Este texto é parte de uma pesquisa maior que venho realizando para um observatório de gênero e trata sobre a parcialidade dos aplicativos que terminam por reproduzir e reforçar a experiência genérica masculina. A análise esta focada no aplicativo de relacionamentos happn, testada durante o mês de abril, que permite disponibilizar breves perfis dos usuários registrados no momento em que estes usuários se cruzam.
O funcionamento do happn está basicamente condicionado ao recurso da geolocalização dos aparelhos celulares, que deve estar habilitada, registrando assim, os perfis das pessoas que “cruzaram” com você na rua. Pode ser literalmente aquele esbarrão eternizado na série Sex and the City, que inaugura a odisseia quase dantesca de Carrie Bradshaw e Mr. Big pelo céu e pelo inferno em Manhattan durante as seis temporadas, que têm lá as suas qualidades, e dois filmes já enfaticamente filmes ruins, mas também é possível registrar usuários que estão a até 500 metros de distância.
O chamativo é que mesmo em casa, ou ainda, mesmo que o aplicativo não esteja aberto no celular, ou ainda que a geolocalização tenha sido desativada após o processo de registro, o rastreamento é feito, identificando nesses casos vizinhos que fazem uso do mesmo serviço, reduzindo assim uma confortável distância, ou ainda, um confortável anonimato.
O chamativo é que mesmo em casa, ou ainda, mesmo que o aplicativo não esteja aberto no celular, ou ainda que a geolocalização tenha sido desativada após o processo de registro, o rastreamento é feito, identificando nesses casos vizinhos que fazem uso do mesmo serviço, reduzindo assim uma confortável distância, ou ainda, um confortável anonimato.
O que se registra é um perfil bem econômico, com foto, um mapa que ilustra a região, há quanto tempo, e quantas vezes se deu o encontro, e também pode conter uma descrição breve do usuário, como este se define. Muitas vezes se recorre a trechos de livros e aforismos de autores famosos. Os outros dados são automaticamente retirados do Facebook. Estes dados são basicamente fotos, nomes, profissão, instituição de ensino e idade.
Ainda que opere sob certo grau de imprevisibilidade, e que o atrativo seja justamente controlar à posteriori a imprevisibilidade do encontro fortuito para que se torne uma possibilidade real de interação, foras não estão previstos no roteiro. O contato em forma de chat é habilitado apenas após o “crush”, ou seja, a correspondência do interesse entre as partes, que se dá quando os dois usuários ativam mutuamente um comando identificado com um coração disponível no perfil do objeto do desejo. Caso apenas uma das partes tenha ativado o comando, a outra parte não será notificada, a menos que também o ative.
Algumas questões já começam a emergir a partir dessa mera descrição do funcionamento do aplicativo, das quais a fundamental é, sem dúvida, relativa à privacidade. Mas neste momento, gostaria de explorar alguns outros pontos relacionados tanto a uma cultura ainda sexista e suas implicações no uso desse tipo de plataforma, quanto a uma questão social, relacionada à forma como nos deslocamos pelas cidades.
Com relação a uma cultura sexista vale destacar que no site que apresenta a ferramenta, toda a iconografia centra-se em mulheres, mais especificamente em supostos perfis de mulheres, com foto, idade e profissão. Previsivelmente são mulheres que estão dentro do padrão de beleza estabelecido: são quatro personagens, dentre as quais apenas uma é asiática, as demais brancas, e todas magras. O cenário aludido é curiosamente o skyline nova-iorquino: uma referência à cidade de Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte?
Se por um lado a ferramenta permite ao “caminhar por uma rua, café, no trabalho ou numa festa, descobrir as pessoas que cruzaram seu caminho, pessoas pelas quais você se interessou e gostaria de encontrar novamente”, por outro lado, não está muito claro no site de apresentação a quem esta mensagem está dirigida: as imagens visíveis são de perfis femininos dentro dos padrões aparentemente registrados por um usuário masculino. Há ainda uma imagem que reproduz o chat; a primeira mensagem é da mulher, dando a entender que esta iniciou a interação. A resposta do interlocutor, no entanto, não é identificada com uma foto.
Vale lembrar ainda que o aplicativo surgiu impondo uma diferença crucial: os recursos são gratuitos para as mulheres, como charme, mais ou menos como uma chamada de atenção para o seu perfil, e pagos para os homens. Essa ideia faz pensar nas festas e clubes noturnos que “liberam” a entrada ou bebidas para mulheres, para assim facilitar o flerte, como se este não pudesse ser um fator que motivaria mulheres a pagar ou em última instância, um jogo ao qual não seria possível participar de forma consciente e ativa. Parte-se do pressuposto que mulheres podem mostrar disponibilidade, mas jamais manifestar desejo.
Outro ponto que vale destaque é a não disponibilização de mais informações além das acima mencionadas para que se possa ponderar melhor o interesse em algum usuário. Assim, se poderia inferir que o critério principal é a aparência física, critério pelo qual mulheres são comumente julgadas, seja em situação de flerte ou não.
Podemos questionar que este é um site de relacionamento, em que se entra totalmente consciente do modus operandi centrado na exposição quase como um catálogo de corpos atraentes que dançam acompanhados de um bom drink, que curtem a praia, ou passeiam pela Torre Eiffel. Mas esta proposição ignora as diferenças entre as formas de interação de homens e mulheres, condicionadas em grande parte por imperativos genéricos.
Assim, uma vez que a usuária sinaliza o interesse em algum usuário, mediante os critérios disponíveis, um acordo tácito se estabelece, no qual o interesse muitas vezes não pode ser facilmente recuado. Esta é uma questão candente na experiência feminina: ao emitir determinados sinais se indica estar não só ciente, como acorde aos “temos e condições do contrato”. Dessa forma, pequenas decepções que são plausíveis após um contato mais profundo não são consideradas, levando muitas vezes a situações desagradáveis em que mulheres são pressionadas ou até mesmo coagidas, tendo suas vontades minimizadas, quando não ignoradas.
Como indica um artigo da revista Quartz, a suposta imparcialidade dos aparatos tecnológicos tem sido cada vez mais questionada. Em março deste ano o Jornal da Associação Americana de Medicina publicou um estudo sobre como assistentes tecnológicos tais como Siri, Google Now, e S Voice respondem a problemas de saúde relatados pelos usuários. Os assistentes reconhecem descrições de problemas de saúde, como ataque cardíaco, sugerindo assim o que fazer para encontrar socorro imediato, mas não reconhecem descrições envolvendo abuso sexual ou violência doméstica. Aqui há dois aspectos dignos de nota: um é a voz feminina desses assistentes. A outra é a rejeição social ao entendimento de problemas como violência sexual e doméstica como problemas de saúde.
No mais, o exemplo dos vídeos games é notório: durante um experimento, uma adolescente de 12 anos descobriu que 98% dos jogos disponível num aplicativo do Iphone vem com personagens masculinos já construídos. Em 90% dos jogos a escolha desses personagens é gratuita, enquanto 85% cobram pela habilidade de selecionar um personagem feminino. O artigo conclui que a internet, assim como grande parte da tecnologia, é feita por e reconhece principalmente a experiência do homem heterossexual cisgênero.
Mas há ainda outro aspecto a respeito do aplicativo happn. Ao rastrear pessoas que cruzam o caminho do usuário em até 500 metros, reafirma uma espécie de endogamia social; afinal os espaços em que as pessoas circulam pela cidade são cada vez mais percorridos a partir de uma prática e uma experiência de classe social, que se dá em bairros onde a possibilidade de se encontrar com pessoas pertencentes à mesma classe social é bastante significativa.
Ao parecer, ainda que funcione como uma importantíssima ferramenta de contra narrativa, a narrativa que escrevemos com a linguagem dos aplicativos ainda é extremamente convencional, o que significa dizer, reprodutora de mecanismos sexistas vigentes na nossa experiência social.

























































