domingo, 5 de outubro de 2008

FELIZ ELEIÇÃO!

Como hoje é dia de eleição, vou aproveitar pra dizer que adoro votar. Tem gente que odeia, eu sei, e reconheço que não entendo essa gente. Ou melhor, talvez entenda. É gente que acha que seu voto não faz diferença. Que político é tudo igual, tudo farinha do mesmo saco. E é gente que vota em qualquer um e, se puder vender o voto, vende mesmo, já que pra eles o voto não tem nenhum valor. Depois não se lembra em quem votou, não fiscaliza, não acompanha. Essas pessoas acham que o voto não deveria ser obrigatório, porque assim, elas poderiam ficar longe desse processo desgastante. Não sei se tenho opinião formada sobre a obrigatoriedade do voto. Existe o lado de que, se fosse opcional, apenas as pessoas mais conscientes se dariam ao trabalho de ir às urnas e assim, provavelmente, escolheriam melhor. Imagino que isso daria vantagem aos partidos de esquerda, porque eleitor de esquerda geralmente é mais politizado que de direita (que pensa que governos só atrapalham e que o estado deveria ser mínimo, de qualquer jeito). Mas nos EUA o voto é opcional e, ainda que indiretamente, a população lá reelegeu o Bush. E fica aquele negócio de falta de legitimidade, de apenas 40% do pessoal votar, e de não ser a maioria que elege o seu governante.
Pra mim votar é uma alegria por vários motivos. Primeiro porque só pude votar pela primeira vez em 1997, quando finalmente me naturalizei brasileira (não é um processo simples). Então eu realmente tive que conquistar esse direito de votar, e sempre vou com um grande sorriso às urnas. Depois porque sou de uma geração que viu bem o que era não poder votar. Eu participei das campanhas das Diretas Já em São Paulo, em 1983 e 84. Tinha uns 16 anos, mas me lembro muito bem. A gente lutou pra que a ditadura terminasse e pra reconquistar o direito de voto. Tudo bem, não fomos bem sucedidos naquele ano em que o colégio eleitoral escolheu, sozinho, a dobradinha Tancredo/Sarney. Mas foi um movimento importante. Ir a um mega comício desses com 16 aninhos mexe com a gente, nos politiza, nos faz sentir parte de uma comunidade. Assim como gritar “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, reclamando da Globo porque ela fingia que os comícios não aconteciam. Eu amava aquilo lá. Lembro que o primeiro comício que fui foi com meus pais e irmãos, a família toda reunida pedindo democracia.
Em 1989 finalmente pudemos escolher nosso presidente, e lembro como se fosse hoje da campanha toda. Eu lutei pra caramba. Fazia colagem de jornais, escrevia artigos próprios, xerocava, e ia militar sozinha, à noite, depois do trabalho, em São Paulo. Eu nem achava perigoso. Ia na Praça Ramos, na Estação da Luz, e conversava com as pessoas. As pessoas queriam muito conversar. O clima era eletrizante. Fui a montes de comícios e passeatas do Lula em São Paulo. Fui até o Rio, sozinha, só pra ver Lula e Brizola no mesmo palanque, no comício da Candelária. Era incrível, porque quem votava no Collor tinha vergonha de declarar. Por isso, eu conhecia muito mais gente que votaria no Lula que no Collor. Mas aí o Collor venceu, por três motivos principais: o depoimento devastador que a ex-mulher do Lula deu na campanha do Collor, dizendo que Lula insistira pra que ela fizesse um aborto (o que me lembro que pegou era que ela chamou o Lula de racista. Ouvi bastante gente dizer “Não vou votar no Lula, ele não gosta de preto”); a captura dos sequestradores do Abílio Diniz, a um dia do segundo turno, posando pra TV com camisas do PT (sendo que eram todos estrangeiros); e, claro, a edição que a Globo fez do último debate. O Lula perdeu por muito pouquinho e estou convicta de que, se qualquer um desses três fatos não tivesse ocorrido, ele teria vencido. Se teria feito um bom governo ou não é outra história, que não dá pra saber. Certamente ele e o PT eram muito mais de esquerda na época do que são hoje.
O clima no dia seguinte às eleições era de velório. Até hoje acho aquilo estranho. Eu andava de metrô e ônibus e não via uma só alma feliz. Nenhum sorriso. Zero de comemoração. Mas como, se foi São Paulo que elegeu o Collor?
Collor foi um desastre, e o mais irônico é que ele fez, imediatamente depois de empossado, exatamente o que sua campanha pregava que Lula faria: confiscar a poupança. Eu não perdi um centavo nessa brincadeira, já que nem conta em banco eu tinha. Tudo que eu conseguia juntar trabalhando eu trocava por dólares. Mas sei que todo mundo perdeu muito. E lembro da inflação gigantesca, do preço de uma coisa à noite não custar mais o que custava pela manhã...
Participei também das passeatas pró-impeachment. Eram muito legais. Quem não foi à nenhuma não tem condições de avaliá-las, eu acho. Os caras pintadas sabiam exatamente o que estavam fazendo. Lógico, eles eram jovens e cheios de energia, mas não estavam lá pra fazer festa (e nem eram a maioria). Queriam mesmo que o Colllor renunciasse. Por outro lado, sempre achei que os caras pintadas não teriam existido se a Globo (olha a ironia: a emissora que ajudou a eleger o caçador de maracujás também ajudou a derrubá-lo, indiretamente!) não tivesse exibido, pouco tempo atrás, a ótima minissérie Anos Rebeldes. Toda uma nova geração, que não sabia muito sobre os anos de chumbo, se comoveu vendo a Claudia Abreu como revolucionária, morrendo por seus ideais. Tenho cá pra mim que essa série mexeu pacas com os adolescentes da época. Se a Globo a reprisasse em 2010, e a campanha martelasse bastante o passado revolucionário da Dilma, a candidata do PT ganharia bem mais fácil.
Só tenho uma foto da minha participação pró-impeachment (da qual muito me orgulho). É essa com um amigo finlandês, o Risto, que estava de passagem pelo Brasil. Eu o convidei e ele aceitou, fascinado, porque essas passeatas e comícios eram um mar de gente. Se reuniam 500 mil, um milhão de pessoas, como se dizia, eu não sei. Mas que era uma multidão como eu nunca vi na vida, não há dúvida. O Risto dizia: “Mas tem mais gente amontoada aqui na Avenida Paulista que a população total da minha cidade, Helsinque”. E era verdade.Portanto, pra mim, há tanta emoção, tantas lembranças, tanta esperança, por trás de cada voto, que fica difícil entender quem não gosta de votar, quem sente saudades da ditadura, quem acha que um votinho não faz diferença. Eu sou apaixonada por eleições. Se meu conselho vale alguma coisa, vá à urna com orgulho e consciência e escolha quem você quer que te represente na câmara dos vereadores e quem você quer que governe a sua cidade. Que é sua, é nossa, vale lembrar. É nosso país, nosso planeta, e o único que temos. Bom voto!

sábado, 4 de outubro de 2008

DEMOCRACIA AMERICAN STYLE

No cartoon, o professor pergunta “O que é democracia?”, e a aluna responde: “Democracia é a liberdade de eleger nossos próprios ditadores”.

Os republicanos não parecem estar jogando muito limpo nessas eleições americanas. Dois incidentes distantes dão uma boa mostra do que tá acontecendo. Em todos os campus universitários, há esforços para que os jovens se registrem e compareçam às urnas, já que o voto não é obrigatório. Pois bem, na universidade Virginia Tech, republicanos distribuíram panfletos “explicando” como se registrar, só que dando muito mais ênfase ao que pode ocorrer com o aluno se ele fizer o registro. Segundo o panfleto, o jovem deve declarar independência dos pais (o que significa que os pais não podem mais declará-lo no imposto de renda como dependente), e pode perder a bolsa, se tiver. É tudo mentira. O panfleto só serve pra desencorajar os jovens - que são a maior base do Obama - de votar.
Em Michigan, onde morei, os republicanos se uniram com uma firma privada de advocacia especializada em execução de hipotecas (foreclosure) para impedir que, no dia da eleição
, pessoas que tenham mudado de casa, mas estejam registradas com o endereço antigo, possam votar. Michigan é um dos estados mais afetados pela recessão americana. Há muita gente que perdeu sua casa. Por coincidência, é também um estado com grande população negra. E a esmagadora maioria dos eleitores negros vota, ou votaria, no Obama. Pra completar, Michigan será um dos estados-chave nas eleições de novembro. O estado está dividido, e o resultado lá pode influenciar o total, como aconteceu com a Flórida em 2000.

Será que, se os republicanos conseguirem proibir todos os jovens e negros de votar, eles levam essa?

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

CRÍTICA: CONTROLE ABSOLUTO / Minha incompetência vai me salvar

- Ah, vocês só estão carregando uma bomba. Podem passar!

Devo admitir que me senti muito poderosa vendo Controle Absoluto (Eagle Eye), porque a história é a seguinte: as máquinas dominam o mundo, ou pelo menos os States, e podem vigiar e comandar qualquer pessoa a fazer o que elas quiserem. E aí eu tive certeza que um computador de última geração ultra-avançado jamais escolheria a mim ou ao maridão pra desempenhar uma missão importante. É que a gente não tem celular, sabe? Até compramos um quando moramos nos EUA, já que não possuíamos linha fixa em casa. Foi o primeiro e, suponho, o último celular nas nossas vidas. Não foi uma boa experiência. A gente geralmente perdia a ligação porque não conseguia encontrar o botãozinho pra atender a chamada, e não sabia como acessar a caixa de mensagens. Até hoje me lembro da vez que estava falando com uma amiga ao mesmo tempo que subia uma escada. Foi difícil pra mim, e eu tive que pedir pra ela ter paciência porque eu estava fazendo essa coisa bizarra que é andar e falar ao telefone ao mesmo tempo. Então, no filme, quando o Billy Bob Thorton, que é um agente do FBI, pergunta sarcasticamente pra uma moça da Aeronáutica se ela conseguia andar e falar ao mesmo tempo, eu me identifiquei.
Mas não é só isso. Eu fiquei imaginando uma máquina me mandando pegar sorrateiramente um celular de um cara dormindo do meu lado num vagão do metrô. Acho que essa parte – pegar o aparelho – eu até conseguiria, depois, claro, de perguntar pra todo mundo “onde está o celular que tá tocando do sujeito dormindo?”, e ter que me certificar com um “Isso é um celular?”. Mas e o resto? E atender a chamada? Ok, pra efeitos argumentativos, vamos fantasiar e assumir que eu consegui vencer o segundo passo (atender a ligação), e então o computador me manda descer na terceira estação. Ahn, eu teria que perguntar: “A terceira estação depois desta ou contando aquela que a gente já passou?”. E a máquina gritando comigo: “Não faça perguntas, só execute as ordens, sua fêmea!” (é, a máquina tem esse costume de chamar mulheres de fêmeas).
Mas o auge do meu brilhantismo mesmo seria obedecer o computador enquanto fujo de toda a polícia americana numa perseguição de carro. Se pra mim já é difícil andar e falar no celular ao mesmo tempo, imagino que falar e dirigir seria missão impossível. Mas vamos supor que a máquina me mande entrar à direita imediatamente. Agora! Já! E eu lá, pensando: direita? Vejamos: se esquerda é a mão do relógio, então direita é... Ou talvez eu tivesse que pedir pra esclarecer: “A sua direita ou a minha?”. E até lá todos os carros do universo já teriam batido no meu.

O maridão seria outro caso perdido. Fora sua total falta de desenvoltura com celulares, ele também não enxergaria uma placa gigante piscando na sua frente, em letras garrafais, dizendo “Silvio, desça a escada”. Portanto, eu e ele nos sentimos bem sabendo que um computador nunca poderia nos controlar.
Aí tem o lance de um computador nos vigiar e saber tudo que fazemos. Bom, no caso do maridão seria complicado porque, além d'ele não ter celular, raramente manda emails ou fala ao telefone, e seu blog tá abandonado. Não acho que seria fácil monitorar a sua vida. Mas, mesmo que fosse, que serventia teria? Veja a minha vida, por exemplo, que sem dúvida é muito mai
s interessante e digitalizada que a da minha cara-metade zumbi. Eu conto tudinho aqui no blog. Minha vida é pública. Não tenho segredos, nadinha pra esconder. Nessas horas de extrema paranóia, desse medo de “O Grande Irmão tá nos vigiando”, eu lembro de uma cena dos Simpsons, o filme (acho que era os Simpsons). Há uma sala de controle gigantesca, lotada de gente monitorando as ligações e emails da população, e o pessoal lá dentro morrendo de tédio, já que nenhum dos espionados fala qualquer coisa minimamente suspeita. Quando um dos espiões finalmente consegue captar algo que não seja uma receita de bolo, ele levanta e grita: “Consegui! Consegui! Captei uma mensagem perigosa!”. Acho que seria bem assim se o governo pudesse ler os nossos emails e ouvir as nossas ligações.

Mas vamos ao filme. O Shia LaBeouf é bem feinho, né? De frente até que não, mas de perfil... Tem uma hora que ele tá com cara lavada e lembra o Christian Bale, versão desengonçada. Só o Billy Bob é mais medonho que o Shia - e pensar que a Angelina Jolie já carregou seu sangue num vidrinho! Tem também a Michelle Monaghan (de Missão Impossível 3), que não tem muito que fazer além de gritar “the dingo took my baby!” (“o coiote pegou meu bebê”. Ok, é uma piadinha interna que ninguém vai entender. É o que a Meryl Streep falava em algum filme da década de 80).
O computador pode escolher qualquer pessoa do mundo, e no fundo precisa de apenas um sujeito, e envia logo esse carinha pras missões mais arriscadas? Se ele morresse em alguma das quinhentas vez
es que escapa por um triz, a máquina faria o quê? Aí tem uma hora em que o computador manda alguém atirar num carinha, e a pessoa se recusa, e o computador diz, “Tudo bem, ele será eliminado de outra forma”. E então manda dois aviões militares entrarem num túnel?! Mas a aventura é fofinha, tem uma mensagem até liberal no fim, e a parte da homenagem ao Hal de 2001 lendo os lábios é bem legal. E só na ficção que o presidente dos EUA é aplaudido de pé! Aliás, adoro essa parte: montes de agentes armados temendo que alguém atire no presidente, e o hino americano cantando sobre bombas explodindo no ar.

Eu só não caio muito no clima conspiratório do filme. Realmente não confio nessa mega eficiência das máquinas, disso de precisão cirúrgica pra fazer o farol ficar verde, abrir uma porta e tal. Porque logo depois do cinema eu, que sou velhinha, sempre vou ao banheiro. E chegando lá a torneira automática não funciona. Sem falar que não consigo nem fazer o meu computador inteligentíssimo deixar de mudar o tamanho da letra. Poupe-me, né?- Alô, Lolinha? Pára de bater no celular e desça na terceira estação à direita.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

GANHE NA LOTERIA: PARE DE JOGAR

Quer enriquecer? Pergunte-me como.

O New York Times publicou uma matéria não muito inspirada, na minha opinião, sobre um carinha que gasta 30 mil dólares por ano na loteria. Pai de dois filhos, o sujeito, que recebe apenas 40 mil por ano como superintendente de obras e sonha em largar Nova York para voltar pra Porto Rico, viu, por ironia do destino, um vizinho seu ganhar 5 milhões. Segundo o jornal, esse vizinho, um porteiro, gastava “só” 30 dólares por semana. Só? Deixa eu ver, trinta vezes quatro... o cidadão torrava 120 dólares por mês em raspadinha?!
Nessas horas eu tendo a concordar com aquela frase, “loterias são o imposto dos idiotas”. Se bem que a culpa não é tanto dos deslumbrados que jogam religiosamente, e sim do sistema. Acho que loteria é uma estratégia do capitalismo pras pessoas associarem forturna com destino e se conformarem. Cada vez mais, o pessal sabe que não vai ficar rico trabalhando. E isso poderia revoltar quem labuta dez horas por dia num emprego detestável recebendo uma mixaria. A loteria funciona como se fosse uma chupeta, um “não chore, neném”, porque ela reduz tudo a uma questão de sorte. Se você tem que ralhar muito num emprego ingrato, é apenas porque ainda não teve sorte. Mas, se insistir, vai ser abençoado por Deus. Você e as outras centenas de milhões de pessoas que acreditam nisso.
E, lógico, ninguém fala das estatísticas. Uma vez li que as chances de cair um avião em cima da minha casa são maiores que as de eu ganhar na loteria. E isso numa rota em que não passam aviões! Ok, eu não jogo, mas esse é o problema: minhas chances de ganhar se eu jogasse aumentariam bem pouquinho.
Outra coisa que detesto sobre loterias é que elas incentivam a péssima distribuição de renda. Todo mundo quer ganhar 20 milhões de reais. Mas eu preferiria que não existissem nem miseráveis nem milionários. Gostaria que, ao invés de um prêmio de 20 mi, fossem duzentos prêmios de cem mil. Cem mil é uma fortuna que mudaria a vida de 99% dos brasileiros.
Mas, praquele sujeito que gasta 30 mil por ano, 100 mil não é nada. Ele acha que trabalhar é pra trouxas. Meu cunhado, irmão do maridão, também é assim. Até hoje não sei do que ele vive. Não trabalha, porque pensa que trabalho é coisa de pobre. Seu sonho é ficar rico. E, pra isso, só jogando. Uma vez, quando ele soube que eu e o maridão éramos virgens nisso de loteria, entusiasmou-se e pediu que fizéssemos uma fezinha, e foi lá apostar, todo animado. Obviamente não deu certo.
Meu amado pai era viciado em jogo. Não é força de expressão: ele era viciado mesmo. Perdeu tudo que tinha nos cassinos do Uruguai e da Argentina. Mas não desistiu. Só se endireitou quando teve filhos, mas sempre continuou acreditando em ficar rico sem esforço, jogando na loteca. A cada semana a família inteira apostava na loteria esportiva. Um cartão por pessoa. Eu me lembro de ver o Fantástico só pra anotar os resultados da zebrinha. Nunca ganhamos nada, ou se ganhamos foi uma miséria. Mas ele seguiu jogando até morrer.
Num dos maiores sites americanos de finanças pessoais, o autor declara que a maneira mais fácil de ganhar na loteria é não jogar. Se o superintendente guardasse os 30 mil por ano num fundo conservador, numa década teria 350 mil, o que seria suficiente pra que ele voltasse pra Porto Rico. Porém, não é necessário rasgar dólares como ele para juntar uma graninha. Minha sugestão? Pegue esses 50 reais por mês que você joga na loteria. Aproveite e pare de fumar, e guarde mais esses 200 num fundo de previdência. Invista esses R$ 250 que você está poupando por mês durante trinta anos. Com um rendimento de 8% ao ano, você se aposenta aos 65 com uma renda vitalícia de R$ 1.220 (se você não fuma, maravilha. Mas atrapalha os meus cálculos: guardando apenas R$ 50 durante trinta anos, o montante seria de R$ 67 mil). Tá, não é muito, mas você não ia jogar esse dinheiro fora mesmo?

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

SESSÃO NOSTALGIA: MEU PRIMEIRO EMPREGO

Ao tentar me lembrar do primeiro filme que vi na vida – e falhar miseravelmente -, veio uma nostalgia que não tem nada a ver com o tema. Me lembrei do meu primeiro emprego com carteira assinada (antes disso, tinha apenas dado aulas particulares de inglês e, pasme, algebra básica), aos 19 anos. Tal qual o Tarantino, trabalhei numa locadora de vídeo. Isso foi em 1986, imagina. O mercado de vídeo engatinhava, havia pouquíssimas fitas seladas, a imensa maioria piratas, e nem era tanta gente que tinha um aparelho de videocassete. Eu vi um anúncio no jornal e consegui a vaga na então Montevídeo, que ficava na Consolação (vivi em SP entre 77 e 93). Era uma locadora de vídeo que também vendia montes de acessórios pras locadoras. Acho que o slogan era “o supermercado para o seu vídeo”, ou para a sua locadora, não sei. Eu tinha dois chefes que eu adorava e são meus amigos até hoje, o Paulo e o Elísio. Lembro que uma vez levei bronca por ser honesta demais com os clientes. Se alguém perguntava “Esse filme é bom?”, eu tinha que responder que, na minha opinião, não era, mas quem apreciava tal tipo podia gostar. Só que às vezes eu já condenava um filme mesmo sem o cliente perguntar, e isso lógico que é errado (fiquei irada quando, décadas mais tarde, um atendente em Joinville me viu pegando o hiper-clássico Um Bonde Chamado Desejo e disse: “Ugh! Você vai pegar isso? Um cliente viu e não gostou”).

Havia uma confeitaria perto da locadora, onde eu comprava um bombom de café quase todo dia. Meu amado pai às vezes ia me buscar no trabalho, e a gente ia comer frango lá perto ou ia ao cinema, no Bijou. Pouco depois passei a emendar o trabalho na locadora com umas aulas particulares de inglês para um engenheiro que morava num prédio da Praça Roosevelt (ao lado da Montevídeo). Ele era um amor e foi meu primeiro amigo abertamente gay (meus pais tinham alguns amigos gays, mas eram amigos deles, não meus).

Não trabalhei na locadora muito tempo. Foram apenas alguns meses, e nem sei por que saí. Sei que eu levava dois ou três filmes por dia pra casa e estava ficando alienada. Só queria saber de cinema. Mas, depois de sair, mantive contato com meus ex-patrões. Eu andava de moto com o Paulo e às vezes a gente pegava um cinema à tarde. Continuo achando um luxo supremo ir ao cinema à tarde, no meio da semana. Pra mim essa sempre foi uma grande sensação de liberdade.

Já o Elísio era meu amigo noturno. Ele é uma das pessoas mais divertidas que conheço, e sempre foi um tanto louquinho. Seu programa era me levar pra passear pelo centro da cidade. A gente andava, andava, ria, conversava, e eu nunca tive um pingo de medo, apesar dos lugares escabrosos. Era um tour de SP by night. Fui observando que ninguém mexia com a gente porque ele tinha pinta de perigoso.

Segui trabalhando um pouquinho pra eles também. Eles mudaram a locadora pro Copan e, como havia muitos filmes sem capa, eu passei a elaborar algumas. Recortava fotos, colava, escrevia uma recomendação. Faz pouco tempo, o Elísio me disse que gosta de crer que essa minha experiência com capas de vídeo influenciou a minha “carreira” de crítica de cinema. Nunca tinha pensado nisso, mas faz sentido.

O Elísio vendeu a parte dele da locadora há anos, mas o Paulo mantém a locadora no Copan. Ele mal tem fitas de vídeo hoje, apenas dvds, embora guarde algumas das minhas capas. Quase toda vez que vou a SP procuro vê-los.

E nem sei por que estou falando disso. Acho que foi só por ter lembrado, e bateu saudade.