Mostrando postagens com marcador universidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador universidade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de março de 2019

O MAIOR ESQUEMA DE SEGURANÇA DA MINHA VIDA

Preciso deixar registrada como foi minha participação no evento Mulheres que Transformam, organizado pelo Decanato de Extensão da UnB.
Bom, foi tudo ótimo. Aconteceu na última quinta. Foram, na realidade, duas palestras. Uma, de manhã, no campus Darcy Ribeiro, em que eu, a socióloga e YouTuber Sabrina Fernandes, a historiadora Ana Flávia M. Pinto (uma das responsáveis pelo Festival Latinidades), e a professora Gina Vieira falamos por cerca de 20 minutos cada uma. 
Com todo o respeito e admiração por Sabrina e Ana Flávia, a fala mais comovente foi a de Gina, que criou o Projeto Mulheres Inspiradoras. Hoje adotado em várias escolas de Brasília, o projeto, vencedor de prêmios internacionais, faz com que estudantes valorizem mulheres (começando pelas pessoas de suas famílias). É lindo!
Sabrina e eu no almoço
A palestra da tarde, no campus Planaltina, foi comigo e com a física Elisabeth Andreoli de Oliveira, da USP. 
Amei a fala de todas elas, e também a energia e o carinho que podiam ser sentidos vindos do público, principalmente na parte da manhã, no auditório lotado. Foi muito bacana mesmo. Eu sempre guardo ótimas memórias de todas as minhas palestras na UnB (a primeira em 2011). 
Mas o que me chamou a atenção desta vez foi o enorme aparato de segurança. Gostaria de contar tudo, mas não posso, pra não comprometer futuras ações. Só posso dizer que nunca passei por nada igual. Até quinta minha maior proteção tinha sido numa roda de conversa no Sesc Tijuca, em 2015, em que tive que entrar pelo estacionamento. Cinco guardas me acompanharam por todo lugar (no final tirei foto com eles). 
Quinta na UnB destacaram trinta seguranças pra me proteger (e proteger o público e as outras palestrantes também). Havia uma rota de fuga programada. No caminho entre os dois campi, fui levada num comboio de três carros. Passei mais tempo com os seguranças da UnB (todos muito simpáticos e competentes, conversamos bastante) que com as outras pessoas. 
Num momento com um deles, enquanto esperávamos na sala do vice-diretor, ele me disse que haviam cuidado da segurança do Lula e do Dalai Lama do mesmo jeito que estavam cuidando da minha. Eu respondi que no caso deles eu entendia perfeitamente, mas eu era uma mera professora e blogueira. 
Breno vestindo a camiseta do fascismo
Gostei do trabalho de inteligência e planejamento que a equipe realizou. Por exemplo, ao chegar na UnB, de manhã, um dos responsáveis me mostrou a foto do Breno, e disse que ela havia sido distribuída a todos os seguranças. Breno gravou um vídeo em junho avisando que iria se matar e me "levar junto". No final de fevereiro, mandou um email jurando pelo túmulo de seu pai que a quadrilha neonazista iria contratar um pistoleiro e que deste ano eu não passaria. 
Porém, pelo que entendi, não houve alguma ameaça específica ao evento da UnB. Foi mais o momento político mesmo, que eles consideraram de alto risco para uma feminista que vem sendo ameaçada há anos. 
Eu não estou acostumada com nada disso. Entendo que precisem me proteger porque a situação realmente não é nada boa, depois do massacre de Suzano e de tantas ameaças. 
Entendo também que a UnB tenha mais cautela que outras universidades. Afinal, Marcelo, líder do Dogolachan (preso em maio de 2018 e condenado em dezembro a 41 anos de cadeia), estudou brevemente na UnB (me falaram que ele se matriculou em Letras Japonês mas não chegou a cursar nenhuma disciplina), em 2005, e passou meses em 2011 e 2012 prometendo um atentado lá. Muito mais recentemente, a professora e ativista Débora Diniz recebeu ameaças pesadas, que a fizeram sair do Brasil. E algo que eu não sabia, e que agrava a situação: o DCE da UnB está nas mãos da direita. 
Auditório lotado antes do início
Só posso agradecer a proteção, mas não é algo que eu quero me acostumar. Gosto de andar livremente por aí, ainda mais nos ambientes democráticos que são as universidades públicas. E o pior: quando há um esquema de segurança desses, geralmente não podemos tirar fotos e retribuir abraços da plateia no final. E isso faz muita falta. 
Eu e Belle em sua casa
Antes da palestra começar, uma moça entregou este bilhetinho pra minha amiga Belle, que o entregou pra mim:
"Lola, querida Lola, não quero perder a oportunidade de poder te agradecer. Ler você já é muito libertador e empoderador. Tenho tido uma trajetória longa, e, por vezes, doída, para ser a mulher que escolhi ser, cada vez mais livre das amarras instituídas e mais conectada com meus ideais. Obrigada por sua coragem, por sua luta. Você inspira e move muitas de nós. Com amor e respeito, Luana". 

domingo, 16 de julho de 2017

UM SEMESTRE FANTÁSTICO

Turma de Literatura em Língua Inglesa III

Semestre quase no fim!
Turma de Literatura IV
Nem posso reclamar muito, que o semestre na faculdade foi excelente. Tudo deu certo. Peguei talvez a turma mais perfeita desde que comecei a lecionar na UFC, em março de 2010. Não quero dizer qual é pra não deixar outras turmas com ciúmes. Todas as turmas são ótimas, pra falar a verdade. Os alunos e alunas têm aquele brilho nos olhos de quem quer aprender. 
Mas acho que nunca recebi tantos elogios. Um aluno escreveu que eu sou "um presente de Deus para o nosso currículo", por exemplo. 
Turma de Inglês V
Outro: "Vc nos motivou de uma forma que eu me sentia mal quando tinha que chegar atrasado ou faltar". E vários ressaltaram a autonomia que dou a eles nas aulas como uma das qualidades. Tento oferecer opções, deixar que eles escolham, porque sabem escolher.
Às vezes preciso citar alguns elogios. Sou tão xingada diariamente por gente que sequer me conhece que é bom destacar o que pessoas que convivem comigo pensam de mim. Ou pelo menos das minhas aulas.
E a turma do curso de extensão, mais uma vez, também foi sensacional. Tivemos apresentações incríveis das alunas. Algumas querem promover uns seminários levando pra fora o que discutimos nas aulas. 
Agora tenho que recadastrar o curso no georreferenciamento, e uma das coisas que eles pedem é uma foto. E eu não tinha tirado foto este semestre! Corri pra checar os emails e vi que uma aluna querida havia enviado imagens de uma ação que fizemos em novembro.
Curso de extensão Discutindo gênero
através de literatura e cinema no
Bosque da UFC em novembro
Nosso próximo curso de extensão já está marcado pra começar bem no início de setembro. É aberto a toda comunidade, é grátis, na UFC, CH1, Benfica. Pra se inscrever, é só me enviar um email: lolaescreva@gmail.com
Esta semana eu vi o memorial que uma professora apresentou para se tornar titular na UFC. Se não estou enganada, ela é a quarta docente do Centro de Humanidades da UFC a conseguir esse título, o ápice de um professor na universidade pública. E o memorial era lindo, cheio de fotos de toda a sua vida, principalmente sua vida acadêmica, claro. Nessa hora eu lembrei como é importante registrar imagens. Preciso fazer mais isso.
Agora que estou quase de férias, eu e o maridão vamos passar uma semaninha em praias do Ceará. É pouca coisa, porque estamos economizando pra nossa viagem internacional, pra Colômbia e Cuba, em dezembro, e também porque em breve o maridão vai pra Cuiabá jogar um torneio de xadrez. Eu queria ir também, queria conhecer Mato Grosso, mas não dá, tenho um monte de coisas pra fazer, e a passagem é cara (quase mil reais, ida e volta). 
Participação especial na foto: Calvin
Pessoas queridas, ainda tenho quatro exemplares do livro Gênero, Cultura e Mídia para vender. Tem um artigo meu no livro (sobre gênero e cinema), pode ver no índice (falta a segunda página do índice).
Custa R$ 40 e você recebe o livro em casa. 
Antes de depositar o valor na minha conta -- Banco do Brasil, agência 3653-6, conta 32853-7, ou Santander, agência 3508, conta 010772760 --, me mande um email (lolaescreva@gmail.com), pra saber se os exemplares ainda estão disponíveis.
Agora preciso escrever uma opinião sobre o livro que acabei de ler, o clássico Os Homens Explicam Tudo para Mim, de Rebecca Solnit. A editora Cultrix vai lançar o livro em português e pediu o parecer de algumas feministas brasileiras. Por isso, mandou o boneco do livro pra mim. Olha, é imperdível. 
E me animou bastante pra escrever meu próprio livro, atrasado uns quatro anos... 

domingo, 10 de julho de 2016

TURMAS QUERIDAS, FÉRIAS PRÓXIMAS

Minha turma de Práticas Orais

Quase final do semestre na universidade... 
Lolinha em Jeri em 2012. Espero
poder repetir esta foto logo
Ainda tenho duas turmas que terminam na semana que começa amanhã e uma pilha de trabalhos pra corrigir. E palestras e reuniões. E papers que eu preciso entregar. Mas, depois disso, um pouquinho de férias. Pouco, porque as aulas já reiniciam no dia 16 de agosto e vão praticamente até o natal, sem feriados prolongados no meio do caminho (todos os feriados cairão na quarta, pelo que eu vi). 
E talvez eu faça parte de uma banca de concurso durante as férias. Ainda não tenho certeza.
Quixadá, sertão cearense
Mas até o final do mês vamos passar alguns dias (dez, no total) viajando. Primeiro, Quixadá. Fui para lá em novembro para um seminário incrível e histórico (um congresso sobre gênero no sertão!). Não deu pra ver nada, mas a cidade pareceu linda, com suas montanhas de pedra rodeando tudo. Então prometi voltar e levar o maridão. Ficaremos no que promete ser um ótimo hotel. 
Depois, Jericoacoara. Já estivemos lá em dezembro de 2012. Deve ser o lugar mais caro para se tirar férias no Ceará (os hotéis são mais caros, mas o que pesa mais é o transporte. Precisa pagar pra deixar o carro estacionado e pra contratar guia e buggy pra levar às lagoas). Claro que compensa. O lugar é maravilhoso e, de lambuja, lá tem o melhor sorvete que eu tomei no Ceará, disparado: a Gelato Grano, em frente à praça principal.
Praia de Guajiru, CE
E, como Jeri é meio longe (dá mais de quatro horas de carro de Fortaleza), por que não parar em algum lugar na volta? Optei por duas diárias num lugar que ainda não conhecemos, na Praia de Guajiru, no Trairi, a 134 km de Fortaleza. Vamos ver! Parece lindo, lógico. 
Piscina do apê que alugamos em
Santiago do Chile para janeiro
E já estamos com tudo pronto pra nossa viagem de duas semanas em janeiro! Vamos passar uma semana em Santiago e outra em Buenos Aires. Acabamos alugando um apartamento pequeno, inteiro, pela Airbnb, em vez de ficar em hotel. Saiu super barato -- R$ 800 pelo apê em Santiago e R$ 700 pelo de Buenos Aires. E ambos são exatamente o que eu queria: próximos ao centro, com piscina. Melhor, impossível!
Foto do apê em
Buenos Aires
E finalmente usamos as milhas para pagar as passagens aéreas. De Fortaleza para Santiago, as duas passagens saíram por 10 mil milhas cada uma, e a volta, de Buenos Aires pra Fortaleza, por 9 mil milhas (a sugestão foi convergir todas as milhas num programa só através de portais de compras como Elomilhas, Maxmilhas). Tivemos que pagar todas as tarifas de aeroporto, que não são baratas (R$ 857 entre os dois). O único porém é que a viagem de ida pela TAM chega no Rio (Galeão) às 17h e só sai para Santiago às 5 e pouco da manhã do dia seguinte. Ou seja, teremos que passar uma noite de algumas horas no Rio. De preferência, perto do aeroporto. Eu acho que motel é a melhor opção (muito mais barato que hotel, e não precisa reservar), mas como é difícil encontrar motéis no Google! 
Para fazer o trajeto entre Santiago e Buenos Aires, pesquisamos bastante, e as passagens mais baratas foram por sugestão de leitorxs daqui do blog -- 204 dólares (no total pros dois) pela Sky Airline, companhia chilena. Em suma: no total, até agora, uma viagem internacional de duas semanas tá saindo por R$ 3060! Graças a todas as dicas de vcs
Turma de Literatura em Língua Inglesa IV
Mas estou escrevendo este post basicamente só pra colocar as fotos que tirei com meus aluninhos queridxs. Fazia tempo que eu não tirava uma foto da turma, e a minha cabeça está tão desantenada que eu pensei, numa aula recente: "Vou pedir pra algum aluno trazer câmera pra gente tirar foto na próxima aula". Demorou um dia inteiro pra eu lembrar que boa parte dos alunos deve ter celular com câmera! 
Turma de Literatura em Língua Inglesa I
Foi um semestre muito bom. Ainda não acabou, mas já estou falando no passado. Infelizmente, esqueci de tirar foto com a turma do curso de extensão. Foi a melhor turma de extensão que tive até agora, muito participativa. E semestre que vem tem mais! 

sábado, 22 de novembro de 2014

MACHISMO E OUTROS PRECONCEITOS NO VESTIBULAR DA UNESP

Vestibulandos fazendo facepalm

Texto machista
(clique para ampliar)
O vestibular da Unesp, realizado no último domingo, incluiu trechos de textos de autores reaças como Rodrigo Constantino e Leandro Narloch, além de um outro da revista Exame com colocações duvidosas sobre o papel da mulher (o texto fala que "mulheres estão dispostas a abdicar de sua natureza em nome da carreira" -- qual natureza, cara pálida? -- e que o papel de mãe "é a grande e única questão de gênero que importa").
Quer dizer, são várias questões que partem de textos retrógrados. A Maria Frô escreveu sobre isso. E, hoje, recebi por email o texto de ex-alunos da Unesp, agora professores de ensino médio e superior, que escreveram uma carta aberta a respeito do conteúdo ideológico deste vestibular:

Carta Aberta à VUNESP, Professores e Vestibulandos
Partindo do real papel do vestibular na sociedade brasileira, qual seja, selecionar segundo critério meritocrático a entrada de estudantes nas universidades do país, falar desse processo seletivo obrigatório significa compreender que mesmo com a expansão da oferta de vagas efetuada na última década (através do Reuni, Prouni, Fies, entre outros Programas de acesso implementados nas universidades nos últimos anos, sobre os quais cabem críticas relevantes, porém não é o que nos pretendemos aqui no momento), ela ainda não é suficiente e, portanto, o vestibular continua ranqueando estudantes e deixando um grande número para o lado de fora dos muros das universidades públicas, ratificando a desigualdade econômica, de acesso à educação pública de qualidade, aos bens culturais e a meios de comunicação mais democráticos. 
Nesse contexto, as provas dos vestibulares geraram e continuam gerando discussões na sociedade em geral a partir dos temas levantados nas questões de cada ano, (re)colocando muitas vezes assuntos importantes na ordem do dia, com base num conteúdo cientificamente embasado e utilizando-se de autores expressivos da sociologia, filosofia, história, geografia, literatura etc. para fazer com que os candidatos reflitam sobre o que se espera que respondam. 
Porém, tendo em vista o último vestibular da Unesp -- que coloca em xeque conceitos históricos que refletem a história política, econômica e cultural brasileira -- vimos por meio desta carta, nos manifestar a respeito de algumas questões que ferem gravemente a legitimidade do vestibular que oferece acesso a esta Universidade, bem como seu estatuto científico, ambos frutos de conquistas às quais sempre fomos instigados a respeitar e defender, enquanto ex-alunos desta Instituição.
Na questão 7, a temática da maternidade é apresentada de maneira absolutamente inapropriada para o momento histórico presente em que se coloca a questão de gênero como central nas análises sociais. Inexplicavelmente a Vunesp recupera uma anacrônica leitura da questão de gênero, concebendo-a a partir de parâmetros naturalizantes. Mesmo não encontrando qualquer evidência nos processos reais, o vestibulando é obrigado a ratificar uma visão que trata o tema como uma fatalidade biológica, se não mesmo como uma obrigação social ou moral da mulher. 
Se a máxima lançada por Simone de Beauvoir, há mais de sessenta anos ("Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a fêmea humana no seio da sociedade"), parece não incomodar a comissão elaboradora da prova, nos causa estranheza que não se sintam envergonhados por desrespeitar a obra daquela que foi provavelmente a mais destacada professora da Universidade Estadual Paulista em toda a sua história, Heleieth Saffioti, autora do clássico estudo "A mulher na sociedade de classes: mito e realidade".
Ainda em relação a esta questão, cabe frisar que não é o acesso -- ou falta dele -- à educação que faz de um grupo social uma minoria política, mas sim a desigualdade vivenciada na correlação de forças, na distribuição do poder existente na sociedade. Desse modo, reduzir toda a luta feminina a um singelo pedido por condescendência dos patrões em relação à 'vocação natural da maternidade' nos soa inadmissível.
Na questão 59, existe a tentativa não apenas de suavizar, mas sim de eximir as nações europeias por qualquer responsabilidade sobre as consequências negativas decorrentes do espúrio processo neocolonial que escravizou e explorou diversos povos africanos bem como as riquezas presentes em seus territórios, culpabilizando-os por sua atual situação de miséria, já que segundo o texto da questão, já haviam ali conflitos instaurados, antes da invasão das potências ocidentais. Nos sentimos como se a Unesp estivesse simplesmente negando os ensinamentos de referências como Florestan Fernandes (“A integração do negro na sociedade de classes” ou "O negro no mundo dos brancos"), Octavio Ianni ("As metamorfoses do escravo" ou "Cor e mobilidade social em Florianópolis" -- em parceria com Fernando Henrique Cardoso), o pluralismo inaugurado por Levi-Strauss ("Raça e história") e fundamentalmente o método crítico de autores como Walter Benjamin ("Teses sobre a história") e Edward Palmer Thompson ("A história vista de baixo").
O autor joga uma nuvem de fumaça sobre a Conferência de Berlim (1884) e a partilha da África, com todas as suas consequências, portanto é negacionista. Depois, espontaneamente, faz uma alusão ao iluminismo (sem citar fontes), e nega os efeitos da presença de oligopólios europeus no Continente. Ou seja, a análise do texto não se sustenta nem como reles nota de roda pé de estudos consagrados dentro da tradição crítica de interpretação dos processos sociais. 
E é esta interpretação crítica que vem sendo valorizada em todos os documentos referenciais para o tratamento de tais fenômenos no campo das ciências humanas quando voltadas para o ensino fundamental e médio, para não dizer da educação em geral. É conhecida de todos nós, trabalhadoras e trabalhadores da educação, a resistência imposta pelas universidades públicas de São Paulo em adotar medidas que favoreçam a inclusão em seu meio de estudantes que fazem parte das minorias políticas, mas nem a tão defendida 'autonomia universitária' lhes dá o direito de fazer vista grossa para os Parâmetros Curriculares Nacionais em suas avaliações admissionais.
Na questão 56, chegamos à conclusão de que o debate sobre o multiculturalismo e o relativismo cultural deseja relativizar as construções sociais e políticas mais profundas da Sociedade Brasileira e sugerir uma 'tolerância aos que intoleram'. O problema da questão da Vunesp não é quem escreve e nem quem é citado como referência, mas o que se escreve e a maneira como se questiona: o lugar e os termos a partir do qual se decide formular um problema e transformá-lo em questão para os vestibulandos. 
Franz Fanon, lembrando daquilo que certa vez um professor seu lhe disse, afirmou: "sempre que você ouvir alguém maltratar um judeu, preste atenção, porque ele está falando sobre você [um negro]". Quer dizer, falar de diferença enquanto atraso e barbárie no Iraque pode ser também um jeito de falar, por exemplo, de populações indígenas no Brasil, sobre países ou populações africanas ou afro-brasileiras e por aí vai. 
Nossa preocupação com a questão envolve a linguagem e o formato no qual esta foi construída. Tal discurso, defensor do caráter hierárquico no trato das tradições culturais, pode até encontrar amparo ou legitimidade dentro daquela tradição denominada criticamente por Edward Said como 'orientalista', mas soa como 'palavra mofa' à luz da renovação crítica que a área dos estudos culturais sofreu nas últimas décadas.
Defendemos uma educação plural, que valorize a diversidade inesgotável no campo das ciências. O que não podemos fazer é nos calar diante de uma proposta educativa que se negue a ser crítica! 
Esperamos que esta manifestação quebre o silêncio até agora existente a respeito do problema aqui apontado. O corpo docente parece alienado deste debate, não se incomodando com o fato do vestibular estar fazendo chacota aberta das teses e ideias que eles mesmos nos ensinaram nesta instituição que tem tão larga tradição de participação crítica no debate público nacional. 
Os estudantes também não se manifestaram publicamente a respeito da questão. Esperamos que o façam a partir de agora, e utilizando os mais variados instrumentos e meios de pressão. Como ex-alunos da Unesp, mas fundamentalmente como trabalhadoras e trabalhadores da educação, nos recusamos a acreditar que auxiliar os alunos a 'escovar a história a contrapelo' possa promover a seleção de respostas erradas nas provas admissionais.
Neste sentido, convidamos a todos que sintam-se representados por este documento que assine embaixo e divulgue da melhor forma que julgar possível. Mais que um texto nosso, é uma construção coletiva. 
(Seguem várias assinaturas que podem ser conferidas na página do FB em que a carta foi inicialmente publicada).