quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

CRÍTICA: ENCANTADA / Encantados com o passado

Ai, ai. A briga na bilheteria americana no início do mês ficou entre o “ateu” “A Bússola de Ouro” (escreverei sobre essa superprodução medíocre na semana que vem) e “Encantada”. A direita cristã fez campanha pra que o pessoal boicotasse o primeiro e fosse ver o segundo, já que o longa da Disney reitera os valores mais conservadores. “Encantada” ganhou fácil, e é mesmo um filme muito superior à “Bússola”. É também fácil de assistir, se a gente conseguir sobreviver aos longos minutos iniciais de um desenho animado horrendo. Uma futura princesa é jogada fora desse universo pela sua malvada sogra e vai parar, em carne e osso, em Nova York. Como trata-se do selo Disney de ingenuidade, a Encantadinha chega em Times Square à noite e o pior que pode acontecer a ela é um mendigo roubar-lhe a tiara. Esse pessoal vive aonde, no mundo de “Uma Linda Mulher”?

Quando o Patrick Dempsey (de “Grey's Anatomy”) leva a Amy Adams pra sua casa, a situação lembra um pouquinho “Splash, uma Sereia em minha Vida”. A diferença é que a princesa não tem que aprender nadinha pra triunfar. A cidade grande instantaneamente se rende a ela. Apesar de ser um advogado rico com uma filhinha, e, convenientemente, sem esposa no pedaço, o apê do Patrick parece um chiqueiro. Isso não é problema pra Encantadinha, cuja grande alegria na vida é fazer faxina. Ela convoca animais pra ajudá-la, e surgem ratos, pombos e baratas. As baratas americanas não são tão nojentas quanto as nossas, mas ainda assim é uma cena pouco encantadora, digamos. Porém, nossa princesa não despreza ninguém, nem as baratas. A Amy copia direitinho os gestos e expressões das heroínas dos contos de fada, o que equivale dizer que na maioria das cenas ela parece uma débil mental das mais simpáticas. Ela tá a cara da Julie Andrews e até tem seu momento “The hills are alive” (“Os morros estão vivos”: abrindo os braços, dançando, rodando em cima de um gramado), mas tá exagerada, e os gritos inaugurais cansam. Pra mim quem se sai muitíssimo melhor é o James Marsden (fraquinho como Cíclope em “X-Men” e ótimo em “Hairspray”) como príncipe. Ele tá sonso, ridículo, e doce ao mesmo tempo, sem um pingo de ironia, e sem os berros. As duas falas mais engraçadas referem-se a ele. Uma é quando o Patrick afirma sobre o príncipe: “Ele canta também”. A outra quando o auxiliar da bruxa pergunta pro bonitão se ele se ama, e ele responde com uma indagação: “What's not to like?” (“O que tem pra não gostar?”).

Mas ele raramente aparece sozinho, e temos que suportar bichinhos bobos. Logo que apareceu um esquilinho gerado por computador, pensei: os que eu conheço são muito mais bonitos e graciosos que esses efeitos digitais. Mas é melhor assim, porque há um monte de crueldade contra esquilos gerados por computador (o dito-cujo é preso em inúmeros recipientes de vidro, crucificado num cabide, jogado num forno à lenha). E nem é esquilo, é chipmunk. A tradução jura que é tâmia. Melhor chamá-lo de esquilo mesmo. Tem também a Susan Sarandon como a sogra/bruxa má que, obviamente, é muito mais sexy que a Encantadinha (os contos de fada educam as meninas a pensar que a única coisa que importa é ser linda, e que é preciso competir com outras mulheres pelo único título que importa, o de ser a mais bela. Só as gordinhas de meia-idade estão livres dessa rivalidade sem fim. Elas são relegadas a fadas-madrinhas. Faltou a fada-madrinha em “Encantada”).

Outras lições de moral: há dois casais. Em ambos a mulher vai abandonar o lugar onde vive pra ir morar com seu amado. Note que o oposto nunca acontece. E o filme ensina que o programa favorito de uma menina de seis anos com sua mãe (ou madrasta boazinha) é uma tarde fazendo compras. Essa sequência é inacreditável. Pensei que iriam mostrar mãe substituta e filha provando mil e um modelitos, se maquiando. Mas não. Mostram só as duas saindo das lojas, carregando montes de pacotes. Qual o valor dessa cena? Absolutamente nenhum, além de ensinar que o melhor programa do mundo é fazer compras. Depois a garota usa seu fundo de emergência pra adquirir um vestido de baile pra futura madrasta (sendo que esta ficava mais bonita quando se servia das cortinas e tapetes da casa pra montar suas roupas). Pois é, isso de guardar dinheiro pra financiar um curso superior é inútil, porque, se uma mulher pode escolher entre ser uma princesa e cursar uma faculdade, bom, essa nem é uma opção, é? Vamos gastar toda a grana em vestidos! Ah sim, a namorada do Patrick o encontra deitado embaixo de uma moça só de toalha, mas ele diz que não é o que ela tá pensando. Após receber flores como pedido de perdão, ela sussurra: “Se você diz que não é nada, eu acredito”. Bela mensagem que a Disney tá passando. A única lição de moral que eu endosso é quando a Encantadinha canta “Como ela sabe que você a ama?”. Pois é, se esses homens não dizem ou mostram pra gente que nos amam, como podemos ter certeza? Eu perguntei pro maridão: “Como posso saber que você me ama, seu panaca?” E ele: “Eu disse várias vezes hoje que te amo. Passei o dia inteiro falando isso. Não fiz outra coisa hoje. Mas você tá meio surdinha. Deve ser a idade”. Tão romântico esse meu príncipe encantado!

“Encantada” não desafia nenhuma das várias lições dos contos de fada, pelo contrário. O príncipe encantado existe. Vale a pena esperar por ele. Um beijo mágico vai nos salvar. Seremos felizes para sempre, sem qualquer esforço. E o verdadeiro amor é sempre à primeira vista. Mas pega mal eu falar mal de um filme desses. É como falar mal de “Shrek”. As pessoas gostam porque é docinho e porque passa a ilusão de estar desconstruindo um gênero. Mas é só isso: ilusão. Acho que um fã sincero deveria pelo menos assumir que gosta desses filminhos por serem tão retrógrados, não por serem inovadores. Porque de inovador não têm nada.

2 comentários:

Gabi Loka disse...

Eu gosto de filmes bobinhos mesmo e gostei dele porque eles juntaram coisas de varias princesas clássicas no filme em uma personagem só (o vestido da Cinderela, os trejeitos da Branca e a classica cena dela arrumando a casa com os bichinhos - só que na cidade os bichos são outros - e as musicas como em qualquer um dos filmes de princesa da Disney e mais a madrasta meio estilo Malevola + Madrasta Má). E o final 'inovador' em que ela salva o principe da vilã transformada em dragão. De resto ele só é uma atualização genérica de todos os clássicos e deixando-os mais perto do nosso mundo, a cidade grande. Pq vamos combinar que o auge do dia ser lavar a escada e cantar prum poço (inicio de Branca de Neve) está bem distante dos dias atuais.

Pandora disse...

Eu não faço a minima ideia de como cheguei nessa resenha... Na verdade estava procurando o post que fala sobre aquela foto do marinheiro beijando a enfermeira na times Square no fim da 2ª Guerra Mundial. Mas concordo em gênero, número e grau com tudo o que foi dito.