terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A INCRÍVEL DIRETORA QUE SAIU DA MATRIX

Quando vi Matrix pela primeira vez, no cinema, em 99, gostei bastante, mas não amei. Foi preciso ver o filme (e estou falando só do primeiro) mais duas vezes para passar a considerá-lo sensacional. Continua sendo minha opinião até hoje, mesmo que as duas sequências sejam bem fraquinhas.
Um pouquinho depois, li um texto muito divertido na internet, texto que continua lá, passada uma década. É de um professor americano que diz que Matrix é o filme mais gay (no bom sentido, não no sentido que se fala hoje, "isso é tão gay") já feito. Vou citar alguns dos exemplos que ele usa para nos convencer. Morpheus, um homem experiente, encontra Neo pela internet e lhe manda um email declarando: “Estive procurando por você minha vida inteira. Você é o escolhido”. Em seguida, Morpheus lhe dá uma pílula e adverte: “Ao ir por este buraco, você não poderá voltar mais”. A próxima coisa que observamos é Neo acordar nu, depilado e pegajoso, e reclamando de dor nos músculos que ele nunca usara antes.
Segundo o autor do artigo, a mais homossexual das cenas ocorre quando um assistente de Morpheus revela a Neo que está “realmente ansioso pra ver do que você é capaz”. Neo é colocado num programa de treinamento onde Morpheus lhe instrui a ir “mais rápido, mais rápido, mais rápido”. O alegre assistente, entusiasmado com a performance de Neo, conta a todos: “Dez horas seguidas! Ele é uma máquina!”
Fora o fato do pessoal usar roupas justas de couro e frequentar raves.
Na época do lançamento do filme, uma seita religiosa que havia se apossado da escola de inglês onde eu dava aula e era coordenadora acadêmica adotou Matrix como seu filme de cabeceira. Como a seita era homofóbica, passei o artigo sobre “gayest film ever” pra alguns membros, que desprezaram a análise, afirmando que tal coisa poderia ser dita de qualquer filme.
E eis que, um tempinho depois de começar o blog, fico conhecendo um outro grupo machista, homofóbico e conservador que também vê Matrix como seu pastor e nada lhes faltará. Sim, os mascus. Pra eles, todos os homens do mundo vivem numa matrix em que são eternamente enganados pelas mulheres. O mundo atual, ou seja, a matrix, lhes ensina que mulheres são seres angelicais que devem ser amados acima de todas as coisas (aham, sim, é exatamente assim que a nossa sociedade trata as mulheres!). Mas eles, mascus, tomaram a pílula vermelha e agora podem ver a luz e enxergar as mulheres como elas realmente são -– monstros que só querem sugar sua energia e serem sustentados por eles, porque no universo paralelo mascu nenhuma mulher trabalha e toda mulher quer aplicar o golpe da barriga
Claro que qualquer pessoa que já leu mais de cinco tópicos num fórum mascu percebe que não existe ninguém mais enfiado na matrix que os mascus. Eles criaram universo alternativo para se sentir mais confortáveis. Um universo em que todas as mulheres (até suas próprias mães) são vadias e em que todos os homens que não sejam a meia dúzia de guerreiros da real são fracos, frouxos e burros (e aí eles chamam as feministas de misândricas!). Pra mim, mascus são aqueles que não conseguem parar de olhar pra mulher de vermelho em Matrix.
Assim como todo filme inteligente, Matrix pode ser interpretado de diversas maneiras. Mas eu acho tão estranho que grupos de direita se identifiquem com a história! Quer dizer, o filme termina com uma música que fala de direitos civis, de derrubar o sistema e combater o poder, e os mascus interpretam esse poder como o poder da vagina? Só eles mesmo. E obviamente não sou só eu que leio Matrix como uma luta da esquerda. O filósofo Slavoj Zizek, seguramente de esquerda, deu o título de Bem-Vindos ao Deserto do Real (uma citação do filme) a seu livro sobre as reações ao 11 de Setembro.
Enfim. Será que os mascus sabem que o diretor do seu filme preferido é uma mulher?
Certo, a trilogia foi dirigida pelos “irmãos Wachowski”, Andy e Larry, que sempre foram muito discretos em suas vidas pessoais. Tanto que eles exigiam acordo com o estúdio de não ter que dar entrevistas no lançamento dos filmes, o que é uma obrigação contratual de todos os astros.
Agora em julho, Larry se assumiu Lana publicamente. E ela é um exemplo. Nunca nenhum diretor ou diretora de Hollywood se assumiu transgênero.
Antes de se transformar em Lana, Larry teve um divórcio tumultuado com sua primeira mulher, que o acusou de ter sido desonesto em sua vida particular. Só pra constar: a primeira mulher de Larry era mulher, e a mulher atual de Lana é mulher. Lana sempre se sentiu atraída por mulheres. Só que antes ela era vista como hétero, e hoje é vista como lésbica.
Lana não é apenas um exemplo para a comunidade LGBT, mas para todas as pessoas que enfrentaram as camisas de força da socieade para poderem enfim ser quem elas quiserem. No seu discurso de agradecimento para o prêmio de visibilidade da campanha por direitos humanos, Lana explicou que não gosta do termo transição porque implica numa oposição binária de gênero.
Ela se lembra quando estudava em escola católica, e tinha que usar uniforme. Meninos e meninas precisavam ficar em filas diferentes. Lana era criança e queria ficar na fila das meninas, mas sabia que suas roupas não combinavam. Também sabia que não pertencia à outra fila, então ela permanecia parada no meio, entre as duas filas (professorxs: que tal abolir filas para meninas e meninos?).
Quando era adolescente, frustrada com seu corpo, Lana tentou o suicídio. Ela sobreviveu e agora está prestes a lançar A Viagem (Cloud Atlas -- veja o trailer legendado), novo e elogiadíssimo filme co-dirigido por ela, seu irmão, e o alemão Tom Tykwer, diretor do cult Corra Lola Corra (que inspirou o nome deste bloguinho).
Já tem dez anos que Lana saiu do armário para a família. Quando contou pra sua mãe, ela –- a mãe -– reagiu como todo ser humano inteligente deveria reagir. Em vez de encarar a transição de sua filha, então filho, como uma morte, ela viu como um novo lado de seu rebento. Encarou aquilo como um presente, porque agora teria acesso a uma nova parte que não precisaria mais ficar escondida. Logo depois da revelação, as duas foram a uma lanchonete. Lana estava preocupada com a reação de estranhos, como se essa reação pudesse negar toda sua existência. E a mãe apresentou-se à garçonete, e disse, “Essa é minha filha, Lana”. E a garçonete respondeu: “Puxa, ela é igual a você!”.
Quando seu pai chegou, ele disse: “O que importa é que você está viva, está feliz, e que eu posso abraçar e beijar você”. Para Lana, ter ótimos pais é como ganhar na loteria –- algo que você não fez nada pra ter, mas foi premiada mesmo assim. Ela sempre quis ser uma escritora, uma cineasta. Mas, como não havia ninguém como ela, ela pensava que seu sonho estava encerrado, devido a seu gênero ser menos típico que os outros.
Tem coisas, diz ela, no final do seu discurso, que você não faz pra si. Faz para os outros. “Se eu puder ser essa pessoa para mais alguém, o sacrifício da minha vida privada terá tido valor”.   
Parabéns, Lana! Você sim conseguiu sair da matrix. Espero que nunca descubra que sua obra é usada por grupos de ódio. Seria um desgosto muito grande.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

"COMO ASSUMIR MEU FEMINISMO?"

Bordado: "Desculpas por irritar alguns de vcs. Toda sua cultura me irrita"

A Carla me enviou este email:

Admiro bastante seu trabalho; tanto o seu como o de feministas ativas, como a Cynthia Semíramis.
Gostaria de fazer um desabafo e também alguns questionamentos: embora a tenha admirado bastante, embora considere minhas aspirações e ideais feministas, tenho dificuldade em assumir este feminismo. O que mais admiro em você é a forma como você se coloca: como uma mulher forte, independente e corajosa. Uma mulher que não tem medo de ser rotulada, que dá a cara pra bater e ainda assim, é aceita.
Sempre acreditei que meu feminismo poderia me deixar só, sem amigos ou ser apontada na rua. Já manifestei várias vezes as minhas ideias; no serviço sempre tinha um ou outro babaca achando que vou brigar com tudo que é homem ou tentado dizer alguma asneira machista para me irritar. Por isso, boa parte das vezes, se tenho que mostrar indignação frente a algum acontecimento, mostro de uma forma mais discreta ou sequer mostro indignação. Além de não querer armar as pessoas (dar chance a elas de me irritar, a partir do momento que as deixo perceber meu ponto fraco), acredito que esta atitude seja uma fuga; tanto de não querer me aproximar das sensações desagradáveis que vem à mente quando me deparo com alguma situação machista, como a revolta pelo fato de haver uma cultura que legitima a violência e o desrespeito dos homens sobre as mulheres -- culpando as mesmas. 
Certa vez, ouvi um termo que diz tudo: o machismo "é o legítimo direito da foda masculina". Me irrita este aval que a sociedade dá, como se a mulher não fosse gente suficiente, não fosse sujeito suficiente, não fosse dona de si o suficiente; como se só pudesse existir para ser para o homem! Me irrita que até hoje as mulheres devem lutar para ter direito à uma sexualidade, à uma vida com o direito de existir, da forma que quiser, do modo que achar adequado. Me irritam as revistas femininas, sempre com a sua obssessão em agradar o homem, sempre pedindo aval, pedindo bênção, permissão -- "o que ele vai achar se você der no primeiro encontro", "como levar seu marido à loucura", "como segurar um macho com 10 cantadas infalíveis"; me irrita as mulheres avalizando sites que visivelmente as depreciam, como Manual do Cafajeste, Testosterona -- blogs que indicam como uma moça "direita", "de família", deve ser, agir ou comportar-se, para não virar "biscate", "periguete". 
Me irritam as propagandas de cerveja que fazem uso do corpo feminino, mas não as mostra como sujeito; me irrita a mulher retratada nos filmes como algúem sem iniciativa e coragem; me irrita um bufê infantil da minha cidade, que colocou em seu parque de diversões um tanque de lavar roupa e uma cozinha cor-de-rosa para as meninas brincarem; me irrita que site para homem sempre tem uma pelada, mas site para mulher sempre tem o tema "amor e sexo", com amor, claro, em primeir lugar; mais TODOS os temas de interesse feminino, como moda, saúde, beleza, casa, decoração e filhos; nada de mecânica, informática ou sexo pelo sexo, sexo para ela mesma, para dar prazer à ela mesma, sexo que seja visto de acordo com a experiência dela, com o olhar dela sobre ela mesma; me irrita que a mídia e um grande número de mulheres incentivem a gente a não ser gente por conta própria, como se o fato de a gente ser a gente por nós mesmas, seres autônomos e suficientes, fosse uma ofensa à existência masculina! Me irrita quando terceirizam o juízo de valor que uma mulher tem -- ela por ela mesma não garante seu valor -- seu valor deve ser dado por um homem e todo o seu comportamento deve ir ao encontro das expectativas dele.
Me irrita quando procuro no Google "historiadoras da história" e vejo uma porção de resultados com "historiadores", mas, o contrário, não acontece; me irrita que as mulheres se conformem com o fato de não poder dar descendência de nome a seus filhos, me irrita que eu seja "técnico" em informática; a pornografia -- e mulheres sendo estupradas, vilipendiadas e desrespeitadas nestes filmes -- me exaspera e irrita profundamente.
Como você vê Lola, estou bastante amargurada.
Como você fez para se assumir? Ou você não precisou se assumir, sempre suas ações combinaram com seu discurso? Sempre viveu suas verdades e disse dane-se aos outros? Por que acho que é isto que me falta. Acho que você fez o certo: tentou minimizar seu sofrimento frente ao machismo tornando-se atuante, agindo; acho que falta em mim a coragem de fazer o mesmo!
Parabéns e obrigada, você é uma fonte constante de inspiração.

Minha resposta: Carla, com tanta coisa pra te irritar, é meio difícil que você não seja uma feminista assumida! O que você faz com todas essas irritações? Você diz que se manifesta sobre elas de vez em quando, depedendo da ocasião e do interlocutor. É o que eu faço.
Muito, ou talvez tudo, do que te irrita também me irrita. O que eu fiz pra lidar com isso? Ahn, comecei um blog... Neste espaço eu tenho a liberdade pra escrever o que eu quiser e de dialogar com leitorxs muito inteligentes. E de ignorar trolls furiosos com as mudanças (lentas, porém constantes e inevitáveis) da sociedade. 
Mas tem situações do dia a dia que de vez em quando a gente tem que deixar passar, porque senão estará discutindo boa parte do tempo, e isso pode ser desgastante. Por exemplo, em meados de 2009, quando eu já tinha o blog havia mais de um ano, fui fazer uma disciplina num curso a distância. Mal me lembro qual a matéria, pra você ter uma ideia. Ela era oferecida em várias áreas, e eu escolhi assistir às aulas presenciais na História, pensando, com certa ingenuidade, que lá o pessoal seria menos conservador que na minha turma de Letras. Mas não. Logo na primeira aula, alunos e professor falaram inúmeras besteiras do senso comum (tipo: agora que mulher trabalha, ninguém cuida da educação dos filhos; logo, a culpa é da mulher que as crianças estejam tão malcriadas; as mulheres deveriam voltar pra casa; o mundo está perdido etc). Horrorizada, eu rebati algumas coisinhas, mas era minha primeira aula, eu estava num curso que não era o meu, e em situação excepcional, ainda por cima (o professor não era nem mestre, e eu já seria doutora no mês seguinte) -- tudo que eu queria era passar, incólume e anônima, cada matéria.
Não dá pra gente comprar todas as lutas o tempo todo. Porque é cansativo. E tem gente que tem muito orgulho de sua ignorância e não vai mudar. Imagina se eu vou tentar argumentar com um montão de babaca preconceituoso que vem ao meu Twitter me xingar! É perda de tempo. Nessas horas a tecla block é a melhor invenção da face da Terra. Seria ótimo se houvesse essa opção no mundo real.
Eu tive o privilégio de ser criada numa família liberal (apesar de também ter seus preconceitos), e de ser feminista desde que eu me conheço por gente. Tem feminista que acha que sou arrogante por falar que sou feminista desde os meus oito anos de idade, mas não posso inventar uma outra história pra mim só porque nem todas as pessoas tiveram esta minha sorte. Feminista, pra mim, nunca foi um insulto. Eu só passei a ouvir as definições que os anti-feministas dão às feministas (mal amadas, ogras, lésbicas, peludas e bigodudas etc) muito depois que eu me assumi feminista, então nunca tive conflito. 
O que fica difícil é se dizer uma coisa e agir de forma que contrarie esta definição. Sei lá, dizer que é feminista e querer ter aceitação dos machistas. Ser mais machista que os machistas, usando termos como vadia pra ofender mulheres, e, ao mesmo tempo, não querer ser associada com o atraso. Mas isso raramente acontece. Tem muita mulher (e homem) que defende direitos iguais, que acha que mulheres são tão capazes quanto homens, que quer liberdade para ser o que quiser, mas não se assume feminista porque a definição do senso comum pra feminista (e pra qualquer militante de qualquer causa que combate o senso comum) é pejorativa. Essas pessoas, a meu ver, precisam sair do armário. Eu amo gatos, e se alguém me pedir pra descrever um gato, minha descrição será toda positiva. Por que eu vou me basear na definição de quem odeia gatos pra explicar esses bichinhos maravilhosos?
Nunca perdi amigo por ser feminista, mas, claro, certamente deixei de fazer amizades com gente com quem vou antagonizar o tempo todo. Ou não. Alguns de meus amigos de infância eram, e continuam sendo, muito conservadores. Eles acham incrível que minha fase de revolta nunca passe, e eu acho incrível que eles possam passar a vida toda sem um pingo de idealismo. Discutimos, evitamos alguns assuntos, usamos muita ironia e humor, e vamos levando.
Agora, se tem gente que vai te apontar na rua por ser feminista? Nessa rua imensa que é a internet, vai ter sim. Vai ter gente que vai querer te trollar unicamente por você ser feminista. Mas, e daí? Vai ter gente querendo te trollar unicamente por você ser mulher. The movement you need is on your shoulder, já dizia Hey Jude. Dê de ombros. A maior parte das pessoas que não vai querer contato com você por causa das suas posições ideológicas é gente com quem você não ia querer contato mesmo.

domingo, 2 de dezembro de 2012

GUEST POST: MULHER E FUTEBOL MANDAM O MACHISMO PRA ESCANTEIO

Este é um guest post leve pra combater o velho clichê (brasileiro!) que mulher não entende, não gosta, não joga futebol. Luara Ramos e Camila Moreno são duas torcedoras fanáticas (Galo e Vasco, respectivamente), socialistas e feministas, como pode ser visto pelo seu blog. As duas adoram uma conversa de boteco e sabem o que e quando é impedimento (aliás, eu também sei).  

Dizem por aí que o Brasil é o país do futebol e que aqui, todo cidadão tem um pouco de técnico e comentarista. O futebol ocupa capas de jornal, horários nobres nos notíciários televisivos e é o protagonista das conversas de mesas de bar. Os intelectuais afirmam que é um esporte muito democrático, artistas cantam as plásticas do futebol e homenageiam seus times. Todo menino já jogou bola: em casa, na escola, na praia, no campo, na quadra, ainda que nunca tivesse levado muito jeito para a bola nos pés. Tem os fanáticos, os que gostam, os que nunca foram ao estádio, mas todos têm um time.
Se você é homem e leu esse parágrafo inicial, provavelmente achou tudo natural. Se é mulher, provavelmente não se sentiu incluída sequer no português. Pois é.
Acontece que o o universo do futebol é caracterizado, desde sua origem, como um espaço majoritariamente masculino. Não só no futebol como esporte, mas também nas suas manifestações culturais. A pelada é um espaço masculino, o bar depois do jogo é um espaço masculino, as discussões sobre o impedimento do final de semana são masculinas e o respeito pelas opiniões futebolísticas, também.
Mesmo se tratando do esporte mais popular do Brasil, o futebol demorou a aceitar mulheres como torcedoras (afinal, mulheres fora do próprio lar não eram muito bem vistas) e como atletas, sendo inclusive proibidas de praticarem o esporte, que utilizava como justificativa a preservação da “capacidade procriativa” da mulher. O que pode parecer absurdo agora, era totalmente justificável num passado bem recente e mesmo que alguma coisa tenha mudado, fica a pergunta: o que realmente mudou na relação entre a mulher e o futebol?
Atualmente, vemos os mesmos preconceitos, a mesma falta de oportunidade no menor incentivo ao futebol feminino, desde a organização dos eventos até o financiamento dos times. Os mesmos estigmas que marcaram nossas avós no que diz respeito ao esporte e lazer nos assombra hoje, como forma de dizer: futebol não é coisa de mulher!
Que mulher que gosta de futebol nunca ouviu, mesmo que nas entrelinhas, que futebol é coisa pra homem? Que teve sua opinião diminuída sobre aquela falta fora da área só por ser mulher, mesmo que depois o tira teima-teima provou que foi mesmo fora da área? Que se percebeu como a única em um grupo de dezenas de homens a caminho do estádio?
A presença da mulher no futebol ainda é muito caracterizada por três estereótipos de mulher. Tem aquela que é "masculinizada", e por isso, entende de futebol tanto quanto um homem. Tem a musa, caracterizada também por não entender de futebol, mas por seus atributos físicos padronizados e por compor o tripé cerveja, futebol e mulher, onde o que importa é sempre a opinião e a diversão do homem. E por fim, tem a acompanhante, que está no espaço do futebol pra acompanhar o homem, que é o verdadeiro interessado no assunto. Acontece que nós também somos mulheres, gostamos de futebol, mas não nos incorporamos em nenhuma das três características acima. Queremos participar, assistir, torcer e jogar futebol sem sofrer com o machismo tão inerente em todas as coisas da sociedade, mas ainda mais exacerbado no futebol.
E se você achou que isso é coisa de militante-feminista-chata-radical, vamos ao exemplo prático, pra te provar o quanto o machismo e o preconceito continuam limitando e castrando até mesmo o divertimento em nossa sociedade. Porque se tudo fosse como dita o status quo,  poderíamos concluir que o futebol é para homens heterossexuais e de elite.  Afinal de contas, não são sempre as mães dos juízes, os gays e os negros (com tristes episódios de racismo, principalmente no futebol europeu) os maiores alvos dos xingamentos e piadinhas? E o que dizer dos contratos milionários de exibição na TV, que impõem os horários aos jogos? E o quanto se gasta para ir ao estádio atualmente, não serve para afastar a classe trabalhadora do futebol?
A verdade é que o futebol tem perdido sua característica popular. É por isso que nós, mulheres, reivindicamos o direito de gostar de futebol! E chamamos todxs aquelxs que também o adoram a entrar em campo por um futebol sem machismo e sem qualquer forma de preconceito e opressão. Não podemos esperar que os cartolas apontem soluções para isso.  Façamos nós, dos nossos estádios, um lugar cheio de gente de todas as cores, bandeiras, homens, mulheres e paixão, como o futebol pede!

sábado, 1 de dezembro de 2012

O RISO DOS OUTROS


Minha primeira aparição no documentário

Algumas leitoras viram meu rosto maroto nas chamadas de um documentário que vai passar hoje na TV Câmara (anote os dias e horários: hoje, às 23 horas, amanhã, às 2 hs e 23 hs, e dia 5, às 5:30), e me cobraram explicações. Então lá vai. 
O documentário, de Pedro Arantes, chama-se O Riso dos Outros, tem 52 minutos (talvez possa ser visto aqui e também no youtube). Eu recebi um dvd no final da semana retrasada. Fiquei surpresa ao ver meu nome na capa. Tá escrito assim: “Com Antonio Prata / Danilo Gentili / Jean Wyllys / Laerte / Lola Aronovich / Nany People / Rafinha Bastos”. Parece meio um jogo dos sete erros, né? Qual o nome totalmente desconhecido da lista?
Vi o doc e gostei muito. Incrível como eles conseguiram entrevistar tanta gente importante (tirando essa tal de Lola aí). O Riso dos Outros faz vários questionamentos sobre tipos de piadas, censura, limites do humor, o politicamente incorreto, alvos de piadas, protestos sociais, entre outros temas sempre interessantes.
Começa mostrando trechos de shows de cômicos stand up que eu nunca ouvi falar. Certo, os únicos brasileiros que eu conheço são mesmo esses ex-CQC. O que me chamou a atenção é que se eu tivesse que diferenciar o que cada um diz, não conseguiria. Parecem iguais. O tipo de humor que eles fazem é também bem parecido. E rasteiro. O destaque, infelizmente, fica pra única comediante mulher mostrada em ação, Marcela Leal, que faz chiste sobre a vida sexual de sua vizinha gorda. Ninguém ri. 
Depois, na entrevista, ela defende aquela piada do Rafinha sobre como é bom pruma mulher feia ser estuprada. A comediante Nany People explica: o universo do humor é extremamente masculino, e mulheres são vítimas constantes dessas piadas. “Até as poucas mulheres que fazem humor fazem um humor muito machista”. Lá estava a Marcela pra não deixar Nany mentir.
Outra coisa que chama a atenção é como alguns dos humoristas parecem totalmente sem noção. Tipo a pobre Marcela justificando a piada de estupro dizendo que “a gente brinca com todo tipo de preconceito, a gente brinca com gente feia, com gente gorda, tudo”. Sério, olha os exemplos que ela dá! Mais falta de noção quando um outro humorista afirma que politicamente incorreto é defender causas desnecessárias. Ou o Rafinha achando que a primeira Marcha das Vadias não teria acontecido sem sua colaboração –- ele nos deu uma causa pra lutar contra! Mas esse cara é tão repulsivo que até na entrevista, defendendo sua piada, ele inclui uma pausa que deve considerar hilária: “Não quero que mulher feia seja estuprada... apesar de ter muita que merece”.
Ao ver o doc, descobri que a Preta Gil é uma muleta no humor brasileiro. Quando a noite não tá rendendo e o público não ri, o humorista faz uma piadinha falando que a Preta Gil é gorda, e o pessoal gargalha. O doc mostra Gentili fazendo isso e em seguida dando bronca na plateia por ter rido daquilo. Depois eu digo que as piadas que esses comediantes do status quo falam não têm absolutamente nada de inovadoras. São velharias. Já escrevi aqui: coisa de gente preguiçosa e sem criatividade que não é capaz de pensar em algo novo. E mesmo assim se acha moderna.
Várias cenas da marcha das vadias de SP são exibidas, e a militante Tica Moreno é entrevistada. Eu só apareço pela primeira vez lá pelo vigésimo minuto, e algo que eu achei muito legal da edição foi que, nessa primeira vez, eu apareço rindo pacas.
Sabe o estereótipo que falam de feminista ser um bicho frustrado e mal-humorado? Pois é, minha primeira aparição é chorando de rir. Eu tô falando de como o tataravô do Rafinha já contava aquela piada velha e ultrapassada do estupro. E minha participação risonha é bacana também porque, fora gente do público, poucas pessoas riem no documentário. Acho que só tem eu e a Nany gargalhando mesmo.
Outro ponto da edição que eu gostei bastante é um que mostra vários humoristas repetindo o cansado clichê “É só uma piada”, e aí venho eu e digo: “É um insulto e eu acho que é uma demonstração de ignorância de uma pessoa dizer 'É só uma piada'. Nada é só uma piada”.
Depois a equipe do doc vai até Buenos Aires entrevistar um produtor (que diz: “o humor deve gerar uma mudança na conduta, na forma de se ver o mundo, e quando isso se realiza, está fazendo arte”) e uma comediante lésbica. Fica a impressão que pra encontrar humoristas que querem transformar, só indo prum outro país. E não tem isso de “o público quer esse tipo de humor batido e discriminatório”. Como diz o ator e palhaço Hugo Possolo (com quem dividi uma mesa redonda em setembro), “Quem se curva demais pro público fica de quatro pra ele. E nunca mais se ergue”.
Outras frases que eu destaco no doc:
Laerte, cartunista: “Acho que nenhum bom humorista vai perder tempo fazendo uma piada leviana sobre raça, sobre gênero”.
André Dahmer, cartunista: “Se humor precisa de uma vítima, façamos a vítima certa, né? Porque tem tanta gente que merece apanhar, por que bater nos negros, ou nas mulheres, né?, que já apanharam bastante...”
Antonio Prata, escritor: “Quando você ofende alguém que não pode ser ofendido pelo poder dessa pessoa, esse humor é grande. É passar a mão na bunda do guarda. Essa é uma piada que eu acho ofensiva pro guarda, mas o guarda tem uma arma e um cassetete, é engraçado porque você tá se arriscando. Passar a mão na bunda do mendigo?...”
Danilo Gentili: “Minha pretensão com a comédia nunca é denunciar, nunca é nada. É só destruir mesmo.”
Ana Maria Gonçalves, escritora: “A pessoa que quer contestar tudo isso, ela é colocada hoje em dia como alguém que é careta, enquanto que é realmente o contrário. A gente deveria pensar nessa inversão de sentidos em que foram aplicadas essas duas expressões, o politcamente correto e o politicamente incorreto.”
Hugo Possolo: “Qualquer manifestação artística tem a possibilidade de se expressar de uma maneira transformadora ou de uma maneira conservadora. Portanto, toda obra de arte, de uma maneira ou de outra, é política”.
Jean Wyllys, deputado federal: “A Coca-Cola faz política. Quando a Coca-Cola vende um estilo de vida, ela faz política. Desculpa aí, mas você precisa aprender, dilatar o seu conceito de política, pra não cair nessa estupidez de afirmar que você não tá fazendo política. É claro que você tá fazendo política.”

Certo, e o que eu estou fazendo ali? Os produtores do doc me enviaram um e-mail no final do ano passado, quando eles ainda estavam elaborando um projeto para atender ao edital da TV Câmara. Aceitei ser entrevistada, o problema era quando e onde. Em março fui dar uma palestra e uma aula inaugural na UFRJ, e a equipe do doc se deslocou de SP pro Rio pra filmar a palestra inteira (que não foi usada na versão final do doc). Na semana seguinte, fui para a Faculdade de Direito de Franca. Antes da minha palestra, eles me entrevistaram durante quase duas horas. Como a equipe era muito gente boa, o papo foi descontraído. Por isso que eu tô rindo.
Depois da entrevista o Pedro, o diretor e quem fazia as perguntas, se revelou um leitor do meu blog. E disse que o achava muito divertido. Um grande elogio.
Eu estava preocupada com o atraso do doc em ficar pronto. Sempre existe o risco de você ser retratada de uma forma pouco lisonjeira. Lembrei do Woody Allen fazendo um documentário sobre o personagem do Alan Alda em Crimes e Pecados, em que ele é comparado ao Mussolini. Mas acho que o doc não faz isso com ninguém, nem com Rafinha e Gentili. E olha que ridicularizar quem fala besteira não é nada difícil!
Bom, é isso. Fiquei feliz por ter participado, e adorei o resultado. É um ótimo documentário, que pode gerar boas discussões em sala de aula. Talvez eu use em algum curso de extensão, se eu não achar estranho mostrar um doc em que eu apareço.
Eu dizendo que não tem isso de colocar preconceitos de um lado e piadas do outro, como se não tivessem associação.