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segunda-feira, 12 de março de 2018

GUEST POST: O OUTRO LADO DO DESSERVIÇO

Eme Barbassa, profissional do teatro, acatou o pedido de uma leitora (que pediu para eu escrever sobre a novela O Outro Lado do Paraíso, eu expliquei que não via a novela e que seria difícil escrever sobre algo que desconheço, e Eme topou o desafio). Então falaí, Eme!

A Rede Globo está com uma campanha no ar em homenagem ao dia das mulheres. A campanha pede entre outras coisas por direitos iguais, deveres iguais, oportunidades iguais, divisão de tarefas de cuidado, respeito às diferenças e não às desigualdades. A iniciativa é muito bacana, mas contrasta com a maneira como a emissora vem representando alguns temas ligados às mulheres em sua novela das nove. 
Walcyr Carrasco, autor da novela O Outro Lado do Paraíso, aborda o tema da violência doméstica como marketing social. Em suas redes sociais, o autor escreveu que busca conscientizar os espectadores sobre o tema e estimular a denúncia e até mesmo divulgou o número da central de atendimento à mulher (180). Mas o que vemos no ar é um verdadeiro desserviço.
Gael, personagem do ator Sérgio Guizé, é um homem com histórico violento que agrediu e estuprou a personagem da mocinha Clara, papel de Bianca Bin, nos primeiros capítulos. O personagem tinha rompantes de violência, era ciumento, mas logo se arrependia e pedia perdão. Conduta machista clássica que vemos aos montes por aí. 
Muitas coisas aconteceram na novela. Aquelas reviravoltas clássicas do gênero. A mocinha é internada, fica anos fora de circulação e volta jurando vingança. Gael ainda é “apaixonado” por ela e tenta se redimir do seu passado violento. 
E é aqui que entra a parte mais problemática da história. Gael não procura ajuda especializada, mesmo sendo um homem rico e com bom grau de instrução. Ao invés disso, ele procura a vidente vivida pela atriz Fernanda Montenegro, que lhe diz que existem forças malignas que se apoderam do seu corpo fazendo com que ele seja violento com suas mulheres. 
SIM. ISSO MESMO! A culpa de Gael ser um cara tremendamente machista e violento é do demônio. A vidente reza e pede para os guias espirituais ajudarem Gael. Ele se arrepende e lembra do seu passado, onde apanhava de sua mãe. SIM. Não satisfeito em culpar o demônio, Walcyr Carrasco joga a culpa de Gael bater e estuprar mulheres no colo de uma outra mulher. 
A abordagem foi ao ar no capítulo deste sábado (10/03) e revoltou os telespectadores nas redes sociais. Não sei o que Walcyr Carrasco pretende com isso, mas é uma conduta irresponsável demais abordar um tema tão urgente desses de maneira que é quase criminosa. Será que é preciso lembrar ao autor os números alarmantes da violência sofrida pelas mulheres no nosso país? Será que ele acredita de verdade que essa abordagem esdruxula dará algum tipo de resultado positivo? 
A resposta pode ser encontrada na própria novela. Sim. Carrasco acredita que sim. Recentemente outro vertente da violência contra a mulher foi abordada na obra e a coisa foi igualmente desastrosa. Uma menina foi abusada com frequência pelo padrasto em sua infância. Já adulta, ela apresenta dificuldades de transar com o marido. O que o autor fez então? Novamente colocou a personagem em contato com alguém que em tese não exerceria ajuda especializada. Numa ação de marketing envolvendo milhões, coloca a personagem em contato com uma coach, que pratica hipnose para descobrir os reais motivos do comportamento “sexualmente travado” dela. 
Mais uma vez, a cena despertou a ira dos telespectadores e o Conselho Federal de Psicologia manifestou seu repúdio ao tratamento retratado na trama. Sim. Mais uma vez, Carrasco prestou um desserviço à população brasileira ao retratar com simplismo e interesses mercadológicos um tema tão grave como o sofrimento psíquico causado por um abuso sexual sofrido na infância. 
Além disso, a novela também retrata os personagens homossexuais de uma maneira preconceituosa, reforçando a caricatura e incentivando o bullying com apelidos que já deveriam ter caído em desuso.
Fica aqui a pergunta: Até quando uma emissora como a Rede Globo vai permitir que isso seja levado ao ar sem tomar as devidas providências? 
PS: O Outro Lado do Paraíso é a novela de maior audiência da emissora desde Avenida Brasil, exibida em 2012. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

GUEST POST: FATMAGUL, UMA NOVELA SOBRE ESTUPRO

Mais de uma pessoa tem me pedido pra falar sobre a novela turca que passando na Band, Fatmagul. No sábado uma leitora até deixou um comentário sobre isso. 
Como eu não assisto a novela (aliás, não assisto qualquer novela há anos, mal ligo a TV), não tenho como escrever sobre ela. Felizmente, a Sylvia, de SP, fã de Fatmagul, me enviou este texto. 

Não sei se vocês conhecem a novela turca Fatmagul, que passa atualmente no canal Bandeirantes. Eu não sou noveleira, tampouco assisto TV (e muito menos canal aberto) e juro que, quando a novela estava para estrear não tive nenhum interesse em assistir, pois ela logo de cara mostraria uma cena de estupro. 
Felizmente, a minha mãe (que assistia a novela anterior, Mil e Uma Noites) foi fisgada pela curiosidade e começou a acompanhar, então todas as vezes que eu a visitava acabava assistindo com ela, e foi aí que acabei me interessando pela história, já transcorridos uns 50 capítulos. 
Passei umas duas semanas assistindo a novela inteira do começo ao fim no Youtube, muitas vezes em turco mesmo. Não entendo nada dessa língua, mas graças a uns capítulos com legendas em inglês ou dublados em espanhol, pude concluir que é uma novela que vale MUITO a pena. 
Se vocês simplesmente lerem a sinopse não vão querer assistir. Assim como aconteceu comigo, vão achar que é mais uma novela banal que romantiza o estupro, mas quando começarem a assistir vão ver que não se trata disso, é uma novela muito bonita e triste, muito digna. Um drama baseado na realidade das mulheres que sofrem/ sofreram estupro, na dificuldade de superar o trauma e reconstruir a vida, na constante culpabilização da vítima e na incansável luta pela justiça. Li que a novela foi adaptada de um livro, que por sua vez é baseado em fato real. 
Fatmagul com o noivo Mustafá
A história: a protagonista, Fatmagul, é uma bela jovem humilde e órfã que vive numa pequena cidade costeira junto com seu irmão, sua cunhada e o sobrinho. Ela está noiva de Mustafá, um humilde porém ambicioso pescador, e tudo o que ela deseja é se casar, ter a sua própria família, cozinhar para o seu amado e viver uma vida de Amélia. 
A terrível cena do estupro
De repente, todos os seus sonhos são destroçados quando ela sofre um estupro coletivo (não preciso nem dizer que é uma cena muito tensa). ESSE é o início de todo seu drama. Ela sofre preconceito, é rejeitada e abandonada pelo noivo (que vai se mostrando extremamente machista) e sua família, silenciada pela família rica dos estupradores (os Yasaran) e pela sua cunhada perversa e oportunista que, juntos, a forçam e a se casar com um de seus supostos agressores, convencida de que é o melhor que poderia acontecer a uma mulher "que não é mais pura". 
Os quatro amigos. Os três da direita
estupram Fatmagul
Para evitar a vergonha, ainda é obrigada a se mudar da sua cidade natal junto com a sua família e esse marido que ela tanto odeia. A falta de escrúpulos dos culpados, que ficam livres e ainda querem se vingar da vítima (que tenta, a duras penas, fazer justiça), faz com que eles afundem um por um no próprio rastro de morte e desgraças que criaram, no desespero de ocultar o incidente e calar Fatmagul. 
Logicamente, por ser uma novela, o romance entre Fatmagul e o marido vai florescendo mas de uma forma sutil e tímida, nos pequenos gestos e olhares, na convivência diária com ele, que faz de tudo para agradar, apoiar e proteger Fatmagul dos constantes ataques dos Yasaran e Mustafá. 
Inclusive é o marido que dá o primeiro passo para denunciar o estupro e incentivá-la a seguir com o julgamento, mesmo sabendo que ele também poderá ser preso (já que, embora ele não a tenha estuprado, estava na cena do crime e era amigo dos agressores). 
E por que mudei de ideia e fui conquistada por uma história tão desgraçada? Porque a novela é bem elaborada e atuada, retratando a todo momento as consequências terríveis do machismo nos dramas pessoais de cada personagem feminina, o sofrimento da vítima de estupro e todo o seu processo lento e delicado de cicatrizar as feridas, a extrema dificuldade psicológica em denunciar, a demora e as complicações burocráticas de se obter justiça. 
Porque mesmo que o amor surja a partir de um incidente tão hediondo, a novela não romantiza o estupro. Aliás, essa maldição nunca é esquecida nem banalizada e até quase o fim da novela causa sofrimentos e é o grande obstáculo na felicidade de Fatmagul. 
Mas o mais legal mesmo é acompanhar a evolução da protagonista, aquela figura retraída, submissa, triste e quase sem ação no começo da novela, que vai se transformando em uma mulher forte, madura, com atitude, reconquistando sua autoconfiança perdida e indo atrás de seus sonhos, tornando-se dona de um restaurante e se permitindo voltar a amar e confiar em alguém.
O que eu não gostei é que a novela é exibida aqui com o título "Fatmagul, a força do amor", sendo o título original algo como "Qual a culpa de Fatmagul?", e claro, da trilha sonora nada a ver que enfiaram na novela (do Bruno e Marrone -- ok, a música pode até ser bonitinha... para uma novela brasileira. Mas não para uma novela turca, que trata do tema estupro!), então acho que acabaram banalizando um pouco aí. 
Enfim, é uma história comovente, de sobrevivência, superação e luta por justiça. Não vou contar o final, mas é arrepiante (um dos melhores desfechos de uma novela, na minha opinião). A quem assiste, espero que esteja gostando. E a quem não conhece, pode assistir que não vai se arrepender.

terça-feira, 21 de abril de 2015

GUEST POST: BABILÔNIA, A GRANDE MERETRIZ

Juliana Ferreira de Souza, 28 anos, servidora pública estadual e feminista desde que se conhece por gente, me enviou este texto sobre a novela das nove, Babilônia.

O machismo direto é o mais fácil de combater. Se alguém nos diz, por exemplo, que lugar de mulher é na cozinha, instantaneamente nós já dispomos de vários argumentos que conseguem aniquilar aquele que extravasou tal ideia. O machismo indireto, aquele que não é verbalizado, mas demostrado por ações, é o mais sofrido e difícil e, infelizmente, devido às suas sutilezas, muitas das vezes até aqueles que são adeptos dos ideais do feminismo são contaminados por ele. 
O exemplo atual do machismo indireto é a novela transmitida pela Rede Globo no horário nobre: Babilônia, de autoria de Gilberto Braga. Recentemente iniciou-se no Brasil um movimento de boicote à produção, com fundamento no fato de ser a telenovela “uma ofensa às famílias”, isso porque, em uma das primeiras cenas, a personagem Tereza (interpretada pela atriz Fernanda Montenegro) beija a personagem Estela (Nathália Timberg), além do fato da principal antagonista da novela (Glória Pires) gostar de sexo.
Como um beijo pode causar repulsa?
Justamente aí reside o reflexo da sociedade machista brasileira. 
O beijo das atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg chocou tanto porque se trata de duas senhoras que não podem ser comercializadas sexualmente. 
Ora, se fossem duas mulheres jovens, por parte de alguns poderia ocorrer certa rejeição ligada à homofobia, mas com certeza não haveria um boicote; provavelmente as atrizes já estariam no programa do Faustão falando de suas dificuldades para interpretar a cena e já teriam realizado ensaios sensuais por mexerem com o imaginário masculino, como ocorreu com as personagens lésbicas de Giovanna Antonelli e Tainá Muller na novela Em Família (também com direito a beijo) ou com o casal interpretado em Mulheres Apaixonadas pelas atrizes Alinne Moraes e Paula Picarelli (desta vez sem direito a beijo). 
Outro exemplo que ratifica essa constatação é a tão comentada cena da atriz Paolla Oliveira na minissérie Felizes para Sempre. Nela a atriz aparece seminua, numa cena que poderia ser tachada de "imoral", até pelo fato da personagem ser uma prostituta. Entretanto as pessoas não julgaram, simplesmente aplaudiram.
A rejeição à antagonista ninfomaníaca interpretada pela atriz Glória Pires beira à hipocrisia. Para quem não se lembra, na novela anterior (Império), o tal comendador vivia na cama com sua ninfeta e tinha mais duas mulheres “reservas”. 
Concluindo, sem querer defender a emissora Globo ou sua programação, a sabotagem à novela Babilônia decorre do seguinte pensamento: a mulher não pode ser livre sexualmente, isso ofende a família, salvo se dessa “liberdade” decorrer alguma vantagem para o universo masculino, ou seja, exposição do corpo como se um produto fosse, quiçá tal boicote decorresse pura e simplesmente do fato das pessoas não se interessarem pelo desfecho das personagens, como por exemplo, quando deixamos de assistir um drama, por preferirmos um suspense. Angustiante!
Lide com minha sexualidade, espectador conservador!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

GUEST POST: OS MUITOS PROBLEMAS DA NOVELA DAS 7

A maior tragédia da vida de uma mulher: deixar de ser loira

Hoje a Talita me mandou uma notícia que me deixou indignada: a novela das 19h da Globo "ensina" que ficar feia é mudar seu cabelo loiro e liso por um crespo e negro. Isso sim é cabelo de feia -- e pobre.
Antes e depois
Minha revolta foi ainda maior porque ontem mesmo respondi um email de uma moça que quer se matar (literalmente!) por estar fora do padrão de beleza e, principalmente, por não ser branca de olhos claros. Vou publicar o relato dela semana que vem.
Discuti isso no Twitter e Tuany, uma publicitária de 27 anos que mora em Floripa, apontou outros problemas da novela. Pedi para ela escrever um guest post, e ei-lo: 

Desde que estreou a novela Alto Astral, o folhetim das 19h da Globo, eu torci o nariz. A premissa é que se trata de uma história espiritual, que fala sobre reencarnação e eu, como seguidora da doutrina espírita, sei que se esses pontos não forem colocados da maneira correta, vão apenas reforçar os estereótipos que já existem em relação ao espiritismo.
Mas antes fosse esse o único problema. Gostaria de deixar bem claro que não acompanho assiduamente a novela, portanto, em alguns momentos citarei o nome dos personagens; em outros, dos atores. O horário coincide com quando chego em casa e deixo a TV ligada enquanto faço o que tem que ser feito e, como moro sozinha, é bom ter um “barulhinho”.
Vou tentar relatar os fatos pela ordem de flagrante.
Na primeira vez que sentei no sofá e parei para ver a novela, estava passando uma cena onde a Sofia Abrahão discutia com o (ex-)namorado no portão de casa. Aparentemente, ela já havia terminado o relacionamento. O moço tentava argumentar e, diante da negativa dela, a agarrou. Ela relutou. Ele insistiu. Ela se rendeu. Ou seja, era apenas “charminho”. A moça entra em casa e relata o beijo apaixonado para a mãe, que fica maravilhada e torce para que eles se acertem.
Menos de cinco minutos depois (sério!), a mesma cena com outros personagens. Dessa vez, o casal protagonista, Caíque e Laura. Ele a agarra. Ela resiste. Ele insiste, segurando-a mais forte. Ela se rende. Apaixonada. 
Mas, gente, que problema existe? Eles eram namorados, óbvio que ela queria! Além do mais, eles são o casal protagonista, é claro que devem ficar juntos, mesmo que ele não saiba ouvir não e a agarre à força! 
Troquei de canal mas, no dia seguinte, lá estava eu novamente, dessa vez já atenta pra pescar novos sinais. Que não demoraram a chegar, claro.
Dois irmãos conversam na cozinha. Um deles, na casa dos seus 20 anos. O mais novo, por volta dos 8 ou 9. 
O mais velho desabafa com o menor (quem nunca, né, gente?) sobre como gostaria de namorar uma menina, mas ela não parecia muito a fim. Aí, o mais novo explica para o irmão como é que as coisas realmente funcionam: “A mãe uma vez me disse que quando a menina diz não, ela quer dizer sim”. Peço perdão pela falta de exatidão, não lembro se a frase foi “quando a menina diz não, ela quer dizer sim” ou “quando a menina diz não, ela só está fazendo charme”. Não sei o que me choca mais nesse contexto.
Outro núcleo, vamos lá: uma moça, enfermeira, virgem, se envolve com um rapaz “pegador”. O que ela não sabia que é o moço havia apostado uma caixa de cerveja que ele iria, sim, conseguir desvirginá-la. Ela, apaixonada e encantada com as investidas dele; ele, cada vez mais insistente, consegue o que quer. E filma. E cai na internet. A moça, claro, sofreu toda sorte de torturas psicológicas. Pediu afastamento do emprego e não conseguia mais sair de casa. 
Até que... surge ele! O MACHO SENSÍVEL E SALVADOR! Ele é apaixonado pela moça em questão e é médico do hospital em que ela trabalha (ele é médico e ela é enfermeira, coincidência?), e a incentiva a voltar a trabalhar, a seguir a vida e, como não poderia deixar de ser, a ficar com ele. Afinal, quem mais iria querer ficar com uma moça que já teve vídeo íntimo postado na rede? Apenas os machos sensíveis e salvadores! 
Itália recebe lição de moral
Um dia, ela lamenta sobre tudo que aconteceu com ela, sobre como isso foi injusto e nojento. E ele, do auge da sua sensibilidade: “Olha, Itália, você é adulta e tem que admitir que também tem responsabilidade sobre tudo que aconteceu! Afinal, todo mundo te avisou que ele não prestava”. 
Aí, quando você pensa que consertaram o cano de vazamento de chorume, ele explode na sua cara: o moço que vazou o vídeo está arrependido. Chorando, inconsolável, pois acabou de descobrir que a ama. O pobre moço encontra consolo no colinho da mamãe, que não entende por que essa moça não perdoa seu filho. Tão arrependido, tão apaixonado. Tão babaca.
Mas, a última é a entrada da Monica Iozzi, na pele de Scarlett. Scarlett é filha de um dos donos do hospital em que a trama é ambientada. Ela é loira, rica sem nunca ter trabalhado, mora em Nova York. Até que seu pai falece e, para que possa conseguir colocar as mãos na herança, precisa passar um ano trabalhando na lanchonete do padrinho para “aprender a dar valor ao dinheiro”. 
Claro que todo pai zeloso deixa para ensinar isso à filha no postmortem, nada mais natural. É aí que vem: para que ela vá para o Brasil trabalhar na lanchonete, ela passa por uma transformação. Tem seus lindos e hidratados cabelos transformados por um cabeleireiro que brada ao entrar em sua casa: “Vim fazer o que me mandaram: te deixar feia”. A cena acaba com ela gritando, horrorizada em frente ao espelho. 
No próximo capítulo, descobrimos o que de tão horrendo tinha acontecido à nossa pobre menina rica: seus lindos cabelos loiros foram substituídos por cabelos escuros, crespos e curtos. Ou seja, isso é “enfeiar” a personagem. Cabelos loiros e lisos = pessoa rica e bonita. Cabelos curtos e crespos = pobre e feia. A empregada. 
Ah! Claro que o nome dela também mudou! Vocês já viram empregada feia e pobre se chamando Scarlett? Não, né? E Cida? Muito mais nome de empregada, né!
Fora as inúmeras cenas de racismo (o irmão mais velho citado acima, negro, acusado de roubo, a empregada negra), disputa entre as mulheres (por causa de homem, lógico! Por que mais elas poderiam competir?), mulher fazendo de tudo, inclusive inventar uma doença terminal, para segurar o marido e chamando a mulher por quem ele é apaixonado de vagabunda e vários adjetivos de embrulhar o estômago. 
Como eu disse antes, se não acompanho com frequência e já consigo perceber tudo isso. Imagina se acompanhasse? Mas tem algo que me deixa ainda mais incomodada: novelas do horário das 19h são as novelas “bobinhas”, “família”, “bem humoradas”. Dói saber que é isso que tá fazendo as pessoas rirem. Dói saber que esse tipo de discurso é oferecido como entretenimento pós-dia-cheio-no-trabalho.
"Scarlett, você tá horrorosa!", diz seu padrinho, rindo.
Não sei o que é mais triste: presenciar esta cena ou ver
Leopoldo Pacheco, que brilhou no remake de Escrava Isaura,
ser tão rebaixado na sua carreira