sexta-feira, 5 de junho de 2015

"MINHA JORNADA: TUDO É PROBLEMÁTICO"

Luan viu um artigo polêmico e interessante de Aurora Dagny (um pseudônimo) e decidiu traduzi-lo. Super obrigada, Luan! Como o texto é longo (mas vale a leitura!), vou publicá-lo em duas partes. A primeira é esta, e a segunda está aqui.

Sou uma ativista queer desde os dezessete anos. Cresci em uma cidade conservadora do interior onde as pessoas gritavam insultos homofóbicos para mim da janela de suas picapes. Minhas experiências com o ódio homofóbico intimidaram-me, mas também acenderam uma chama em mim. Em meu último ano do ensino médio, resolvi fazer o possível para promover uma mudança antes de concluir os estudos e ir embora da cidade para sempre. 
Sentia ter o dever de ajudar outras crianças queer que estivessem muito assustadas para sair do armário ou que tivessem internalizado ódio por si próprias. Fiz um discurso apaixonado sobre tolerância em uma assembleia escolar, distribuí folhetos em todos os corredores e salas de aula, e fundei um grupo para estudantes LGBTQ e aliados.
Não muito tempo depois, fui exposta às ideias de Judith Butler, um audacioso e penetrante amálgama de feminismo de terceira onda e teoria queer. Vi a verdade na perspectiva radical de Butler sobre gênero e foi libertador. Meu desconforto ao longo da vida com o rótulo — uma categoria binária de gênero — foi legitimado. Foi quando minha paixão pelo feminismo começou de fato. 
Colei um adesivo em meu carro que dizia “mulheres bem comportadas raramente fazem história”. Assinei a revista Bitch. Quando chegou a hora de sair do colégio e entrar na Universidade McGill, matriculei-me em uma matéria sobre teoria feminista e em outra sobre estudos de diversidade sexual, o tema em que eu faria posteriormente uma especialização secundária.
Meu mundo só se expandiu a partir daí. Em Montreal, tive contato com uma diversidade maior do que nunca de pessoas e perspectivas. O mesmo tipo de transformação que tinha ocorrido em minha mente com gênero aconteceu com raça e deficiência. Aprendi sobre classismo e capitalismo. Durante o Rad Frosh [evento estudantil da Universidade McGill], um seminário com o notório ativista Jaggi Singh introduziu-me oficialmente ao anarquismo. Meu primeiro ano na McGill foi um turbilhão de novas pessoas e revelações.
Em meu segundo ano, eu mergulhei. Envolvi-me intensamente com uma variedade de grupos e organizações queer, feministas, antiopressivas em geral e de esquerda radical, em todas as combinações possíveis (Mob Squad é um exemplo de muitos). Li livros como Why are faggots so afraid of faggots? (em tradução livre: “Por que as bichas têm tanto medo umas das outras?”) e A insurreição que vem. 
Bradei a plenos pulmões em protestos. Tantos protestos. Marchar pela rua carregando um cartaz que dizia “Fuck Capitalism” tornou-se minha principal forma de exercício. Aquele foi o ano dos protestos contra o aumento da anuidade das universidades. Havia muito entusiasmo no ar. Pensei que talvez fosse acontecer uma revolução. Uma garota pode sonhar.
2012 foi o ano em que atingi o ápice do radicalismo. As coisas que fiz naquele ano incluíram ocupar um prédio da universidade (pela segunda vez), obstruir fisicamente um segurança, ser empurrada por um policial em uma motocicleta em baixa velocidade, participar de uma assembleia geral inteira da sociedade estudantil da McGill e fugir de granadas de luz e som lançadas pela polícia. (Eu não era nem de longe tão hardcore quanto as pessoas que eu conhecia. “Eu amo como o spray de pimenta desobstrui os seios da face”, disse um. Alguns participavam de black blocs. Em algum momento, uns poucos passaram a noite na cadeia.)
Desde então, minha visão de mundo política tem evoluído constantemente e se refinado. Eu já não anseio pela revolução. Não odeio o capitalismo ou o Estado como se esses fossem os nomes das pessoas que mataram meu cachorro. Minha orientação política ainda tende para a esquerda, só não tão longe à esquerda, e agora eu enxergo sistemas políticos e econômicos com os olhos de um engenheiro, em vez de enxergá-los nas cores berrantes da indignação moral. 
Continuo tão apaixonada pelo ativismo queer e pelo feminismo quanto antes e tenciono ser uma aliada para outros movimentos antiopressivos tanto quanto sempre fiz. Sinto que tenho uma compreensão mais rica e apurada da política antiopressão e da ética do que antes. Retive todas as lições que aprendi e sou grata às muitas pessoas que dividiram comigo sua visão.
Em breve estarei formada e estive pensando em meus anos em Montreal com nostalgia e pesar. Algo me tem atormentado há um bom tempo. Há algo que preciso dizer em voz alta a todo mundo antes de ir embora. É algo que há muito venho querendo dizer, mas que tenho tido dificuldade em expressar com palavras. Preciso contar às pessoas o que estava errado com o ativismo que eu praticava e por que eu escapei. Tenho muitas boas recordações daquele tempo, mas, em síntese, foi o capítulo mais sombrio da minha vida.
Eu costumava defender uma categoria particular de política que é prevalente na McGill e em Montreal de forma mais geral. Trata-se de uma fusão entre certo tipo de política antiopressiva e certo tipo de política esquerdista radical. Esta categoria particular de política começa com boas intenções e causas nobres, mas produz metástases que se transformam em um pesadelo. 
Em geral, os ativistas envolvidos são as pessoas mais agradáveis e íntegras que se pode esperar conhecer. 
Mas, em algum momento, eles tomaram um rumo errado e sua devoção à justiça social levou-os a um caminho obscuro. Como estive dentro e fora desta realidade, acho que posso trazer à tona algumas verdades dolorosas, mas necessárias.
Esclarecimento importante: eu apoio ardentemente a política antiopressiva em geral e tenho somente boas coisas a dizer sobre ela. Minha visão de mundo política atual está contida na designação genérica de esquerdismo, embora não esquerdismo radical. Sou basicamente uma social-democrata que gosta de cooperativas e acredita em renda básica universal, o chamado “caminho capitalista para o comunismo”. 
Concordo com muito do que a esquerda radical tem a dizer, mas também discordo em muitos aspectos. Sou profundamente contrária ao marxismo-leninismo e ao anarquismo social, mas tenho simpatia pelo socialismo de mercado e pela democracia direta. Não faço críticas ao esquerdismo radical em geral, ao menos não aqui, não hoje. O que me sinto compelida a criticar é somente um fenômeno político muito específico, uma encarnação particular da política esquerdista radical antiopressiva.
Há algo sombrio e vagamente sectário nesta categoria particular de política. Eu pensei muito sobre o que exatamente é isso e identifiquei quatro elementos centrais que tornam a coisa tão perturbadora: o dogmatismo, o pensamento de grupo, uma mentalidade de cruzada e o anti-intelectualismo. Entrarei em detalhes sobre cada um destes. O que escrevo a seguir é tanto uma confissão quanto uma admoestação. Não mencionarei um único pecado pelo qual eu não tenha sido completa e terrivelmente culpada em minha época.
Autora do texto, favor parar de fazer
alusões a maltratar cachorrinhos
Em primeiro lugar, o dogmatismo. Uma maneira de diferenciar entre uma crença convencional e uma crença sagrada é que as pessoas que têm crenças sagradas acreditam que é moralmente errado que alguém as questione. Se alguém questiona essas crenças, a pessoa não está sendo apenas estúpida ou mesmo depravada, ela está ativamente praticando violência. É como se estivesse chutando um cachorrinho. 
Quando as pessoas possuem crenças sagradas, não há discordância sem animosidade. Nesta mentalidade, as pessoas que discordavam das minhas visões não estavam simplesmente erradas, elas eram pessoas horríveis. Eu observava o que as pessoas diziam atentamente, à procura de qualquer conteúdo reprovável. Qualquer infração repercutia negativamente em seu caráter e, se houvesse muitas, as pessoas poderiam acabar em minha lista negra. Chamá-las de “crenças sagradas” é um eufemismo. O que quero dizer é que são dogmas.
Pensar desta forma rapidamente divide o mundo entre um grupo interno e um grupo externo — crentes e pagãos, justos e ímpios. “Eu odeio conviver com pessoas não radicais”, um amigo disse-me via mensagem de texto certa vez, irritado com seus colegas de quarto liberais. Membros do grupo interno estão sujeitos às mesmas normas rigorosas. Cada mínima heresia afasta gradualmente o indivíduo do grupo. As pessoas relutam em dizer que algo é radical demais por receio de serem vistas como excessivamente não radicais. 
Em contrapartida, demonstrar devoção à causa granjeia respeito. O pensamento de grupo torna-se o modus operandi. Quando eu era parte de grupos assim, todos pensavam exatamente da mesma forma sobre uma variedade estranhamente grande de assuntos. A discordância interna era rara. A comunidade insular servia como uma incubadora de visões extremas e irracionais.
Cheios de si, os ativistas nestes círculos de organização acabam desenvolvendo uma mentalidade de cruzada: uma presunção extrema baseada na convicção de que estão fazendo o equivalente secular da obra de Deus. Não se trata de ego ou enaltecimento pessoal. Na verdade, eu e os ativistas que eu conhecia tendíamos a depreciar-nos mais do que qualquer coisa. Não era sobre nós, era sobre o trabalho desesperadamente necessário que estávamos fazendo, era sobre as pessoas que estávamos tentando ajudar. O perigo da mentalidade de cruzada é que ela transforma o mundo em uma batalha entre o bem e o mal. Ações que de outra forma pareceriam extremas e insanas tornam-se naturais e esperadas. Eu não pensava duas vezes antes de fazer uma série de coisas que eu nunca faria atualmente.
Há muito que admirar nos ativistas de quem eu me tornei amiga. Eles têm as melhores intenções, são altruístas e dedicados a fazer o que acham que é certo, mesmo a um grande sacrifício pessoal. Infelizmente, neste caso, sua consciência os traiu. Minha consciência me traiu. Somente quando me deixei ser egoísta, após meses e meses de dedicação intensa apesar de estar esgotada, é que eu finalmente alcancei a distância crítica para repensar minhas crenças políticas.
[Segunda parte aqui].

quinta-feira, 4 de junho de 2015

GUEST POST: REACIONÁRIOS COMBATEM A IDEOLOGIA DE GÊNERO

A A. me enviou este texto no começo da semana:

Sou mais uma daquelas leitoras que deve grande parte do interesse pelo feminismo a partir da leitura do blog. Sou professora de uma pequena cidade no interior do Paraná, Paranavaí, e tive a oportunidade de assistir uma fala sua em Maringá, no ano passado. Nunca te escrevi, mas ao ler a notícia sobre o caso da adolescente estuprada no banheiro da escola tive a necessidade em dividir com você o que anda acontecendo no meu município que, na verdade, é uma tendência geral. 
Exemplo de arma ideológica
feita para contaminar as
crianças com marxismo
Estamos enfrentando um grupo de conservadores religiosos da cidade que tentam a todo custo que o Plano Municipal de Educação não inclua em seu texto aquilo que eles chamam de "ideologia de gênero", mas que não se encontra escrito no texto que na realidade trata de "Assegurar que a Educação das Relações Étnico-Raciais, a Educação de Gênero e Sexualidade, o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena e o Plano Nacional de Cidadania e Direitos Humanos e idosos sejam contemplados nos currículos da Educação Básica". 
Peça de propaganda conservadora
Entre outras sandices, esses conservadores acusam o plano de promulgar o marxismo cultural, o comunismo, acabar com a família tradicional cristã, ensinar sexo para  crianças, e fazer com que crianças de 4 anos "virem" homossexuais. É muito absurdo junto, como você pode ver nessas imagens que te envio.
É sério, não é gozação. Reaças
realmente fizeram esta peça
Não satisfeitos, eles encaminharam para a Câmara uma proposta do projeto "Escola sem partido" visando combater a "doutrinação ideológica" que os professores (petistas, feminazis, comunistas, gayzistas...) estão ensinando nas escolas. Onde vamos parar com essa onda de conservadorismo, inclusive juvenil? 
Nunca me foi tão real o poder que esses grupos encontram na sociedade. Acredito que o projeto será enviado para a câmara de vereadores da cidade ainda nesta semana e que provavelmente seremos vencidos, mas ainda lutamos. 
Quantas meninas mais terão que ser estupradas para que reconheçam a necessidade de que precisamos de uma escola não machista e que acolha a diversidade? Quantos professores e professoras terão sua orientação sexual e seu trabalho questionado por lutarem por uma sociedade mais igualitária? 
Nos últimos dias tenho sentido o peso em minha saúde física e mental desses embates e lembrei-me de você e das várias ameaças que sofre. O que deu motivação para continuarmos tentando lutar pela educação que queremos. 
Perdemos no nacional, será que perderemos aqui também? Tenho curiosidade de saber a quantas anda o debate em outros Estados. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

NOSSAS DESCOBERTAS DO DIA A DIA

Na quinta à noite peguei o primeiro de dois aviões para voltar de Goiânia, onde fui palestrar sobre família e gênero na PUC, para Fortaleza.
Aliás, não me lembro de ter feito uma viagem tão curta: de Goiânia pra Brasília são 22 minutos de voo! Você gasta muito mais tempo esperando o embarque, fazendo o desembarque, fazendo o check-in, do que voando. 
Bom, cheguei no avião e um casal velhinho sentou-se ao meu lado (eu estava na janela). 
Aí veio uma mulher mais ou menos da minha idade e disse que o assento do corredor onde a velhinha tinha sentado era dela. Normal, isso acontece direto, ainda mais com uma turma que ainda não tem tanta familiaridade com viagens aéreas. O casal velhinho se mudou, a mulher sentou no seu assento, e fez cara pra mim de "Que gente ignorante!" Ou ao menos eu tive esta impressão de que foi essa cara que ela fez pra mim.
Eu já estava lendo. Comecei a ler um livrinho da Elisabeth Badinter chamado Rumo Equivocado, que critica algumas escolhas do feminismo. Prometo falar sobre ele em breve. 
A mulher mais ou menos do meu lado (a que sentou no corredor; eu na janela, ninguém no meio, aleluia) ignorou minha leitura e passou a falar comigo. Sobre a Gol. Sobre como a Gol é horrível. É mesmo, concordei com ela. É a pior das companhias aéreas que operam no Brasil. Não serve lanchinho, não passa filme, e espreme os passageiros. 
Depois de mais algumas palavras decidindo qual seria a melhor companhia aérea, a dona do Viracopos Azul ou a colombiana Avianca, a mulher me deixou ler. Quando chegamos a Brasília, ela passou a falar mal do aeroporto. Disse que era confuso e que vive em reforma. Eu gosto muito daquele aeroporto, apesar do tamanho gigantesco. Ao menos tem a melhor praça de alimentação, disparado. Daí a mulher xingou Brasília em si, dizendo que detesta aquela cidade, que lá só tem ladrão. 
Resumo da ópera: se nos falamos três minutos no total, foi muito. Mas em três minutinhos ela meio que me comunicou que odiava os velhinhos que sem querer sentaram no seu assento, que odiava a Gol, que odiava o aeroporto de Brasília, e que odiava Brasília. Eu saí do avião pensando: imagina o que deve ser viver, trabalhar, conviver diariamente, ao lado daquela pessoa que só sabia reclamar? Como deve drenar a nossa energia um ser tão negativo desses!
Estava pensando nisso hoje e me lembrei de como uma aula, muitos anos atrás (quinze? dezoito?), mudou minha vida. Ok, exagero. Mas pelo menos mudou minha percepção de mim. Eu estava dando aula de inglês na escola de idiomas onde era coordenadora acadêmica, em Joinville, e falei de gente pessimista, que reclama de tudo o tempo todo. E acrescentei, no meu modo auto-depreciativo de ser: "Assim como eu, né?"
Eu no meio de parte de uma turma
querida na UFC, junho de 2012
Não me lembro com que turma querida aconteceu isso, porque quase sempre tive a sorte de só ter turmas queridas (tanto lá em Joinville quanto aqui em Fortaleza), mas as pessoas dessa turma discordaram de mim. Disseram que não, eu não era pessimista. Que, pelo contrário, eu era otimista. E deram vários exemplos (óbvio que não vou me lembrar de nenhum). Ou seja, me convenceram totalmente.
Somnia e eu no lançamento em SP, 2012
Não é estranho como eu me via como o contrário do que eu era? E não é bacana de como algumas palavras de uma turma de inglês que me conhecia bastante bem me fizeram mudar o jeito que eu me via? É verdade que se passaram alguns anos antes de eu me tornar a Polyanna Deslumbrete (nas palavras de uma leitora linda, a Somnia) que sou hoje.
Abração apertado na Somnia.
Saudades, queridona!
Isso já aconteceu com vocês? Por "isso", eu quero dizer: a) conviver com alguém que te drena as energias, b) se equivocar sobre você mesmx, c) mudar da noite pro dia uma percepção ou um comportamento que você tinha. Sempre penso numa leitora que me escreveu contando como desencanou de se preocupar em ir pra praia depois de ler um mísero post meu. Desnecessário dizer que fiquei super feliz. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

GUEST POST: A CULTURA DA INDIGNAÇÃO IMPOTENTE NO FB E A ESQUERDA QUE NÃO MOBILIZA

Dois anos atrás

Faz um ano que não publico um guest post do Robson, autor dos blogs Consciência e Veganagente.  
Este ativista de Recife sempre contribui com excelentes textos sobre os mais variados assuntos. 
Nem sempre concordo com tudo que Robson escreve (e o texto abaixo é um desses casos), mas ler o que ele tem a dizer é sempre educativo. 

É costume de muitas pessoas de esquerda ver seu mural do Facebook todo dia parecer um rio caudaloso de notícias ruins que dão a impressão de que a humanidade “não tem jeito”. E isso aparenta ter piorado em 2015, com as tantas postagens e artigos de fanpages, sites e blogs de esquerda incitando a consternação diante de um Congresso e um governo federal totalmente desconectados do interesse público. Vale refletir sobre essa cultura de indignação impotente, e como a esquerda brasileira contemporânea não tem mais conseguido converter a comoção das pessoas em ação política popular –- leia-se protestos e demonstrações físicas de revolta sociopolítica.
Esse primeiro semestre do segundo mandato de Dilma Rousseff e do plantel parlamentar mais conservador desde o golpe militar de 1964 tem proporcionado o recrudescimento desse “rio de más notícias”. Aparentemente mais do que em outros anos, facebookianos brasileiros progressistas têm se deparado com uma esmagadora vazão de novidades negativas.
Ataques ininterruptos aos direitos civis, humanos, trabalhistas e ambientais; corrupção de opositores do governo petista protegidos pela impunidade e pelo silêncio cúmplice da imprensa e da direita militante; malícias diversas de gente como o deputado Eduardo Cunha; radicalização da corrosão do já precário sistema político brasileiro; medidas governamentais opressoras que nos dão a impressão de que elegemos Dilma mas quem assumiu foi Aécio Neves ou Pastor Everaldo; 
desmatamento urbano que não para em incontáveis cidades brasileiras; “guerra às drogas” que continua assassinando em massa jovens negros pobres; obras da Copa do Mundo inacabadas ou virando “elefantes brancos”; reacionarismo autoritário e fanático em desimpedida ascensão; consciência ambientalista praticamente esquecida… São incontáveis as notícias ruins que fazem tanta gente, como diz a expressão popular, “inchar feito baiacu”.
O agravante é que muitas delas têm sido compartilhadas, por exemplo, pelas páginas de deputados do PSOL, único partido brasileiro ainda de esquerda com representação parlamentar federal; movimentos sociais que, até pouco tempo atrás, não tinham tanta dificuldade para mobilizar pessoas, nem que fossem em passeatas de pouca gente; portais e opinadores defensores da esquerda e fanpages progressistas com dezenas de milhares de curtidores.
As notícias são dadas de uma maneira que o público leitor se sente totalmente impotente, incapaz de reagir também fora de casa e longe do computador doméstico. Deixam claro que essa imprensa alternativa tem agido igual à mídia hegemônica, dando notícias ruins de uma maneira que ao mesmo tempo planta a indignação e a faz decair em resignação, em sensação de impotência e no fatalismo de achar que “o Brasil não tem solução” e a humanidade vai apodrecer viva sem que nada possa ser feito contra isso.
Textos e mais textos aparecem todos os dias, opinando sobre a última “sacanagem” antipopular cometida pelo Congresso conservador ou a mais nova medida de arrocho trabalhista do governo Dilma. Mas nada além de textos. Ignora-se que Dilma, o ministro da Fazenda Joaquim Levy, Eduardo Cunha e seus aliados das bancadas BBB -– Boi, Bíblia e Bala -- já mostraram múltiplas vezes ser insensíveis à indignação de grande parte da internet brasileira.
Fica a impressão de que os veículos alternativos de comunicação online e os políticos do PSOL acreditam que o mundo pode ser (re)construído e modificado apenas ou principalmente a partir da mera emissão de palavras e opiniões, sem a necessidade ou possibilidade da ação física, dos protestos e ocupações. 
Outra impressão que se fixa é que o levante das massas de junho de 2013 e mesmo aqueles protestos de porte menor contra Jair Bolsonaro, Renan Calheiros, Marco Feliciano, a usina de Belo Monte, o super-reajuste salarial de deputados e senadores e o novo Código “Florestal” nada mais são hoje do que lendas de tempos remotos e saudosos.
Tem havido exceções para esse fenômeno, como o #OcupeEstelita no Recife, que tem conseguido mobilizar on e offline um número robusto de manifestantes para uma cidade do tamanho e população da capital pernambucana. Mas o quadro geral, nacional, é de desânimo e conformismo, e o movimento recifense parece um “corpo estranho” num país de resignados.
Está mais do que na hora de repensarmos essa postura de passividade diante do que tem acontecido de negativo para a esquerda. Precisamos problematizar essa sensação de impotência e a carência de incitações diretas à mobilização de rua. É muito necessário refletir sobre por que não estamos mais conseguindo transformar a indignação emocional em ação e mobilização, nem mais fazer valer nossas pautas de reivindicações.
Pensemos: por que estamos agindo como se não houvesse mais esperança? Por que estamos ou parecemos estar esperando que a esperança seja incitada de fora para dentro ao invés de alimentada pela consciência, de dentro para fora? O que aconteceu que nos divorciou silenciosamente das ruas?

segunda-feira, 1 de junho de 2015

EXIGIR TESTE DE PATERNIDADE É MACHISMO?

O F. me enviou esta pergunta:

"Sou estudante de Ciências Sociais. Tenho 24 anos. Tenho uma companheira que é feminista e que me abriu as portas para a discussão de gênero. Estamos juntos desde 2011, e desde então iniciei um árduo processo de desvinculação com minhas raízes machistas, institucionalizadas no seio social em que todos nós vivemos. 
Como se sabe, a sociedade regida pelas leis do patriarcado é estruturada para privilegiar e dar o conforto aos homens, subjugando as mulheres. Um homem que quiser ir de encontro a isso passará por um lento e duradouro processo de desconstrução de muito que considera ser sua constituição como ser humano. E mesmo que nem perceba cairá varias vezes nas mesmas práticas do machismo. Cabe a si mesmo fazer uma reflexão.
Escrevo este e-mail pois acabei entrando numa discussão com minha companheira quanto a um tema: a questão do exame de DNA para comprovação da paternidade, baseado numa situação que ocorreu na minha família. Meu primo saiu para viagem a trabalho e sua namorada começou a sair com outras pessoas, e esta namorada de meu primo apareceu grávida. No caso deles, meu primo disse que o filho era dele e já assumiu as suas responsabilidades enquanto pai. 
Eu defendi que se um homem viaja muito, passa tempo fora de sua cidade, e começam os rumores de que sua companheira está saindo muito, e de repente aparece grávida, este homem tem o direito de pedir o exame de DNA para comprovação da paternidade, não tendo obrigação de criar um filho que não é seu, pois este seria o fruto de ato de traição e desonestidade no relacionamento.
Minha companheira não gostou dessa postura, disse que eu estava sendo machista e que o teste de DNA serviria apenas para comprovar que eu fui o 'macho' que engravidou a mulher. Que eu poderia até desconfiar, mas pedir o exame seria machismo. Eu afirmei que não compreendia como isto poderia ser machismo. E recorro a você, uma das feministas mais coerentes que eu conheço e acompanho, para me auxiliar neste ponto. Afinal, pedir o exame de DNA para comprovação de paternidade, é machismo ou não?"

Minha resposta: Bom, complicado o negócio. Só pra você ter uma ideia, sabe quem defende teste de paternidade compulsório? Quem acha até que isso deve ser subsidiado pelo governo? Que só um trouxa não exigiria teste de DNA diante da promiscuidade da mulher moderna? 
Isso mesmo, os mascus. Grupos misóginos organizados defendem que todo homem deveria exigir um teste, porque pra eles não há cenário pior que criar "esperma alheio" (é assim que eles, que se dizem pró-vida, se referem a bebês). 
Então: não dá pra concordar com um grupo misógino, dá?
Tem que entender o contexto. Durante séculos, nossos antepassados viveram numa boa, sem patriarcado. Toda aquela narrativa que lemos e ouvimos sobre homens das cavernas é mentira. Sabe aquilo do Piteco, dos Flintstones, do neandertal que dá um porrete na cabeça de uma mulher e a leva inconsciente pra caverna? Tudo besteira. 
A gente provavelmente não estaria conversando agora se esse costume de bater com uma clava na cabeça de alguém tivesse existido, se apenas metade da população saísse pra encontrar comida, enquanto a outra metade ficasse decorando caverninhas. 
Não havia machismo na era pré-histórica. Ninguém sabia ao certo como um bebê ia parar na barriga da mãe. Claro, o pessoal sabia que só a mulher engravidava e paria, mas a participação do homem nesse processo todo era uma incógnita. E por isso o homem não era visto como o bambambam do pedaço. Ninguém era propriedade de ninguém. Os filhos eram criados coletivamente. 
Só com a agricultura é que as pessoas começaram a observar que os animais copulavam, a fêmea engravidava, e meses depois nascia um filhote. E aí passaram a compreender que com o bicho humano também era assim. E tudo mudou. Porque o homem quis se certificar que aquele filho era seu mesmo. E esse controle passou a reger os relacionamentos. A mulher tinha que ser vigiada para garantir que a cria (que deixou de ser dela e passou a ser dele) fosse dele mesmo. E punida se não fosse.
Em linhas bem gerais, podemos dizer que o patriarcado começou com essa descoberta, com esse controle que, não por coincidência, veio com a noção da propriedade. Como já disse Simone de Beauvoir: "Quando o homem se tornou dono da terra, alegou também a propriedade sobre a mulher". Por isso que sim, ficar paranoico pela paternidade de uma criança é uma prática machista adotada há milênios.
Todos os anos, milhões de casais engravidam e têm filho sem planejar. Enquanto o aborto é criminalizado no Brasil para a mulher, para o homem ele é liberado: basta que ele diga que não é o pai, que não acredita na parceira, que não tem nada com isso. Ele pode sumir e deixar que a mulher (que, de maneira geral, já ganha 30% a menos que o homem) arque com toda a responsabilidade e todas as despesas sozinha. Só isso já coloca em posição de vulnerabilidade e desvantagem milhões de bebês que nascem sem o apoio de um dos dois que fizeram o filho. 
Testes de DNA são pedidos sim, mas sabe por quem? Quase sempre não pelo cara que duvida da paternidade, mas pela mulher que quer que o pai da criança pague pensão -- não para ela, mas para a criança. Programas sensacionalistas de TV vivem de humilhar pessoas que não têm como pagar um teste de DNA. Em troca da exposição, a emissora paga o teste (que custa no mínimo 300 reais, o que para pessoas pobres é um dinheirão). Quem vê Ratinho (essa desgraça existe ainda?) sabe que quase sempre o teste comprova: a criança é mesmo filha daquele sujeito que a mulher apontou como pai.
Agora, só porque o homem pedir teste é machismo, só porque quase sempre quem pede é a mulher, pra obter pensão pro filho, não significa que homens não possam pedir. Eu, pessoalmente, consideraria ultrajante se meu companheiro pedisse um teste, porque significaria que ele não confia em mim. 
Sei lá, acho que costumamos dar importância demais em saber quem são os pais biológicos de alguém. É clichê, sem dúvida, mas pai e mãe é quem cria. Tem muito narcisismo em querer fazer uma cópia de você mesmo. E muito controlfreakadorismo -- vou chamar assim -- em querer atestar que aquele rebento tem o seu código genético mesmo.