 1.2 milhão de cisternas. Para ela, quem se beneficiou mais deste programa foram as mulheres, que antes precisavam se levantar às 4 horas da manhã "para chegar antes dos bichos" aos locais insalubres onde iam pegar água. Uma mulher entrevistada lhe disse que não conhecia o gosto real do café antes de ter sua cisterna. Além de várias mulheres terem ganhado duas horas no seu dia (e duas horas a mais podem ser liberadoras), a ministra também citou o Pronatec, pois 70% das inscritas são mulheres. "Abrimos essa oportunidade, e a mulherada se agarrou a ela". 
Maria Frô (Conceição Oliveira) e eu
Mas, para Campello, tudo isso está em risco: "Sabemos o quanto ainda temos de fazer para sermos chamados de um governo progressista", disse ela. "O que conseguimos provar é que investindo tão pouco, já mudamos o país. Tem que continuar". Ela acha que Temer não cortará o Bolsa Família imediatamente, mas aos poucos. E quando a população pobre perceber, talvez seja tarde demais.