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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

COMO MATRIX FOI APROPRIADO PELOS REAÇAS


Chris Gonzatti, do Diversidade Nerd (farei uma live com ele no final do mês), escreveu esta thread no seu Twitter que eu agora transformo em guest post: 

Como Matrix foi apropriado pela extrema-direita?

A apropriação da narrativa iniciou em fóruns no Reddit e 4Chan instituídos em torno do Gamergate, um movimento que surgiu em  2014 e gerou ataques misóginos contra mulheres que trabalhavam e consumiam games.

Depois dos ataques do Gamergate, os integrantes desses grupos começaram a buscar novos alvos. A narrativa de que homens estavam sendo oprimidos por mulheres, pelo feminismo e por LGBTs se tornou recorrente nesses territórios, assim como a expressão "escolher a pílula vermelha".

"Escolher a pílula vermelha" seria se tornar ciente da opressão que homens enfrentam na sociedade, da destruição de valores da masculinidade, do racismo reverso, da doutrinação da esquerda nas escolas e de como o Estado é o vilão.

Ou seja, só delírio e falácia.

A pílula vermelha aparece em Matrix quando Morpheus dá a Neo a escolha de tomar a pílula azul e retornar, sem nenhuma memória, para o “mundo simulacro”, ou tomar a pílula vermelha e manter todo o conhecimento e memórias adquiridas até ali, sendo parte da resistência.

No Brasil o ex-ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub, publicou no Twitter a cena da escolha da pílula do filme Matrix fazendo alusão à importância de escolher apoiar o presidente, recebendo um xingamento de uma das criadoras da obra.

Seja no governo ou nesses fóruns, parece existir uma apropriação da obra que distorce as intenções das criadoras (possivelmente desconhecidas para muitas pessoas que integram esses grupos), duas mulheres transexuais.

Essa leitura de Matrix como signo da extrema-direita é sintoma também da:

1) Estrutura em rede de movimentos odiosos transnacionalmente;

2) A ambuiguidade de produções da cultura pop;

3) A urgência da leitura crítica da mídia nos sistemas de alfabetização.

Que Matrix 4 possa elucidar com potência que o sistema do qual Neo acorda é a matriz hegemônica: branca, cis, hétero, masculina e capitalista.

Algumas referências:

CAGLIONI, Cesar. Como o filme 'Matrix' se tornou símbolo na extrema direita. Nexo, 2020.

STERN, Alexandra Minna. Proud boys and the white ethnostate: How the alt-right is warping the American imagination. Beacon Press, 2019.

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Estou no final do doutorado e pesquiso cultura pop há alguns anos. Tenho usado as plataformas digitais para popularizar o conhecimento científico, leituras queer da mídia -- com humor e diversão também.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

AS IRMÃS DE MATRIX: ONDE ESTÁ SUA DEUSA AGORA, MASCUS?

No final do primeiro Matrix, de 1999, Neo (Keanu Reeves) diz:
"Sei que você tem medo. Você tem medo de nós. Você tem medo de mudança. Eu não conheço o futuro. Não vim aqui para contar como isso vai acabar. Vim aqui para dizer como vai começar [na tela, o código de números é paralisado por "falha do sistema"]. Vou desligar este telefone e vou mostrar às pessoas o que você não quer que elas vejam. Vou mostrar a elas um mundo sem você. Um mundo sem regras e controles, sem fronteiras ou limites. Um mundo em que qualquer coisa é possível. Pra onde iremos de lá, é uma escolha que deixo pra você".
É uma mensagem simples, mas revolucionária, pois é contra o sistema. Lógico que quem é o "eu" e o "nós" e o que é o sistema pode ser visto por vários ângulos. No entanto, como em seguida invade a tela a música "Wake Up" (Acorde), do grupo Rage against the Machine (raiva contra a máquina, o sistema), que trata de racismo e cita o FBI e sua tentativa de minar o movimento negro, através do assassinato de Malcolm X e Martin Luther King, pra mim e muita gente Matrix é evidentemente um filme de esquerda.
Bem antes desse final, ainda no início da trama, Neo precisa escolher entre tomar a pílula azul ou vermelha. Se ele tomar a azul, ele permanecerá no mundo em que está, cheio de ilusões, sem entender o que realmente está se passando. Se ele toma a vermelha, ele descobrirá a verdade, e nunca poderá voltar ao que era antes. Morpheus (Laurence Fishburne) lhe avisa:
"Esta é a sua última chance. Depois disso, não há volta. Você toma a pílula azul -- a história acaba, você acorda na sua cama e acredita no que quiser acreditar. Você toma a pílula vermelha -- você fica no País das Maravilhas, e eu te mostro quão fundo vai a toca do coelho. Lembre-se: tudo que estou oferecendo é a verdade. Nada mais".
Matrix, é claro, costuma ser interpretado de acordo com os interesses e gostos de quem o interpreta. Eu me lembro quando uma seita religiosa adotou o primeiro filme como um sinal divino. Neo representaria a volta de Cristo num mundo secular.
E, já há quinze anos, eu me lembro de ter lido uma análise hilária de como Matrix era a película mais gay já feita, o "armário" sendo a parábola: "Neo sabe que algo não está certo. Ele sente que é diferente, mas ele sabe que o que o faz diferente não é bem aceito pela sociedade, que poderá reagir com violência a esta descoberta. Além disso, Neo frequenta raves. [...]
"Morpheus conhece o jovem Neo na internet, diz a ele 'Procurei você minha vida inteira. Você é o escolhido', e o convida para sua mansão imaculadamente decorada, quando ele passa a falar de bondage (da mente). Então ele lhe oferece uma pílula, e a próxima coisa que vemos é um Neo oleoso e depilado saindo de uma banheira futurista gelatinosa, reclamando da 'dor dos músculos nunca antes usados'".
Uma análise muito mais séria foi realizada em 2012. Hannah DuVoix analisou a trilogia sob o viés trans. Ela descobriu que a palavra "trans" é a segunda a aparecer na tela depois do título. Diz ela: "Uma leitura transgênero de Matrix examina três pontos: o chamado 'caminho' de Neo para se tornar 'o escolhido', a artificialidade e disseminação da própria matrix, e a rigidez com que é imposta não só pelos seus criadores, mas àqueles presos dentro dela. Aquelas de nós que transgridem gênero como ele existe no mundo hoje seguimos um caminho parecido. Devemos libertar nossas mentes de um sistema artificial de controle que não pode ser visto mas é onipresente, e esse sistema é rigorosamente auto-imposto por aqueles que operam dentro dele".
Por algum motivo meio inexplicável, um "movimento" ultraconservador como o masculinista (nos países de língua inglesa chamados de MRAs, Men's Rights Activists, ou Ativistas pelos direitos dos homens) adotou Matrix como seu filme de cabeceira. Um filme que, segundo eles, resume toda sua ideologia. Tanto que muitos se autoproclamam "redpillers", tomadores da pílula vermelha (uma cineasta feminista vai lançar este ano o polêmico documentário A Pílula Vermelha, que trata dos mascus).
O que é a pílula vermelha pros mascus? Isso varia, dependendo do mascu e do país -- sim, é universal, todos os mascus creem nisso da "pílula vermelha". Alguns dizem que A Verdade é que vivemos num sistema matriarcal em que mulheres têm todo o poder (porque, para eles, mulheres regulam tudo que os homens querem da vida, que é b*ceta -- e depois nós é que somos misândricas!).
Mascus, esses seres tão racionais, depois de tomarem a pílula vermelha viram que as mulheres não são as criaturas angelicais que todos dizem que somos (ahã, pois é, a mídia, a religião, a escola, enfim, toda a sociedade, realmente trata mulheres como seres angelicais), e sim vagabundas cruéis que sugam a energia viril dos homens e são sustentadas por eles (no universo paralelo em que vivem os mascus, mulher não trabalha fora nem é chefe de família).
Resumo de pensamento mascu, escrito hoje por um mascu de 30 anos sustentado pela mãe (clique para ampliar)
Para outros mascus, A Verdade é que é tudo uma mentira, já que nos é vendido que mulheres gostam de caras bonzinhos, mas o que realmente gostamos é de cafajestes e criminosos. Ou seja, não queremos poder, queremos ser dominadas (essa teoria é do grupo dos PUAS, "artistas da sedução", misóginos que ganham dinheiro ensinando homens fracassados como pegar gostosas. PUAs e mascus estão intrinsecamente ligados).
É inacreditável, eu sei, mas existe até fórum de "Mulheres da pílula vermelha", ou seja, de mulheres anti-feministas que creem que biologia é destino e que tudo que fazemos é biológico: queremos ser mães, queremos cuidar dos homens e dos filhos, queremos ser femininas. Tudo isso é natural, e que bom que existem mascus pra esfregar a verdade nas nossas caras (não preciso dizer que essas mulheres são tratadas como lixo por mascus, que consideram todas as mulheres, inclusive suas próprias mães, um bando de vadias, pois essa é a nossa "natureza").
Porém, obviamente, a enorme maioria de mascus é homem. Homens furiosos que ficaram pra trás no mundo, que cresceram achando que seriam especiais unicamente por serem homens, que acham que o mundo está perdido (tudo culpa das feministas!) e que querem voltar aos anos 1950. E que têm muito medo de mulher, principalmente daquelas que não têm medo.
Tirado de um blog mascu
Se a visão que mascus têm de mulheres cis (identificadas como mulheres desde o nascimento) é inequívoca e unânime, a opinião deles sobre mulheres trans e travestis pode ser ambígua. Certo, todos os mascus são homofóbicos e transfóbicos, sem exceção, mas há desde aqueles que veem travestis como aberrações, aos que pregam que "travesti é melhor que mulher" e as objetificam sexualmente (e também, por incrível que pareça, existem alguns poucos mascus que se tornam trans -- e continuam sendo misóginos).
A grande ironia é que a trilogia Matrix foi feita não só por uma, mas por duas mulheres trans. Os "Wachowski Brothers" que assinavam o filme se assumiram. Primeiro foi a vez de Lana, ex-Larry Wachowski. Havia rumores de mais de uma década de que ela era uma mulher trans, mas Lana só veio a público se apresentar como mulher em 2012. Ela já havia contado à família antes.
Ela diz que nunca se sentiu homem, desde criança, quando a professora pedia pra meninos fazerem uma fila e meninas, outra, e Lana nunca sabia em que fila entrar. Na adolescência, Lana tentou se matar, insatisfeita com seu corpo. Depois de se assumir, ela deu um lindo discurso de agradecimento: "Tem coisas que você não faz pra si. Se eu puder ser essa pessoa para mais alguém, o sacrifício da minha vida privada terá tido valor".
Selfie de Lilly
Agora em março, foi a vez do outro "irmão", Andy, identificar-se como mulher trans e adotar o nome Lilly. Infelizmente, esta não foi uma decisão dela, que ainda não estava pronta para assumir publicamente (só entre amigos e família) ser uma mulher trans. Foi o tabloide britânico Daily Mail que descobriu e a ameaçou: ou ela contava para o jornal, em entrevista exclusiva, sobre sua transição, ou eles publicariam o "escândalo" de qualquer jeito.
Lilly mandou o tabloide às favas e comunicou a jornais não sensacionalistas: "Minha irmã Lana e eu sempre evitamos a imprensa. Acho tedioso falar sobre a minha arte e difícil falar sobre mim. Eu sabia que teria que assumir publicamente em algum ponto. Sabe, quando você está vivendo como uma pessoa trans é meio difícil se esconder. Eu só queria -- precisava -- de mais tempo para organizar minha mente, para ficar mais confortável. Mas, aparentemente, essa decisão não é minha".
Neste sábado, Lilly fez sua primeira aparição pública nos Prêmios GLAAD (Aliança Gay e Lébica contra Difamação), ao receber um prêmio para a série Sense8, dirigida por ela e sua irmã Lana. Num discurso curto e comovente, Lilly falou da importância do amor para as pessoas trans.
A outra grande ironia é que se os irmãos Wachowski tivessem se assumido irmãs na época de Matrix, o filme provavelmente nunca existiria. Sim, porque o cinema não dá oportunidade para que mulheres, cis e menos ainda trans (e negrxs, e latinxs, e outros grupos historicamente oprimidos), dirijam filmes. Apenas 4% das 172 principais produções americanas de 2011 foram dirigidas por mulheres. É a indústria mais excludente dos EUA. 
A verdade é que não vivemos numa sociedade matriarcal, misândrica e vaginante, ao contrário do que insistem os mascus. Qualquer estatística desmente esse delírio. Sem sombra de dúvida, se as irmãs Wachowski tivessem se identificado como mulheres trans anos atrás, elas não teriam conseguido dinheiro para levar Matrix adiante. 
E os mascus não teriam tomado sua pílula vermelha. Aliás, essa pílula aí, é via oral?

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A INCRÍVEL DIRETORA QUE SAIU DA MATRIX

Quando vi Matrix pela primeira vez, no cinema, em 99, gostei bastante, mas não amei. Foi preciso ver o filme (e estou falando só do primeiro) mais duas vezes para passar a considerá-lo sensacional. Continua sendo minha opinião até hoje, mesmo que as duas sequências sejam bem fraquinhas.
Um pouquinho depois, li um texto muito divertido na internet, texto que continua lá, passada uma década. É de um professor americano que diz que Matrix é o filme mais gay (no bom sentido, não no sentido que se fala hoje, "isso é tão gay") já feito. Vou citar alguns dos exemplos que ele usa para nos convencer. Morpheus, um homem experiente, encontra Neo pela internet e lhe manda um email declarando: “Estive procurando por você minha vida inteira. Você é o escolhido”. Em seguida, Morpheus lhe dá uma pílula e adverte: “Ao ir por este buraco, você não poderá voltar mais”. A próxima coisa que observamos é Neo acordar nu, depilado e pegajoso, e reclamando de dor nos músculos que ele nunca usara antes.
Segundo o autor do artigo, a mais homossexual das cenas ocorre quando um assistente de Morpheus revela a Neo que está “realmente ansioso pra ver do que você é capaz”. Neo é colocado num programa de treinamento onde Morpheus lhe instrui a ir “mais rápido, mais rápido, mais rápido”. O alegre assistente, entusiasmado com a performance de Neo, conta a todos: “Dez horas seguidas! Ele é uma máquina!”
Fora o fato do pessoal usar roupas justas de couro e frequentar raves.
Na época do lançamento do filme, uma seita religiosa que havia se apossado da escola de inglês onde eu dava aula e era coordenadora acadêmica adotou Matrix como seu filme de cabeceira. Como a seita era homofóbica, passei o artigo sobre “gayest film ever” pra alguns membros, que desprezaram a análise, afirmando que tal coisa poderia ser dita de qualquer filme.
E eis que, um tempinho depois de começar o blog, fico conhecendo um outro grupo machista, homofóbico e conservador que também vê Matrix como seu pastor e nada lhes faltará. Sim, os mascus. Pra eles, todos os homens do mundo vivem numa matrix em que são eternamente enganados pelas mulheres. O mundo atual, ou seja, a matrix, lhes ensina que mulheres são seres angelicais que devem ser amados acima de todas as coisas (aham, sim, é exatamente assim que a nossa sociedade trata as mulheres!). Mas eles, mascus, tomaram a pílula vermelha e agora podem ver a luz e enxergar as mulheres como elas realmente são -– monstros que só querem sugar sua energia e serem sustentados por eles, porque no universo paralelo mascu nenhuma mulher trabalha e toda mulher quer aplicar o golpe da barriga
Claro que qualquer pessoa que já leu mais de cinco tópicos num fórum mascu percebe que não existe ninguém mais enfiado na matrix que os mascus. Eles criaram universo alternativo para se sentir mais confortáveis. Um universo em que todas as mulheres (até suas próprias mães) são vadias e em que todos os homens que não sejam a meia dúzia de guerreiros da real são fracos, frouxos e burros (e aí eles chamam as feministas de misândricas!). Pra mim, mascus são aqueles que não conseguem parar de olhar pra mulher de vermelho em Matrix.
Assim como todo filme inteligente, Matrix pode ser interpretado de diversas maneiras. Mas eu acho tão estranho que grupos de direita se identifiquem com a história! Quer dizer, o filme termina com uma música que fala de direitos civis, de derrubar o sistema e combater o poder, e os mascus interpretam esse poder como o poder da vagina? Só eles mesmo. E obviamente não sou só eu que leio Matrix como uma luta da esquerda. O filósofo Slavoj Zizek, seguramente de esquerda, deu o título de Bem-Vindos ao Deserto do Real (uma citação do filme) a seu livro sobre as reações ao 11 de Setembro.
Enfim. Será que os mascus sabem que o diretor do seu filme preferido é uma mulher?
Certo, a trilogia foi dirigida pelos “irmãos Wachowski”, Andy e Larry, que sempre foram muito discretos em suas vidas pessoais. Tanto que eles exigiam acordo com o estúdio de não ter que dar entrevistas no lançamento dos filmes, o que é uma obrigação contratual de todos os astros.
Agora em julho, Larry se assumiu Lana publicamente. E ela é um exemplo. Nunca nenhum diretor ou diretora de Hollywood se assumiu transgênero.
Antes de se transformar em Lana, Larry teve um divórcio tumultuado com sua primeira mulher, que o acusou de ter sido desonesto em sua vida particular. Só pra constar: a primeira mulher de Larry era mulher, e a mulher atual de Lana é mulher. Lana sempre se sentiu atraída por mulheres. Só que antes ela era vista como hétero, e hoje é vista como lésbica.
Lana não é apenas um exemplo para a comunidade LGBT, mas para todas as pessoas que enfrentaram as camisas de força da socieade para poderem enfim ser quem elas quiserem. No seu discurso de agradecimento para o prêmio de visibilidade da campanha por direitos humanos, Lana explicou que não gosta do termo transição porque implica numa oposição binária de gênero.
Ela se lembra quando estudava em escola católica, e tinha que usar uniforme. Meninos e meninas precisavam ficar em filas diferentes. Lana era criança e queria ficar na fila das meninas, mas sabia que suas roupas não combinavam. Também sabia que não pertencia à outra fila, então ela permanecia parada no meio, entre as duas filas (professorxs: que tal abolir filas para meninas e meninos?).
Quando era adolescente, frustrada com seu corpo, Lana tentou o suicídio. Ela sobreviveu e agora está prestes a lançar A Viagem (Cloud Atlas -- veja o trailer legendado), novo e elogiadíssimo filme co-dirigido por ela, seu irmão, e o alemão Tom Tykwer, diretor do cult Corra Lola Corra (que inspirou o nome deste bloguinho).
Já tem dez anos que Lana saiu do armário para a família. Quando contou pra sua mãe, ela –- a mãe -– reagiu como todo ser humano inteligente deveria reagir. Em vez de encarar a transição de sua filha, então filho, como uma morte, ela viu como um novo lado de seu rebento. Encarou aquilo como um presente, porque agora teria acesso a uma nova parte que não precisaria mais ficar escondida. Logo depois da revelação, as duas foram a uma lanchonete. Lana estava preocupada com a reação de estranhos, como se essa reação pudesse negar toda sua existência. E a mãe apresentou-se à garçonete, e disse, “Essa é minha filha, Lana”. E a garçonete respondeu: “Puxa, ela é igual a você!”.
Quando seu pai chegou, ele disse: “O que importa é que você está viva, está feliz, e que eu posso abraçar e beijar você”. Para Lana, ter ótimos pais é como ganhar na loteria –- algo que você não fez nada pra ter, mas foi premiada mesmo assim. Ela sempre quis ser uma escritora, uma cineasta. Mas, como não havia ninguém como ela, ela pensava que seu sonho estava encerrado, devido a seu gênero ser menos típico que os outros.
Tem coisas, diz ela, no final do seu discurso, que você não faz pra si. Faz para os outros. “Se eu puder ser essa pessoa para mais alguém, o sacrifício da minha vida privada terá tido valor”.   
Parabéns, Lana! Você sim conseguiu sair da matrix. Espero que nunca descubra que sua obra é usada por grupos de ódio. Seria um desgosto muito grande.