sábado, 4 de maio de 2013

GUEST POST: A GUERRA INVISÍVEL

Foi a Fernanda, que quer ser identificada apenas como "uma feminista do dia a dia", quem me sugeriu ver o documentário A Guerra Invisível (aqui uma breve reportagem sobre o filme, com narração em português de Portugal). 
Eu ainda não tive tempo, mas só o trailer já é assustador. No maior e mais poderoso exército da história da humanidade (há 1,5 milhão de soldados ativos nas forças armadas dos EUA), meio milhão de mulheres já foram abusadas sexualmente. Porém, apenas 8% desses casos vão a julgamento, e só 2% resultam em condenações. Ou seja, é vantajoso entrar no exército pra estuprar. E vários estupradores em série fazem isso. 
Eu não tenho o menor carinho pelo exército (de qualquer lugar, e muito menos por aquele da nação mais forte do mundo). Mas é chocante saber que estupros são cometidos impunemente. Faz pensar em quem um exército que não consegue proteger seus próprios membros pode proteger. Faz pensar se todos esses casos também não são uma forma de expulsar mulheres das forças armadas.
Na mentalidade de pessoas não muito inteligentes, o problema é fácil de resolver: é só tirar as mulheres de uma instituição que não lhes pertence. Só que isso é inconstitucional. Não pode haver mais lugares exclusivos de um só sexo. Depois que estupros de soldados homens não são incomuns (o problema não são as vítimas, são os criminosos). E outra: estupros, como sabemos, são táticas de guerra. Estupra-se pra humilhar e destruir a moral dos inimigos. E aí há um exército que usa essa tática com suas próprias integrantes. É um escândalo.
A Fernanda fala mais do filme.

O documentário A Guerra Invisível, um dos indicados ao Oscar de melhor documentário este ano e vencedor do prêmio de público em Sundance, traz depoimentos de mulheres estupradas em serviço nas forças armadas americanas. De acordo com os dados do filme, uma mulher no exército tem mais chance de ser estuprada por um colega de trabalho do que de ser morta por fogo inimigo.
São mulheres que encontram a sua voz no documentário e que narram de cara lavada as atrocidades que sofreram. Corajosas, dão voz a um problema que, como o próprio documentário mostra, é invisível. São depoimentos crus, fortes e carregados de realidade. Uma delas conta sua guerra particular para receber o auxílio médico de que precisa para tratar seu maxilar deslocado durante o estupro. Como não há processo, o seguro social não aceita seus pedidos. Como consequência, ela vive há anos em dieta pastosa e com dor. 
Outra mulher conta como é difícil se convencer de que ainda é virgem após o estupro. Há casos em unidades de elite, no exército, na marinha e na aeronáutica, em diversos locais e hierarquias. Trata-se de uma guerra, e não uma batalha. O filme aborda também o caso de homens violentados em serviço. 
Em determinado momento do documentário, é mostrada a busca de um grupo de mulheres que sofreram abuso para entrar com um processo junto ao Congresso (é necessário entender um pouco mais do complicado sistema jurídico americano, o que me falta) para que os crimes sexuais sejam julgados na instância civil. Casos criminais ocorridos dentro do exército são julgados em instância militar, ou seja, muitas vezes o próprio estuprador é responsável pela investigação da denúncia. 
Além disso, a lei americana diz que o Estado e o exército não podem ser processados por danos colaterais causados enquanto em serviço (o exemplo do próprio filme para explicar é "se um médico amputa a perna errada de um soldado ferido em serviço, não pode haver processo"). O objetivo do grupo de mulheres era subverter esse status quo para os crimes sexuais, para que eles fossem tratados como são pela sociedade civil. Ao fim do processo, os estupros foram considerados danos colaterais de se estar no exército e não puderam ser revisados externamente. 
O que essa resolução diz é “Se você quer entrar no exército, saiba que corre o risco de ser estuprada e nós, sociedade, não podemos fazer nada quanto a isso, já que é uma questão do exército”. Isso acompanha o pensamento implícito das campanhas de prevenção contra estupro do exército americano: não ande sozinha por aí, aprenda a não ser estuprada. Não há qualquer evidência de que o exército se preocupe em ensinar os homens a não estuprar; pelo contrário, o filme mostra dados que indicam que o número de homens que entram no exército com processo prévio por crimes sexuais é enorme.   
Deixo de lado, assim como o filme o faz, as ressalvas ao exército americano (ou a todos os exércitos, pois ganhamos mais com o “faça amor, não faça guerra”) e à política bélica americana, mas é possível direcionar o nosso olhar para a história dessas mulheres que entraram no exército em busca de realização profissional e pessoal e foram violentadas pelo mesmo simples e descompensado fato de sempre: são mulheres e estão lá.
Não podemos imaginar que os dados ou fatos do filme são uma novidade: trata-se de um microcosmo potencializado do problema que observamos na sociedade como um todo. Se no filme os casos de estupro são investigados e julgados pelos próprios estupradores ou amigos deles, na sociedade civil a cultura do estupro trata do estupro nas mesmas condições, de forma mais velada e indireta. 
Proporcionalmente, os casos de estupro não denunciados por medo ou vergonha no exército e fora dele são semelhantes. As represálias e ofensas que as entrevistadas contam são as mesmas que muitas vezes já lemos aqui mesmo no blog da Lola. As meninas aqui fora também são ensinadas a não andar sozinhas, a escolher bem suas roupas, a não beber demais para não serem estupradas. O sentimento de culpa, a impunidade, a revolta são os mesmos.
O grande mérito do documentário e o porquê de todxs nós devemos assisti-lo é que há voz. Essas mulheres estupradas no exército (ou pelo exército?) tiveram a coragem de falar e merecem ser ouvidas. Ao final do filme, há um breve texto contando como, após a exibição do documentário a autoridades governamentais e do exército, houve uma tentativa de mudança nas políticas em relação ao estupro. 
Nada é garantido, mas é um começo. Mais do que isso, talvez a voz dessas mulheres inspire outras a contar também as suas histórias. Não se calar, denunciar sempre, é importante para subvertermos a lógica do estupro. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

"O CASAMENTO É ONDE MENOS SE FAZ SEXO"


Esta é a segunda parte que a psicanalista, escritora e feminista Regina Navarro Lins concedeu a este blog. (Re)leia a primeira!

No que se refere a costumes e relacionamentos, quais são algumas coisas que você acha que ainda veremos antes de morrer, dentro de 30, 50 anos?

O amor é uma construção social; em cada período da História se apresenta de uma forma. O amor romântico, pelo qual quase todos anseiam, dá sinais, felizmente, de estar saindo de cena. A busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos; nunca homens e mulheres se aventuraram com tanta coragem em busca de novas descobertas, só que, desta vez, para dentro de si mesmos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver seu potencial.
O amor romântico propõe o oposto disso, na medida em que prega a fusão de duas pessoas, os dois se transformarem num só.  Ele então começa a deixar de ser sedutor. Um amor baseado na amizade e no companheirismo está surgindo. Haverá menos idealização e você vai poder perceber melhor o outro. O amor romântico, no qual um só tem olhos para o outro, está saindo de cena e levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Sem a ideia de encontrar alguém que te complete, abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com a possibilidade de se amar mais de uma pessoa de cada vez. 

E como fica o casamento?

Acredito que, mesmo hoje, um casamento pode ser ótimo. Mas para isso as pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam a respeito da vida a dois, como a ideia de que os dois vão se completar, nada mais lhes faltando; a crença de que o outro não pode ter nenhum interesse em que o amado não faça parte; o controle do outro, o pacto de exclusividade que impede a pessoa de transar com alguém fora da relação.
O futuro do amor exige mais que nos livremos do passado do que nos acostumemos com o novo presente. Afinal, seremos mais livres para as nossas fantasias e viveremos sem culpas. 
É provável que o modelo de casamento que conhecemos seja radicalmente modificado. A cobrança de exclusividade sexual deve deixar de existir. Acredito que, daqui a algumas décadas, menos pessoas estarão dispostas a se fechar numa relação a dois e se tornará comum ter relações estáveis com várias pessoas ao mesmo tempo, escolhendo-as pelas afinidades.  Não será surpresa se as pessoas vierem a ter um parceiro predileto para o sexo, outro para viajar, outro para a vida cultural. A ideia de que um parceiro único deva satisfazer todos os aspectos da vida pode vir a se tornar coisa do passado.  

E o backlash, também não é muito forte? Os conservadores e reacionários têm como ganhar e brecar as mudanças, ou é só uma questão de tempo?

A reação esperada ao movimento feminista aconteceu na década de 80. A mídia divulgou alarmantes sinais de que as mulheres haviam perdido muito com sua revolta contra a histórica opressão masculina. Havia até psicólogos dizendo que as mulheres executivas eram infelizes. Mas o que o movimento feminista proporcionou de positivo para as mulheres e homens não tem volta. A partir da pílula, na década de 60, o sistema patriarcal -– calcado no controle da fecundidade da mulher, afinal, as mulheres tinham 15, 20 filhos, tantos quanto os homens desejassem -– começou a desmoronar. As fronteiras entre o masculino e feminino estão se dissolvendo, e acredito que isso seja pré-requisito para uma sociedade de parceria entre homens e mulheres. 

Não temos dúvida que machistas são os piores amantes: eles são egoístas, centrados no seu próprio prazer, e associam sexo somente à penetração e ejaculação. Tem como um cara melhorar na cama sem deixar de ser machista? E o que uma mulher pode fazer pra abrir sua cabeça?

Os homens que já se livraram do mito da masculinidade -– força, sucesso, poder –- estão podendo se relacionar bem melhor com as mulheres. Ir para o sexo com o objetivo de obter e proporcionar prazer deveria ser o objetivo de todos. O machismo também é prejudicial ao homem. 
No momento atual, estamos em pleno processo de transformação no que diz respeito à valorização do machão. Já é possível sentir sinais do desprestígio dele. No entanto, a mudança das mentalidades demora algumas vezes mais de cem anos para se concretizar, mas isso não importa, desde que se abra um espaço definitivo para a autonomia de homens e mulheres.

Geralmente é a mulher que pede o divórcio, e sabemos que muitas vezes isso acontece por incompatibilidade sexual. Parece que as mulheres enjoam mais rápido do parceiro. Por que você acha que isso acontece? Tem como ser evitado?

O casamento é onde menos se faz sexo. Não é necessário dizer que existem exceções, e que em alguns casais o desejo sexual continua existindo após décadas de convívio. Mas não podemos tomar a minoria como padrão. 
Mesmo que os dois se gostem, a rotina, a excessiva intimidade e a falta de mistério acabam com qualquer emoção. Busca-se muito mais segurança que prazer. Para se sentirem seguras, as pessoas exigem fidelidade, o que sem dúvida é limitador e também responsável pela falta de desejo. A certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, por eliminar a sedução e a conquista. 
Para cada homem que perde o tesão pela mulher há quatro mulheres que perdem pelo marido. Podemos pensar em três fatores para explicar essa diferença: na cultura patriarcal os homens são incentivados a fazer sexo desde 12, 13 anos, e com qualquer mulher; a excitação do homem é bem mais rápida, a mulher precisa de muito mais preliminares; ele expulsa o sêmen, e a mulher tem que desejar ser penetrada. 
Isso pode ser evitado sim. Mas para isso é preciso que se mude o conceito que se tem do casamento monogâmico. 

Esses devem ser os pontos mais polêmicos que você defende: o fim da monogamia, da exclusividade sexual, do ciúme, do conceito da traição e da infidelidade. Por que as pessoas ainda não estão prontas pra sequer pensar nesses assuntos sem se sentirem ofendidas?

Muitos me dizem que nossa sociedade não está pronta para as tendências que aponto. Aí peço para que façam uma viagem aos anos 50 ou 60. Se naquela época alguém dissesse “Dentro de algumas décadas, será comum as moças não se casarem virgens”, diriam que a pessoa estava louca, porque a virgindade tinha grande valor. A maioria dos homens não se casaria com uma moça que tivesse tido alguma experiência sexual. O mesmo ocorria em relação à separação. Ninguém poderia aceitar a ideia de que a separação se tornaria tão comum, afinal, era considerada uma tragédia familiar.
As pessoas não estão prontas para admitir novas formas de pensar e viver, porque a mudança das mentalidades é lenta e gradual. Estamos no meio do processo.
A grande preocupação das pessoas é quanto à exclusividade do parceirx. Entretanto, quando a “fidelidade” não é natural nem a renúncia gratuita, o preço se torna muito alto e pode inviabilizar a própria relação. Ninguém deveria se preocupar se o parceiro transa ou não com outra pessoa. Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas: 1. Sinto-me amadx?; 2. Sinto-me desejadx? Se a resposta for Sim para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Não tenho dúvida de que é uma forma bem mais inteligente de se viver. 

Terceira e última parte da entrevista aqui.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

GUEST POST: A PRIMEIRA VEZ FOI COM UM ESTUPRADOR

A S. me enviou este relato terrível, terrível. Não sei nem o que dizer, além de que o sujeito que a estuprou é um estuprador em série (alguma dúvida que ele fez isso outras vezes?), e creio que ele sabe disso. Devemos lutar e denunciar sempre. O fato de toda sobrevivente de estupro sentir-se culpada diz muito sobre a educação que recebemos e a cultura em que vivemos.

Saúdo você com alegria, mas venho, como outras, relatar mais um triste caso de estupro. O meu.
O ano é 1990.
Sou bem nascida, bem criada, tida como uma moça bem mais bonita que a média.
Tinha 18 anos e viajei de férias para a cidade onde moram meus primos.
Cheguei lá, me senti livre de todas as amarras que me prendiam aqui na metrópole. Livre dos olhares censores dos meus pais. Passando férias apenas com primos tão jovens quanto eu, achei que poderia fazer qualquer coisa.
Num domingo, fomos ao clube. De longe, eu o vi. Era lindo, loiro de olhos verdes. Tinha 24 anos e eu, como já disse, 18. Trocamos olhares e eu fiquei a fim dele. De cara.
Mergulhei na piscina e ele me seguiu. Quando se ergueu debaixo d’água, veio direto me beijar. Ficamos naquele domingo e eu gostei. Combinamos de nos ver no sábado seguinte.
Chegando o sábado, nos encontramos às 11 horas, numa dessas barracas de praia. Ele me disse que morava ali perto e que era mergulhador. Me convenceu a ir à casa dele ver umas fotos de mergulho. Lá chegando, percebi que ele tentou esconder minha chegada da avó e da empregada. Fomos ao quarto dele.
Eu, repito, queria beijá-lo, ficar com ele, viver um amor de verão e, ingenuamente, ver as tais fotos. Mas, como eu era virgem, não vislumbrei nenhuma possibilidade de sexo. Sexo para mim dependeria de um relacionamento estável com alguém que eu confiasse, o que não era o caso.
De repente, enquanto me mostrava coisas pessoais, como cds, livros ou sei lá mais o quê, ele saiu do quarto. Voltou logo em seguida, trancou a porta do quarto e se transformou. Aumentou o som. Me arrastou até a cama. Disse para eu ficar quieta e não fazer barulho.
Tirou minha canga e meu biquíni à força, tampou minha boca com as mãos para eu não gritar. Subiu em cima de mim e me violentou até ficar satisfeito, sem qualquer cuidado com a minha dor. Eu tive medo. Não gritei, fiquei estática. Não dei um pio. O rapaz não recuou, e eu tenho certeza de que percebeu que eu não estava gostando.
Depois, me obrigou a tomar um banho, escondida da família dele. Saímos andando e voltamos a pé à praia.
Ele fez um discurso de arrependimento. Afirmou que uma moça que entra no quarto de um cara quer sexo. Que ele só "agiu como homem”, porque “achou que eu queria”. Também afirmou que só acreditou que eu era mesmo virgem quando percebeu o sangramento.
Eu fiquei calada, até meus primos retornarem para me buscar, às 14 horas, horário combinado.
No dia seguinte, por puro azar, eu o encontrei em outra praia. Ele já estava com outra moça e passou a tarde com ela, se amassando na minha frente, o que me fez sentir um inimaginável nojo de mim mesma.
Na época, eu tinha uma paquera onde morava. Quando voltei, contei a ele, que disse que não queria mais saber de mim, porque eu não era mais virgem. Desesperada e tomada pela culpa, acreditando que tudo não passou de um erro meu, acabei fazendo sexo com esse cara, como se fosse um pedido de perdão. Uma obrigação, porque afinal, nas palavras dele: “Regulei tanto e acabei perdendo minha virgindade a troco de banana”. 
Ainda era adolescente e, perdida, comentei com algumas pessoas. Umas tentaram minimizar a gravidade do caso, outras passaram a me rotular como  problemática. Hoje as pessoas que convivem comigo não fazem ideia de que passei por isso.
A lembrança desse estupro devastou minha juventude, minha fé na humanidade, minha alegria de viver. De verdade. Chorei compulsivamente. Me desvalorizei a vida inteira. Sei que eu teria voado voos muito mais altos se isso não tivesse acontecido.
Nenhuma palavra descreve a devastação que um estupro causa na autoestima de uma pessoa. Só eu e as que passaram por isso podem dizer. Você se arrasta por meses, as lembranças voltam, você tem pesadelos, sentimentos de autopunição e vingança. Você até tenta amar o homem que te estuprou para purgar a dor. Imagina um romance reparatório das suas lembranças. Tudo o que te acontece de ruim imediatamente remete àquelas imagens gravadas em sua mente. Você fica frágil, vulnerável, hiper sensível às palavras dos outros.
A sensação é de andar nua na rua, com uma multidão em volta de você, que não te enxerga, enquanto você está sangrando.
Passei anos me julgando, analisando se eu de fato dei motivos, se eu não estava excitada e o deixei fazer o que eu já queria há muito tempo. Me convenci que não. Eu tinha o direito de não querer, nem que fosse no último segundo, e ele tinha o dever de não me obrigar.
Dois anos depois, vivi uma outra tentativa de estupro, em outras circunstâncias totalmente diferentes. Esse estupro não se concretizou exatamente porque eu, ainda que estivesse um pouco bêbada, me recusei a passar por todo o processo de novo. Dessa vez lutei, mordi, gritei. Experiente afinal, pensei: “Ele só vai conseguir se me matar!”
Hoje não lembro com exatidão do pavor do futuro que senti naquele dia de 1990. 
Tenho 41 anos. Me casei, me separei e tenho um filho pequeno. Afirmo que gosto de sexo. Porém, tenho problemas incríveis para me relacionar e confiar no outro. E ainda choro de pena de mim quando, como agora, enquanto digito este email, me lembro de que eu era apenas uma menina.
Deixo o meu relato a você, torcendo para que, de alguma forma, ele possa ajudar outras mulheres a não sentirem a dor que eu senti. E ainda sinto.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

CUIDADO COM PROFESSOR BOÇAL E PEGADOR

Um bom apontador aponta muitos lápis

Já vou avisando que o post que segue não tem relação alguma com o caso do pobre professor Marcelo, de Joinville, que paquerou (ou foi paquerado por) uma aluna no Facebook e foi parar nos Trending Topics do Twitter, tadinho. Sério mesmo, não tenho informações para chamar Marcelo de boçal ou pegador. 
Aliás, não entendi o auê. Parece que nunca na história da humanidade alguém traiu antes. A paquera entre Marcelo e Maria Helena não teve nada de mais. Espero que ambos processem o namorado dela, que pegou sua senha no FB e expôs a conversa. Isso é violação de privacidade, que é crime. Adultério não é crime. E adultério nem se aplica a namoro. Se se sentiu tão ofendido, o namorado deveria apenas ter terminado com ela. Não é preciso punir ninguém. 
Enfim, este caso que publico abaixo é bem diferente, apesar de também envolver um professor universitário, uma aluna, e sexo. Foi a G. me mandou este relato, semanas atrás. Respondo no final.


Olá, Lolinha. Primeiramente gostaria de agradecê-la pelo blog e por todo o serviço que presta à humanidade por meio dele. Devo a você meu atual estado emocional estável, o que seria impossível sem tudo que aprendi com seus posts. É engraçado isso de que uma pessoa pode fazer uma diferença imensurável na vida de várias outras sem nem mesmo saber. Agradeço, ainda sim, e acho que nunca será o suficiente.
Enfim, queria compartilhar minha história com você. Tenho 19 anos e estou no começo do curso de psicologia numa faculdade particular. Um dos fatores incomuns a respeito de mim é a chave dessa história: gosto de professores. Muito. Desde que me lembro de existir, tenho essa "tara". Alguns dizem que é "carência de autoridade", outros "daddy issues" (aliás, quase nada machista isso de dizer que mulher que curte cara mais velho é porque tem problema com o pai, né?), o fato é que me encantam e não vejo sinal de que isso vai mudar. 
E lá estava eu, caloura, quando um dito senhor me chama a atenção. Perto dos cinquenta, lindíssimo, esquerdista, ateu, se dizia anti-machismo, adorava conversar sobre política. Andava sempre perto dxs alunxs. Não dava aula pro meu curso, é formado em história e aquela era uma cadeira neutra que ocasionalmente parou na mão dele. Não vi motivos pra não me aproximar.
Conversava com ele no final da aula, junto com outrxs alunxs. 
Quem não ficaria?
Até que um dia o inevitável aconteceu: fiquei sozinha com o dito cujo. Perguntei: "Como lida com o assédio das alunas?", ao que ele me conta que namorou uma aluna por dois anos, mas estava sozinho há meses. Quatro informações contidas numa única: 1) era heterossexual, 2) estava disponível, 3) procurava namorar, e 4) estava disponível e procurava namorar alunas. Perguntei: "Mas... você não deixou de ficar com alunas, certo?" Não, claro que não. "Que bom!", respondi. Indireta direta. Lembro de ele ter elogiado meus olhos. 
Fui pra casa, dormi e acordei de madrugada. Milhões de mensagens no facebook. Declarações, músicas. "Apaixonado", ele se dizia. Não acreditei, óbvio, mas isso não me impediu de sair e transar com ele alguns dias depois. Apesar dessa apelação, que que eu julgava ser só apelação, ele me parecia uma pessoa muito interessante, sem mencionar os atributos físicos, a voz... 
E aí tudo começou a fazer sentido. No motel mesmo, onde ele insistiu pra que rolasse sem camisinha, ouvi que "feminismo era a desculpa de fuga da mulher moderna", "bissexualidade não existe, ou era sapata ou uma mentirosa", "terapia é charlatanismo" e umas quinhentas horas de homexplicanismo. Fui embora de manhã com a PERFEITA expressão do meme "Oh, God, Why?!" 
Nem preciso dizer que ele sumiu. Tentei conversar (crucifique-me, o sexo foi sublime, melhor que chocolate derretido), ele foi extremamente monossilábico, quando respondia. Conversei com uma amiga que foi aluna dele em algumas disciplinas e qual não foi minha surpresa (só que não) quando ela me diz: "Fulano?! Fulano é o típico professor comedor!". E desenvolveu o conceito pra mim.
Indiana Jones
"Professores comedores", nas palavras dessa amiga, são senhores de meia idade que relacionam o conceito de "aluna" diretamente com "trepada em potencial". Disse essa minha amiga que muito sabia deste distinto senhor: ele costumava fingir que estava apaixonado, "comia" (nas palavras de ambos) e sumia. Dos alunos homens, era o melhor amigo. Fazia comentários nojentos sobre as "tetinhas" das colegas deles, ensinava a dizer que tinha namorado uma aluna (porque isso sempre funcionava), contava as que já tinha "conseguido comer", com detalhes ("ele disse pro fulano que a fulana gemia quando ele colocava o dedo lá, por que você acha que todo mundo chama ela de vadia?"), dizia que mulher, se não fosse sapatão, ele "passava o p**", "mulher foi inventada pra f***, quem não o fizer, outro fará", que "amiga" e "aluna", se não fosse trepável, não valia nem a conversa... entre outras peripécias do jovem senhor. 
Minha cara? No chão, nos lençóis freáticos. E eu que cheguei a cogitar a hipótese dessa criatura ser feminista, Dolores! Simoninha sambou na minha cara em algum lugar do além.
Com o tempo acabaram me contando que ele é muito próximo do reitor e que, sim, esse comportamento é escancarado dentro da faculdade, perante os alunos. E que a preferência dele é por meninas de 18/19, "quanto menos usada, melhor". 

Sabe qual é o melhor dessa história? Eu também virei vadia. Eu, várias meninas do outro curso, umas duas colegas minhas: vadias. NÓS chamamos ele, NÓS "fingimos cair no papo furado dele", NÓS queríamos transar de novo, NÓS deixamos ele chegar perto. É o que dizem, é o que eu ouço, Lola. E aí te digo: eu, feminista, esclarecida, forte. E alguma menina com baixa autoestima, perdida?! Feliz por um professor bonitão que diz que ela é exclusiva, linda, que tá apaixonado -- e algumas semanas depois, tá contando detalhes da intimidade dela em tom de escárnio pros COLEGAS da menina, que não hesitarão em jogar na cara dela o quanto tudo isso era óbvio e ela foi burra. Me machuca pensar no estado que deve ficar o emocional de uma pessoa que se encaixa nessas características.
Será que tá errado? Será que alguém tem culpa? Será que esse -- perdoem o meu francês -- B*STA leva a culpa quando um dedo estranho é apontado pra cara de uma dessas garotas e ela ouve: "VADIA!"? Não, Lola. A culpa é dele, é de quem levantou o dedo, é da falta de sororidade das meninas que riem, é dessa cultura que ensina que homem gostar de mulher mais nova/dizer que mulher só serve pra comer/escratinar as meninas que ilude em público é louvável, é bonito, é STATUS. E isso me enoja, cada dia mais. Cada vez que escuto que mereci, que as outras meninas mereceram, que a faculdade nada faz, que ele não é o único, perco um pouco da fé na humanidade. 
Última vez que ouvi falar dele, me contaram que uma menina se apaixonou e mandou a música "Dear John", da Taylor Swift, por mensagem. Ele riu e disse que não ia ouvir música de "loirinha americana fascista". Fui procurar a letra e concordei com o "Don't you think I was too young to be messed with?" (você não acha que eu era jovem demais pra me ferir?), mas chorei por todas nós mulheres DE VERDADE quando percebi que é bem provável que essa garota olhe pra si mesma no espelho e se culpe quando Taylor canta, cheia de pesar, num tom de óbvio ululante: "I should have known" (eu deveria ter sabido).


Minha resposta: Querida G, obrigada pelo relato, muito bem escrito e, apesar dos pesares, divertido. Antes de mais nada, por favor, ME DIGA que vc não topou transar sem camisinha! [G me respondeu: não topou, graças! Quando ela exigiu camisinha, ele disse que não tinha. Ela tinha].
Bom, linda, eu não concordo muito com a sua tara não. Não acho legal se envolver com gente que está numa posição hierárquica superior a sua. Mas essa é só a minha opinião. Conheço muito professor que se envolveu com aluna, e o relacionamento durou um tempão, deu certo e tal (professora se envolver com aluno é beeem mais raro). Mas se ainda por cima ele não era seu professor... Vocês são duas pessoas livres e descomprometidas.
Pelo que você narra, o cara não é flor que se cheire, pelas ideias misóginas, por contar pros alunos amiguinhos com quem transou, com detalhes, por não querer usar camisinha (!), por mentir. E, de fato, não há muito que pode ser feito, há? É incrível que exista toda uma rede de machismo feita pra condenar mulheres sexualmente ativas. É como vc disse: vc que procurou, vc quis transar, desde quando vc é vadia? Enquanto isso, esse mesmo senhor deve ser o ídolo dos alunos por pegar tanta garota. Não dá pra entender esse padrão duplo.
Estou no aguardo do próximo carinha que disser "homem é como uma chave, mulher, como uma fechadura. Uma chave que pode abrir qualquer fechadura é incrível, mas uma fechadura que pode ser aberta por qualquer chave é inútil". Porque uma leitora deu uma resposta tão lógica quanto: "homens são lápis, mulheres são apontadores. Um apontador que aponta vários lápis é um ótimo apontador, mas um lápis apontado muitas vezes gasta e precisa ser jogado fora". Não, sério, gostaria que alguém me explicasse por que uma mulher que transa com quem quiser é vadia, e um homem que transa com quem quiser é um super garanhão pica das galáxias pronto pra ser invejado, imitado e homenageado em altar.
Acho que o melhor que vcs alunas podem fazer é também ter uma rede eficaz de fofocas. Pelo jeito, a dos homens da sua faculdade é bem eficiente. Praticamente uma fraternidade, que gracinha. Mas vcs também precisam conversar umas com as outras e avisar as alunas que estiverem a fim do professor no que elas estão se metendo. A saber: que 1) ele é um preconceituoso bem asquerosinho, 2) talvez a aparência grisalha e bonita não compense ter que aturar um discurso arcaico, 3) ele conta aquela mentira que namorou uma aluna pra todas, 4) ele vai se dizer apaixonado, 
5) ele vai pedir pra transar sem camisinha (não é pra deixar nem que o mundo esteja sendo ameaçado por um meteoro e haja a certeza da extinção da espécie humana já no dia seguinte), 6) imediatamente após o sexo ele se transformará numa estátua de sal e sumirá, 7) ele vai contar pra todos os alunos (e talvez pros professores e diretores da faculdade também) que transou com vc, nos mínimos detalhes, 8) vc automaticamente virará uma vadia depois de apenas uma transa. Vale a pena? Minha opinião é: não. Não mesmo. Não, nem que ele seja um professor lindão como alguns que eu conheço não biblicamente.
Se você tivesse sabido de tudo isso antes, se interessaria por ele? Quero acreditar que a ampla maioria das alunas também vai fugir do idiota. O também foi por minha conta.

Mas não chore. Não quero ver ninguém chorando. Levante a cabeça e diga um belo de um f*da-se pra quem acha que vc é vadia porque você é uma mulher que faz sexo, e ainda por cima gosta. Somos todas vadias então. Mas sabe o boçal que nos chama de vadia? Esse não merece transar conosco. Simples assim.