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domingo, 21 de abril de 2013

GUEST POST: O FEMINISMO NA TRILOGIA MILLENIUM

Quando estive em Natal no ano passado, meu querido e antigo leitor Allan Patrick me levou pra almoçar num restaurante chinês, e também me deu de presente a trilogia Millenium, a série de três livros (o primeiro, e mais conhecido, sendo Os Homens que Não Amavam as Mulheres) do sueco Stieg Larsson.
Infelizmente, ainda não tive tempo de lê-la (antes preciso ler Jogos Vorazes; não consigo ver nada além de teoria), mas minha mãe devorou os livros e adorou. 
O Patrick, além de ser uma pessoa doce e adorável, tem um blog, é delegado da Receita Federal, e feminista (mas casado com a Juliana, sorry, meninas). Ele já contribuiu com um guest post aqui pro bloguinho, e agora publico este outro.

A Trilogia Millenium de Stieg Larsson já mereceu dois posts aqui no blog: "Lisbeth Salander, heroína pra quem?" e "Crítica: Os homens que não amavam as mulheres". O primeiro sobre a personagem principal da obra literária e o segundo uma resenha sobre a adaptação hollywoodiana da trilogia (que, a propósito, não está tendo vida fácil para gerar uma sequência). Houve também uma adaptação sueca para o cinema, esta da trilogia completa.
O interessante é que os debates provocados pela obra também chegaram às universidades. Em junho foi publicado pela Universidade Vanderbilt Men Who Hate Women and Women Who Kick Their Asses, Stieg Larsson's Millennium Trilogy in Feminist Perspective, uma coletânea de artigos acadêmicos sobre a obra de Larsson numa perspectiva feminista. 
[Nota da Lolinha: como se pode perceber, tudo é objeto de estudo na academia. Por isso, é ridícula a gritaria em torno de um belo projeto de mestrado, aprovado pela UFF, que irá discutir a contribuição (ou não) de Valesca Popozuda pro feminismo. Só leigo não entende que tudo pode e deve ser estudado, ou que teses sobre o que se chamava de "baixa cultura" -- distinção que já foi destruída pelo pós-modernismo há décadas, então os leigos estão um tanto atrasados -- vem sendo escritas por universidades no mundo inteiro. Tem que ser muito ignorante pra bradar "Só no Brasil!" Mas suponho que as pessoas que criticam esse tipo de tese são as mesmas que acham que só deveria existir faculdade de engenharia, medicina e direito. O resto é inútil! Fim da minha intervenção. Desculpaí, Patrick!]
É difícil resenhar uma coletânea de artigos (dezoito no total) bastante plural, mas acho que o primeiro artigo dá um tom equilibrado a partir de onde começar. Intitulado "Always ambivalent" e de autoria da Professora Abby L. Ferber (que também já escreveu para o Huffington Post), trata dos múltiplos sentimentos que Millenium desperta numa feminista. A principal crítica da autora é à violência explícita da obra, ao mesmo tempo em que reconhece que há um mérito na medida em que essa violência não é gratuita mas serve para tirar da zona de conforto a quem minimiza ou tem uma percepção pouco acurada do que é misoginia.
Ferber ressalta que ao longo de toda a trilogia (estamos aqui nos referindo à obra literária, evidentemente) o feminismo é explicitamente citado sob uma perspectiva positiva, sendo creditado aos movimentos de mulheres uma série de conquistas na luta contra a violência de gênero. Ao contrário da mídia em geral -- e de boa parte da produção cultural atual -- que adota uma visão pós-feminista, na qual se pressupõe que as desigualdades de gênero são coisas do passado, a obra de Larsson refuta repetidamente esse consenso.
Um ponto importante na caracterização da violência contra a mulher, ressaltado por Ferber, é que esta violência não é o produto de um punhado de vilões intrinsecamente maus. Pelo contrário, essa violência é apresentada como sistemática e institucional, praticada pelo advogado bem quisto na sociedade ou pelo aposentado "inofensivo". Esses vilões não são apresentados como monstros solitários, mas como componentes de uma cultura de opressão. Nesse contexto, ainda segundo Ferber, é louvável o esforço de Larsson para mostrar, através de advérbios de tempo, como a violência contra a mulher não é um fato extraordinário, mas antes, tristemente comum.
Ferber destaca também o cuidado de Larsson em incluir diversos contra-exemplos de masculinidades saudáveis, como é o caso dos personagens Holger Palmgren, Jan Bublanski, Paolo Roberto, Dragan Armansky e, claro, Mikael Blomkvist. Adicionalmente, os encontros sexuais em que Blomkvist está envolvido são exemplarmente consensuais e, não raro, de iniciativa das mulheres.
Por outro lado, a Professora Roberta Villalón destaca em seu artigo, "Accounts of Violence against Women", que a descrição realista feita por Larsson dos atos de violência vem sendo utilizada pela Rape, Abuse and Incest National Network (RAINN) como uma plataforma para educar o grande público sobre a face real da violência contra a mulher. Villalón destaca ainda, ao tratar da verossimilhança da narrativa de Larsson, o paralelo de sua descrição dos atos de violência contra a mulher com os relatos das vítimas da tortura praticada pela ditadura militar argentina.
A principal crítica à construção da personagem principal vem das pesquisadoras Anna Westerståhl Stenport e Cecilia Ovesdotter Alm, em seu artigo "Corporations, the Welfare State, and Covert Misogyny in The Girl with the Dragon Tattoo", ao ressaltarem o aspecto conservador que a personagem Lisbeth assume ao agir como um superpoder individual que resolve todos os seus problemas, construindo suas soluções desconectada de qualquer luta coletiva de gênero e através da violência.
A coletânea inclui ainda "An Open Letter to the Next Stieg Larsson", em que a editora LeeAnn Kriegh dá dicas a autores sobre como compor adequadamente personagens femininos marcantes, e "Pippi and Lisbeth, Fictional Heroes across Generations", um dos meus preferidos, em que a professora Meika Loe traça um paralelo entre as personagens Lisbeth Salander e Píppi [Bibi no Brasil] Meialonga que seria, de certa forma, sua versão infanto-juvenil, já que influenciou Larsson na composição de Lisbeth. Loe descreve como Píppi exerce uma influência positiva sobre sua filha, ainda em idade pré-escolar, servindo-lhe como modelo feminino no imaginário infantil, uma das poucas opções fora do padrão "princesa".
Perpassando vários dos artigos está a força da personagem Erika Berger, a que mais sofreu em todas as adaptações cinematográficas, pois de personagem principal na obra literária, passou a praticamente figurante no cinema, tanto na versão sueca como americana, embora a trama paralela que protagoniza, em especial no terceiro volume da série, seja quase tão interessante quanto a principal, mas muito mais realista. A crítica à ausência de Berger nas telas também é feita por Eva Gabrielsson, viúva de Stieg Larsson.
Enfim, a coletânea é mais rica, diversa e interessante do que minha simples resenha faz parecer. Mesmo tendo origem acadêmica, o livro é de fácil leitura e vale a pena ser conferida por qualquer fã da Trilogia Millenium.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

CRÍTICA: OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES / Lisbeth, heroína

Tenha medo... Tenha muito medo

Finalmente vi a versão americana de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, e devo dizer que gostei mais do que da versão sueca. É estranho, eu sei. Afinal, só faz sentido comercial (americano se nega a ler legenda) refilmar uma produção de apenas dois anos atrás. E é bem ridículo ver atores que têm inglês como língua materna falando inglês com um leve sotaque sueco, só porque decidiram que a refilmagem ainda se passaria na Suécia. Por outro lado, não daria pra história se passar em outro lugar, né? Por mais sedutora que fosse a ideia de mostrar um poderoso culto secreto devotado à misoginia no sul dos EUA, por exemplo, toda a série Millenium foi escrita por Stieg Larsson justamente pra mostrar que a misoginia corre solta até num dos países com maior igualdade de gênero no mundo, caso da Suécia. Embora ache que Daniel Craig como o jornalista esteja bem melhor que o ator sueco Michael Nyqvist (pelo menos dá pra acreditar que todas as mulheres da trama iriam pra cama com o Daniel sem piscar), não creio que Rooney Mara seja uma Lisbeth mais marcante que a de Noomi Rapace. As duas estão incríveis, e bem diferentes uma da outra. Quer dizer, pra falar a verdade eu me lembro muito pouco do filme sueco. O que fica na memória mesmo é a cena do estupro. Aliás, as cenas, porque são duas (ou três, ou duas e meia, se a gente considerar a parte em que o sujeito desprezível força Lisbeth a fazer sexo oral nele), e ambas repulsivas. Não sei quanto a você, mas não consegui torcer ou sentir que as mulheres foram vingadas quando Lisbeth estupra seu estuprador. Bem distante da sensação que sentimos em Ensaio sobre a Cegueira, quando a mulher do cego mata o líder dos vilões estupradores com uma tesoura. Aí a gente vibra mesmo.
Bom, mas então por que acho a versão americana superior à sueca? Por causa do ritmo. O filme de David Fincher me prendeu, ao menos até chegar ao seu terço final. Creio que esse é o grande erro das duas versões: tem finais demais, não acabam nunca. É reviravolta depois de reviravolta, e isso cansa. Não sei dizer em que parte exatamente a versão americana perde a mão, mas eu chutaria que é quando Lisbeth vai fazer pesquisa na biblioteca. De lá pra frente, o filme desanda, e, na minha opinião (óbvio que é a minha opinião! Não seria a opinião do padeiro, nem do meu gatinho), não se recupera mais. E, desculpe, mas a história não parece tão instigante assim pra me dar vontade de encontrar tempo pra ler a trilogia.Antes de continuar, preciso dizer que, agora que vi a versão americana, discordo do texto da Rejectionist, que traduzi e publiquei. Lisbeth é uma personagem muito forte, sim. E muito capaz. Adoro quando o jornalista pergunta se ela não vai anotar toda a tonelada de informações que ele lhe passa, e ela sugere que já está tudo guardadinho em sua cachola. Até concordo que personagens femininas “estranhas” (no caso, cheia de piercings e tatuagens) são sempre magras, porque ainda assim ficam dentro do padrão de beleza e podem ser sexualizadas por espectadores/leitores, enquanto se elas fossem gordas, estariam transgredindo demais as regras. Mas definitivamente não consigo ver Lisbeth sendo criada para excitar homens, que é o que Rejectionist implica (se bem que aquele primeiro poster do Daniel abraçando uma Mara com os seios à mostra, hmm...). Lisbeth vive num mundo hostil, em que volta e meia é atacada por homens, mas sabe se defender e não parece depender deles pra muita coisa. Pra mim, ela é uma personagem muito feminista. E o filme, por condenar a misoginia, e por passar a visão e os valores de Lisbeth, é também muito feminista. Ainda assim, cabem críticas. Uma marca de roupa lançou uma coleção de moda baseada na Lisbeth da versão americana. Isso fez com que Eva Gabrielsson, viúva de Larsson, se pronunciasse contra o merchandising. Pra ela, explorar a imagem de Lisbeth para vender produtos vai contra o que desejava o autor da trilogia. Eva, sueca como Larsson, viveu trinta anos (sem casar) com o escritor. Quando ele morreu, jovem, oito anos atrás, não deixou testamento. Os direitos do livro não ficaram com Eva, e sim com o pai e o irmão de Larsson, o que me parece profundamente injusto. Numa entrevista, Eva criticou Mara Rooney, que disse numa declaração à imprensa que Lisbeth não é feminista, e que não se vê como parte de um grupo. Eva não gostou: “[Rooney] não sabe em que filme está? Ela leu os livros?” Para Eva, ainda que Lisbeth não se encaixe em nenhuma categoria, “Todo o seu ser representa uma resistência ativa contra os mecanismos que impedem que as mulheres avancem no mundo e, em casos piores, que sejam abusadas como ela foi”.
Eva já se manifestou contrária à tradução do título do primeiro livro (em sueco, “Homens que Odeiam Mulheres”) para “A Garota com a Tatuagem de Dragão”, que é como o filme se chama nos EUA. Segundo ela, esse título foge da temática dos livros e “parece título de livro infantil”. Bom, só se for livro infantil sueco. Mas gostei de suas declarações. Pelo menos aqui no Brasil o título “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” se manteve mais próximo do original sueco. Se bem que vai uma distância entre “não amar” e “odiar”, certo? Misoginia não é não amar mulheres. É odiá-las, inclusive odiar que possamos ser e fazer tudo que queremos (que vai além das nossas “missões” sexuais e maternais). Vou achar ótimo se Lisbeth Salander inspirar meninas a serem fortes e independentes. E se ela inspirar homens que nos odeiam a nos temer.