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segunda-feira, 23 de outubro de 2023

UFA! MASSA VAI DISPUTAR SEGUNDO TURNO COM O LUNÁTICO MILEI

Ufa! O mundo todo respira aliviado, enquanto os reaças choram e gritam "fraude!". O candidato da extrema-direita Javier Milei não ganhou as eleições argentinas ontem. Ficou em segundo lugar. Agora vamos para um segundo turno duríssimo a se realizar no dia 19 de novembro.

Tal qual Jair, Javier também foi deputado federal medíocre (não aprovou nenhum projeto, só compareceu à metade das sessões). Porém, ao contrário do brasileiro, que passou quase 30 anos sem fazer nada de bom na Câmara, o argentino ficou só dois anos. É o candidato do Tik Tok, do meme, que cativa homens jovens com pouca instrução formal, aqueles que sempre viveram numa Argentina em crise e que, por acharem que não podem contar com o Estado para nada, aceitam destrui-lo. 

Milei, que afirma sem corar em entrevistas que seu pai começou a trabalhar com 3 anos, promete acabar com o Estado. Quer reduzir os ministérios para apenas oito, dolarizar a economia (mesmo que o país não tenha recursos para isso), liquidar o Banco Central, privatizar empresas públicas (e também a educação e a saúde), tirar direitos trabalhistas, revogar a lei aprovada em 2020 que legalizou o aborto, proibir educação sexual nas escolas, reduzir a maioridade penal, permitir posse de armas. Defende a venda de órgãos e apoia a ditadura militar. Prometeu uma nova guerra com a Inglaterra para recuperar as Malvinas. E, como desgraça pouca é bobagem, ontem ainda corria o boato de que o lunático convidaria Paulo Guedes pra ser ministro da Economia de lá. 

Além de todas essas barbaridades, "El Loco", como é conhecido, acha que seu cachorro Conan era um leão. Gastou uma fortuna para cloná-lo, e hoje contrata uma médium para se comunicar com o espírito do seu cachorro morto. Foi o cão que lhe disse que ele deveria ser presidente. Como brincou Gregório Duvivier num programa muito divertido, pode ser que a médium ouviu "au auf" e entendeu "au au", e aí o "você deve usar um pente" foi interpretado para "você deve ser presidente". 

Sua irmã é estrategista da campanha, e Milei já disse que, caso eleito, ela desempenhará o papel de primeira-dama. Ele não é casado nem tem filhos (fora os cães), o que deve fazer dele o ídolo dos mascus argentinos. 

Com esse currículo, não é difícil prever que, se Milei virar presidente (que as deusas proíbam), ele quebra a Argentina em menos de dois anos e não termina o mandato. Teremos um cenário como o de 2001, quando o país na sua maior crise teve cinco presidentes em duas semanas. E como o projeto da extrema-direita é a destruição total, é lógico que ela torce pelo "quanto pior, melhor". Dudu Bananinha, também chamado de Eduardo Bolsonaro, esteve em Buenos Aires (com nosso dinheiro) para apoiar Milei. Ao dar uma entrevista ao vivo defendendo porte de armas, foi tirado do ar na hora. "Por sorte os brasileiros removeram seu pai do poder", disse o apresentador sobre "esse tipo de gente". 

Bolso evidentemente tira votos de Milei. Um comercial comparando os dois está sendo muito eficaz. Espero que nossos hermanos continuem mostrando o quanto o projeto da extrema-direita foi catastrófico por aqui. 

A eleição está longe de estar ganha, mas eu e um monte de gente estamos mais otimistas agora. Primeiro que 78% dos argentinos votaram (a alienação e a falta de entusiasmo político sempre favorecem a direita). Segundo que o candidato governista, Sergio Massa, foi bem melhor do que se esperava -- teve quase 37% dos votos válidos, contra 30% de Milei. 

Não será fácil, pois Massa é o atual ministro da Economia num país arrasado. Mas os cerca de 10% dos votos do quarto e da quinta candidatos, ambos de esquerda, devem ir pra ele. E, com parte dos votos de Patricia Bullrich (que teve quase 24% e é de direita, da turma do Macri), Massa pode chegar lá. Ele deve adotar o mesmo discurso de Lula e outros líderes da esquerda na América Latina, pedindo um pacto nacional, um governo de coalizão pela democracia e contra o ódio.

Como Bullrich é de direita também, muitos pensam que esses votos irão pra Milei, fazendo dele o favorito. Mas não é tão simples assim. Tem reaça que pode não querer um selvagem da motosserra na presidência. Sem falar que, durante a campanha do primeiro turno, Milei chamou Bullrich de "assassina" (porque ela já foi guerrilheira, antes de se converter à direita). Mesmo que parte dos eleitores de Bullrich não votem em Massa, mas deixem de comparecer às urnas, isso impulsiona o peronista. Além disso, o dono do único instituto de pesquisa que acertou a vitória de Massa ontem lembra que a principal bandeira de Milei -- a dolarização da economia -- é rejeitada pela maioria da população. 57% dos argentinos são contra. E o receio de perder subsídios de energia, metrô e ônibus assusta o eleitor mais pobre de Milei.

Outra boa notícia para Massa é que o governador de Buenos Aires Axel Kicillof, do mesmo partido que ele, foi reeleito no primeiro turno. Metade dos eleitores da Argentina estão em Buenos Aires. Massa ganhou fácil lá. Se ampliar essa margem, leva as eleições.

Pra mim, o melhor sinal das boas chances de Massa é que Milei não cresceu nada entre as primárias de agosto e ontem. Ele teve 30% em agosto e teve 30% ontem, apesar de todo mundo só falar nele há meses, e da extrema-direita do mundo inteiro se unir em torno dele. Ele era favorito nas eleições de ontem e chegou a dizer que estava a 3 pontos de ganhar no primeiro turno (lá é diferente daqui, em que quem tem 50% dos votos mais um se elege já no primeiro turno. Lá basta 45% dos votos, ou 40% com mais de 10 pontos sobre o segundo colocado. Logo, quem ficou a 3 pontos da vitória foi Massa). 

Milei também alegou que, se não ganhasse, seria por fraude (a principal defesa de Bolso e Trump quando perdem). E isso num país com voto impresso e auditável! A maior parte dos analistas acreditava que haveria segundo turno, mas uma coisa é chegar no dia 19 de novembro com quase 37% dos votos (o que Massa conseguiu fazer), outra é chegar com 30% (a situação de Milei). Essa vitória inesperada de Massa dá um ânimo e tanto na reta final, e esse ânimo costuma contagiar o eleitorado. 

Vamulá, hermanas e hermanos! Livrem o mundo de mais um pelotudo fascista!

sábado, 30 de setembro de 2023

VAMOS VOTAR PRO CONSELHO TUTELAR

Quem falou que este ano não tem eleição? Tem sim, mas o voto não é obrigatório. É pro Conselho Tutelar!

Em 2019 eu votei pela primeira vez (como mostra a foto acima), e lógico que amanhã (domingo, 1o de outubro) eu vou de novo. Basta encontrar sua seção eleitoral (pro pessoal do Ceará, aqui) e levar o título de eleitor e um documento oficial com foto. Algumas cidades, como Fortaleza, vão garantir ônibus gratuito das 6 às 18h pra que todo mundo possa ir.

E por que é importante? Porque as conselheiras tutelares (imagino que a maior parte seja mulher) tem um mandato de quatro anos para defender e garantir os direitos das crianças e adolescentes, conforme previstos pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Acontece que, na prática, os Conselhos de cada cidade são lotados de crentes -- já que as igrejas evangélicas fazem forte campanha pra cada eleição --, e muitos conselheiros acabam agindo de forma totalmente errada (tirando a guarda de pais que seguem religião de matriz africana ou que são gays, por exemplo, ou perseguindo meninas de onze anos grávidas que desejam abortar). 

Se queremos um Estado laico (e eu quero sim, por favor!), é essencial a gente eleger pessoas que não sejam fundamentalistas religiosas para conselheiras. Neste site você encontra candidatas progressistas com o link pro perfil de cada uma. Anote e leve sua colinha. Em São Paulo dá pra votar em até cinco nomes, mas, em outras cidades, só em um. 

Este ano, pela primeira vez, a votação será através de urna eletrônica, o que promete ser mais rápido. Então não tem desculpa pra não ajudar a escolher as mulheres mais comprometidas em combater abuso e violência contra as crianças. 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

NAZISTINHAS INCELS AMEAÇAM DUDA, MANU E SÂMIA

Os nazistinhas não param de atacar. Domingo à noite Duda Salabert, a vereadora mais votada da história de Belo Horizonte, entrou em contato comigo para pedir orientações.

Ela, que junto a outras vereadoras trans e negras recebe ameaças de morte e estupro desde 2020, foi ameaçada mais uma vez, por email, por um rapaz que assinava como William Maza dos Santos, e se despedia com o típico 14/88, uma saudação nazista. 

Digitando o nome de William, chega-se a um comentário anônimo deixado no meu blog em meados do ano passado, contando algo costumeiro dos incels de chans (fóruns anônimos): a briga entre os membros. Quando brigam, um expõe o outro, espalhando fotos e dados pessoais do novo inimigo. Também é extremamente comum um cara ameaçar uma política ou celebridade com o nome daquele desafeto para tentar incriminá-lo. 

Por isso, é bem possível que o neonazi ridículo que tenha enviado as ameaças mais recentes a Duda não seja William, e sim alguém se passando por ele. Não cabe a nós descobrir, mas à polícia.

O que ficamos sabendo bem rapidinho é que quem ameaçou os jornalistas Lucas Neiva e Vanessa Lippelt, do Congresso em Foco, por uma matéria publicada em junho sobre como o 1500chan produz fake news em massa para Bolso, também foi William, ou alguém se passando por ele.

Ontem também foram divulgadas novas ameaças a Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) e sua filha Laura, de 6 anos. A menina é ameaçada desde que nasceu, e é incompreensível que até hoje ninguém foi preso. Manu, que respira política desde os tempos de estudante, desistiu de se candidatar este ano por conta das ameaças.

Como ela escreveu no seu Instagram, "Ser uma mulher pública no Brasil é ser ameaçada permanentemente. É escolher um lugar para o medo, outro para a coragem, outro lugar pro fingir ignorar. Ser mulher pública é conviver com a ameaça de estupro como correção pela coragem, com a ameaça de morte como silenciador".

Duda, que além de vereadora é professora, não ia se candidatar este ano. Porém, diante das ameaças, que fizeram com que ela perdesse o emprego numa escola particular, e também porque é mais fácil conseguir proteção no Congresso do que numa Câmara de Vereadores, ela decidiu concorrer à deputada federal (pelo PDT). Tomara que ganhe com excelente votação!

Esse tipo de ameaça é o que chamamos de violência política de gênero. São ameaças terroristas que alvejam mulheres, sempre com a intenção de calá-las. Não conseguirão. Toda minha sororidade a Duda e Manu, guerreiras que conheço pessoalmente e que têm a capacidade de mesclar força e doçura.
 
UPDATE: Agora à noite veio a notícia que a deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP) também foi ameaçada, ainda na semana passada. O mesmo esquema de xingar de vagabunda, de ameaçar filho e marido e de fechar com saudação nazista. Aposto que é assinado por William também. Ou seja, não é ele. É alguém fazendo hora extra para incriminá-lo. Óbvio que todos eles são nazistas repulsivos. Que continuem! Serão presos e talvez a polícia encontre outros nomes da quadrilha no computador. De quebra, ajudam a eleger ou reeleger as políticas que ameaçam, porque todo mundo fica do lado delas. Ninguém concorda com barbárie de incel.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

ESQUERDA GANHA PELA PRIMEIRA VEZ NA HISTÓRIA NA COLÔMBIA! OUTUBRO SERÁ A NOSSA VEZ

Uma notícia maravilhosa para animar a semana, o mês, a eternidade que temos até outubro: Gustavo Petro ganhou o segundo turno na Colômbia! Pela primeira vez na história, nossos vizinhos terão um presidente de esquerda! Que a América Latina seja toda de esquerda, toda pelo povo, unida!

Petro, que parte da mídia trata como ex-guerrilheiro (apesar de ser economista e senador), recebeu mais de 50% dos votos válidos. Foi uma diferença pequena, mas suficiente, contra o candidato de extrema-direita Rodolfo Hernández, que, ao contrário de Trump (e Aécio, e futuramente Bolso), reconheceu prontamente o resultado (diferente do genocida, os candidatos de direita que perderam na Argentina, Bolívia, Peru e México aceitaram a derrota numa boa, sem gritar "Fraude!", sem ameaçar o país com o exército. Detalhe: Bolso diz que a eleição que ele ganhou foi fraudada! Imaginem o que ele vai inventar sobre a eleição que ele perderá!

O resultado é ainda mais saboroso se a gente lembrar que a Colômbia, o terceiro maior país da América Latina (com população de 47 milhões, só fica atrás de Brasil e México), sempre foi capacho dos EUA. O combate ao narcotráfico foi constantemente usado como desculpa para o poderio imperialista norte-americano na região. Os tempos mudaram, mas a Colômbia continuou no seu rumo neoliberal, que gera tanta desigualdade. Em 2016 as FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) assinaram um acordo de paz. Petro nunca fez parte das FARC, mas do grupo M-19, que ainda em 1990 se tornou um partido político e ajudou o país a reescrever a Constituição. 

Outro motivo incrível pra comemorar é que, também pela primeira vez, a Colômbia terá uma mulher negra na vice-presidência. A advogada Francia Marquez é uma ativista feminista, antirracista, ambientalista, antenada com movimentos sociais de toda a América. Seu primeiro discurso (ela e Petro só tomam posse em agosto) não foi de ressentimento e vingança, como foi e continua sendo o de Bolso, mas de união e esperança: "Vamos, irmãs e irmãos, reconciliar este país. Vamos pela paz, sem medo e com alegria".

Petro foi na mesma linha, pregando a união e lembrando do momento histórico e revolucionário: "Depois de 214 anos, conquistamos o governo do povo, o governo popular, o governo da gente com as mãos calejadas, o governo dos ninguém e das ninguém na Colômbia". 

Bolsonarentos estão quebrando a cabeça para explicar a vitória da esquerda na Colômbia. Afinal, lá o voto é impresso! A última explicação que vi é que a Ursal pega todos os votos nulos e abstenções e joga pra esquerda (ninguém nunca acusou um reaça de ser bom em matemática. Nem em português!). A verdade é que na Colômbia o voto não é obrigatório, mas essas eleições tiveram um alto grau de comparecimento (quase 58%), o mais alto desde a década de 70.

A familícia finge não se sentir acuada ou sozinha, mas sabe que é cada vez mais pária do mundo, desta vez no seu próprio continente. Dudu Bananinha clama pela responsabilidade do eleitor brasileiro. Agora não é mais tão somente pelo Brasil, mas por toda a região. E colocou um mapa em que todos os países que não são de direita são... comunistas. Votar no messias passa a ser um ato de salvar o continente, quiçá o mundo!

Mas eles vão fracassar. Ninguém aguenta mais a destruição e a exclusão que a direita traz. Outubro será a nossa vez de varrer do mapa o modelo da fome, da miséria, da submissão, do militarismo, e voltar com Lula! Vamos ser felizes de novo!


quarta-feira, 25 de maio de 2022

PAOLA, CONDENAR O #ELENÃO É ATACAR QUEM LUTA

Hoje deve ser o primeiro dia na semana em que a chef Paola Carosella não está nos trending topics do Twitter. 

Num programa chamado DiaCast, Paola afirmou que "é muito difícil se relacionar com quem apoia Bolsonaro por dois motivos: ou porque é um escroto, ou é burro". Bolsonarentos se sentiram pessoalmente ofendidos e fizeram o que fazem sempre: ameaçaram, foram misóginos e xenofóbicos ("Volta para Argentina cozinheira" foi uma das tags), deram avaliações negativas aos dois restaurantes dela sem nunca terem pisado lá, promoveram boicotes etc.

Mais uma vez, não deu certo. Graças à propaganda (mesmo negativa), seu restaurante Arturito (no bairro de Pinheiros, SP) teve fila na porta ontem. O tempo de espera para o almoço até conseguir uma mesa era de 40 minutos. As reservas para o final de semana se esgotaram. Parece que aquele ditado reaça "quem lacra não lucra" não é muito verdadeiro. Mais à tarde, gente de esquerda levantou a tag "Paola lacra y lucra".

Porém, antes dos bolsonarentos descobrirem a entrevista da chef, os ciristas decidiram destacar outro trecho da Paola no podcast, em que ela critica os protestos Ele Não. Segundo um cirista, foi um "movimento criado pela esquerda caviar-leblon". Lógico que ciristas vão achar isso. Ciro, que assim como o PCO e a direita nunca perdeu uma só oportunidade de bradar contra as "pautas identitárias", dois dias depois do Ele Não já dizia que aquilo havia sido um erro. Foi simplesmente o maior movimento popular organizado por mulheres na história do Brasil, e o maior protesto contra Bolso durante toda a campanha eleitoral de 2018, mas, pra quem vive de menosprezar mulheres, foi um erro.

É compreensível que machistas pensem assim, mas a Paola?! Pô, Paola! Ela disse no DiaCast (diante de entrevistadores que não a confrontaram, ou seja, devem concordar com ela):

"Eu fui contra o movimento Ele Não porque esse movimento está fazendo ele [Bolsonaro] crescer, porque quem faz parte do movimento Ele Não, quem estava no movimento Ele Não? Não eram as favelas, não era o brasileiro tradicional religioso que vai na igreja, que acredita na família tradicional, eram feministas, brancas, das grandes capitais, manifestando meio que de peito pra fora, escrito 'ele não' de batom vermelho, eram movimentos de artistas, era uma elite -- que esqueceu que o brasileiro é muito religioso, que o brasileiro é muito conservador, e quem era a imagem do brasileiro religioso conservador? Era o Bolsonaro. E quem tava falando 'ele não'? 'Uns louco aí que eu não sei quem são'. Na cabeça dessa galera, óbvio". 

Pelo jeito, a Paola não participou do ato e não sabe muito sobre ele. Tudo começou com uma página no Facebook, o grupo Mulheres Unidas Contra Bolsonaro, criado por Ludimilla Teixeira (uma mulher negra e de esquerda da periferia de Salvador) no final de agosto de 2018. O grupo chegou rapidamente a um milhão de participantes (todas mulheres), já que a rejeição nossa ao fascista sempre foi enorme, e fez tanto barulho que, em meados de setembro, ela foi hackeada por criminosos bolsominions. Mas a página foi restabelecida no dia seguinte, continuou crescendo, e marcou os protestos, que aconteceram em quase 400 cidades e 50 países em duas datas: no dia 29 de setembro, durante o primeiro turno, e no dia 20 de outubro, antes do segundo turno. Aqui o belo manifesto lançado pelo Ele Não de Rio e SP.

Eu não tenho Facebook, mas tentei ajudar no que pude a impulsionar o grupo e os protestos, e marchei em Fortaleza junto a alunas e ao maridão (muitos homens participaram). Lembro da minha inocência. Numa palestra antes do primeiro Ele Não, falei sobre a minha preocupação: e se houvesse manifestantes infiltrados que quebrassem tudo, ou que, sei lá, comemorassem a facada no Bolso, ou que invadissem alguma igreja? 

Santa ingenuidade, Batman! Eu tinha esquecido que nada de polêmico precisa acontecer para que a extrema-direita, especialista em fake news, difame um ato. No mesmo dia, páginas e canais bolsonaristas já mentiam sobre o Ele Não, usando imagens de outros países, outros atos, outras épocas, e inventando todo tipo de discurso e montagem.

As milhares de pessoas que estiveram no Ele Não sabem que os atos foram gigantescos, pacíficos, lindos, cheios de diversidade, inclusive com várias crianças. Eu não vi mulheres com peito de fora (mas e se houvesse, o quê que tem? Até nas Marchas das Vadias mulheres com peito de fora eram uma minoria). Eu vi muitas jovens participando de um protesto pela primeira vez na vida. 

Tinha de tudo no Ele Não: trabalhadoras, integrantes do MST e da CUT, mulheres de movimentos de moradia, evangélicas, sindicalistas, professoras, estudantes, Mães de Maio, camponesas, indígenas. E estava longe de ser um protesto de elite. A doutoranda de Ciência Política Antonia Campos, da Unicamp, conta que um pesquisador comparou uma pesquisa do Ibope realizada em 2013 nas jornadas de junho (em sete capitais) com uma pesquisa no Ele Nao (só em SP), com outra da marcha pelo impeachment em 2015, para comparar a renda dos participantes. A renda dos dois primeiros protestos foi bem parecida.

Só que outras coisas aconteceram naquele final de semana de 29 de setembro. A Luka, do Movimento Negro Unificado, que participou ativamente do Ele Não, lembra que no mesmo fim de semana Bolso fechou as alianças com as lideranças evangélicas em todo o Brasil. E a fakeada em Bolso já havia ajudado a diminuir a rejeição das mulheres ao fascista.

No número de participantes, na potência dos protestos, o Ele Não foi um sucesso incrível. Mas, infelizmente, não foi suficiente para barrar Bolso. Há um outro jeito de ver a situação: talvez, sem o Ele Não, o boçal teria ganhado já no primeiro turno. 

Não entendo como tem gente que gosta de culpar quem luta por tudo que dá errado. Tem uma galera que culpa até o "café com bolo" (o pessoal que pacientemente sentou nas praças e ofereceu bolo e café pra quem quisesse conversar sobre o futuro do país)! Ciristas, por exemplo, até hoje responsabilizam Lula e o PT e todos os petistas e simpatizantes pela vitória de Bolso. Afinal, se o 12% (bons tempos!) tivesse ido pro segundo turno, óbvio que ele ganharia do Bolso (não ganharia não). A maior parte das pessoas de esquerda acha ridículo culpar o PT pela derrota do PT. Mas tem muita gente que culpa o Ele Não pela vitória de Bolso e não vê nada de absurdo nisso.

Como disse o @NoOneChomsky, a fala de Paola "é um exemplo didático da pessoa de classe média/alta que faz ventriloquismo dos próprios preconceitos e valores usando um brasileiro imaginário, pobre, conservador, meio ignorante, mas um puro, tadinho". 

Pois é. Só porque os bolsonarentos farão montagens e espalharão todo tipo de fake news sobre os nossos protestos não devemos protestar? Nunca mais? 

Ou isso só se aplica a protestos organizados e protagonizados por mulheres? Só porque o brasileiro médio é conservador e religioso (um puro!), feministas não devem sair às ruas para não ofender sua sensibilidade? Faz algum sentido essa lógica?

Paola tem minha sororidade ao ser atacada pelos mesmos misóginos fascistas que atacaram o Ele Não. Mas precisa se informar melhor sobre um protesto tão importante e gigantesco que obviamente vai se repetir nessas eleições. E, a todos os outros que criticam o Ele Não: vamos parar de condenar quem luta.