domingo, 7 de julho de 2013

GUEST POST: UM SAMBA ORGULHOSAMENTE FEMINISTA

Vou deixar Daniel Kirjner se apresentar sozinho. Só quero pedir a você pra ouvir esta música. Não é linda? Eu amei. Daniel me mandou um email muito carinhoso, e eu pedi que ele escrevesse um post sobre por que ele compôs um samba feminista. 

Olá amigxs que acompanham o Escreva Lola Escreva. Hoje tenho a satisfação de contar a vocês a história do meu Samba Feminista. Mas antes, precedo-a com a história do meu próprio feminismo. 
Há uns dez anos eu era, sem cerimônias, o que eu hoje acho um sujeito insuportável. Aquele tipo acomodado, averso a movimentos sociais, machista, reacionário, enfim, todo o desagradável pacote que infelizmente acompanha vários homens heterossexuais neste mundo. Portanto, não posso negar que a ignorância me levava a ostentar orgulhosamente o machismo, mesmo sem saber disto completamente.
Quando entrei na UnB (Universidade de Brasília), para estudar Sociologia, minha empáfia sofreu um importante choque. Quando se estuda teoria social, você pode seguir dois caminhos: o de enxergar os seus próprios reflexos na sociedade ou aprender a prestar atenção em outros. 
Concentrei-me em meu próprio umbigo nos primeiros anos de curso, mas, aos poucos, pessoas sensacionais me fizeram pensar. Entre elas haviam alguns vegetarianos, que no início eu atormentava com o que hoje penso ser um humor estúpido e previsível, de puro mau gosto. Mas não pude ignorar seus argumentos de maneira alguma. Ao contrário, quando eles apontavam o dedo na minha cara, de uma maneira por vezes agressiva, eu deixava a minha zona de conforto suburbano e pensava no que minhas ações representavam para indivíduos diferentes de mim. 
Em outubro de 2006, em respeito aos animais, tornei-me vegano. Para quem não sabe, veganos são indivíduos que, por implicações éticas que trazem o consumo humano, abstém-se de qualquer produto de origem animal, seja ele carne, frango, leite, ovos ou mesmo mel. O veganismo mostrou-me algo muito importante: o hábito não justifica nossas ideias. Valores que eu nunca havia questionado antes mostraram-se responsáveis pelo o que entendi ser uma violência gigantesca e injustificável contra outros seres vivos. 
Foi justamente no veganismo que conheci a teoria feminista. Em 2009, em minhas incursões ainda não acadêmicas dentro dos Estudos Animais, deparei-me com o veganismo feminista. Autores como Carol J. Adams, Josephine Donovan, Brian Luke, Lisa Kemmerer, entre outros, fizeram-me refletir sobre as dimensões do pensamento patriarcal que justificam a opressão tanto de mulheres como de outras espécies de seres vivos. Estas leituras fomentaram a minha paixão pela teoria feminista em vários aspectos. Hoje em dia, faço doutorado na UnB, onde reflito sobre as implicações da categoria gênero, ressignificada constantemente no seio da teoria feminista, frente às novas reflexões trazidas pelos Estudos Animais. 
Bem, chegamos, enfim, ao samba. No início deste ano estava escutando um disco do Cyro Monteiro no carro, um dos grandes intérpretes de samba da era de ouro da música brasileira. Eu adorava os sambas do Cyro quando era criança, mas naquele dia eu e o amor da minha vida, a Ciça, escutávamos no máximo 30 segundos de cada canção, antes do flagrante machismo nos irritar as orelhas e sermos obrigados a passar a faixa. Depois de umas cinco ou seis tentativas, desliguei o som e comentei com a Ciça: “Existe samba sobre tudo que se pode imaginar mas não conheço nenhum samba feminista”. Ela virou para mim e disse: “faz um então”! 
Bem, eu tentei, e o resultado desta tentativa foi o Samba Feminista. Eu tenho completa consciência que ele poderia ser melhor. Que eu como homem heterossexual não tenho ideia do que é sentir o machismo como um(a) homossexual, uma transexual ou uma mulher sentem. Sei que poderia ser uma mulher interpretando esse samba e concordo que assim ele seria mais legítimo e verdadeiro. Não quero com ele cooptar o feminismo ou mesmo defini-lo do ponto de vista de um homem. É apenas minha sincera homenagem a esta tradição militante e intelectual pela qual sou sinceramente apaixonado. 
Esta gravação faz parte do show “De pai para filho: um encontro de gerações”, gravado no dia 27 de abril, em Brasília. Trata-se de uma grande celebração, na qual cantei canções do meu pai (o barbudo do meu lado) com ele e ele as minhas comigo. O outro moço que está conosco é um convidado especial: Carlos Lolly, que foi o cara com quem, juntamente com meu pai, toquei em público pela primeira vez. Quem quiser escutar outras músicas do show, é só acessar esta página.
Gostaria de agradecer a Lola pelo espaço e dizer que, na minha opinião, ela é a melhor blogueira deste país. 
Espero que vocês gostem da música. Forte abraço a todxs.  

30 comentários:

Bela Campoi disse...

Ai, que delicinha ouvir isso!

Ilsa disse...

Adorei o samba, muito bom! Parabéns e obrigada pela homenagem!

Anônimo disse...

Amei!

Luci

Silvio Cunha Pereira disse...

Tenho certeza que, por exemplo, uma Nara Leào adoraria gravar esse samba.

E não tenho dúvidas que músicas agradáveis e bem humoradas como essa ajudariam a subverter o status machista vigente, assim como todas essas músicas tradicionais, mesmo as que a gente mais gosta, ajudaram/ajudam a perpetuar o machismo e outras correntes opressoras. Parabéns. Linda música.

Bri disse...

Delícia de samba!!! Viva os homens que apoiam o feminismo =)

Juliana disse...

Que música linda!
Seria ótimo poder escutar mais coisas assim...

Edna disse...

Acho lindo quando vejo um homem feminista! O samba é sensacional, e vc ser vegano foi a cereja no bolo!

Izabel disse...

Que linda e fantástica ler a história de alguém que se transformou e continuará mudando claro!
Eu mesma estou passando por uma epifania rs.

lindo o texto e linda a história de vida dele.

Luara Tanuri disse...

q lindo esse moço, tinha q ser da minha cidade!

Bárbara Bastos disse...

Que legal ler essa história, também virei feminista a partir do veganismo... Quando a gente consegue se libertar da discriminação de espécie a gente acorda para as discriminações de raça, gênero, e todas as outras que não enxergamos quando estamos dentro da "matrix". Parabéns Daniel, nos veremos no Vegfest em setembro! :)

Bruxinha disse...

Amei e vou espalhar! Quero ver o cantor no Faustão! No Esquenta....no Caldeirào!!! Qq um, desde que seja na (argh)Globo

Nestor Kirjner disse...

Gostaria de cumprimentar o blog por ter identificado o valor que o "Samba Feminista" pode ter para a defesa das ideias por ele preconizadas. Sobre o samba, quero dizer que não é um "sambinha", como modestamente Daniel o qualificou. Além de pai, sou músico e compositor há sete décadas, tempo suficiente para aprender a separar o joio do trigo. Certamente os seguidores da Lola que escreve em vez de correr aprenderão a cantá-lo e desejarão divulgá-lo. Boa cantoria, e um abraço a todos.

Anônimo disse...

Penso em "ponto de interrogação " de Gonzaguinha. Nao e samba mas e a musica mais feminsta que ja ouvi. bjs hamanndah

Anônimo disse...

Que música mais maravilhosa. Amei.

Pili disse...

To ansiosa pra ouvir o samba, mas antes vim lembrar que infelizmente já houve tentativa anterior de cantar o feminismo no samba...
É... Feminismo no estácio, do João Bosco.
Amo muito João Bosco de paixão. mas essa meleca aí foi mais um dentro os muitos exemplos de como a nossa cultura retrata o feminismo.
Como algo irracional, revanchista, anti-sentimento, etc.
Enfim... Um estereotipo falso e muitas vezes intencionalmente forjado.
Amo joao bosco, mas esse tiro pela culatra machuca meus ouvidos. Pior que essa só Gol anulado, do memso compositor.
Tem também a função de denuncia, né, de registro histórico. Um bom exemplo dessa função tá na música Incompatibilidade de genios, também do Joao Bosco. Ela é a fala de um marido, se queixando de sua esposa que o maltrata, e justificando o seu pedido de separação. Acho essa musica brilhante porque realmente houve a época em que os pedidos de separação precisavam ser justificados, fundamentados... E veja, nem faz tanto tempo. Mas....
Se por um lado essas letras denunciam a naturalidade com que o machismo era encarado até pouquissimo tempo atras... por outro lado, sei lá. Parece que as letras continuam banalizando o machismo. Ai, não sei, só sei que é doloroso escutar essas coisas.
E no samba, putz, o machismo é muuuuito marcante.
Daí eu caio no seguinte exagero:
Penso que toda vez que uma sambista apresenta sua arte e rompe as barreiras do machismo na música (e na sociedade como um todo) o resultado é um samba feminista :)
Mas é claro que é bom ouvir as pessoas assumirem o nome. Feminismo! Com todas as letras.

Babi disse...

Primeiro como feminista e depois como amiga, quero deixar meu depoimento de que o samba saiu lindo ! ;)

Assim o texto !

Um beijo enorme !

Vitória disse...

Genteeee, eu lembro do Daniel. Já estive em um sojasco na casa dele lá em meados de 2009 e no ano passado ele assistiu uma aula lá na pós da história (só que tive vergonha de falar com ele, duuhhh ¬¬)

Muito legal o samba feminista! Curti muito! Não sabia que além de vegano ele era feminista tb.

Julia disse...

Vale pedir Bis? Muita linda canção!

Luciana disse...

Gosto de pensar que esse samba foi feito pra euzinha: Vou pro samba sozinha no final de semana tocar na bateria da escola de samba, amo quem quiser e ninguém tem nada com isso.
Muito liiindo!
Beijo no coração Dani!

Julia disse...

Adorei o samba!
Parabéns, Daniel.

O Daniel tem moral, até o Maridão apareceu para elogiar :)

Vânia Moreira Diniz disse...

Vibrei com esse samba no dia do show em que você o interpretou com incrível força e talento. Acho que está na hora exata desse samba maravilhoso ser executado muitas vezes, sempre, num momento em que a violência contra mulher domina nas ruas, esquinas e em todo lugar.
parabéns Daniel. Não me canso de ouvi-lo.

Anônimo disse...

Feminista um samba de homens, para homens, sobre mulheres? Achei muito ruim.

Anônimo disse...

Muito legal! Parabens pela iniciativa!

Anônimo disse...

Bacaninha, hein! Da pra ver que a letra é diretamente inspirada no movimento feminista, pela escolha das palavras.

Não tem muito a ver com o Samba Feminista, mas lembrei de Deixa a Menina, do Chico Buarque.

Agora, com todo o respeito, acho impossível a pessoa ter êxito na proposta Vegana. Primeiro que somos parte da natureza, e necessariamente a nossa simples existência no mundo afeta o ecossistema. Comer coisas vegetais e derivados não necessariamente significa preservar o reino animal de exploração. Acho que o equilíbrio é muito melhor do que extremismos, pra qualquer lado que seja.

A lista de itens restritos deve ser imensa, pq tipo... até papel de foto e capsula de remédio é tem derivados do reino animal.

Meio que juntando os tópicos posts, alguém já ouviu falar em produtos derivados de gordura e tecido de feto? Ouvi uma história que é a matéria prima que está bombando na indústria de cosméticos agora..

Leila disse...

Lindos, o samba, a história e o moço. Merece toda a divulgação possível.

Joana disse...

Gato, vegano e feminista.

Te quero pra mim!

Amanda Farias disse...

Amei a letra da música e, principalmente, a iniciativa. Espero que surjam outras letras com o tema feminismo. E em outros ritmos e gêneros também.

Juliana Brito disse...

Daniel, não concordo que uma mulher cantando tornaria seu samba mais legítimo e verdadeiro. Pelo contrário, a gente quer mesmo desmistificar que feminismo é uma coisa feita SOMENTE por mulheres e para mulheres. A ideia é integrar, mesmo. Acho fantástico que essa música apareça num show chamado "De pai pra filho" porque todas nós, por aqui, sonhamos com o dia em que os pais estarão ensinando seus filhos a respeitar as mulheres com a mesma veemência com que se ensina as meninas a "se dar o respeito". Parabéns pela iniciativa!

Hamanndah disse...

Sorry Joana o gato é comprometido com a sortuda. Depois os mascus dizem que caras assim ficam na mão . Kkkkkkk





Verô! disse...

Daniel,

Adorei o samba! A letra é linda e o som é ótimo, samba da melhor estirpe, rapaz!

Olha, eu sou partidária de um feminismo inclusivo que agregue os homens. Eu não sou feminista só por ser mulher e pelas mulheres, eu sou feminista também porque penso que o machismo também oprime os homens. E mais, o machismo não é uma criação só dos homens. Enfim, o que eu quero dizer é que o fato de você ser homem em nada diminui a legitimidade do seu samba e do seu engajamento no feminismo! Eu sempre fico empolgada de saber de caras como você! E tenho a satisfação de ver que cada vez mais homens estão tomando consciência e somando conosco!