quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

AJUDE A COMUNIDADE TRANS NA ESCÓCIA

Recebi este email do James. Vamos ajudar, pessoal?

Meu nome é James. Eu sou um homem trans brasileiro que mora na Escócia há 10 anos (e faz uns 7 que leio teu blog). Eu trabalho para uma ONG nacional LGBT chamada Equality Network. Nos últimos anos, fomos responsáveis pela campanha que levou à implementação do "Equal Marriage" -- casamento para pessoas do mesmo sexo aqui. Agora nossa principal campanha, junto com nossa ONG-irmã Scottish Trans Alliance (dividimos o mesmo escritório, e a STA começou como parte da Equality Network antes de se tornar sua própria organização), é sobre "Legal Recognition" (Reconhecimento Legal) para pessoas trans e não-binárias. 
Por causa da nossa campanha por Legal Recognition, o governo lançou uma consulta para atualizar as leis sobre mudança de nome e gênero de pessoas trans. Até pouco tempo, nós éramos o melhor país em termos de acesso aos processos de transição, mudança de nome, etc. Agora que Argentina, Malta e Dinamarca colocaram leis ainda mais simplificadas que a nossa, nós temos um bom argumento para pedir por mudanças (a lei atual é de 2004).
Porém, logo que a consulta começou, a mídia conservadora dos tabloides caiu em cima e começou uma campanha contra as propostas. E um monte de gente transfóbica está respondendo à consulta. Se tivermos mais respostas negativas do que positivas, vai ser muito difícil para o governo (mesmo um que está do nosso lado como esse do Scottish National Party, que é centro-esquerda e não exatamente nacionalista do jeito que o nome sugere) implementar qualquer mudança. E pior, isso pode dar forçar para os conservadores tentarem tirar os direitos que já temos (ainda mais com o governo do Reino Unido sendo de direita). 
Nós precisamos de toda a ajuda que pudermos para mandarmos respostas positivas (a consulta é aberta pro mundo todo). Mas é só até o dia 1o de março.
Coloco aqui uma tradução simplificada da consulta. 
A comunidade trans da Escócia precisa da sua ajuda!
O governo escocês abriu uma discussão pública para atualizar a legislação em torno da mudança de nome e gênero para pessoas trans. As propostas para a nova legislação em sua maioria seguem as recomendações da maior organização trans do país (a Scottish Trans Alliance, ou STA). A STA passou anos trabalhando com o governo para colocar essa proposta de nova legislação em pauta. 
Porém, como se trata de uma discussão pública, assim que a mídia começou a falar no assunto, uma onda de gente transfóbica do mundo todo vem tentando tomar conta da discussão, enviando respostas negativas para impedir essa reforma (ou até mesmo para tentar fazer a legislação atual regredir). 
Precisamos de mais gente disposta a nos ajudar a virar esse jogo. A consulta aceita respostas internacionais. Respondam e compartilhem para mostrarmos ao povo transfóbico que a gente também sabe se mobilizar e estamos unidos para avançar nossos direitos.
Se acontecer das respostas negativas forem muitas, é possível não só que a reforma não vai acontecer, como também criará uma situação em que o governo conservador do resto do Reino Unido (a Escócia tem autonomia para algumas áreas de sua legislação, e o governo daqui é bem mais progressista) vai ter sua desculpa para qualquer outra mudança - ou até mesmo implementar medidas contrárias ao que queremos. Considerando que estamos em uma situação internacional relativamente favorável, ver o Reino Unido regredir pode ter um efeito similar ao da a vitória do Trump nas eleições dos Estados Unidos e a bagunça do Brexit: a minoria conservadora barulhenta ganha forças e fica ainda mais barulhenta e agressiva, criando um efeito dominó que pode ameaçar direitos de pessoas trans muito além das nossas fronteiras.
A discussão pública é uma enquete online com espaço para deixar comentários. Você não precisa responder todas as questões, e comentários também são opcionais. Está em inglês, mas quem não entende muito pode seguir a orientação da tradução/ explicação abaixo:
O link para a enquete é este aqui.
Respostas só serão aceitas até dia 1 de março, duas da tarde, horário de Brasília.
As perguntas mais importantes são estas:
- A primeira pergunta é sobre o reconhecimento legal de seu nome e gênero. No momento, a mudança de nome e gênero em si é bem fácil (é só fazer uma declaração assinada por um juiz, de graça). Com essa declaração, a pessoa pode mudar todos os seus documentos, menos a certidão de nascimento. Para mudar a certidão, a pessoa precisa ter vivido com o nome por pelo menos 2 anos e enviar documentos provando sua situação para uma banca que decide se a pessoa pode ou não mudar sua certidão. A proposta é acabar com a banca e o tempo de espera - a declaração oficial seria suficiente. Responda AGREE ("concordo").
- A pergunta 5 é sobre deixar que pessoas de 16-17 anos possam mudar seus documentos sem precisar de autorização dos pais. No momento, apenas aqueles maiores de 18 anos podem mudar seu nome (é um processo bem mais simples que no Brasil, feito antes que qualquer mudança física como hormônios ou cirurgia). Responda AGREE ("concordo").
- A pergunta 6 dá várias opções para como proceder quando uma criança menor de 16 anos quer fazer mudança de nome (nenhuma criança ganha acesso a qualquer mudança física. Mesmo acesso a bloqueadores de hormônio na puberdade são difíceis de conseguir. Essa proposta quer apenas permitir que crianças usem o nome e gênero com o qual se identificam na escola, no sistema de saúde, e em qualquer outro aspecto de sua vida pública). A opção que recomendamos é a opção 3: PARENTAL GUIDANCE (orientação dos pais). 
- A pergunta 12 é sobre dar reconhecimento legal de gênero a pessoas não-binárias. Responda YES (sim).
- A pergunta 13 detalha as medidas para implementar esse reconhecimento legal de pessoas não binárias. Nossa recomendação é escolher as opções 1, 3, 4 e 6. 
Opção 1 é "mudanças em formulários" para incluir uma nova categoria. Opção 2 é criar um livro para registrar as pessoas não-binárias (o que por si só não faz mais nada). Opção 3 é mudar documentos, criando uma opção de gênero X para quem não se identifica com M ou F. Opção 4 é fazer o mesmo sistema de auto-declaração de gênero do que o proposto para outras pessoas trans. Opção 5 seria uma promessa de que o governo faria inclusão non-binária gradativamente. Opção 6 é incluir pessoas não-binárias explicitamente na lei anti-discriminação (no momento ela só fala de "idade de gênero" sendo uma característica que não pode ser discriminada). Opção 7 é "sem mudanças".
E pra quem quiser responder o resto:
- A pergunta 2 quer saber se a pessoa deveria fazer uma declaração afirmando que quer viver em seu "gênero adquirido" (tradução literal) pelo resto da vida. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 3 é sobre criar um limite para o número de vezes que uma pessoa pode fazer esta declaração de mudança de nome/gênero. Vale salientar que no momento este limite não existe, e não consideramos uma boa ideia implementá-lo. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 4 quer saber se, caso implementarmos esse novo sistema simplificado para mudança de nome, quem poderia utilizá-lo. As opções são A - para quem nasceu ou foi adotado na Escócia, e quem mora aqui; B - para todo mundo; ou C - Não sei. Recomendamos a opção B, pois ela permitiria que turistas e outros visitantes tivessem seu gênero e nome reconhecidos no país, independente do nome e gênero oficial no passaporte. Isso não só é bom para quem não pode ainda fazer essa mudança em seu país de origem, mas também faz com que a pessoa fique enquadrada nas leis de anti-discriminação e crime de ódio. 
- A pergunta 7 quer saber se a pessoa trans pode fazer o processo de reconhecimento legal de seu nome e gênero sem a autorização de seu cônjuge. A legislação no momento permite que casais do mesmo sexo entrem em uniões civis ou casamentos, mas casais de sexos diferentes só podem fazer o casamento. Por isso, se uma pessoa casada precisa mudar seu gênero, talvez seja necessário mudar também o tipo de casamento/união civil. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei). A recomendação é votas No, porque nenhum adulto deveria depender de outra pessoa para poder ter sua identidade reconhecida.
- A pergunta 8 quer saber se casais de sexos diferentes poderiam ter uniões civis também (pra que pessoas trans não precisem mudar seu tipo de casamento). Vale salientar que aqui "casamento" é muito mais ligado a religião e igreja que no Brasil. O casamento "civil" do Brasil não parece ser uma opção muito difundida, e se parece muito mais com a união civil dos casais de mesmo sexo. Por isso muita gente (não só trans) campanha para abrir essa opção de união civil pra quem quiser, independente de gênero. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 9 é sobre se a mudança de gênero deveria deixar de ser uma "razão para divórcio". As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- A pergunta 10 é sobre privacidade e proteção de informação. 
No momento, a mudança de nome e gênero é considerada "informação protegida", ou seja, não pode ser divulgada publicamente sem autorização (a não ser em casos especiais, tipo investigação policial). Basicamente, "deixar escapar" que alguém é trans é crime. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei). Recomenda-se optar por No, já que essa parte da legislação já é boa.
- A pergunta 11 é sobre reconhecimento de outros processos de mudança de gênero feitos fora da Escócia. No momento, pessoas trans que fizeram seu processo fora daqui não tem esse processo automaticamente reconhecido pelas autoridades escocesas (precisam fazer a parte de mandar seus documentos para a banca se quiserem ter esse reconhecimento). A pergunta é se o governo deveria reconhecer outros processos automaticamente quando alguém vem para a Escócia. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei). Votem Yes, por favor...
- A pergunta 14 quer saber se você sabe de alguma outra consequência legal desse reconhecimento de pessoas não-binárias. As opções são Yes (sim), No (não), Don't know (não sei).
- As perguntas 15 e 16 são do tipo "se você tiver mais informações e algum outro comentário". 
A comunidade trans da Escócia agradece sua colaboração! 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

MÃE, ME EMPRESTA SÓ 25 REAIS PRA EU PARTICIPAR DO BOLÃO DA LOLA?

Estou muito, muito feliz que Lady Bird - A Hora de Voar está concorrendo a melhor filme no Oscar, e mais ainda que Greta Gerwig, sua jovem diretora, foi lembrada para a categoria de melhor diretora (ao contrário dos Golden Globes). 
Mas, pra ser franca, eu não entendi os aplausos todos pra esse drama/comédia. Não é que eu não tenha gostado do filme. Só não achei tudo isso que tanta gente falou. Afinal, ele está em quase todas as listas dos melhores de 2017.
A primeira vez que ouvi falar dessa produção independente foi através da notícia de que -- fato inédito -- um filme havia conseguido a nota perfeita de 100% de aprovação no Rotten Tomatoes (em dezembro, o encanto foi quebrado. Depois de 195 críticas positivas, um mísero crítico não gostou da trama). 
Eu incluí Lady Bird no cronograma do meu curso de extensão (só pro segundo semestre), então espero que minhas alunas e alunos, sempre tão inteligentes, me expliquem o que o filme tem de tão excepcional. Talvez o que eu menos tenha entendido foi a decisão de Greta (também roteirista) de passar a história em 2002. É, por assim dizer, um filme de época. Mas faria alguma diferença se a trama acontecesse hoje?
Ah, aproveitando, em breve vou publicar um post com o cronograma pro meu curso de extensão deste semestre. Mas quem mora no Ceará e pode se dar ao luxo de comparecer à UFC (CH1, campus Benfica) a cada quinze dias, sempre às terças, das 11:30 às 13:30, já está convidadx a fazer o curso Discutindo gênero através de literatura e cinema. Pra se inscrever, é só me mandar um email com o tópico "curso de extensão" e seu nome completo. A primeira aula será dia 13 de março.
A diretora Greta Gerwig e sua
estrela Saoirse Ronan
E, ahn, voltando ao título do post, eis o convite para você participar do meu tradicional bolão do Oscar, em sua 30a edição (ou décima vez no blog). Pro bolão pago você precisa pagar R$ 25, que devem ser depositados numa das minhas duas contas (Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, agência 3508, cc 010772760, ou R$ 28 no PayPal aí ao lado). Daí você tem que me enviar um email com comprovante  pra mim e pro Júlio (lolaescreva@gmail.comjcaoalves@gmail.com), e fazer suas apostas  aqui. Quem acertar mais categorias leva todo o montante arrecadado. Se houver empate, o prêmio é dividido.
Pra participar do bolão grátis é só apostar diretamente aqui. Não precisa pagar nada, mandar nada. É super rápido e fácil. Mas é só até as 23h59 do dia 2 de março (não esta sexta, mas já a próxima!). 
Vamulá, pessoas queridas, participem!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

POR QUE HÁ POUCAS MULHERES NA POLÍTICA?

Foi uma bonita coincidência. Poucos dias depois da cientista política Débora Prado me mandar um email me convidando pra participar do Chutando a Escada (gravamos o podcast na sexta; quando for ao ar eu aviso a vocês), várias pessoas me enviaram um link para uma thread que Débora fez no Twitter sobre a baixa participação feminina na política. 
(Coincidência maior do que essa, só ontem, quando um potinho de curry abriu em cima da comida que eu estava preparando pra semana, e quando eu fui ver no Twitter, o que tinha nos Trending Topics? Curry! Pensei: deve haver uma câmera escondida aqui em casa, só pode. Mas logo me avisaram que os TT eram referentes a um jogador de basquete). 
O que a Débora escreveu no Twitter foi tão memorável (ela havia participado recentemente de um podcast da NBW sobre o tema) que eu decidi fazer uma compilação dos tuítes e ir atrás das referências. Só depois vi que ela já tinha feito isso na sua página no FB. Publico aqui o que ela escreveu tão bem. 
E lembrem-se: neste ano eleitoral de 2018, vamos votar em mulheres!

Como sabem, participei do Podcast NBW (Nós Brigamos no War) do Ulisses Neto e André Pontes. Falamos sobre o papel da mulher na política, com foco no Brasil e Inglaterra. Surgiram alguns questionamentos importantes, alguns no grupo do próprio podcast, outras no twitter do Chutando a Escada. Muitos não merecem resposta, mas um deles achei que merecia. O rapaz afirma existir uma diferença nas livres escolhas individuais entre homens e mulheres e esse, e não o machismo, seria o fator mais importante para a baixa participação de mulheres na política.
Gráficos do site Politize-se
Compartilho com vocês, então, algumas notas sobre isso. No caso brasileiro, acredito ser obrigatório levar em consideração alguns dados antes de considerarmos o contexto no qual o debate sobre a desigualdade de gênero na política está inserido. Segundo dados compilados pela Inter-Parliamentary Union no Brasil, pouco mais de 10% dos deputados federais são mulheres. A lei 9.504 de 1997, que foi reformulada em 2009, busca enfrentar parte desse problema e estabelece uma cota de pelo menos 30% de vagas reservadas para as mulheres. 
Apesar disto, nas ultimas eleições municipais em 2016, as mulheres conquistaram menos de 15% das vagas: isso significa que para cada 7 vereadores temos 1 vereadora.
Quais são as causas deste processo? Para refletirmos sobre isto é preciso se questionar antes de mais nada se as mulheres competem nas mesmas condições que os homens. A resposta é um sonoro NÃO.
Clique para ampliar
Por exemplo, a lei destina apenas 5% dos recursos para as candidatas. As mulheres não têm acesso ao dinheiro dos partidos e, como óbvia consequência disso, elas não conseguem acessar o mesmo numero de eleitores. O único partido que oferece uma distribuição mais igualitária aqui no Brasil é o Partido Rede.
Superada a questão financeira, que certamente coloca em xeque o entendimento de que x eleitorx fez a sua escolha livremente e sem "interferências", temos o problema das fraudes eleitorais que têm sido investigadas pelo TSE: mulheres são inscritas apenas para cumprir a lei. 
São, portanto, laranjas. Não há candidatura na verdade e muito menos a possibilidade delas serem eleitas ocorre na realidade.
Agora, a questão mais estrutural. Historicamente, socialmente e culturalmente a mulher está destinada ao espaço privado, não o público. A política é vista como um ambiente masculino e não seria um lugar para mulheres.
Não sou eu quem faz esta afirmação. Diversas pesquisas tratam desta problemática. Sobre este entendimento de que o preconceito tem pouca influencia na questão de gênero, uma pesquisa realizada por Cecilia Hyunjung Mo e publicada no Status on Women in Politics conclui que eleitores podem simultaneamente ter opiniões explicitamente igualitárias e, ao mesmo tempo, abrigar uma tendência implícita contra as mulheres.
De acordo com pesquisa realizada pela autora, “voters who expressed a preference for male leadership did not support fictitious female candidates — even when the female was more qualified than the male candidate” (eleitores que manifestaram preferência por liderança masculina não apoiaram candidatas mulheres fictícias -- mesmo quando a mulher era mais qualificada que o candidato homem).
O preconceito aparece de forma velada, mas tem impactos na escolha de candidatos. Levantamento recente realizado pelo Pew Research Center (2014) apresenta também esta contradição para o caso dos Estados Unidos. A pesquisa concluiu que apesar de 74% dos homens e 76% das mulheres terem afirmado que homens e mulheres podem ser, igualmente, bons líderes políticos:
1) mais da metade das mulheres (47%) afirmaram que “a major reason there are not more women in top political offices is that female candidates are held to higher standards that men” (um motivo principal para explicar por que não há mais mulheres no topo da política é que candidatas mulheres são julgadas com critérios mais exigentes que homens);
2) 73% das mulheres entrevistadas afirmaram que é mais fácil para um homen ser eleito a um alto cargo político comparado a uma mulher;
3) 41% das mulheres afirmaram que “a major reason for the lack of women in top political offices is that many Americans aren’t ready to elect a woman to a higher office” (um motivo principal para a falta de mulheres no topo da política é que muitos americanos não estão prontos para eleger uma mulher para um cargo mais alto) e
4) "33% of women, compared with 21% of men, said that females getting less support from party leaders is a major reason" (33% das mulheres, comparadas a 21% dos homens, disseram que as mulheres receberem menos apoio de líderes dos partidos é um motivo principal). 
A definição de papéis específicos para a atuação das mulheres na política tem um efeito importante quando analisamos o desempenho de candidatas que almejam cargos mais altos em diferentes níveis de governo. O lugar destinado às mulheres está bastante relacionado com os estereótipos de gênero que reforçam um perfil específico. Por serem vistas como mais compassivas, gentis e passivas cabe às mulheres lidar com temas relacionados a questões sociais e educacionais, sendo descartada sua liderança em temas de política externa e segurança, por exemplo.
Cartilha para maior
participação das mulheres
na politica
Existem outros dados e pesquisas que caminham nesta direção. Infelizmente não é uma realidade brasileira. É global. Ocorre nos Estados Unidos, na Europa, nos países "desenvolvidos". A OCDE tem um levantamento sobre este tema também. Existem sim diferenças em termos partidários, mas não podemos ignorar que a mulher entra em desvantagem em uma disputa na política pelo simples fato de ser do sexo feminino.
O nome disto é patriarcado e uma das variáveis é o machismo. A consequência para este sistema é a exclusão das mulheres dos espaços de poder, dos espaços de decisão, e de outro lado, a objetificação da mulher, a inferiorização que abre caminho para as violências sofridas diariamente em nosso país, os abusos, o assédio, o estupro, os espancamentos e o medo de sair pela rua tranquilamente pelo simples fato de ser mulher.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

LINDA NO ESCURO E NO CLARO

Recomendo muito os belos textos de Liana Ferraz, que escreve todo dia no seu Instagram

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

130 ANOS DEPOIS: NÃO SOU ESCRAVO DE NENHUM SENHOR

Reproduzo aqui o ótimo texto de Iago Gomes (do Juntos! Bahia) e de Matheus Lisboa (do Juntos! Pará), publicado na quarta no Juntos! 
Todas as fotos usadas para ilustrar o post são referentes ao inesquecível desfile da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do carnaval deste ano. O enredo "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?", fazendo alusões ao golpe e à retirada dos direitos trabalhistas, mexeu com a população.

Muito se estudou e se conhece do período colonial no Brasil. A produção histórica de conhecimento é muito vasta e existe um arsenal enorme de informações sobre todo o período da colonização brasileira desde os livros didáticos, passando pelo desenvolvimento de pesquisas em diferentes áreas e chegando até os debates bancados pelos movimentos sociais e populares. Mas até onde filtramos essas informações ou, sem sermos contraditórios, nos colocamos na tarefa de aprofundar os impactos que mais de 60% de recorte histórico brasileiro deixou de cicatrizes em nossa estrutura? 
Como pensar a plataforma estruturada com a colonização e o regime de escravidão e massacre sob povos tradicionais e negros como base para formação de um país extremamente desigual? Estamos 130 anos após a Abolição da escravidão no Brasil e essas perguntas precisam ser base de debates políticos importantes se almejarmos pensar o país de hoje e onde chegamos. Um grande desafio, mas necessário. Os desfiles carnavalescos deste ano colocaram na ordem do dia o contexto. A Paraíso do Tuiuti deu um show e gritou: Não sou escravo de nenhum senhor!
A COLONIZAÇÃO, A ESCRAVIDÃO E A ABOLIÇÃO
A expansão marítima moderna, como parte de uma articulação sistêmica e muito bem esboçada, foi o início de uma encruzilhada com novos povos, novas culturas e novos tipos de exploração. O interesse por áreas comerciais e a necessidade de fincar-se que o capitalismo tinha o fez recorrer ao método colonizador de dominação, que pode ser analisada sob diversos vieses: territorial, cultural, político e sobretudo econômico. Vieses estes que não são fragmentários, mas se relacionam de forma compactuada. 
O processo de expansão do capital tem, desde muito tempo, ditado a realidade do povo negro. A concretização do sistema mercantil do capitalismo, ainda na sua fase de estruturação, já mostrava que as benesses do capital sempre iriam se contrapor à população mais vulnerável. Em todos esses aspectos, a capacidade de transformação humana da natureza se fazia necessária, como parte elementar do próprio sistema capitalista. Em um período onde as grandes confusões com os novos métodos da classe em ascensão eram difundidas popularmente, cabia aos exploradores europeus voltarem todas as facetas criativas para justificar o plano de dominação. 
Com isso, as ciências e a religião, com grande influência civilizatória, passaram a ser justificativas menores para a dizimação de civilizações nativas e para escravização delas para subserviência de mão-de-obra. O processo de submissão de qualquer tipo de conhecimento que não seja o atrelado ao europeu- branco foi base para a consolidação do sistema escravagista brasileiro. A construção da estrutura do racismo se deu, milimetricamente, de forma institucional, e com o respaldo da ciência e da religião. 
O programa racista que interpela todos os vieses citados estava em vigor de forma muito mais profunda do que versículos bíblicos que justificam e tratados científicos que encorajam. A branquitude europeia incorporava o plano já nascido mesmo antes do próprio capitalismo e colocava suas cartas com muita violência e capacidade destrutiva. 1500 não é fruto de um acidente histórico, é uma trama engendrada globalmente com extrema capacidade dizimativa! Como disse MC Carol na música “Não foi Cabral”: “Ninguém trouxe família/ Muito menos filho/ Porque já sabia/ Que ia matar vários índios/ Treze caravelas/ Trouxe muita morte.”
O conceito de “descoberta” utilizado em livros didáticos é eurocêntrico, porque além de forjado por aqueles que escreveram os livros serve a difusão de uma narrativa que esconde o programa, e só o esconde porque ele ainda está em vigor, não teve fim e alcança seus objetivos de forma a satisfazer os do andar de cima. A escolha por arrancar os povos africanos de seus territórios para utilizarem de mão de obra bebe no fato de exterminarem nativos para facilitar a exploração e tomada de novos mundos. E também porque o racismo foi forjado como arma ideológica de dominação global para servir a isso em ampliação do racismo como justificação de privilégios das elites e dos infortúnios das classes subalternas, como Clóvis Moura descreve bem. 
Com isso, a colonização como programa das novas classes dominantes e o racismo remodelado desenvolve uma combinação histórica que impossibilita a compreensão marxista de luta de classes separada da luta racial, afinal a classe explorada do Brasil tem na base piramidal os povos arrancados das Áfricas e esmagados na “nova terra”.
Na base econômica do Brasil colônia, a produção teve um destaque rotatório que influenciou no desenvolvimento urbano e civilizatório. O primeiro estado criado, a Bahia, tinha no açúcar a sua matéria base no modelo plantation. Recorria obviamente à mão-de-obra escrava. Salvador, capital baiana, é a cidade mais negra fora d’África. 
Na Amazônia, a ocupação desenfreada ditada nos moldes do desenvolvimento, das missões jesuíticas ao advento do ciclo da borracha, demonstrou o caráter desenfreado de exploração de mão de obra escrava, seja indígena ou negra africana. Durante a exploração do ouro nas Minas Gerais, a “corrida do ouro” fez com que a disputa pela exploração e trabalho do ouro se desse por outros grupos não-negros e não-nativos, como por exemplo os tropeiros imigrantes. 
O modelo colonial já começava a sofrer tremores maiores com as lutas internas e a auto-organização do povo escravizado, além de idealistas brancos com outros interesses que raras vezes se encontravam. O surgimento de vários Quilombos e a fortificação de muitos outros, figuras símbolos de resistência como Dandara e Zumbi dos Palmares já eram conhecidas e reivindicadas como exemplos da luta negra organizada no país. 
Muitas revoltas como A Revolta da Cabanagem, protagonizada por negros e indígenas insatisfeitos com o governo regencial e com a intensa exploração na província do Grão-Pará, e a Revolta dos Malês em 1835 em Salvador, foram marcas de um bruto período de resistência diária de um povo vítima da pior exploração possível. 
Todos esses antecedentes preparam a nossa libertação, mas não foram suficientes para impedir que a Lei Áurea de 13 de Maio de 1888 tenha sido o “fim da escravidão”, mas a continuidade de nós na parte de baixo da pirâmide, como aqueles que não tinham direitos ou que precisávamos vender os poucos direitos conquistados para comer e viver.
O PÓS-ABOLIÇÃO: SAÍMOS DAQUI E FOMOS PARA ONDE?
Durante a abolição da escravidão no Brasil, a capital já era o Rio de Janeiro, a mesma cidade que hoje passa por uma situação radical de violência com raiz no racismo proibicionista das drogas e no modelo urbano segregacionista. A Lei Áurea não incluiu o negro no desenvolvimento acelerado e não o orientou a integrar-se no trabalho assalariado, não por simples erro construtivo da Lei, mas por abertura dominante a permitir que o racismo continuasse como justificativa de exploração. Em A integração do negro na sociedade de classes Florestan Fernandes afirma:
“A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. (…) Essas facetas da situação (…) imprimiram à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.
Este é um dos aspectos mais importantes, mas não devemos desconsiderar a periferização da população negra urbana em contrapartida à aceleração industrial e arquitetônica, à criminalização cultural, à negação de serviços e a direitos básicos, à perseguição violenta com recursos do Estado, à continuidade da difusão ideológica de dominação a partir também das teorias de branqueamento, etc. No Pós-Abolição fomos para uma situação de abolicionados e serviência a uma propaganda da abolição que não era destinada a nós, afinal estávamos muito ocupadas e ocupados tentando sobreviver.
130 ANOS DEPOIS…
No final do ano passado, foi divulgado um levantamento feito pelo Ministério da Justiça do Brasil que apresentava uma informação sobre o sistema carcerário brasileiro: somos a terceira maior população carcerária do mundo. Multiplicamos oito vezes em 26 anos e temos o dobro de presos em relação a vagas reais nas penitenciárias. Um mês antes, levantamento feito pelo Fórum de Segurança Pública trazia o dado de que 71% das vítimas de homicídios no Brasil são negros. 
Em dezembro, o Anuário do Fórum de Segurança Pública também trazia que o número de negros mortos por policiais é o dobro de brancos, e mesmo do lado da polícia, os que mais morrem são negros (223, contra 171 brancos e 179 não identificados). O encarceramento de mulheres brancas caiu, o de mulheres negras cresceu. A taxa de escolarização das mulheres brancas é de mais de 20%, a de mulheres negras é menor que 10%. Por que todas essas estatísticas apontam contra nós? O argumento de proporcionalidade numérica não dá conta, porque nas estatísticas positivas não somos nós que estamos no topo! Não são pessoas negras que ocupam o posto das pessoas mais ricas do país, e sim homens brancos.
Em momentos de intensificação de crises econômicas do capital, os do andar de cima, que não abrem mão de suas parcelas de lucro, acirram a retirada de direitos e a exploração dos de baixo. A base piramidal da sociedade se alarga para sustentar a fatia gorda dos de cima. 
Encaramos medidas como a Reforma Trabalhista, Lei da Terceirização e Reforma da Previdência. Nós que já somos maioria no mercado informal, somos jogados ainda mais para os piores postos de trabalho. Cresce o número de moradores de rua, de adoecimentos da mente, de vendedoras de doces e lanches e até de universitários desempregados, a maioria de regra tem uma cor. 
O Nordeste é a região com maior número de desempregados e o Norte vem logo após. A Bahia em agosto de 2017 foi o estado com estatísticas mais cruéis, apontou o IBGE. No Pará, estado com a maior população autodeclarada negra do Brasil, Belém padece como a capital com maior proporção de pessoas vivendo em periferias no país, e uma das mais perigosas do mundo, reflexo óbvio do quanto a pobreza nesse país tem cor. 
A realidade é mais dura para quem é negro no Brasil, ainda ocupamos os lugares mais ínfimos da sociedade, os espaços políticos ainda são de maioria branca, as universidades –- mesmo com a política de cotas -- são espaços de hegemonia branca, e a permanência do estudante negro e pobre na academia não é amparada pelas tímidas políticas afirmativas. 
A mentalidade escravagista domina a sociedade brasileira. Após a abolição da escravidão os negros brasileiros ainda continuam tendo uma vida muito difícil, sem acesso aos equipamentos da cidade, morando nas periferias, que cada vez mais distantes do centro, se tornam reduto da ausência do Estado. Em 2018, completamos 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, mas o racismo ainda é a base programática do capitalismo. Para superá-lo é preciso, portanto, estratégias que revelem e derrubem o racismo junto com os muros econômicos e políticos da ordem.
POR UMA REVOLUÇÃO RACIAL
O Brasil neocolonial revestiu as facetas da palavra colonial. Precisamos derrubar o radical desses dois e fazer do sufixo o nosso motim geracional! Precisamos recuperar a teoria de Florestan Fernandes. Essa proposição foi bem desenvolvida pelo professor Maycon Bezerra em “O marxismo descolonial de Florestan Fernandes e a esquerda socialista do século XXI”, na organização da rebeldia constante e persistente da negritude sob os regimes sem servirmos de sustentação burocrática e passiva para a burguesia nacional e internacional. Sobre Florestan, Bezerra coloca:
“[…] Teoricamente, nunca aceitou o marxismo deformado pela ótica positivista da burocracia stalinista, nunca dissociou materialismo de dialética em sua compreensão do marxismo. Politicamente, nunca teve acordo com a estratégia de colocar os trabalhadores passivamente a reboque do desenvolvimentismo da “burguesia nacional”. Ainda quando julgou que a modernização burguesa da sociedade brasileira tivesse o potencial de levar o processo histórico além dos interesses restritos dos capitalistas […]” 
Florestan Fernandes e muitos outros pensadores e pensadoras como Angela Davis são parte de um arsenal teórico a que precisamos recorrer para pensar estratégias de organização da negritude no Brasil e no mundo. O Black Lives Matter nos EUA segue sendo um grande exemplo no enfrentamento ao racismo no centro do imperialismo, onde a crise também é responsável pelo aumento da desigualdade. O número de moradores de rua nos EUA cresceu enormemente, em Los Angeles aumentou em 23%, chegando a quase 60 mil.
O país da maior população carcerária do mundo é também o país articulador de um programa racista mundial. Como disse Angela Davis, não basta não sermos racistas, é preciso sermos antirracistas. Colocar essa máxima em prática é desenvolver a partir de elementos desiguais e combinados possibilidades de expor as feridas, de nos mantermos vivos e de construir a longo prazo uma saída. 
Parte de nossas tarefas: outra política de drogas, o fim dos antecedentes criminais que impossibilitam novos empregos, a luta contra as medidas de extinção de direitos trabalhistas e a organização de trabalhadores do mercado informal, da manutenção de cotas nas universidades e por uma real permanência estudantil, batendo de frente com os poderosos engravatados que, assim como o reitor da USP, afirmam que a universidade não é para a gente. 
Partem de nós essas tarefas sem perder o horizonte estratégico da fundação do new society, sem nunca perder a intrínseca relação classe, raça e gênero também como método de superação da velha esquerda que separa e acusa. É preciso muita coragem e ousadia e que as multidões sejam contaminadas pelo sangue de nossos ancestrais e pelo sonho de mudar a nossa realidade. Algo que o sambódromo do Rio de Janeiro e o mundo acompanhou no desfile da Paraíso do Tuiuti no Carnaval deste ano e que precisamos colocar como tarefa nossa.