quinta-feira, 4 de julho de 2013

A EXPULSÃO DE UM NEGRO DE UMA MARCHA DAS VADIAS

Escrevo este post com certa relutância, porque não queria me meter em mais esta treta. Mas pelo jeito já me meti, quando recebi (e respondi) um email. Se não tivesse respondido, diriam que sou omissa. 
Bom, é o seguinte: no dia 22 de junho, Brasília teve sua Marcha das Vadias, que foi um sucesso e tal, uma das maiores do país, com cerca de 4 mil participantes. Num dos momentos da marcha, um homem -- negro,  sem uma das pernas, com muletas, provável morador de rua, mentalmente alterado, ora por distúrbios psicológicos ou por uso de drogas -- hostilizou algumas manifestantes, dizendo grosserias e ameaçando mostrar seu pênis. A reação de quem estava próximo foi a que pode ser vista neste vídeo.
Como não sou de Brasília e (ainda) não estou no Facebook, só fiquei sabendo disso através do email que recebi, que me pedia para ler e comentar o post da jornalista e historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, publicado no Blogueiras Negras. Por favor, leiam o texto dela, que é muito bom, embora eu discorde de grande parte do que está lá. 
Ela menciona o desconforto, vamos dizer assim, de várias feministas negras com o que aconteceu na marcha, chama de racismo o ocorrido, diz que as marchas das vadias (não só a de Brasília) não representam as negras, e cita como o grupo Pretas Candangas já havia exposto "divergências de princípio" sobre como as mulheres negras têm "de enfrentar cotidianamente a sociedade hegemônica para mostrar que não [são] vadias, que não [têm] a ‘cor do pecado’", e que não querem "reivindicar o direito de ser vadias, mas sim de ser médicas, advogadas, doutoras".
Cito esta parte do artigo da Ana porque é o trecho com que mais concordo. Mas lembro que não são apenas as mulheres negras que são tachadas de vadias. Arrisco dizer que toda mulher, de qualquer cor, classe sócio-econômica, idade, orientação sexual, casada, solteira ou divorciada, virgem ou promíscua (e todo o meio-termo que cabe aí), já foi chamada de vadia alguma vez na vida. Porém, sem dúvida, negras têm muito mais direitos para reivindicar que brancas, por serem duplamente marginalizadas. 
Esta -- a relevância e dificuldade de ressignificar um termo tão pejorativo quanto vadia -- é também meu principal pé atrás em relação às marchas. Fiquei até surpresa, ano passado, ao perceber que as Marchas das Vadias tinham vindo pra ficar. Pensei que seria algo a ser realizado apenas em 2011, quando o policial canadense disse, numa palestra numa universidade, que se as mulheres quisessem parar de ser estupradas, deviam deixar de se vestir como vadias. Mas as marchas, que no início contavam com organização vertical que insistia em se dizer não-feminista (pelo menos em alguns lugares, como Toronto e São Paulo), foram tomadas por pautas feministas e por muitas jovens cheias de energia e vontade de lutar. 
Pra muitas meninas -- negras e brancas -- a Marcha das Vadias é sua primeira passeata, sua porta de entrada para o ativismo. Isso, a meu ver, é algo a ser celebrado, incentivado. O desafio das organizações das marchas (de todas as marchas, e vale ressaltar que não há nenhum tipo de comando nacional, cada uma é independente) é ser um movimento do ano inteiro, em vez de de apenas um dia no ano. Mas vejo como em inúmeras cidades do Brasil as marchas são precedidas e seguidas de debates e mesas-redondas, e de várias outras mobilizações. 
Eu tenho muito carinho pela Marcha das Vadias de Brasília porque uma das palestras com maior público que já tive foi na UnB, dois anos atrás. O auditório estava completamente lotado porque a primeira marcha tinha acontecido poucos dias antes. E meu carinho é também admiração, já que sei que a marcha de Brasília é enorme (só a organização conta com cerca de 500 pessoas), e tem o melhor sistema de segurança de todas as marchas do país. Faz tempo que eu venho pedindo, sem sucesso, pra que a marcha de Brasília escreva um guest post aqui pro blog sobre como funciona essa segurança. 
Por que um esquema de segurança é necessário pruma marcha pacífica? Porque as ameaças são constantes. Vou dar só um exemplo minúsculo do que aconteceu comigo (que não tenho nenhuma ligação com a organização de qualquer marcha) ao tuitar que a Marcha das Vadias DF tinha mudado de data. Na hora, recebi vários tweets de um perfil fake. Este é um deles, aludindo ao "estupro-surpresa":
À medida que as marchas crescem e ficam mais conhecidas, aumentam também as ameaças e manifestações contrárias.
Este ano alguns mascus (machistas assumidos) já botaram as asinhas pra fora e foram provocar nas marchas. Na maior parte das vezes, ninguém nem fica sabendo de sua existência, como é o caso do forever alone da foto ao lado. Mas ano passado, na marcha de Brasília, um rapaz branco foi provocar, e se deu mal. Lembro bem disso porque escrevi um post. Há um vídeo também. O que aconteceu ano passado foi bem criticado também. Muita gente achou covardia uma multidão "atacar" um sujeito solitário que só quis mostrar seu pênis (e dá-lhe perguntas estúpidas como "Se vocês podem mostrar as tetas, por que ele não pode mostrar o pau?"). 
Conhecendo o que aconteceu na marcha no ano passado, conhecendo como funciona o esquema de segurança do "mexeu com uma, mexeu com todas", não posso compactuar com quem chama o ocorrido do último dia 22 de junho de racismo. Se o rapaz fosse branco de classe média, alguma dúvida que a reação seria a mesma? 
Discute-se, então, se a reação foi excessiva. Neste texto da organização da Marcha das Vadias de Brasília publicado anteontem, elas reconhecem o excesso, e explicam como funciona o esquema de segurança, na base do "escracho". Assim que alguém hostiliza alguma participante, várias outras fazem barulho com buzinas. A marcha diz também que, antes da expulsão do morador de rua negro, um fotógrafo branco havia sido "convidado a se retirar" por assediar participantes. A organização da marcha aponta a diferença de tratamento que o fotógrafo recebeu da mídia e da polícia:
"No momento da expulsão do fotógrafo branco, minutos antes, a mídia não fez a mesma cobertura que ocorreu na expulsão seguinte. Quando o homem branco foi expulso, em vez de uma barreira para encurralá-lo, uma repórter da grande mídia tentou entrevistá-lo para ouvir 'seu lado da história', o que a comissão de segurança impediu. Nessa ocasião, a polícia cercou o fotógrafo branco para 'protegê-lo' de um eventual ataque da Marcha. Nota-se, mais uma vez, a presença do racismo estrutural que fez com que o branco fosse protegido e acolhido pela polícia e pela mídia, que nada fizeram para proteger o homem negro marginalizado: ele, ao contrário, foi exposto pela mídia e criminalizado pela ação da PM."
A organização também faz um mea culpa no texto:
"A invisibilização e a hierarquização de uma opressão em detrimento da outra pode ocorrer quando uma rede complexa de opressões entra em conflito, tornando possível que uma das opressões anule as demais. Por outro lado, esse foi também o grande erro de ação da Marcha das Vadias do DF, no caso específico desse homem em situação de rua. Um erro que tem como origem uma série de outros erros estruturais na própria formação da MdV-DF, como, por exemplo, a dificuldade na desconstrução de privilégios que fazem parte do cotidiano de muitas de nós, o que muitas vezes nos leva a reproduzir as opressões que buscamos combater."
A outra grande crítica à organização da marcha, pelo que pude perceber, foi a demora para que o texto saísse (dez dias). Eu acho a demora compreensível porque não se trata das opiniões de uma pessoa, mas de toda uma organização. E espero que o que aconteceu possa ser discutido por outras marchas também. Como agir num caso desses? A Marcha de Brasília já havia discutido o que fazer em caso de mulheres agressoras (eu nem imaginava que isso existia), mas não quando se trata de homens em situação de opressão.
Nenhuma dúvida que aquele homem negro lá, aquele "Saci trágico", como o chamou a Ana, sofre mais opressões do que qualquer pessoa da marcha. É óbvio que o rapaz tem infinitamente menos privilégios que eu. Não consigo imaginar alguém mais oprimido que uma pessoa que mora na rua. O único privilégio do rapaz negro sem uma perna é ser homem. E, como pessoas oprimidas também podem oprimir (negros podem ser racistas, mulheres podem ser machistas, homossexuais podem ser homofóbicos etc), o rapaz decidiu oprimir. Talvez ele não seja o agressor, mas ele foi um agressor, não?  
Eu, e provavelmente qualquer pessoa que participa de uma Marcha das Vadias, sente empatia por homens oprimidos, se solidariza com eles -- pelo menos na teoria. Estive na marcha de Recife, no final de maio, e no início, na concentração na praça, havia alguns moradores de rua. Quando ainda havia poucas manifestantes, um rapaz, não sei se morador de rua, e sinceramente não me lembro da sua cor, fez um discurso pedindo dinheiro para comprar remédios pra filha doente. Várias pessoas colaboraram. Se ele tivesse xingado alguém, a reação teria sido bem diferente. E não sei nem como teria sido. Como expulsar de uma praça ou rua quem já mora lá? Por outro lado, a rua e a praça não são públicas, ou seja, minhas também? Ou eu já tenho demais e não posso reivindicar a rua, nem por um dia?
Eu tenho muito mais dúvidas que respostas. Por mais que eu me solidarize com pessoas de rua, também tenho medo delas (e, por mais que a maioria das pessoas em situação de rua seja negra, não é sua cor que me amedronta). Lembro bem quando eu tinha uns 19 anos e estava voltando do trabalho, no começo da noite, descendo a Av. Angélica, em SP. Teve greve de ônibus naquele dia, então eu precisei andar bastante. No caminho, olhei muito rapidamente na direção de uma moradora de rua, branca, uma senhora. Foi suficiente pra ela quebrar uma garrafa e vir correndo atrás de mim com uma garrafa quebrada. Eu saí correndo. Mais pra frente, numa banca de jornal, havia dois policiais, e comuniquei a eles que havia uma senhora que me ameaçou. Eu fui opressora? Essa mulher pode hostilizar gente em posição muito mais privilegiada que ela?
Quando vivi em Detroit por conta do meu doutorado-sanduíche, me surpreendi com o alto número de moradores de rua (a maioria era negra, até porque a população de Detroit é 80% negra). Boa parte parecia mentalmente alterada e falava sozinha, com muita raiva. Perguntei ao meu co-orientador, americano, branco, classe média alta, doador de milhares de dólares pra campanha presidencial do Obama, por que havia tantos moradores de rua com aparentes distúrbios por ali, e ele respondeu que uma instituição psiquiátrica (vulgo hospício) tinha fechado e posto todo mundo pra fora. 
Mês passado, perto da UFC, em Fortaleza, eu e uma aluna (branca, classe média baixa) fomos agredidas verbalmente por um morador de rua negro com aparente desequilíbrio mental. Pra nos proteger, e já que ambas moramos próximas, eu e essa aluna voltamos juntas pra casa à noite, andando. Mas o rapaz já veio gritando na nossa direção, e continuou se aproximando e nos xingando. Olhamos pra baixo e apertamos o passo, e ele só nos seguiu por alguns metros. E se ele tivesse nos agredido, além de verbalmente, também fisicamente? Seríamos opressoras se o denunciássemos à polícia fascista? Se ele atacasse mulheres negras e pobres, tudo bem se elas o denunciassem?
Eu não entendo como o rapaz negro e deficiente na Marcha das Vadias, por estar em várias situações de opressão, ganha uma espécie de passe livre para oprimir manifestantes da Marcha, ou qualquer outra pessoa. Não entendo como este episódio serve para desqualificar o ativismo de várias feministas. Não entendo como isso precisa virar, mais uma vez, uma briga entre feministas (espaço para reflexão e crítica sim, treta não).
Mas, juro, quero entender.

115 comentários:

Rê_Ayla disse...

Copio e colo, abaixo, comentário que eu mesma fiz na postagem (texto) da Marcha das Vadias:

no caso específico, sobre condições físicas e mentais, para mim continua sendo agressor e eu não vou ficar ou passar perto só porque ele tem uma deficiência física e, dessa forma, coitadinho, devo ter pena e perdoar sua agressão?… Ah, por favor!
Ele assediou sua filhinha? Violentou alguém? Assaltou somente? Ah, tadinho, é deficiente… A questão da deficiência física e/ou mental, em condição social vulnerável, é algo que deveria, junto com uma lista imensa de coisas, estar sendo tratada seriamente pelo governo e por seus burocratas, para que essas pessoas tivessem atendimento e tratamento médico adequado para sua deficiência, educação condizente, sistema de transportes mais inclusivo… e não apenas dando vagas em concursos! Não é alguém, enquanto agredida, que no momento da agressão, deve parar, colocar a mão na consciência e pensar sobre a injustiça que está cometendo… Isso é algo que deveria estar sendo tratado e pensado de forma séria lá atrás, para que este indivíduo não chegasse a situação de rua, portando-se como agressor. Ele é vítima. E ninguém nesses ‘mimimis’ por aí sai do papel inquisidor para apontar que o verdadeiro agressor dele é o Estado, o sistema, não um grupo de mulheres. Esse grupo de mulheres, como todas as outras mulheres do mundo, é agredido diariamente de diferentes formas… algumas mais e outras menos sérias. Elas devem parar, quando houver uma agressão, para prestar atenção em seu agressor? Me poupe.
E o debate não deveria estar sendo o ‘mimimi’ de acusar um movimento de ser falso feminista, ou de ser racista, ou de qualquer outro ‘mimimi’. Acusação, como alguns textos que li por aí, deveria ser inexistente – e substituída pelo diálogo, pela crítica construtiva, de modo a unir outros grupos, ser mais inclusivo para todos os oprimidos nesse sistema. FOCO minha gente, foco.

A regra é clara, sou mulher, branca, cis, classe média e, portanto, proibida de expressar opiniões sem parecer preconceituosa (apenas sendo irônica, já prevendo os ‘mimimis’)


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Recomendo a todos que leiam os comentários desse texto/nota da Marcha: http://marchadasvadiasdf.wordpress.com/2013/07/02/nota-publica-sobre-expulsoes-na-marcha-das-vadias-df-2013/

e afirmo novamente: no momento da agressão, não me importa qual a condição física ou mental do agressor. Ele é um agressor naquele momento e fim.

Paula disse...

se fosse uma mulher religiosa fundamentalista e fervorosa ofendendo as manifestantes tb ia ser escurraçada...

o problema não foi a cor ou a(falta de) moradia do cara, foi a atitude!

em nenhum momento ele foi agredido fisicamente ou ofendido com palavras de cunho racista/elitista...

logo, não foi um episódio de racismo!

Maria Fernanda Lamim disse...

Concordo com a Paula. Ele nao foi expulso em razao de ser negro, deficiente ou morador de rua. Mas sim em razao de ter sido agressivo. Ele merece ajuda pra sair de sua condicao de oprimido, mas nao um passe livre pra ser opressor.

Jac disse...

A reação da marcha foi a mesma (até mais light, talvez) quando um homem branco ameaçou mostrar seu penis. As mulheres ali não gritaram nada racista.

Se um homem gay fosse lá e fizesse a mesma coisa e fosse repreendido dessa forma, isso seria homofobia? Claro que não.

Eu sendo lésbica não poderia ir numa marcha do movimento negro gritando/gesticulando coisas racistas só porque eu sou oprimida de uma forma diferente do que as pessoas da marcha, né?

Se eu estivesse na marcha específica e não estivesse de cabeça quente, eu teria deixado o cara de lado, sem atenção. Não por ele ser negro ou deficiente, mas por ele claramente não estar são mentalmente.

(mas cá entre nós, mesmo ele tendo problemas mentais, ele bem que sabia como provocar e ofender as mulheres da marcha, né? Não é como se ele tivesse plantando bananeira lá)

MonaLisa disse...

Exatamente. Não foi racismo, nem elitismo.

Engraçado, que não se vê 'machões' indo tirar sarro em parada gay, nem em movimento negro, mas no das mulheres todos querem pitar.

Tem mais é que ser escurraçados mesmo.

Marcelo Arruda disse...

Posicionamento do Coletivo Pretas Candangas do DF acerca dos últimos debates sobre feminismo e racismo http://pretascandangas.wordpress.com/2013/07/04/posicionamento-do-coletivo-pretas-candangas-acerca-dos-ultimos-debates-sobre-feminismo-e-racismo/

MonaLisa disse...

Lola, olha isso, o espancador dolabela ganhou. Agora é que as vitimas de agressões não vão mais denunciar.

http://celebridades.uol.com.br/noticias/redacao/2013/07/04/mae-de-luana-piovani-questiona-justica-precisam-dizer-quanto-a-mulher-precisa-ganhar-para-nao-apanhar.htm

Anônimo disse...

Gente, por favor, ninguém quer dar passe livre para ninguém agredir ninguém, mas a reação foi claramente desproporcional, dava para ter respondido à agressão e continuar, o cara sequer conseguia andar, não dá para ignorar as condições dele também. Lúcia

Ana disse...

Lola, seu post mostra o desconhecimento ou falta de reconhecimento sobre as discussões históricas das feministas negras por parte das feministas brancas. Me surpreende que você, com recursos acadêmicos e pessoais, tenha uma postura destas.
Quem ler as discussões de Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Luiza Bairros e dos coletivos de mulheres negras verá que existem muitas questões a serem problematizadas. Uma delas é o próprio conceito de agressor.
Neste caso, acho que o as meninas poderiam facilmente ter contido o cara sem esse estardalhaço. Mas, pensando de forma mais global, gostaria de lembrá-la que os homens negros são vistos como agressores naturais de mulheres brancas e que em nome da preservação de padrões hegemônicos da feminilidade branca eles são perseguidos, taxados de hipersexuais e violentos.
Para piorar a miopia feminista, ressalto que as mulheres negras são vistas como as portadoras "da cor do pecado". Os caras nos chamam de "mulatas" ou "morenas" já salivando. Qualquer estatística recente de relações interraciais mostra que o ditado "branca pra casar, mulata pra fuder e preta pra trabalhar" não é coisa do passado".
Nós temos medo de entrar no elevador com caras brancos, temos medo de ter que ficar até mais tarde sozinhas com chefes, e, pras que são trabalhadoras domésticas, assédio sexual é a regra. E muitas vezes com a cumplicidade de patroas brancas, como já bem assinalava Lélia Gonzalez. Mas aí, esses caras aí são os queridinhos, são chamados pra marcha. Os sociólogos que nos comparam a macacas são bem-vindos e convidados a palestrar (sim, isso é um caso concreto de Brasília).
As mulheres negras pautaram várias questões lá dentro. Mas acho que, como somos invisíveis, elas não são em notas, não circulam em email e nem influenciam a estrutura de poder que a Marcha vem cristalizando. E ainda estranham que a gente queira se dedicar ao nosso próprio movimento!

Caroles disse...

Ai Lola, concordo com teu post inteiro! Fiquei triste com o post da Ana Flávia porque desconsidera completamente toda a luta e todo o debate que eu e meus amigos fazemos em favor de todas as minorias. Desqualifica totalmente nossa luta só por sermos (na maioria) brancos! Como se não pudéssemos sentir empatia pela dor de quem é muito mais oprimido do que nós. É claro que nunca vou entender completamente a realidade de uma mulher negra, de uma pessoa negra, mas isso não significa que eu não queira mudar a realidade dessas pessoas. Me senti pessoalmente ofendida. Não são só mulheres negras que são chamadas de vadias, e a luta da Marcha é por muito mais do que o direito de usar roupas justas ou curtas pra andar por aí. Acredito que a luta de quem vai pra rua na Marcha é TAMBÉM pelo direito de todas nós sermos advogadas, médias, sermos respeitadas de toda maneira e termos todas as oportunidades possíveis, enfim. Triste pela opinião dela, mas feliz pelo teu texto, Lola.

Anônimo disse...

A Jac abordou um ponto muito bom aqui...

Se um homem negro e pobre espanca a esposa tudo bem ? Ser oprimido é ter um passe livre para oprimir? Um juiz acabou de decidir que como Luana Piovani é rica, tudo bem ser agredida pelo namorado... Então parece que é isso mesmo.

Tb é preciso lembrar que o número de mulheres moradoras de rua estupradas, agredidas e mortas é altíssimo.

Charô disse...

Lola, tudo bem? Acho que há alguns problemas na sua análise. Porém não vou tecê-las aqui pois poderiam ser tomadas como uma crítica pessoal a você e isso não vai agregar ao debate.

O que gostaria de salientar é que não se trata de uma treta. O problema é ampliar o alcance daquilo que temos em comum o feminismo.

Esse racha haveria de acontecer cedo ou tarde. É como assassinato do arquiduque lá na SGM. Um episódio que desencadeia processos muito maiores.

Anônimo disse...

Ja viu isso ?

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/07/04/se-a-mulher-e-famosa-nao-pode-ser-vitima-de-violencia-domestica/

P. disse...

Participei da marcha, mas não presenciei esse momento. Desde que fiquei sabendo, já tive várias opiniões, fui e voltei nas minhas ideias, enfim, é realmente um assunto difícil.

No final das contas, acho que a reação das meninas foi mesmo desproporcional, a situação do cara deveria ter sido levada em consideração, e fico contente com a nota lançada pela marcha. Primeiro porque as acusações eram sérias e foram levadas a sério pelas meninas, que debateram o assunto devidamente. Segundo porque elas reconheceram que a reação foi desproporcional e que a marcha deve, sim, se cuidar sempre para não combater opressão com opressão. Ou seja, ele era um agressor naquele momento, mas era também vítima. E, assim como a marcha tem uma política diferente para afastar mulheres agressoras, deveria ter para afastar pessoas agressoras que estão em situação vulnerável.

Mas tbem não estou convencida de que tenha sido uma atitude racista. Como mulher branca, não me sinto mto à vontade pra questionar a acusação de racismo vinda de alguém que sabe na pele o que é sofrer racismo. Pondero, porém, que a reação foi exatamente a mesma que em ataques de brancos da classe média. Não penso que questões raciais e sociais pesaram naquela decisão.

Anônimo disse...

Ana, nem dá para discutir que as mulheres negras são e foram muito mais oprimidas que as brancas.
Pode ser uma novidade para vc, mas mulheres brancas tb tem medo de entrar em um elevador sozinha com um cara, tb tem medo de ficar até mais tarde com o chefe.Não são só domésticas negras que são assediadas. Tb olham para nós salivando. E quando denunciamos não acreditam em nós imediatamente. Tb temos que ouvir pessoas se perguntando se não provocamos, quisemos ou estamos mentindo. E que eu saiba nenhum agressor sexual foi chamado para a marcha apenas por ser branco.

Anônimo disse...

(e, por mais que a maioria das pessoas em situação de rua seja negra, não é sua cor que me amedronta)
Ah não?

Luiza Original disse...

Eu li a nota da Marcha.

Pelo o que eu entendi, o cara foi repelido com o procedimento padrão de segurança, não agressivo e com muito barulho pra chamar atenção.

Também li que não houve atos de preconceito contra ele.

Como exatamente a segurança foi racista? Gostaria de ampliar minha opinião sobre o caso.

lola aronovich disse...

Charô, pode comentar, que não vou levar pelo lado de crítica pessoal. É bom, porque tenho certeza que não sou a única aqui cheia de dúvidas de porque o que aconteceu seria racismo, se a Marcha das Vadias faria isso (e inclusive fez) com qualquer homem de qualquer cor.
Aproveito pra te parabenizar pela matéria da Folha que só vi agora. Ficou ótima.


Anon disse: "(e, por mais que a maioria das pessoas em situação de rua seja negra, não é sua cor que me amedronta)
Ah não?"
Pois é, anon, desculpe, mas pra mim não é. Sei que o racismo está totalmente enraizado na nossa sociedade, sei que pra grande maioria das pessoas, a cor amedronta sim. Mas pra mim, sinceramente, não. Já ouvi mil vezes, por exemplo, aquela conversa racista de que se vc vê um negro vindo na sua direção à noite, vc muda de calçada. Li uma reportagem uma vez que dizia que os pais da mãe do Obama, que eram brancos, eram esse tipo de gente. E fiquei muito encucada com a história, pensando: o que me faria mudar de calçada? Certamente não é a cor da pele. A roupa que a pessoa usa? Acho que não. Eu concluí que, pra mim, o que me deixa mais em estado de alerta é se a pessoa não tem nada nas mãos. Se estiver carregando uma mochila, cadernos, maleta, livros, comida, sei lá, eu fico pensando que a pessoa está fazendo alguma coisa (indo ou voltando da escola ou trabalho ou comendo etc). Definitivamente tem um recorte de classe nesse meu pensamento, mas de cor, não.

Ana Carolina disse...

Concordo com a Jac. No contexto da marcha, naquele contexto específico, utilizando-se inclusive de ameaçar mostrar o pênis (quer ofensa mais clássica a um grupo de mulheres?), ele foi agressor. Pelas condições individuais (estava fora de si, morador de rua, negro), a reação foi exagerada.

Mas o que vi em textos por aí (e nem tou falando dos linkados e referidos aqui) é que essas malditas feministas brancas sendo racistas. Não sou ninguém para falar sobre racismo, já que sou uma mulher branca, e reconheço que a opressão a uma mulher negra é ainda mais cruel - e esse é um assunto que nós, feministas brancas, temos sim de usar de nossa alteridade e compreensão, que a opressão ganha contornos diferentes.

Mas como você bem pontuou, em algumas situações específicas, um oprimido pode ser opressor. Uma mulher religiosa as ofendendo, um homem branco gay as ofendendo, um homem branco hétero as ofendendo. E, também concordo com um dos pontos da carta-resposta da Marcha das Vadias, quando um fotógrafo branco foi expulso, a coisa se resolveu rapidamente, mas na vez do morador de rua houve um "esforço" para realçar bem o ocorrido (e houve, sim, exageros, coisa que todos nós concordamos, imagino).

Aí no mesmo dia vejo que uma mulher branca e rica não pode, de acordo com um juiz, se valer da lei Maria da Penha, já que ela não estaria em situação de risco. Porque imagina, violência doméstica não existe entre brancas e ricas.

Sei lá. Só resumo lembrando de outro post seu, que não estamos nas olimpíadas da opressão...

Anônimo disse...

Concordo muito com o e-mail inteiro da Ana e ressalto essa parte:

"Quem ler as discussões de Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Luiza Bairros e dos coletivos de mulheres negras verá que existem muitas questões a serem problematizadas. Uma delas é o próprio conceito de agressor.
Neste caso, acho que o as meninas poderiam facilmente ter contido o cara sem esse estardalhaço..."

O feminismo brancocêntrico precisa ler, ouvir, pensar, ler novamente e ouvir de novo o que as mulheres negras dizem há décadas - e continuam dizendo. Começar por entender que o conceito de "agressor" não pode ser universal numa sociedade racista como a nossa é fundamental.

Reparem que as mulheres que concordam inteiramente com o post da Lola são...brancas. Não é por acaso, gente. Isso é sintoma de uma sociedade racista negacionista, na qual os brancos jamais precisaram pensar mais profundamente sobre história africana e afro-brasileira, tampouco entender como o racismo em nosso país opera, compreender suas características e especificidades...

O racismo brasileiro, como diz o professor Kabengele é um crime perfeito justamente porque é comum que seja expresso de maneira sutil, velada...acaba virando questão de opinião "não vi racismo nesse episódio". Não viu?!
Minha sugestão é para que busquem conhecer mais sobre os mecanismos do racismo brasileiro antes de corroborar com um discurso negacionista, pois é justamente esse discurso que o alimenta e faz com que nossa sociedade siga com este racismo tão vigoroso.

Em 1970, as mulheres negras tiveram que se apartar do feminismo, pois não eram levadas a sério. Até quando mulheres brancas consideraremos legítimo um movimento, num país de maioria negra, no qual mulheres negras precisam se afastar de feministas brancas simplesmente porque cansam de ouvir o tal do "não vi racismo"? Quem lê, se aprofunda no assunto, troca experiências e reflexões na maioria das vezes são as mulheres que sofrem direta e diariamente com o racismo, né? Por que será que nos parece risível e desanimador quando um homem, que jamais se preocupou em entender mais demoradamente como o patriarcado oprime mulheres, diz que “não vi machismo nesse episódio”?
O mesmo vale – ou deveria - para mulheres brancas dispostas a se comprometer efetivamente com a luta antirracista.

Ju Paiva

lola aronovich disse...

Ana, sim, eu sei que homens negros são pintados na nossa sociedade como hipersexuais e violentos e uma ameaça às mulheres brancas. Mas, neste caso em particular, o rapaz negro estava sendo sexual num contexto inapropriado (Marcha das Vadias), e também foi violento (primeiro a agressão verbal contra algumas manifestantes – que não está no vídeo –, depois com aquela senhora que tentou cobri-lo, depois jogando uma das muletas num carro). É uma construção social esse mito do homem negro hipersexual e violento, mas também é uma realidade para muitos homens negros (e brancos, claro). Quando um homem negro se comporta de acordo com seu estereótipo, devemos dizer tudo bem? Sobre os preconceitos que sofrem as mulheres negras, não há discussão. Se bem que, como diz a anon das 20:30, alguns desses medos são compartilhados por mulheres brancas (entrar no elevador, ficar até mais tarde com o chefe). Não sei do que vc está falando sobre homens brancos que exploram mulheres negras serem queridinhos e convidados da marcha. E nem de vcs serem invisíveis.

Sara disse...

Lola há muito tempo atrás vc publicou um guest post, falando justamente sobre essa população que tem transtornos psiquiátricos (ou psicológicos, sei lá..).
E a autora do post pregava q esses hospitais psiquiátricos, que abrigavam essas pessoas deviam fechar as portas, que eram depósitos de loucos e coisas do tipo.
Bem , eu e algumas outras comentaristas, na época, embora pra variar tenha sido muito criticada me posicionei contra, vc citou alguns exemplos de sua vivência com pessoas com esses distúrbios, eu tb já passei por situações perigosas envolvendo gente assim, porque creio eu q as ideias da autora do guest post, foram vitoriosas, pois não existe um lugar que vc vá e não encontre essas populações, que além da situação terrível de estarem nas ruas, ainda são vitimas de problemas mentais (alguns bem graves) que expõem essas pessoas há humilhações, violências, e tb perigos para os transeuntes, a cor dessas pessoas, pelo menos pra mim é o que menos importa.
Com o fechamento desses hospitais, fico pensando na situação terrível dos familiares, como alias foi relatado por algumas comentaristas, que possuem membros da família em situação desse tipo, não deve ser nada fácil lidar com um problema dessas proporções.
Esse rapaz do vídeo que vc postou, parece ser claramente uma dessas pessoas, me desculpem as mulheres da marcha, mas criticar e atacar esse rapaz não me pareceu justificável, no momento ali, o mais lógico seria não leva-lo a serio, e ignora-lo, para q ele se acalmasse, a não ser q ele estivesse atacando as mulheres o que não transpareceu no vídeo.
Esse é só mais um dos grandes problemas q o governo tem nas mãos, e quase nada tem sido feito, jogando a bomba nas mãos dos familiares, muitas vezes paupérrimos.
Focar na cor do infeliz que protagonizou essas cenas é no mínimo muita limitação de um problema tão grave.

Ana disse...

Não, Anônimo, a violência contra as mulheres brancas não é novidade pra mim, porque o feminismo hegemônico, ao universalizar a experiência das mulheres brancas, me ensinou isso. O que parece que o feminismo negro não te ensinou que as mulheres brancas podem ser cúmplices da opressão racial ao mesmo tempo em que são vítimas da opressão de gênero e que existem dinâmicas diferentes. Minha irmã mesmo fez um estudo empírico sobre violência doméstica para o mestrado e constatou que as ofensas relacionadas à honra sexual são mais pronunciadas para mulheres negras de pele clara e as ofensas relacionadas a aspecto de trabalho aparecem mais para mulheres de pele escura (apesar de todos os tipos de ofensa aparecerem nos dois casos). Ao longo dos relacionamentos (e não só depois do rompimento ou denúncia), os agressores falam, com todas as letras, que "sabiam que não ia dar certo porque mulher dessa cor é problema".
Ao silenciar sobre isso, as mulheres brancas se tornam cúmplices. Não é à toa que os indicadores sociais sejam muito mais parecidos para brancos e brancas, de um lado, e negras e negros, de outro, do que para mulheres brancas e mulheres negras. Fica bem visível quem tá se dando melhor nisso aí e como essa discriminação de gênero não afeta vocês da mesma forma.
E, sim, pessoas que fazem estudos comparando macacas e mulheres negras foram convidadas a palestrar pela Marcha. E, sim, homens brancos que discriminam racialmente mulheres negras estiveram presente. Ainda que você não saiba, porque ninguém os cerca e buzina na cara deles.
Essa coisa de falar que mulher negra sofre muito mais que mulher branca precisa de elaboração, não? Porque fica um palavreado fácil e toda vez que a gente mostra uma manifestação concreta, as feministas brancas não sabem o que fazer com ela... apenas nos deslegitimar.

Liana hc disse...

A reflexão que está sendo feita é mesmo muito necessária. A reação das mulheres foi excessiva ou estava em acordo com o momento da Marcha?

Eu, como mulher negra e feminista, também percebo o "clareamento" de pautas no movimento feminista de um modo geral e a dificuldade de abordar determinados assuntos, e não é simples conciliar situações sociais diversas. Também achei que a reação na Marcha poderia ter sido num tom a menos. Mas é claro, reagir sim, pois houve um confrontamento, uma hostilidade daquele homem para com as mulheres da Marcha.

Aliás, curiosamente, a condição de "machista" parece ser a única coisa a unir homens de classes sociais diversas. Nessas horas o bloco é coeso. Mas a reação a isso não pode ser "coesa", no sentido de coisa de bando, sem reflexão, ignorante, há que considerar toda uma estrutura social complexa, e isso dá trabalho mesmo, erros são cometidos no caminho, exageros acontecem.

Tanto espero que as mulheres que participam de Marchas levem em consideração este tipo de reflexão, quanto espero que aquelas que participam de coletivos de mulheres negras tenham consideração com a difícil tarefa que é levar o feminismo adiante (seja o praticado por negras ou por brancas). O pedido de compreensão e paciência vai em muitos níveis aqui.

Anônimo disse...

Oi Lola,

Bom, li os três textos, o seu, o da Ana Flávia e lá no "Pretas Candangas", li inclusive os comentários.É muito complicado.
Olha não vou dizer que não acredito que por trás da ação na marcha talvez se escondesse uma ponta de pré-conceito, a gente sabe que é difícil desconstruir certas coisas, mas duvido muito que todas tenham (ou pudessem ter) parado pra pensar e refletir sobre isso naquele momento, no momento lá, no calor da hora realmente é difícil puxar coisas no inconsciente antes de agir. Mas agora depois de passado o momento, talvez seja bom refletir sim se isto realmente não tenha ocorrido. Mesmo pensando assim não sei como agiria lá na hora.

Não sou negra, mas sempre fui pobre e cresci na Bahia, que tem uma população negra considerável. Solidarizo muito com a causa negra, pois se eu sofria marginalização por ser pobre, minhas amigas e amigos negros sofriam muito mais, então eu acredito quando elas sentem que o movimento não atende as suas demandas.

Claro que não concordo que isto sirva pra que se abra um abismo, de forma nenhuma. Isto só piora a situação das pessoas oprimidas. Mas em todos os textos vi muitos comentários de pura incompreensão.

O tema ainda carece de reflexão. Concordo que por sua condição desprivilegiada ninguém tem carta branca para agredir. Mas eu entendo perfeitamente porque as meninas do movimento negro se solidarizaram com a situação do cara. Os negros (homens e mulheres) carregam muito mais máculas sociais, eu sempre penso por ter vivenciado sempre de perto, que só sendo negro mesmo para saber. E acho que isso não deve ser ignorado.

Então penso que o sentimento que foi despertado nas meninas do movimento negro não deve ser dispensado sobre a "certeza" de que não houve preconceito. A gente bem sabe que muitas vezes mesmo não sendo machista alguém pode (até mesmo mulheres) reproduzir inconscientemente uma atitude machista, como disse antes é difícil demais desconstruir certas coisas. Se isto incomodou, acho que deve ser considerado.

Não sei se estou me fazendo entender. Fiquei um pouco triste em ver um abismo entre os movimentos. Mas vejo que isto é causado talvez por esta falta de espaço para discussões mais aprofundadas. Devemos fugir do determinismo.

Bom, é isso, já me estendi demais. Espero que os coletivos se entendam e a meninas da Marcha consigam absorver um pouco mais os anseios das feministas negras.

Bjos,

Su.





lola aronovich disse...

Ju Paiva, mas há muitas ocasiões em que eu, por exemplo, discordo de mulheres negras que dizem que tal coisa foi racista? Outras feministas brancas costumam discordar muito de vcs? Porque o que eu vejo é muita feminista branca falando – dentro de suas limitações – contra o racismo. Entendo a sua colocação sobre se eu negar que isso seja racismo não equivale aos caras que fazem mansplaining negando que tal coisa seja machismo. Bom, primeiro que tem coisas que eu mesma não considero machistas. Eu não vejo todo ato contra uma mulher como algo machista. Nem todo assassinato de mulher é um feminicídio, assim como nem todo assassinato de um homossexual é causado por homofobia. Concorda? É feminicídio quando a mulher é morta por ser mulher ou por algo implícito a sua condição de mulher (ser vista como propriedade de um homem que se recusa a aceitar o fim do relacionamento). Nem todo ato contra um negro é racismo, e eu acho que neste caso específico não foi, porque a Marcha já tinha feito exatamente a mesma coisa contra um homem branco, ano passado, e contra o fotógrafo, branco também, este ano. Se o rapaz negro e deficiente fosse branco, igualzinho – sem uma perna, com muleta, mesmas roupas, morador de rua, mentalmente alterado – mas branco, vc realmente acha que a reação da Marcha das Vadias teria sido diferente? Ele ser negro pode ter contribuído, e muito, para sua situação de exclusão e opressão na vida. Mas não foi o que causou sua expulsão na marcha.
E devo lhe confessar que eu não escreveria este post se antes não tivesse conversado com um conhecido, que é doutor, trabalha com gênero, é feminista e negro. Porque eu pensei: “não é possível que eu seja a única pessoa que não esteja vendo racismo neste caso”. Quando ele concordou comigo, me senti mais segura, e quis dar minha opinião.


Sara, é que, assim como confio em negrxs para apontar racismo (o que não quer dizer que não possa haver discordância), também confio em psicólogxs quando dizem que hospitais psiquiátricos que trabalham com internação forçada não funcionam. Tenho certeza que não funcionam pros internos, mas “funcionam” pra quem não quer vê-los. Só que não é um método muito humano, né? E deixá-los nas ruas definitivamente também não é. Não consigo nem imaginar como deve ser a situação das famílias. Se algum psicólogx/psiquiatra quiser escrever um guest post sobre isso (porque a Sara tem razão, faz tempo que publiquei um aqui), seria ótimo.

Ana disse...

Então Lola, as pessoas não contam a história toda. Nas primeiras reuniões sobre a Marcha, havia meninas negras presentes que pautaram questões de mulheres negras e se dispuseram a colaborar. Algumas ficaram, outras tantas não se sentiram contempladas e saíram.
Para resumir muito, no segundo ano houve uma polêmica com fotos. Em algum momento, a única mulher com seios de fora na divulgação da marcha era negra. Nem tanto a foto, mas a postura negacionista do racismo e resistência em rever a divulgação irritou várias mulheres, eu inclusive. Essa resistência foi até bastante contrastante com a iniciativa de nos chamar, individualmente, para fotos, porque havia uma vontade de incluir visualmente as negras. Nunca, em nenhuma outra ocasião, para momentos de decisão e conformação de poder, eu ou outras negras da minha convivência recebemos tal convite. Acho que houve uma negligência séria aí. Ficamos hipervisíveis nos cartazes e hipovisíveis pra outras coisas. O que pra mim só aumenta os méritos das negras que tem estômago pra fazer essa disputa dentro da marcha, o que não é o meu caso.
Agora, esse ano, houve o problema com o morador de rua. Em nenhum momento eu disse que ele não deveria ser expulso. Não deixei de reconhecer a violência dele -e as mulheres negras SEMPRE questionaram o sexismo de homens negros- mas acho que ela ficou hipervisível. Meu posicionamento, para a própria Marcha, é de que há um problema ESTRUTURAL como a raça é tratada lá dentro. E não é por falta de esforço de várias mulheres negras em explicar.

Anônimo disse...

Lola, leio seu blog há tempo suficiente para saber que você não é racista. Mas nós somos racistas. Ou não? O meu "ah não?" foi uma reflexão sobre o fato de que a maioria das pessoas em situação de rua no mundo e não só no Brasil é negra. Quero dizer, se eu tenho medo delas, o meu medo é da violência a qual os negros foram expostos ao longo dos séculos, à exclusão, à opressão, ao medo. Que se torna o meu medo, mesmo que eu seja tão negra quanto elas e que as pessoas tenham medo de mim também. Pq o morador de rua é negro, o pobre é negro, o presidiário é negro. Acho que a Ju Paiva, se expressa melhor do que eu:
"O racismo brasileiro, como diz o professor Kabengele é um crime perfeito justamente porque é comum que seja expresso de maneira sutil, velada...acaba virando questão de opinião "não vi racismo nesse episódio". Não viu?!
Minha sugestão é para que busquem conhecer mais sobre os mecanismos do racismo brasileiro antes de corroborar com um discurso negacionista, pois é justamente esse discurso que o alimenta e faz com que nossa sociedade siga com este racismo tão vigoroso."

P. disse...

Ju Paiva,

quero muito entender porque vc considera a atitude delas racista.

Quero porque detesto a ideia de ser responsável, dentro de um debate tão importante pra mim, a dar continuidade a preconceitos e opressões tão arraigadas na nossa sociedade. E a ser eu, que fui vítima de uma série de opressões, mesmo sendo uma mulher branca de classe média, a oprimir alguém.

Sei que sempre cairemos no erro de perpetuar preconceitos, porque não conseguimos, ao longo de uma vida, eliminar todos os padrões de pensamento que somos ensinados a ter.

Mas não posso aceitar que eu, pensando e pensando sobre o tema, ainda assim mantenha posturas racistas e preconceituosas. Por isso disse no outro coment que já fui e voltei em várias ideias e raciocínios sobre o ocorrido. Por isso preciso entender os argumentos.

Como disse, acredito que não foi uma atitude racista das organizadoras. Porque acredito que não foi a cor da pele do cara que causou a reação delas. É o racismo que faz com quem a maioria das pessoas na situação dele sejam negras? Tenho certeza que sim. É racismo a reação que a mídia teve? Pelo que se narra, acho que temos motivos pra acreditar que sim. É racismo que a organização da marcha não tenha um diálogo mais aberto com feministas negras, ou não tente essa aproximação? Não vi ninguém falando isso, não sei se é verdade, mas se for o caso, creio que é, sim.

Mas não vejo racismo em elas terem reagido com ele da mesma forma que reagiram com caras brancos.

Gostei do que a Ana falou sobre o próprio conceito de agressor carregar racismo.

Mas quando o conceito é: o agressor é todo aquele que interfere na marcha de forma a insultar ou violar as mulheres que dela participam, independentemente de cor, por que é racismo?

Sério, tenho muitas dúvidas nesse momento.

P. disse...

Só uma correção: falei que não tinha visto ninguém dizendo da relação entre mulheres brancas e negras na organização da marcha antes de ler o último post da Ana, sobre as diferenças que ocorreram.

Sendo assim, acredito que o racismo está na falta de diálogo com movimentos de mulheres negras, mas continuo não vendo na reação específica ao morador de rua.

lola aronovich disse...

Liana, obrigada mais uma vez. Concordo muito com seu comentário. Mas eu acho que tanto o texto da Marcha das Vadias que saiu anteontem quanto o das Pretas Candangas que saiu hoje (o link pra ambos está no post) foi um pedido de compreensão e paciência. Gostaria que fosse assim.


Su, concordo contigo. Não quero ter certeza de nada, não quero excluir possibilidades. Mas só dizer que “foi racismo” sem rebater quem diz que, olha, com o cara branco a Marcha agiu igualzinho, não me convence.

lola aronovich disse...

Ana, quando você fala do silêncio cúmplice das mulheres brancas, eu concordo. Inclusive já apontei mais de uma vez que em muitas ocasiões a lealdade à classe (média) fala mais alto que a lealdade a um gênero (feminino). Quando se fala em empregadas domésticas, tem muita feminista branca que se contradiz, que não vê que o que está fazendo também é exploração. Mas também tem muitos casos que o silêncio não é proposital, mas por ignorância. Por exemplo, o estudo empírico da sua irmã pro mestrado parece muito interessante. Eu adoraria publicar um guest post sobre isso. Vc poderia pedir pra que ela entrasse em contato comigo, por favor? E vc viu o documentário Dark Girls? Ainda preciso escrever sobre ele... Ele mostra a discriminação baseado no tom de pele das mulheres negras. Quem não é negra nem imagina que até alguns negros dizem que mulher de cor escura não é pra casar...
Sobre a Marcha das Vadias e o que aconteceu durante as reuniões, de fato, eu não tenho a menor ideia. Imagino que as integrantes brancas tenham aprendido com o que aconteceu no segundo ano, porque um dos cartazes deste ano (que eu incluí no final) é de uma branca e uma negra em condição de igualdade. Eu vejo uma preocupação com isso. Vi na Marcha das Vadias de BH vários cartazes com mulheres negras, na de Natal também... Eu acho que há uma preocupação das feministas brancas em ser mais inclusivas. Mas aí vc diz que vcs ficam visíveis nos cartazes e invisíveis nas outras ações da marcha. Bom, o que eu vejo é o lado visível, os cartazes. Mas eu sinto que há abertura pra diálogo, ou não?


Anon das 21:35, entendi agora. Claro que somos racistas. Não nego isso jamais. Mas daí a considerar todos os atos contra negros atos de racismo, eu tenho minhas dúvidas.

Anônimo disse...

Esse post ficou excelente. Me deixou até um pouco arrepiada porque eu também tenho muito medo dessa gente devido a vários acontecimentos aleatórios que infelizmente ocorreram e não tenho nem coragem de escrever sem tremer. Eu as vezes ajudo moradores de rua sabe, tem inclusive um velho negro barbudo muito gente boa com quem até conversei umas vezes e ele é extremamente cordial apesar da fala um pouco comprometida.
Gostei muito desse post porque é importante lembrar as pessoas que elas tem que sempre ficar atentas a tudo que ocorre ao redor e não menosprezar possíveis ameaças, seja de quem for,não importa a cor ou as roupas do sujeito. E Feministas são de todas as cores, nacionalidades e religiões. Bom, não todas as religiões, mas vocês entenderam. Acho que o cara querer mexer com as meninas quando elas estão juntas significa que uma mulher sozinha corre ainda mais perigo perto desse indivíduo, na minha humilde opinião.
Parabéns pelo blog Lola, poucas vezes deixei comentário mas quase todo dia sinto vontade de dizer como aprecio sua escrita aqui no Blog. Felicidades! =)

Sofia disse...

Adorei tuas colocações neste texto! Só discordo de um ponto de que moradores de rua são necessariamente oprimidos. Conheço vários casos de moradores de rua que tiveram a oportunidade de sair e não quiseram. Ou voltaram. Com ou sem vícios. Por que temos que achar a vida deles indigna? Será que todos eles acham que vivem em uma situação indigna? Será que todas as pessoas no mundo querem banhos diários, refeições quentes, emprego e casa própria? Acredito ser um pouco de preconceito vermos moradores de rua como coitados oprimidos, muitos deles sentem-se bem vivendo desta forma e acham que oprimidos somos nós, escravos do sistema... Acho que temos que parar com essa "coitadização" das pessoas diferentes, às vezes elas não se veem assim! Fiz um curso uma vez que tinha vários colegas deficientes físicos, pra citar um exemplo, e nenhum deles queria ser visto ou tratado como um coitado. Eles faziam piadas das deficiências uns dos outros e não estavam nem aí pra elas. Tudo que queriam era serem iguais nas suas desigualdades. Isso não significa não ajudar a lutar pelos direitos destas pessoas, mas não tratá-las como meras vítimas que não conseguem lutar elas mesmas pelo que querem e viver como querem...

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Talvez houve excesso da parte de quem estava na marcha, mas fica difícil dizer já que o vídeo não mostra o que o rapaz estava fazendo desde o início. Concordo muito com a Lola quando ela diz que não é porque alguém sofre com o racismo, com a pobreza, que tem direito de ser machista, de agredir alguma mulher verbalmente ou sexualmente.
Mas me estranha muito a autora colocar tanto essa questão feminista brancas X mulheres negras, quando estamos em um país onde mestiços são maioria. Não acredito que a organização das marchas das vadias seja feita somente por mulheres brancas e de cabelos lisos.
E se fosse um morador de rua, sem uma perna, só que branco? Não duvido que a reação seria a mesma.
Me parece mais uma questão de não terem sabido reagir melhor diante de alguém que não teria condições de entender a marcha do que de racismo.

Rosa disse...

Então que vi o vídeo, e se no começo poderia entender que o rapaz estava sendo agressivo a reação exacerbada das moças me deixou extremamente desconfortável. Ainda não entendo isso como racismo "de caso pensado", porque não parece que foi esse o gatilho para o buzinaço que acontece no vídeo, mas entendo que a partir de certo momento todo o reflexo de uma sociedade que nos leva ao racismo (no caso brasileiro muitas vezes mal velado) aflorou junto com uma certa revolta do oprimido contra o que julgou ser o opressor.
O que me deixa triste - e um pouco preocupada - é que problemas de comunicação gerem uma cisão num movimento que já é tão desacreditado como é o feminismo. Entendi que feministas negras tem questões e questionamentos que nós meninas brancas não entendemos, ou apenas sabemos na teoria, e acho mais que justo que ela queiram ser ouvidas (e muitas das que preveem uma cisão o fazem por achar que não estão sendo ouvidas). É mais que óbvio que uma mulher negra sofre violências diferentes - e vou me abster de medir infelicidade aqui porque a quantidade da dor de um não diminui a dor de outro, certo? Também acontece com uma mulher lésbica, ou uma mulher trans* e vou dizer: não conheço a realidade dessas mulheres porque minha realidade é diferente e meu único vínculo com todas essas mulheres é ser desvalorizada por ser mulher.
Então talvez esse episódio devesse ser visto como uma oportunidade para diálogo, um momento de baixar a guarda e ouvir o outro lado, tendo em mente que erros podem ser cometidos até por aqueles que ideologicamente defendem algo libertário/libertador, ser feminista não anula outros preconceitos, bem como ser negra feminista não torna as pessoas imunes a outros preconceitos, todos somos expostos a valores racistas, machistas, homofóbicos desde crianças e se em algum momento passamos a ver o erro em algum desses comportamentos não vemos automaticamente o erro nos demais, com sorte abrimos nossas mentes para outras visões e evoluímos. Pois que evoluamos, eu posso dizer que tenho muito que aprender sobre combate, formação e materialização do racismo (e de outras lutas) e antes que julguem que digo isso "da boca pra fora" porque não tentar explicar? Não é obrigação de ninguém mas é a forma mais rápida de ensinar a quem não sabe...

Camila disse...

Eu gostaria de ter tempo para ler todos os comentários, e assim, tentar entender melhor a organização da MdV/DF.

Outro problema que vi (de longe, pois não sou de DF, e estou fora do Brasil a alguns meses)foi a expulsão de um coletivo de mulheres, o ANA MONTENEGRO, braço feminista do PCB, elas carregavam uma faixa: "O GÊNERO NOS UNE, A CLASSE NOS DIVIDE".

Para a organização foi uma atitude para 'evitar o aparelhamento da marcha'

Como se pode ver na nota política do PCB, a foto mostra que não há em qualquer lugar o nome do Partido.

O que entendo da Marcha é que ela é um movimento pluripartidarista, em BH (cidade que eu moro e milito), a Marcha é um movimento de mulheres independeres, em conjunto, com mulheres de outros coletivos, muitos deles ligados a Partidos de esquerda.

Realmente, não compreendi este posicionamento da MdV/DF, a retirada foi baseada no 'estatuto' da Marcha, que diz: Não concordamos com o uso de bandeiras, faixas e carros de som que possam promover outros movimentos/instituições durante a Marcha das Vadias DF.

É claro que a Marcha não pode virar um palco de disputa política, mas assim como na Marcha das Mulheres, todxs estão com um objetivo em comum, se organizando da forma que acham melhor, e desejam compor os grandes movimentos de forma igualitária e sem esquerdismo e disputa.


Patty Kirsche disse...

Ah, eu também acho que não tem nada a ver defender o cara. Ele estava agredindo as mulheres da marcha e pronto. O erro está na cobertura do fato. Se a polícia e a mídia tratam de maneira diferente negros e brancos, essa é outra questão. Mas a gente não tem que tolerar a violência do homem negro porque ele é oprimido.

Anônimo disse...

Os argumentos das feministas (brancas, por sinal) estão me lembrando muito com aqueles que julgam fervorosamente as cotas raciais, afinal, todos têm a mesma capacidade e por isso devem receber tratamentos iguais. Da mesma forma as feministas(brancas, só pra lembrar) querem julgar o rapaz negro, deficiente e morador de rua, absolutamente igual a um agressor branco e de classe média alta. Sei que a comparação pode ser surreal para alguns, mas se pensar bem, faz certo sentido.

Os fatores sociais, culturais e históricos estão sendo desconsiderados (pelas feministas BRANCAS, para deixar claro) apenas para justificar esse episódio lamentável.

O comportamento das manifestantes foi no mínimo pouco inteligente, justamente porque não conseguiram prever o resultado do mesmo, que é o que está ocorrendo agora. Havia diversas maneiras de evitar o ocorrido, mas preferiram hostilizar e ainda filmar.

ANINHA disse...

Oi, Lolinha.

Concordo com todas as colocações do post. Mas acredito que falta uma fundamental: a deficiência mental.

Não houve racismo, concordo. O fato de ser deficiente físico não influi nem contribui. Concordo que a reação ao mascu branco do ano passado foi pior. Mas esse caso me parece diferente por não se tratar de um mascu, mas de um deficiente mental. Pra mim, mascu de qualquer cor é um traste e deve ter suas atitudes reprimidas. Mas não foi o que eu vi no vídeo.

O deficiente mental não tem consciência de suas atitudes. Ele não tem noção real da agressão a que submeteu as mulheres da marcha.

Também não culpo as manifestantes. Mas acho que há uma grande ignorância a respeito do tema. E que, infelizmente, os principais interessados não têm a capacidade de se organizarem em um movimento como as feministas (no qual eu me incluo) ou as negras.

Camila disse...

Esqueci de postar a nota:

http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=6180:entre-a-intencao-e-o-gesto&catid=35:o-petroleo-tem-que-ser-nosso

Anônimo disse...

"O único privilégio do rapaz negro sem uma perna é ser homem."

Comentário preconceituoso.

Seria semelhante dizer que o único privilégio da mulher negra sem uma perna é engravidar. Injusto, não é?

lola aronovich disse...

Oi, anônimo das 23:04? Não entendi nadinha. Estou falando de privilégios. Um homem na situação deste (negro, deficiente físico, talvez mental, pobre) não tem privilégio algum na nossa sociedade. Só o fato de ser homem. Ou vc não concorda que ser homem é privilégio? Não entendi sua comparação. Uma mulher na mesma situação que ele seria totalmente destituída de privilégios.


Aninha, é bem provável que ele tenha problemas mentais, ou pode ser que ele estivesse drogado, ou os dois, ou nenhum. A gente não sabe. Mas, mesmo que fosse a deficiência mental, vc não acha que ele sabia o que estava fazendo? Ele sabia que estava sendo hostil. Mesmo assim, é uma reflexão interessante.

Anônimo disse...

As mulheres brancas eram as únicas excluídas do mercado de trabalho e inicialmente a luta feminista foi por essa inclusão.

Com a crescente inserção da mulher branca no mercado de trabalho, a situação da mulher negra permaneceu a mesma(serviços domésticos e afins). Porem o homem negro foi preterido em favor das mulheres brancas, fato é q as famílias negras foram empobrecidas. Isso é um fato economico.

Partindo de situações sociais tão dispares o feminismo branco e o feminismo negro possuem muitas diferenças, apesar da premissa de luta contra o machismo.

Anônimo disse...

Rê_Ayla disse...:

"E o debate não deveria estar sendo o ‘mimimi’ de acusar um movimento de ser falso feminista, ou de ser racista, ou de qualquer outro ‘mimimi’. Acusação, como alguns textos que li por aí, deveria ser inexistente – e substituída pelo diálogo, pela crítica construtiva, de modo a unir outros grupos, ser mais inclusivo para todos os oprimidos nesse sistema. FOCO minha gente, foco.

A regra é clara, sou mulher, branca, cis, classe média e, portanto, proibida de expressar opiniões sem parecer preconceituosa (apenas sendo irônica, já prevendo os ‘mimimis’)"



Só o cinismo, ignorância e agressividade do primeiro comentário já comprova a crise que o feminismo tem com outros movimentos sociais.

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Vendo o vídeo eu não consigo ter essa noção de que o rapaz é doente mental ou está sob uso de drogas.
Se é doente mental, realmente ele não tem noção do que faz, mas se essa deficiência mental não é aparente (pra mim, pelo menos não parece) não tem como culpar alguém por julgá-lo senhor de suas faculdades mentais.
Já se a questão é uso de drogas, aí na minha opinião já não é desculpa.
Aliás, como todo mundo aqui sabe, muita mulher é vítima de violência de quem se encontra sob efeito de drogas ou álcool. E isso não diminui a culpa de quem pratica a violência.

Anônimo disse...

Lolíssima, acho que o que falta nessa questão é contextualizar o fato.

O q ocorreu foi, de fato, um homem hostilizando as mulheres na marcha ou um homem com problemas mentais tentando 'imitar' as mulheres da marcha (lembra do filme Nell?) ???

Aqui abro parêntese para a fala de uma amiga de Ana, que ela colocou em seu texto "Maria Luiza Júnior, entretanto, confirmou o que para muitas já era óbvio: “Vou falar como testemunha ocular. O rapaz simplesmente levantou a camisa, porque na marcha havia pessoas de peito nu. Ele estava exibindo o ‘tanquinho’. Depois dos primeiros gritos, ele deu as costas e saía em direção contrária à marcha. Em seguida, fotógrafos e povo cercaram-no e ele novamente levantou a camisa. Eu que estava próxima, temendo que a bermuda amarrada com cordão baixasse expondo sua genitália, coloquei o cartaz em cima. Ele reagiu batendo no cartaz. Tendo me ouvido pedir que não continuasse com aquilo, gesticulou para que me afastasse. Daí eu saí da marcha porque fiquei deveras perturbada com o racismo exacerbado das manifestantes que acorreram para ele como urubus em busca de carniça. No vídeo está claro que ele está caminhando ou tentando ir no sentido contrário da marcha. A filmagem acaba quando ele atira a muleta em direção ao estacionamento sem pessoa alguma. Eu estava lá, e isto está no vídeo. O que faltou ao vídeo foi a minha indignação com a agressividade daqueles que gritavam com o rapaz e ainda o impediam de sair da confusão”."

Ponderando esse relato e excluindo os comentários que só falam q foi racismo (e incluo a nota das Pretas Candangas, q está muito bem escrito, mas que acusam sobre a falta de espaço de mulheres negras no mov. feminista, sem esclarecer pontuado o porque esse foi um caso de racismo), só posso concluir que o que houve foi uma ação racista por parte das integrantes da MdV DF, sim!
Se o cara não estava ofendendo e elas ignoram esse fato e olharam apenas para sua cor isso configura racismo.

Nem toda ação contra negros é racismo, mas esse foi o caso, infelizmente.
Achei muito estranho você ignorar o relato de Ma. Luiza Jr. e comprar sem ponderar a versão de que o cara era um agressor pura e simplesmente.

Uma observação que faço as comentaristas que vieram aqui dizer q o ocorrido foi um ato racista é explicar o que houve. Se a versão divulgada é diferente da que foi, quem não estava lá não tem como julgar e vai chegar aqui negando o ato racista.
Precisamos nos fazer entender.
Ok, pode ser cansativo explicar pela enésima vez, mas o lado bom é que surte efeito qnd desenhamos várias e várias vezes.
Por mais que seja cansativo e doloroso, isso é um trabalho de formigueira que vale a pena, podemos não estar mais aqui para ver o resultado, mas essa colheita será feita pelos nossos no futuro. Essa é uma grande esperança.

Anônimo disse...

87% dos moradores de rua são do sexo masculino.
quase 80% da assistência social governamental, e destinada a cidadãos do sexo feminino.
Porque ?

Anônimo disse...

Lembrei do conceito de imputável do direito.
Logo, se o coletivo julgou e executou a pena numa pessoa assim pode até não ser racismo, mas foi um erro MUITO grande.

Anônimo disse...

Anônimo do 23:41 Esse treche foi tirado da nota oficial escrita pela organização do DF: -Minutos antes do momento captado no vídeo, o mesmo homem já havia gritado para uma manifestante: “levanta sua saia, quero ver sua bucetinha”. No momento da chegada da comissão de segurança ao local onde ele estava, o homem xingava uma manifestante, ameaçando bater nela com a muleta- Acho muito importante não duvidar do que elas dizem, pq é sempre assim que é tratada a vítima de uma agressão sexual.

Anônimo disse...

Corrigindo: inimputável.
Teclado 'inteligente' trollando.

Anônimo disse...

o que este senhor amputado, doente viciado demostrou nada mais é, do que a ideologia "libertária" do "descriminalize as drogas.
Como se tudo não fosse causa e efeito, como se o consumo de drogas fosse uma transgressão ao status quo, e não um mau alto-destrutivo, que transforma seres humanos em verdadeiros mortos vivos, a comunidade cientifica do mundo todo, comprova que o vicio em drogas causa males físicos e mentais de toda ordem, fora a enorme destruição social que provoca.
Parabéns libertários de esquerda, vocês acabam de cruzar com sua criação, ao vivo e em cores.

A liberdade deste homem vale cinco reais na biqueira.

Valéria Fernandes disse...

Moro em Brasília, sou não-branca (*não tenho nenhum interesse em abraçar qualquer identidade racial fixa, mas NUNCA seria considerada branca, ainda que possa, pela condição econômica e conquistada ter e gozar de privilégios de mulher branca em certas situações*), não participei da Marcha, nem faço parte de qualquer instância de organização da mesma. Concordo integralmente com a Lola em relação a questão do oprimido que, excepcionalmente, ou em certas condições específicas, pode se tornar opressor, e exercê-la como qualquer opressor clássico (*homem-branco-hetero-cristão-ocidental*) faz, tão bem sem perceber.

Tomando o vídeo sobre o incidente, e ele isoladamente, não o antes e o depois, não vi racismo por princípio, mas um grande exagero na reação das integrantes da Marcha. No entanto, ao situarmos o vídeo dentro de um contexto maior, o do racismo que impera, me senti muito desconfortável, muito mesmo. Agora, algo que me pergunto é qual o motivo desse foco na reação contra a o morador de rua negro ter sido tão alardeada. A meu ver temos dois pontos pelo menos: 1. Desqualificar a Marcha como um todo, pintando aquelas mulheres que reagiram como agressoras, fanáticas, insensíveis; 2. Uma questão midiática torpe que reduz não somente moradores de rua, mas, especialmente negros e negras, à condição de objetos. Querem uma ilustração?

Naquela mesma semana, dia 20/06, uma aluna da UnB, cujo rosto não foi mostrado, cor de pele não foi comentada, foi agredida covardemente por um morador de rua que circula pelo campus. O moço, alto e forte, a atacou com um porrete; não tivesse a aluna sido ajudada, talvez, os danos poderiam ser grandes. OK. Aqui está a notícia. Segundo outra notícia que li, mas não achei agora, na delegacia o rapaz disse que a atacou “porque ela tinha olhos de preconceito”; a estudante agredida diz que ela não foi a única mulher que esse sujeito atacou dentro do Campus. Ele tem problemas psiquiátricos e foi solto; a moça reclama da falta de apoio da UnB e, na época, disse não saber se voltaria, ou não.

A foto do rapaz foi exposta em todos os jornais e sites, o moço é negro e os retratos fizeram muita questão de dar destaque ao seu rosto, assim como as notícias à sua cor de pele. O retrato, no seu enquadramento, lembrou-me aquelas fotos de escravos ou criminosos negros e mulatos no final do século XIX; tratados como objeto, muitas vezes com o intuito de ressaltar as perversões características de uma determinada “raça” ou fruto da miscigenação. Não tenho dúvidas que ambos – o moço agressor e a estudante – são vítimas. Agora, como mulher, e mais ainda por estar grávida, me sinto muito vulnerável e mais solidária à estudante e outras moças – pertençam elas ao grupo social ou racial ao qual pertençam – que esse sujeito parece ter atacado. Ora bolas, será que por causa disso estou sendo racista? Assim como as opressões podem ser localizadas, as solidariedades, também, são.

Ele precisa de ajuda, e eu sou contra a liberação de doentes psiquiátricos para serem tratados pelas famílias, porque, na maioria das vezes, essas ou não existem, ou são pobres demais e incapazes de lidar com o problema. A reforma manicomial foi mais uma forma do Estado lavar as mãos em relação ao problema, quando, na realidade, deveria aperfeiçoar as formas de atendimento e aparelhar as famílias para lidarem com os seus doentes de forma humana e segura.

Valéria Fernandes disse...

Terminando: 1. Considero racista a forma como o incidente vem sendo tratado, pois me parece uma forma de desqualificar a luta das mulheres como um todo; 2. Queria MUITO que o nome desse sociólogo que chama negras de macacas fosse exposto, pois espanta-me que alguém assim – e existem professores acusados de racismo na UnB na antropologia e ciência política que saíram livres e continuam lá – seja chamado para palestrar em evento feminista. Sem citar nomes fica parecendo fofoca e, bem, acho esse tipo de informação dada pela metade detestável; 3. Já presenciei, na época do doutorado e em evento feminista recente na UnB (*no qual palestrei*), a questão situacional da opressão contra as mulheres negras ser subordinada a outras opressões e isso me incomodou muitíssimo. Pior ainda não foi a primeira vez. 4. A questão de classe, que no Brasil se mescla perigosamente com a questão racial, impede, sim, que algumas mulheres feministas se mostrem solidárias com as questões que afligem as mulheres negras e mulheres em situação de exploração. O que menos precisamos é de um feminismo elitista, tenha ele o viés que tiver.

Anônimo disse...

Porque não chamaram a poli...há é...a policia e algo patriarcal, burguês e cheio de homens nojentos.

Thainara Carreiro disse...

Lola, vc tem previsão de palestra ou de vir ao Rio de Janeiro? Gostaria muito de te conhecer.
Bjão :)

Anônimo disse...

Lola,
Desconheço outros episódios de vc discordando de racismos apontados por mulheres negras. Eu deveria ter deixado mais explícito que minha intenção não era pessoalizar o debate, não era uma crítica pessoal a você. Também apontei que os primeiros comentários que endossavam a tese de que as participantes da MdV não foram racistas foram feitas por mulheres brancas. O primeiro de todos, aliás, é terrível.
É óbvio que pode haver discordância de opiniões, mas eu quis ressaltar que quando feministas brancas dizem que não viram racismo num episódio que diversas feministas negras disseram que enxergaram racismo (apontando e explicando suas linhas de raciocínio) penso que é momento de relê-las, parar e pensar mais um pouco. Aliás, entre os textos já indicados por vc, eu gostaria de acrescentar o da Charô no blog dela.

E, extrapolando esse episódio, pensando um pouco no panorama geral do feminismo brasileiro atual...Outras feministas costumam concordar que mulheres negras sofrem dupla opressão, declaram-se antirracista, mas, de fato não incorporam essa luta como sendo diária. Como Ana falou é palavreado fácil, sem elaboração. Falar de mulheres negras apenas em datas comemorativas, no meu entender, deixa muito a desejar. Não há comprometimento efetivo em levar essa luta cotidianamente. E, sinceramente, brancas não podem falar pelas negras, mas podem aprender (ler, ouvir, pensar) mto mais do que estão fazendo. Eu sinto uma posição mto confortável de feministas brancas dizendo “o protagonismo tem de ser das mulheres negras” e os anos passam e a maioria continua ignorando o básico sobre história, legado, conquistas e problemas atuais das mulheres negras. Que feminismo é esse? Precisamos colocar isso no cerne dos debates de maneira mais aprofundada, inflexionar mesmo o debate e a agenda feminista. Dizer “...Mulheres isso, aquilo etc....” e terminar “com as negras ainda é pior” já não serve, é muito raso, sobretudo, se pensarmos nas pautas urgentes da luta antirracista.
A desconfiança e o sentimento de que apenas em espaços exclusivos é possível tratar das questões raciais não é por acaso. Eu entendo o pedido de compreensão entre as partes, mas entendo também o cansaço de mulheres negras com muitas feministas que se omitem de entender e lutar – o que demanda esforço contínuo – mas, aparecem para dizer “não vi racismo”.



Ju Paiva

Daia disse...

tenho acompanhado as discussões desde o acontecido, e que tive a chance de presenciar aqui em brasília.
tenho entendido que as pessoas que criticaram a situação e apontaram o racismo acontecido apontam de fato o racismo estrutural de nossa sociedade: do homem ser negro, de ser pobre por sua negritude, de estar na rua por sua pobreza, e de ter sequelas físicas e mentais decorrentes disso tudo, e da reação exagerada ser mais uma violência sincronizada e originada nessa estrutura desigual. e a marcha das vadias reconhece este racismo estrutural após ter começado uma discussão intensa - que não está prestes de acabar - fazendo o mea culpa e se abrindo interna e externamente a todas as discussões.
mas eu fico me perguntando: se a situação de racismo é macroestrutural e reconhecidamente não intencional, nem consciente na hora do acontecimento, podemos acusar um grupo de racismo dessa forma? ou apontar os erros para desconstruir essa dificuldade e encontrar soluções?
eu acredito que todos somos agressores dessas violencias estruturais em maior ou menos grau de acordo com nossa realidade: poderíamos ate dizer que somos todos racistas e machistas por estarmos inevitavelmente imersos numa sociedade racista e machista, no entanto isso não nos impede de reconhecer em nos esse paradigma e lutar contra essas violências até que a sociedade esteja de fato transformada e possamos afirmar com alívio que não somos mais nem racistas nem machistas... ainda que pela nossa natureza humana sempre estejamos procurando nos segregar na intenção de nos diferenciar e sermos "mais" alguma como fruto de nossa eterna insatisfação, que espero eu, nuca cesse.

Anônimo disse...

"uma repórter da grande mídia tentou entrevistá-lo para ouvir 'seu lado da história', o que a comissão de segurança impediu"

Democracia e liberdade de imprensa, a gente ve no feminismo.

Anônimo disse...

Eh ben ben obvii qye sso n eh un caso de racismo. Yo estou scompanhar i caso ha variios dias e no consigo identificar nada alem de um himem sendo expulso da mesma forma qye todos sao.

Anônimo disse...

"um rapaz, não sei se morador de rua, e sinceramente não me lembro da sua cor, fez um discurso pedindo dinheiro para comprar remédios pra filha doente. Várias pessoas colaboraram"

-E a seguir ele foi para uma boca comprar crack.

D. disse...

Como a Valéria, também quero saber o nome do sociólogo racista convidado pela Marcha. Isso é inadmissível.

Achei o comentário da Liana muito bom.

Pra quem acompanha de fora, a reação de apontar racismo na marcha parece muito forte e desproporcional, considerando o que foi relatado na nota. No entanto, acho que essa reação refletiu um racha que já se deu entre os grupos feministas do DF. Sei que a balcanização do feminismo é sempre vista como negativa, mas acho que o feminismo negro tem pontos específicos que precisam ser colocados separadamente do feminismo branco, não porque não somos todas oprimidas pelo patriarcado, mas porque essa opressão se dá de modos distintos, sim. Proclamar uma união por uma luta geral contra o patriarcado me parece tão ruim quanto uma subordinação de diversas lutas (feminismo, antirracismo etc) à pauta única da luta anticlassista - "quando o socialismo chegar seremos todos libertados" (não por acaso no masculino). Não é porque se apontam falhas que o resultado é antagonismo puro e bruto - diferentes pontos de partida levam a diferentes análises. Entendo perfeitamente a reação de expulsão do cara no momento de luta na rua. Ao mesmo tempo, também entendo que foi exagerado e, sim, a condição de múltiplas e combinadas opressões às quais ele é submetido deveriam ter sido consideradas, mas o momento eclipsou tudo. A MdV-DF admitiu isso. Nesse ponto, elas explicaram seus motivos, mas também entenderam que as duras críticas recebidas pelas [posso dizer?] companheiras feministas negras foram fundamentais (inclusive pra fazer a marcha repensar como o tema tem sido tratado por elas).

Só pra terminar: a MdV-DF soltou uma boa nota, na minha opinião. O porém foi a indicação de antifeminismo: "nos sentimos profundamente magoadas pelas maneiras antifeministas com que outras companheiras negras nos acusaram". Dá pra entender - as críticas chacoalharam o movimento. Foi uma boa declaração, com uma escorregada movida à mágoa.

ViniciusMendes disse...

Perguntar se elas agiriam do mesmo jeito com um cara branco de classe média é uma comparação furada.

"Elas fariam mesmo se o rapaz deficiente físico e mental fosse branco e não tivesse cara de morador de rua?" Me parece uma comparação BEM mais justa.

E então? Seria reservado o mesmo tratamento pra um cara que a vista grossa talvez não possa responder integralmente por suas ações e que teria muitas dificuldades pra agredir alguém ali fisicamente se ele se enquadrasse nos padrões racistas de beleza? Eu aposto um pacote de Passatempo que ele receberia mais pena do que ira.

Outra coisa... "Ninguém usou ofensas racistas". Sério? Sério MESMO que tem gente achando que isso é argumento? Então vira misoginia a partir do momento que chama de vadia, antes não é? Vira homofobia quando chama de viado, antes não é?

Esse episódio (e esse post) me lembram da maior dificuldade que eu tenho com movimentos sociais, que é a dificuldade (e algumas vezes a pura preguiça) de tentar entender onde o outro é oprimido. E se um morador de rua deficiente físico, (possível) deficiente mental e negro pode ser opressor, mulheres brancas de classe média também podem ser... E vamos ter muita dificuldade pra chegar em algum lugar de verdade antes de reconhecermos que todxs podemos opressorxs em algum momento.

Sara disse...

valeria Fernandes, vc conseguiu transmitir com muito mais exatidão o que eu penso sobre esse assunto, tb concordo integralmente com seu comentário, sobre o fato de que o nome do sociólogo deve ser exposto.
E mais tb concordo com a P. de que as mulheres negras devem dizer aos grupos feministas como podemos minorar as questões que nos separam, não só ficar denunciando que existe preconceitos ou participando desses concursos de quem é mais oprimido, todos sabemos q a mulher negra, pobre, sofre uma gama maior de preconceitos na nossa sociedade, mas quais são as propostas para os grupos feministas para que possamos diminuir ou melhor ainda acabar com essas diferenças, pelo menos entre nós.

Ana disse...

Pois é, Vinícius, eu concordo totalmente com você. E acho engraçado que, muitas vezes, quando o assunto é transfobia, por exemplo, o que mais aparece é comentário do tipo "mulheres brancas cis não podem ser opressoras porque elas também são oprimidas!".

Aí, quando o sujeito é um homem negro e com deficiência física e mental, a primeira reação é dizer "não importa se ele também é oprimido, naquele caso ele é opressor!!!".

OU SEJA.

No mais, o que vejo aqui nessa caixa de comentários e também no próprio post é uma inabilidade e uma falta de vontade de refletir e de tentar entender o ponto de vista de outras mulheres que não as brancas, de classe média, cis, sem deficiência física ou mental. É essa necessidade de entrar sempre na defensiva que tanto reconhecemos em machistas e homofóbicos.

Parabéns a todxs. Ao fazer isso, vocês só estão colaborando para branquear e elitizar o movimento, para que cada vez mais mulheres diferentes de vocês desistam de ser feministas.

Elaine Pinto disse...

Olha, depois de ler os textos, os vários comentários e tudo mais, me parece que a coisa está dividida mais ou menos assim: quem viu apenas o vídeo, sem saber os bastidores da organização da Marcha das Vadias no DF, acha que o que aconteceu não foi racismo. Mas quem teve uma visão mais completa do evento, que esteve nos bastidores, acha que é. Fica difícil saber se aquele momento, isolado, foi racista ou não, mas não dá para negar que o movimento está mesmo excluindo, propositalmente ou não, pautas das mulheres negras.

Creio que houve, sim, um excesso, que até a própria organização reconheceu. Mas acho que algo de positivo pode ser tirado dessa situação toda: nós, feministas brancas, estamos vendo algo que está sendo escondido de nós (intencionalmente ou não!), que são as demandas das mulheres negras. Não dá para estabelecer, sempre, uma pauta única de reivindicações com relação ao feminismo, quando a opressão de gênero se diferencia com o tom da pele da mulher. Bom, essa é minha opinião sobre toda a questão.

° Emy ° disse...

Ana, sinceramente o que eu vejo em seus comentários é um ataque as feministas ditas brancas de modo geral, como se todas desqualificassem a luta das "feministas negras". Apesar de existirem pautas diferentes, é sério que a gente tem essa necessidade de ficar se atacando? Não existe O FEMINISMO. Existem OS FEMINISMOS. São várias correntes teóricas. Pessoas divergem mesmo. Discordam. Por isso existem várias correntes. E nem mesmo assim, concordamos com tudo que se diz em determinada corrente teórica. Olha só, não vou me colocar no seu lugar por que não sou negra e não sou você, então não funciona, mas você acha mesmo que essa separação entre "feministas brancas" e "feministas negras" é útil? Pra quem? Por que apesar das divergências, temos também convergências, ou não? Você não concordar com a Marcha das Vadias por X, Y ou Z motivos, é uma questão pra debate, talvez até com a própria organização, que possa rever alguns pontos. Mas daí tentar tornar ilegítima a Marcha? Sinceridade, aí acho um desserviço.

Anônimo disse...

Muito difícil dizer que a Marcha não chama mulheres negras para sua construção.

Tds reuniões da marcha que participei eram ABERTAS, não faço parte do grupo de emeials delas mas acompanho no facebook e twitter. Quando vejjo um chamado para campanhas fotografias, para campanhas de filmagens de vídeos pro youtube ou chamando pra reuniao, se me interessar eu vou. independente da minha cor, classe social, raça, religiao, etc.

porque as muklheres negras bnão podem abrir o facebook ou o blog, ler o chamado pra reuniao e para as campanhas e simplesmente irem???? não entendo.

"Ah, tadinho, é deficiente… " não, né gente? A questão da deficiência física e/ou mental não pode ser um motivo para PASSAREM A MÃO NA CABEÇA DE ALGUÉM. Todo ano vários caras que fazem papel de agressor ou opressor na marcha, são expulsos. esse homem não foi o unico.

na nota do blog das vadias tem dizendo que há um vídeo do inicio, tem ate aquela foto, dele pegando no p----to dele. Isso não é motivo para pedir q ele se retire e pare de assediar as mulheres q passavam ali??
se isso nãop é motivo não sei mais o que pode ser.

Anônimo disse...

Queria saber tambén quem confirmou que o rapaz tem doença / deficiencia mental ou/e estava sob efeito de alguma substancia.

ele assedia sim.

Anônimo disse...

Queria MUITO que o nome desse sociólogo que chama negras de macacas fosse exposto, pois espanta-me que alguém assim – e existem professores acusados de racismo na UnB na antropologia e ciência política que saíram livres e continuam lá – seja chamado para palestrar em evento feminista. Sem citar nomes fica parecendo fofoca e, bem, acho esse tipo de informação dada pela metade detestável!!!!!

isso se for verdade.

Andressa.

Roxy Carmichael disse...

não estive na marcha, portanto não tenho como emitir uma opinião com propriedade, mas gostaria de levantar algumas questões.

1) outro dia conversando com uma amiga, ela me contou de um estudo que realizou sobre assédio moral e sexual no ambiente de trabalho,que levou a concluir que enquanto homens só sofriam assédio moral de profissionais que ocupavam cargos de maior prestigio e melhor remunerados que eles, exclusivamente de chefes diretos ou indiretos, as mulheres sofriam assédio moral tanto dos superiores, como das pessoas que ocupavam cargos com remuneração e prestígio inferiores aos cargos delas. acho essa informação bastante ilustrativa para o caso que estamos analisando. se de fato, o cara assediou as mulheres na marcha, o que eu não saberia dizer, porque não estava lá, a desvantagem numérica, ou seja, elas estavam em grupo e ele estava sozinho e ainda com a mobilidade reduzida, não foi o suficiente para ponderar algo que está tão profundamente entranhado, como o machismo. o que me leva a pensar que uma das coisas mais democráticas em nossa sociedade (talvez a única?) seja o machismo. do homem rico contra a mulher rica, do homem rico contra a mulher pobre, do pobre contra a rica e do pobre contra a pobre. do grupo de homens contra o indivíduo mulher, do grupo de homens contra o grupo de mulher, e como vimos nesse caso, do indivíduo homem contra o grupo de mulheres. insisto que essa análise é baseada na situação hipotética que estou partindo, que é a situação em que ele assediou essas mulheres.

2) no entanto, não podemos de forma alguma ignorar que o elemento raça, aprofunda ainda mais a relação de desigualdade. assim também como o elemento classe. um fenômeno que podemos observar atualmente que me chama particularmente a atenção, é como os membros das classes privilegiadas se identificam mais com membros de classes privilegiadas de outros países, do que com membros de classes desfavorecidas do mesmo país. e isso pode ser dito também das feministas que se identificam com pautas das feministas do norte e ignoram pautas de suas conterrâneas ou ainda vizinhas do sul. portanto é MUITO importante conhecer o feminismo negro e o feminismo pós-colonial justamente pra isso, pra descolonizar o feminismo. é gravíssimo que isso seja visto como mimimi ou como recalque. insisto, é GRAVÍSSIMO!

3)as situações relatadas pelas militantes negras, que transcendem o evento do grupo contra o homem negro durante a realização da marcha, merecem a maior atenção e merecem a reflexão e a disposição para o diálogo e ação de todas as mulheres que lutam ou que desejam lutar pela causa feminista. é gravíssimo esse relato do convidado para a palestra promovida por feministas, ter um histórico de ofensas racistas. eu particularmente só acredito num socialismo (e obviamente num feminismo) que está atento ao combate ao racismo.

4)imagino que para as militantes negras deve ser algo bastante desgastante, tentar pluralizar as pautas, desistirem após não terem suas demandas atendidas pelo movimento e ainda terem que explicar pela milhonésima vez aqui nessa caixa de comentários que não foram respeitadas e que o movimento não atuou de forma plural e democrática, citando exemplos concretos que são vergonhosamente e convenientemente ignorados, quando não distorcidos, por algumas comentaristas aqui nesse espaço. e ainda serem acusadas de prestar desserviço.

por fim eu compartilho totalmente do desânimo do @vinicius. acho um insulto esse nível de mau caratismo de quem afirma: "Ninguém usou ofensas racistas" e quando lhe é conveniente, enumera todos os mecanismos explícitos e, PRINCIPALMENTE, os implícitos que operam na cultura sexista. quero parabenizar a valéria pela brilhante análise do sujeito negro objetificado nos relatórios policias e nas editorias que cobrem crimes nos meios de comunicação. estou totalmente com ju paiva, quando ela diz: Dizer “...Mulheres isso, aquilo etc....” e terminar “com as negras ainda é pior” já não serve, é muito raso, sobretudo, se pensarmos nas pautas urgentes da luta antirracista.

Anônimo disse...

@Anon de 00:24
Obrigada por me passar essas informações, estava com muitas janelas abetas e não percebi que acabei não lendo a nota da MdV/DF, somente os excertos que a Lola publicou no post.

Não duvidar foi exatamente o que eu fiz ao ler o depoimento de Ma. Luiza Jr., não concorda?

Somos apresentadas a dua versões do mesmo fato e, de certa forma, elas levam a interpretações diferentes.

Quem está errado?
Quem mentiu/omitiu?

Viu a situação em que ficamos.
Está feia.

Acho que Elaine Pinto sintetiza bem o andar da carruagem: quem não estava lá, acha que não houve, quem estava e conhece os bastidores acha que houve racismo.

Quem somos nós que não estávamos lá e não acompanhamos o processo de formação da marcha para julgar?


@Anon de 10:52
Pelo que entendi, não basta ter uma chamada aberta. Se vc não se sente bem e com suas demandas acolhidas em um lugar vc vai lá simplesmente pelas portas estarem abertas?

Se vc vê o anúncio de uma festa que diz "Mulheres não pagam" vc com toda sua carga feminista vai nessa festa???
Acho que não, né?!
Afinal, dá pra imaginar o q vai ter... trolls com aqueles xavecos horríveis, gente querendo forçar a barra etc.


O ocorrido foi uma infelicidade, mas se conseguirmos tirar algo de positivo e voltar o diálogo entre as parte melhor.
Agora é hora da MdV/DF repensar suas atitudes frente a feministas negras e as feministas negras tentarem mais uma vez o diálogo com a MdV/DF, afinal, se excluir não é a solução.
Pode até ser uma situação necessária para dar um tempo no desgaste, mas uma parte não pode desistir da outra.

Julia Faria Codas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
mariana disse...

O texto dá um caldo pra debater... rs

Mas o que eu penso é que faltou apenas um pouco do velho bom senso de olhar para o "tamanho' do agressor e perceber que ele era uma formiguinha tão pequena, tão encurralada, que não precisava ser esculhambado.

E se o argumento da Lola for válido de que: "Mas daí a considerar todos os atos contra negros atos de racismo, eu tenho minhas dúvidas"....
Eu poderia inverter a ordem dos fatores e falar:
"Mas daí considerar que todos os atos contra a Marcha das Vadias são de violência e dominação masculina, eu tenho minhas dúvidas"

relativo, não?

Li o texto da Ana, e eu acho q o buraco é vertiginosamente mais embaixo quando se trata de mulheres negras... pois mulheres bancas descobriram o termo "vadia" para marchar no século XXI, os negrxs descobriram no século XIX pós-abolição....

sei-lá...

digamos q eu entendo a postura da Marcha, mas não desprezo a visão da Ana...

Rosana Reis de Oliveira disse...

Olá Lola
Gostei muito do seu post e me contempla em várias partes.

A principal delas foi essa porque sintetiza o que estou pensando a duas semanas.

"Eu não entendo como o rapaz negro e deficiente na Marcha das Vadias, por estar em várias situações de opressão, ganha uma espécie de passe livre para oprimir manifestantes da Marcha, ou qualquer outra pessoa."

Acho que o que me deixa mais impressionada é como o racismo estrutural (que a marcha não nega e se propõe a aprofundar os estudos sobre o assunto dentro do grupo) invisibilizou a agressão desse homem em situação de rua. Acho que eu me preocupo com isso por ser da comissão de segurança e ter visto a cena. Não culpo as minas negras por terem visualizado o racismo estrutural no ocorrido, mas me preocupa que um fato tão importante seja ignorado.

"Minutos antes do momento captado no vídeo, o mesmo homem já havia gritado para uma manifestante: “levanta sua saia, quero ver sua bucetinha”. No momento da chegada da comissão de segurança ao local onde ele estava, o homem xingava uma manifestante, AMEAÇANDO BATER NELA COM A MULETA"

As críticas tem se dividido por muitos ângulos, mas esse fato, crucial e MUITO específico para analisar corretamente o contexto da expulsando desse homem é o fato de ele não estar APENAS xingando a manifestante e mostrando a genitália, mas o fato de que ele ameaçava bater em uma manifestante. Esse pequeno pedaço não foi citado em NENHUMA crítica que eu li até agora e sempre me faço essa pergunta. O que a Marcha deveria ter feito então? Esperar que ele, além de ofende-la verbalmente, a agredisse fisicamente? Deveríamos ter virado as costas com um sonoro "ele é mais oprimido do que você", seguir a marcha e fingir que nada aconteceu?

Como você Lola não tenho respostas, apenas mais perguntas.

@dddrocha disse...

Não vi racismo no ocorrido, qualquer pessoa com o mesmo comportamento teria gerado a mesma reação.

Ludmila Queiroz disse...

Discordo absolutamente do seu post, Lola. Sou ativista de coletivos de mulheres negras há pelo menos uns 5 anos. E o que eu acho que tem de ser colocado em pauta aqui não é a atitude do homem negro, que foi obviamente errada. Sobre isso não o que comentar. Ele errou. Ponto. Se valeu de sua condição de homem pra oprimir mulheres. Mas acho que o maior erro de seu texto é defender ou minimizar a atitude da segurança da Marcha. A atitude dela foi sim completamente repreensivel. A gente sabe como o machismo é estrutural na sociedade em que a gnt vive. Pois bem, o racismo também é. E se nós feministas condenamos a falta de empatia por parte de alguns homens, me entristece ver a falta de empatia d@s branc@s, para com negr@s. E me perdoe, se estou equivocada, mas essa é a leitura que faço do seu texto. Existe sim, uma mudança absurda no papel que a marcha está nesse momento. Se de oprimida ela passa a opressora, quando ela hostiliza um homem que claramente nao pode se defender ali. Mais uma vez repito, que o homem está errado ao fazer o que fez. Mas e ai? Isso dá o direito a segurança da marcha de errar também? Por fim, e isso vc citou no seu texto, a questão de classe presente em quem era a marcha e o homem que cometeu a primeira violencia. E esse fator de classe, se mostra absolutamente presente na reação da marcha a esse homem. Acho sim, que a marcha tentou combater uma opressão cometendo outra. E me desculpe a honestidade, esse feminismo não me representa!

Larissa Santiago disse...

Lola, minha querida, tudo bom por aí?

A primeira coisa que eu queria dizer sobre tudo isso é que esse debate sobre feminismos ia acontecer de uma forma ou de outra.
Queria muito ter podido ler todos os comentários, mas tempo aqui pra mim infelizmente tem sido raro.

O que ViniciusMendes 03:24 falou resume minha opinião do episódio: entender que é ser opressor, o que é racismo é parte indispensável pros feminismos.

Agora é aproveitar a oportunidade e debater qual o espaço das demandas da mulher negra na Marcha.

Grande Abraço
Larissa Santiago

Monica disse...

Lola querida, sabia que sua posição seria essa.

Muito triste ver feministas se acusando desse jeito, e tudo porque mulheres reagiram à uma agressão.

Olha, super necessário discutir e problematizar a questão, achar que o escracho foi excessivo (tendo a discordar, ninguém tocou nele, foram só buzinadas, o procedimento padrão), mas daí a ficar recriminando as "mulheres brancas privilegiadas" é muito pra minha cabeça.

Então um negro, deficiente, morador de rua tem licença pra passar a mão na bunda e mostrar o pênis pra mulheres na rua? A resposta é NÃO.

Sim, porque foi isso que ele fez. A organização da Macha do DF disse que tem um outro vídeo que mostra ele com o pênis pra fora, não o divulgaram para não expor ainda mais o sujeito.

Eu acho que elas deveriam divulgar sim, postar no youtube pra todo mundo ver.

Não sinto nenhuma empatia por agressores. Sinto muito.

É claro que um agressor sendo deficiente físico deve fazer com que, obviamente, a reação a uma agressão não seja a mesma do que contra um pessoa sem deficiência, mas é só isso.

E para quem a carapuça servir:

parem de chamar mulheres que reagiram uma agressão factual de um homem negro de racistas.

Vocês não estão contribuindo com nada, só ajudando os inimigos (machistas, misóginos e os que acham que mulher tem que aguentar tudo caladinha mesmo!)

Mônica Vieira

Lena disse...

Eu acho que é um texto do tipo pegadinha, certo, Lola? rsrsrsrsrs...

Mas deixando as brincadeiras de lado, acho que podemos fazer uma bela análise sobre o "conteúdo do texto" e "conteúdos comentados"...

As mulheres na Marcha foram chamadas de elitista e racistas. Bom, com uma boa olhada nos argumentos percebi que não dá pra negar esse adjetivo. Alguns ex:

1 - Começo pelo trecho q se refere aos deficientes no brasil e as políticas de cotas em concursos públicos: "e não apenas dando vagas em concursos!"
Papo coxinha!

2- portadores de problemas mentais foram desqualificado muitas vezes em vários comentários.

3. O medo das mulheres brancas ser igual ao das negras. Furada, hein? Conheço muitas mocinhas que atravessam a rua não só quando se deparam com o "homem negro", como já vi muitas fazerem isso com "mulheres negras"....

4. A solidariedade branca: "Eu as vezes ajudo moradores de rua sabe, tem inclusive um velho negro barbudo muito gente boa com quem até conversei umas vezes e ele é extremamente cordial apesar da fala um pouco comprometida" - fofo, né? Provando q não é racista, vomitei arco-íris.

5. "Só discordo de um ponto de que moradores de rua são necessariamente oprimidos. Conheço vários casos de moradores de rua que tiveram a oportunidade de sair e não quiseram"

6. "Ah, eu também acho que não tem nada a ver defender o cara. Ele estava agredindo as mulheres da marcha e pronto. O erro está na cobertura do fato. Se a polícia e a mídia tratam de maneira diferente negros e brancos, essa é outra questão. Mas a gente não tem que tolerar a violência do homem negro porque ele é oprimido"

7. nota das mulheres brancas do MDV: "nos sentimos profundamente magoadas pelas maneiras antifeministas com que outras companheiras negras nos acusaram" -- hummmm!

8- todos que disseram as palavras "não vi racismo nenhum no ocorrido". Velou!


Feministas coxinhas aooosss montes aqui! rsrsrsrs


Anônimo disse...

Quando leio "não estava na marcha, não fui, mas acho que...__" já me dá vontade de não ler.
é mto faacil falar do que nao asbe e do que não viu....

muito facil dizer que e ele poderia falar de bucetinhas e peitinhos, ameaçar bater com muletas, mas não poderia ouvir as buzinas???????????????????

ViniciusMendes disse...

Só uma coisa... Eu entendo muito bem a dificuldade que uma pessoa branca tem de entender o que é racismo. Eu sou o que poderia se chamar "moreno claro", sou miscigenado e minha pele não é escura o suficiente pra ser considerado negro ou "mulato", então como vivemos em um país racista onde uma boa parte da população tenta puxar seu tom de pele pro mais claro na hora de se descrever, sou registrado como branco, mas eu sei que só sou branco na America Latina.

A coisa mais próxima de racismo que eu já senti na pele foi ser preterido por pessoas de pele mais clara, seja por elas serem vistas como mais bonitas até "você é legal, mas eu só curto guri bem branquinho, sabe?" E até pouco tempo atrás eu nem me tocava que isso era uma faceta bem suave, quase boba, dos preconceitos racial e social na nossa sociedade.

Um dos meus melhores amigos é negro (e por "um dos meus melhores amigos", entenda alguém com quem converso por telefone praticamente de 15 em 15 dias pq não moramos mais na mesma cidade, fora os facebook da vida), e foi com ele que eu comecei a sacar o quanto um monte de coisa invisível pra quem não passa pela parte mais agressiva dos problemas raciais no Brasil pode ser destrutivo.

É fácil sacar que é racismo se tiver chamando de macaco, difícil é sacar uma série de sutilezas cotidianas como um professor que pesa mais a mão nx alunx negrx e depois reclama que esse povo de cota não quer nada com nada quando a pessoa pula fora da faculdade, é o "cor de pele" na caixa de lápis de cor ou nos curativos ser beje, é você entrar com um grupo num baile de formatura e uma das pessoas responsáveis por manter tudo em "ordem" vim perguntar SÓ pra você se você precisa de ajuda no melhor estilo "você tá no lugar certo?", é o vendedor de loja priorizar atender outras pessoas na sua frente, é você ouvir "mas se meus netos ficarem +- da cor dos seus filhos, vai tá bom", é você estar com roupa de marca saindo do seu trabalho e ser paradx pela polícia com uma arma apontada pra sua cara pq vc olhou uma vitrine, é você ter medo de tomar sol pra não ficar mais escurx, é você ver alguém ter medo de tomar sol pra não ficar com a pele mais escura, é um professor apontar como falha no seu trabalho você ter feito um produto pra negrxs pq negrxs não gostam de ser vistos como tal (e você mesmo que fez o produto ser negrx), é você se declarar brancx sendo da cor do morador de rua do vídeo, é a industria da moda não oferecer opções adequadas ao seu tipo físico não eurocêntrico, é você ser consideradx perigosx simplesmente por existir, é você ficar repetindo de 5 em 5 minutos que ama ser negrx e fazer cirurgia pra ter um nariz europeu clarear sua pele no photoshop, é a sociedade acreditar que você é um grande agressor digno de uma reação furiosa desproporcional apesar de ser negro, morar na rua, possivelmente ter problemas mentais e não ter uma perna. E isso é só o que eu consegui ver de fora (sim, tudo isso aconteceu, com diversas pessoas da minha convivência). E eu nem consigo imaginar o que mais possa ser visto "de dentro".

Eu não posso falar pela população negra, mas pra mim ser chamado de viado é fichinha perto de formas BEM mais sutis e infinitamente mais agressivas de homofobia que eu vejo e sinto... E eu não ficaria surpreso se descobrisse que ser chamado de "macacx" tbm não é a parte mais violenta do racismo pra quem sofre com ele diariamente.

ViniciusMendes disse...

Ah sim, me assusta um pouco algumas reações na linha "se questionar alguma coisa é pq quer destruir o feminismo e a união entre as mulheres"... Da ultima vez que eu chequei o feminismo não era religião.

Carolina Lucas Paiva disse...

Tenho mais dúvidas do que certezas em relação a esse caso. Não vi a situação e me baseio apenas nos relatos vistos até agora.
Vi o vídeo antes de ler qualquer um dos posts sobre o assunto e me senti muito mal com o que vi. A reação do pessoal foi bem desproporcional mesmo. O cara se mostrou atordoado com o barulho dos apitos e era cercado toda vez que tentava sair dali.
Depois li os posts (da Lola, das Blogueiras Negras, etc), bem como os relatos de quem estava lá. Com as informações adicionais (que ele ameaçou uma manifestante de agressão, que ele é morador de rua e excepcional) voltei a ver o vídeo.
Pude entender melhor o porquê de o pessoal da Marcha ter agido tão rápido contra ele, afinal, ele tinha ameaçado alguém de agressão. Só que o sentimento de desconforto permaneceu. Parecia mais uma caça à "aberração", chutar cachorro morto, sabe? E fico pensando sobre até que ponto a reação do pessoal foi pela provocação machista dele, porque é muito fácil os preconceitos pessoais e institucionalizados surgirem nessas horas e orientarem a ação, né.
Nesse ponto, a diferença de tratamento (dizem que o fotógrafo branco foi "convidado a se retirar" de modo bem mais ameno) aponta o racismo internalizado, e talvez mostre também a repulsa de alguns perante um morador de rua portador de necessidades especiais também.
Concordo plenamente com o Vinicius nisso.
Mas também concordo com a Valéria, sobre usar esse episódio a fim de deslegitimar a Marcha e usar o negro como objeto ao invés de sujeito.

Dree Alves disse...


"Mas só dizer que “foi racismo” sem rebater quem diz que, olha, com o cara branco a Marcha agiu igualzinho, não me convence."

"A verdadeira igualdade consiste em tratar-se igualmente os iguais e desigualmente os desiguais a medida em que se desigualem "

O rapaz negro, com deficiência mental e física, teve igualmente as mesmas oportunidade, meios de acesso as informações, e conhecimento do feminismo que o fotógrafo branco? Então por que a reação tinha que ser a mesma? Por que ele é negro, e o estado natural do negro é a animalidade? O relato da Maria Luiza nem foi levado em conta, e ele é extremamente importante para se questionar se ele foi mesmo o agressor ou se ele só se defendeu abusando do único privilégio que possuía.
Tirado do post:
E, como pessoas oprimidas também podem oprimir (negros podem ser racistas, mulheres podem ser machistas, homossexuais podem ser homofóbicos etc), o rapaz decidiu oprimir. Talvez ele não seja o agressor, mas ele foi um agressor, não? "
E marcha feminista pode ser racista, não? Uma opressão não justifica a outra. O rapaz oprimido não tem o direito de oprimir as mulheres. Mas e as mulheres oprimidas da marcha tem direito de oprimi-lo? Já disse que tenho minhas dúvidas se ele foi o agressor ou o agredido.

Obs: Alguém perguntou a ele quantas vezes ele apanhou da polícia? Seria útil para uni-lo a uma marcha que é feita em resposta a uma violência dita/feita por um policial. Uma marcha inteira retrucando uma fala e escorraçando um homem que deve ter essa violência marcada no corpo. Sem mais.

Sara disse...

Lena das 15.55hs é a primeira vez q tenho ânsias de vomito ao ler um comentário, e vc conseguiu isso com sua estupidez.

Anônimo disse...

Então é isso: Da próxima vez que um morador de rua gritar obscenidades e ameaçar te agredir, não reaja exageradamente. Finja que não ouviu ou que gostou, afinal a questão de gênero é muito menos importante que a racial e socioeconômica. Em caso de estupro é importante analisar esse fator também.

Obviamente o morador de rua não teria gritado obscenidades para uma multidão de homens, mas isso simplesmente não faz qualquer diferença.

janaina disse...

graças a deus vc se posicionou do lado da marcha, lola. nao aguento mais essa historia.

1) eu sou negra e apoio a marcha.

2) havia mulheres negras na marcha, escrachando o agressor.

3) mulheres negras sao constantemente abusadas nas ruas, inclusive por homens negros. a opressao aí é de GENERO, nao é racial.

uma mulher branca pode se beneficiar do privilegio branco numa entrevista de emprego, em relaçao a um homem negro, talvez. ou quando entra numa loja e é bem tratada enquanto ele é considerado suspeito, certamente.

mas na rua, naquela situaçao, o opressor era ele.

4) apesar de todas as opressoes, ele se sentiu tao empoderado a ponto de pegar no pau e fazer gestos obscenos pra um grupo grande de mulheres, nem aí pra possibilidade de ser atacado por elas. ser morador de rua, negro e deficiente ainda assim nao o impediram de assediar mulheres de forma chula

5) quando elas reagiram, ele ficou RINDO. ele nao tava nem aí pra reaçao da marcha. ele só ficou com raiva quando a midia nao deixou ele sair dali, fechando o caminho. ele tambem ficou com raiva quando uma mulher se aproximou com um cartaz (diz ela mesma q foi para protege-lo, nao sei do que, ne) e ele quase deu um soco nela.

6) qualquer portador de penis que o use para ameaçar mulheres é um agressor, mesmo que ele seja deficiente fisico. isso se chama CULTURA DO ESTUPRO. o texto q nega isso é profundamente antifeminista

7) seria um absurdo as mulheres da marcha terem q sair correndo de perto dele com medo de serem apalpadas ou algo do tipo. os homens usam dessa estrategia de intimidaçao para dizer que a rua nao é nossa, q o espaço publico nao é das mulheres. e justamente POR ISSO a marcha inventou essa forma de defesa eficiente e nao-violenta. a rua é nossa tambem.

Vivi disse...

Ótimo texto, comentários maravilhosos!
Já havia lido a respeito e até agora não tenho convicção na posição.
Primeiramente quero dizer que sou branca, e possivelmente isso vai influenciar meus posicionamentos, mesmos os mais “inocentes”. Por isso, tal como nós mulheres sempre batemos nas teclas “devemos escutar o oprimido”, a opinião das mulheres negras são muito importantes para mim. Não acho que só por ser negra vai estar certa, nem só por ser mulher a opinião sobre machismo tb será 100%, mas, “potencialmente” o oprimido tem uma visão mais correta certamente. Com isso, tenho algumas dúvidas e opiniões. Para mim.
1) é óbvio que o cara é oprimido, tanto pela classe como pela cor. Isso não se discute.
2) a deficiência mental só potencializa sua marca de ser um oprimido (ele deveria estar sendo cuidado)
3) um ponto pacífico para mim é, como deficiente, ele não deveria ser “esculachado”, pois, infelizmente ele está à margem das capacidades cognitivas consideradas “normais” na sociedade, por isso, suas ações tem que ser vistas de outro modo se comparado a alguém dito “normal”.
4) Daí surgem outras dúvidas:
5) este conceito da problematização do termo “agressor” achei muito interessante. Como não conhecia (tenho que ler para saber se concordo tb) , talvez seja o ponto que esteja me faltando.
6) Se o cara não fosse deficiente, mas negro, e tivesse feito a mesma coisa e a marcha tb. Seria racismo neste caso?
6) Se um homem negro e um branco fizessem os mesmos gestos e dissessem as mesmas palavras “vadia, putas , ou me chupa” etc na marcha ,como reagimos? De maneira igual ou diferente? (reitero que considero legítimo o agir desigualmente para pessoas desiguais em vários casos)Mas, se concordarmos que temos que reagir diferente, como isso ocorre?e se a marcha hipoteticamente fosse toda de negras, elas poderiam ou não esculachar o cara (se não fosse deficiente, claro)?
7) Para mim, tb é óbvio que a marcha teria esculachado se fosse um branco tb. Mas, tendo a pensar que são coisas incomparáveis (falsa simetria) , porque aprendemos que não se pode comparar coisas “desiguais”. Mas qndo a falsa simetria (negro/branco) envolve outra opressão (gênero), como fica?

Talvez até minhas perguntas estejam feitas de modo equivocado, por justamente ser eu branca e não entender muito do assunto. Há a possibilidade eu acho..
Pra finalizar, concordo totalmente que as pautas das marchas são branco-normativas, estou super de acordo com isso! E quero parabenizar o debate! Temos que aprender, debater, discutir, discordar e repensar novas propostas, sem medo! União forte só se faz com debate!
p.s. eu não tenho medo de moradores de rua no geral, para mim, eles estão tão fragilizados que são os que menos irão me atacar, pelo menos em minha experiência. E , recentemente vi uma matéria que, contrariando o senso comum, mostra que a maioria deles não bebe nem se droga! Olha aí o preconceito nosso!
Bjos a todas!

Monica disse...

É sintomático mulheres feministas brancas e negras ficarem uma apontando o dedo pra outra na defesa de um homem agressor.

Enquanto isso, homens brancos e negros continuam oprimindo mulheres brancas e negras e não estão nem aí pros discursos de vocês.

Eles só querem é continuar oprimindo mulheres.

O que me parece é que algumas feministas negras têm incômodos anteriores com a Marcha do DF por uma série de acontecimentos, e aproveitaram essa situação para projetar suas frustrações nesse episódio.

Do alto do meu privilégio de parda (rysos), o que torna esse agressor mais vulnerável é o fato dele ser deficiente físico, (possível) morador de rua e (possível) portador de distúrbios mentais/ou usuário de drogas.
Ele ser negro vem em último lugar.

Ou alguém aqui aqui discorda disso?

Não é ranking de opressão, só estou tentando analisar a situação mais objetivamente.

Monica disse...

Continuando meu comentário anterior:

apesar do fato de ser negro ser o menor dos problemas desse moço (e vou desenhar pra não ser má interpretada: ser negro não é o problema, mas sofrer racismo e opressão por conta disso), as feministas negras focam muitíssimo mais no fato dele ser negro do que no fato dele ser deficiente, por exemplo. Por que será?

Não tem nenhuma pessoa com deficiência pra reclamar disso não? Pois deviam.

Se as feministas "brancas" tem que levar em conta a opressão que um opressor sofre antes de reagirem, a lógica deve valer pra todos, né?

No final todo mundo quer é puxar a sardinha pro seu lado.

Julia disse...

A Mônica Vieira e a Janaina disseram tudo o que eu penso sobre o assunto.

" apesar de todas as opressoes, ele se sentiu tao empoderado a ponto de pegar no pau e fazer gestos obscenos pra um grupo grande de mulheres"

"Vocês não estão contribuindo com nada, só ajudando os inimigos (machistas, misóginos e os que acham que mulher tem que aguentar tudo caladinha mesmo!)"


Eu não acreditei quando vi esse assunto vir à tona com tanto estardalhaço, principalmente com feministas se colocando contra a marcha por causa disso. Que cômico! Feministas contra a marcha porque um homem que estava mostrando o pau dele foi escrachado...


Rebecca souza disse...

EU sou filha de um negro casada com uma branca, sou minoria étnica, e penso que se realmente aconteceu dele tentar agredir uma manifestante da marcha, não vejo aonde está o racismo nesta questão. sabe me espanta agora pensar nesta definição de feminismo negro e feminismo branco,até pq aonde moro (Belém do Pará)é difícil vc ver pessoas totalmente brancas ou totalmente negras na marcha das vadias, o mais fácil ´´e vc ver pardos(que acho um termo detestável).Quando li o texto das meninas do coletivo negro,fiquei meio em duvida sobre esta afirmação que ``elas lutam pelo direito de ser vadia e,nós pelo direito de ser medicas,advogadas,etc`´.Pois para mim,a marcha sempre lutou por este direito,mas,sempre deixando claro que não importa como a mulher se veste,o direito é dela de ser o que quiser.Acho que esta questão de racismo é meio complicada,meu pai é muçulmano,por causa disso vou acha que critica ao machismo do Islã é islamofobia? minha mãe é de etnia cigana romena,acreditem,existe muito machismo na comunidade cigana,e só por isso se eu ver um cigano agredindo verbalmente uma mulher vou ficar achando que é racismo se alguém reagir?Ano passado ,me lembro que um rapaz branco foi expulso da mesma forma,o caso não é a cor é a agressão,gente!

Valentina disse...

Gente do céu, beleza, a todos que criticam a ação da Marcha, qual seria o certo então já que houve exagero? Chamar o moço que ofendeu as manifestantes a se juntar a Marcha? Dizer a ele: -Moço, sabemos que você é negro - e provavelmente sofre por isso, por que realmente temos uma porra de uma sociedade racista (e que vela esse racismo)- você é morador de rua, deficiente físico (por que isso dá pra ver), dizem que mental, está aí sem fazer nada nos ofendendo e querendo mostrar o pinto pra nós, mas como não podemos fazer nada a respito por que se não todos vão dizer que é racismo e como você já sofre tanto (e isso dá livre árbitrio pra que você agrida outras pessoas), vem pra marcha com a gente!
Ta bom assim? Ou vocês tem uma sugestão melhor? Falem então qual seria a conduta "certa". Preguiçaaaaaaaaaa que dá viu.

F. disse...

"E eu não ficaria surpreso se descobrisse que ser chamado de "macacx" tbm não é a parte mais violenta do racismo pra quem sofre com ele diariamente."

Não, não é mesmo. Parabéns pela lucidez.



Anônimo disse...

Li o post e li alguns comentários, vou ler os outros, mas, antes de mais nada sinto necessidade de pontuar uma coisa. À quem fica colocando que somos todas chamadas de vadias, é verdade. Brancas e negras. Mas calma lá por favor! Para as mulheres não brancas isso se duplifica sim. É claro que tenho conhecimento que em algum momento todas somos consideradas vadias, se dá, se não dá, se é legal, se não é, ou seja lá qual motivo um homem invente. A questão, que não está sendo considerada em alguns comentários a meu ver, é a hiperssexualização do nosso corpo. Mulheres em geral são sexualizadas normalmente como são mostrados nos meios de comunicação e tudo. Mulheres negras são hipersexualizadas, gente. Isso interfere na vida das mulheres negras de várias formas. Acho até que já foi descrito aqui, na minha corrida de olho. Mulher branca, vadia ou não, é pra casar. Tô nem ligando pra esse papo de casar, tô dizendo especificamente de algum homem, seja branco ou negro (pois os negros também absorvem essa idéia) de querer ou não ter uma relação estável com uma mulher. Mulheres negras são atravessadas por isso. A questão muito cara, relacionada ao "vadia" tá aí. Espero ter me feito compreender. Peço a sensibilidade de vocês nesse sentido. A vadiagem, a disponibilidade sexual, a hiperssexualização é ligada à etnia, à cor da mulher. Então pra além do conceito geral, moral sobre todas nós, tem essa outra moral em cima das mulheres negras. E isso não pode ser invisibilizado, por que é isso que galere tá fazendo ao dizer, mas "ah, todas nós em algum momento somos chamadas de vadias".
Abraços,
Ma.

ViniciusMendes disse...

Considerando que não existe mesmo máquina do tempo pra voltar e agir de outro jeito com o cara, acredito que essa nem seria a questão...

Mas tem algumas coisas que EU, que não sofro com racismo, tô sentindo falta:

- Queria que as pessoas passassem menos tempo tentando explicar pras feministas negras pq não foi racismo (afinal, quem são elas pra saber, né? :P) e mais tempo tempo tentando entender pq elas sentem e acreditam que foi.

- E queria que parassem de repetir essa merda de "Enquanto você se preocupa com isso o machismo continua oprimindo todas nós" como se o racismo não oprimisse, como se o racismo não matasse (e muito), como se o racismo não dificultasse a vida dessas mulheres em diversos aspectos que vocês nem conhecem, como se elas tivessem que hierarquizar a opressão que sofrem de acordo com a conveniência de vocês.

Eu to vendo muito esforço pra encerrar o assunto e pouco esforço pra entender o que ofendeu essas pessoas... E isso, pessoalmente, muito me preocupa.





Charô disse...

Lola, peço desculpa por fazer a generalização de que o debate seria assim ou assado. E agradeço seu convite para que eu me pronuncie.

A verdade é que tenho mais perguntas do que respostas nesse momento. A única coisa que sei é que estamos discutindo algo muito maior que aquele episódio.

Rosanna Andrade disse...

Vinius, vou falar exclusivamente por mim.

Sou mulher, feminista de carteirinha e branca. Estou a alguns dias tentando entender esse episódio, mesmo antes da publicação deste guest post.

Eu sofro diariamente com o machismo, e fico triste qdo vejo que para os homens ao meu redor isso n eh nada obvio. Que muitas vezes eles n compreendem.

Qdo tenho paciencia, explico. As vezes eles negam, chamam de exagero. Outras vezes entendem. Nao na primeira, mas na terceira explicação. Muitas vezes cansa, não tenho paciência.

Creio que é algo nessa linha que está acontecendo nesse episódio.

Eu realmente acredito na boa vontade da maior parte das comentaristas daqui. Qdo elas falam que n enxergam racismo, e sim um exagero da marcha frente a condiçáo de deficiente mental/usuário de drogas. Não entendo essas falas como uma negação do racismo, mas de um não entendimento real. Eu mesma ainda não enxerguei o racismo no episódio, embora acredite que ele tenha ocorrido, devido ao grande número de reclamações das feministas negras. Mas tbm não vou falar "olha, foi racismo pq ele era negro", pq isso eh cair numa problematização rasa do problema. Eu realmente preciso entender antes.

li vários textos de sites de feminismo negro, e todos condenavam a atitude da marcha. Mas nenhum deles explicava bem. Flavam que o racismo era um problema estrutural, e como as feministas brancas foram incapazes de identificar. De fato, continuo incapaz, e n eh por falta de vontade.

Nesses sites, o que aconteceu foi tão obviamente racista que dispensa maiores dissertações a respeito. Todos ali entendem isso. Não são lugares para desenhar racismo pra quem tem privilégio branco entender.

Mas bom, depois de tudo, eu preciso que alguém desenhe pra mim, pq eu QUERO entender.

Ninguém é obrigado, assim como eu n sou a explicar machismo pra homem. Mas ajuda qdo alguém se dispõe a isso. Talvez eu ainda n tenha lido AQUELE texto que me faça enxergar a coisa de forma diferente.

De forma geral, tenho enxergado esse debate muito cheio de farpas, dos dois lados. Mas ele eh importante, e pode ser um divisor de águas.

Tendo a achar que é melhor que as feministas negras tenham um movimento a parte, que fale de coisas que somente elas tem condições de falar sobre, e que o feminismo mais mainstream possa ser um aliado e ter ações em comum de vez em qdo. Cada vez mais acho a ramificação inevitável.

Abigail de Souza disse...

Demorei para me pronunciar a cerca do ocorrido, para ler,ver e refletir sobre os textos, videos e notas publicados sobre o assunto. Ja que todxs estão se apresentando pela cor da pele, vamos la: meus bisavós e a família do meu pai são de pessoas consideradas negras – mas nasci com uma pele mais clara e sou considerada branca. Meu irmão, que tem pele mais escura, todxs as vezes que esta com amigxs e passam por policiais – e ELE e somente ele e’ abordado.

A marcha da vadia e’ um mov. classista, no momento que surge de universidades de maioria branca – mas como levanta muitas questões – devemos ou não nos apropriarmos da Marcha e transforma-la de forma a incluir todxs?

Nossa sociedade e' racista – e e’ mto triste ver que o movimento feminista não aborda essas questões de forma satisfatória. Um mendigo ser quase linchado pela multidão – qualquer forma de linchamento e’ temerária - e a impressa encurrala-lo, foi pavoroso, se ele estava em surto, bêbado ou só com medo, a forma como foi conduzida a situação se revelou escrota e racista. A própria comissão de segurança deveria ter aberto caminho entre os fotógrafos e não deixar o coitado encurralado em situação vexatória e exposta. No mais, não nego o fato dele ser agressor ou ter apresentado perigo as manifestantes.

Ver essa dupla discriminação sobre esse homem foi de doer o coração, pois expôs de forma visceral o racismo classista de nossa sociedade.

Anônimo disse...

É a eterna guerra do "Hei! Eu sofro mais que você!".

Acho interessante que se menciona sempre a tendência de mulheres brancas de classe média a se identificarem mais com homens brancos de sua classe social do que com mulheres negras. Mas será que as mulheres negras também não têm mais facilidade para se identificar com homens negros, inclusive agressores, do que com mulheres brancas de classe média? Não há uma certa tendência a minimizar a violência contra a mulher quando esta é praticada por um homem negro?

Anônimo disse...

@Anon de 22:44
Com certeza.
É bem mais fácil ver o defeito do outro q nosso próprio racismo.

Julia disse...

Abgail de Souza, ele não foi agredido muito menos linchado pelo que eu vi no vídeo.. no meu entendimento o escracho serve justamente para expor a pessoa a uma situação vexatória.

Não é nisso que consiste o escracho?

Anônimo disse...

"É uma construção social esse mito do homem negro hipersexual e violento, mas também é uma realidade para muitos homens negros (e brancos, claro). Quando um homem negro se comporta de acordo com seu estereótipo, devemos dizer tudo bem?"

Isso me deixou triste, Lola. Você basicamente fez o mesmo que se faz quando se questiona se uma mulher vítima de violência "mereceu" ou que "esse caso em particular não foi agressão de gênero".

Me entristeceu ainda ver que você se sente no direito de invalidar o racismo que alguém, que o conhece, diz ter sofrido.

Me entristeceu bastante e me decepcionou. Me preocupa muito a quantidade de gente aqui que não viu racismo no ocorrido.

Monica disse...

Anônimo 18:31, nem toda ação contra uma pessoa negra é racismo, assim como nem toda ação contra uma mulher é misoginia. Eu sei que pode ser meio difícil acreditar nisso, mas é a verdade. Esse homem já deve ter sido vítima de racismo muitas vezes na vida, assim como de outros preconceitos, mas não foi o caso nessa situação.

Poxa, esse homem hostilizou mulheres na marcha, gritou ofensas, tentou passar a mão em algumas e mostrou o pênis. Vocês não conseguem aceitar isso?

Sabe o que fica parecendo? Que qualquer pessoa não branca que se voltar contra uma pessoa negra pelo motivo que for está sendo racista e portanto, está errada e pronto. Nem se analisa a situação e as pessoas envolvidas... o que é isso, gente?

Esse tipo de pensamento não leva a lugar nenhum.

Eu fico espantada e entristecida com gente que está pensando como você.

Não vi racismo no ocorrido e continuo não vendo.

Monica disse...

O único argumento pra justificar que existiu racismo nessa expulsão da Marcha DF é porque o homem é negro.

Explico:

Eu acho que precisa mais do que isso pra dizer que alguém foi racista. Se a atitude não foi diferente com uma pessoa não negra fica difícil sustentar esse argumento. E não me entra na cabeça o contrário.

Sabe, assim fica muito complicado julgar as pessoas.

Uma vez eu estava num banco e um homem passou por mim e me deu boa tarde. Isso eu soube depois, na hora eu não ouvi e não respondi. Eu realmente estava com a cabeça na lua pensando no que eu tinha que fazer e não ouvi. Mas ele passou por mim de novo e disse "não fala com preto não é?". Essa eu ouvi porque ele falou mais alto.

Porra, fiquei me sentindo um lixo. Mas eu percebi que eu nem tinha o direito de me sentir mal, quantas vezes aquele homem foi ignorado? Eu fui atrás dele e falei "Moço, desculpa, eu não respondi porque não tinha escutado. Desculpa."

Mesmo assim, fiquei puta comigo mesma e com ele por ter falado comigo daquele jeito.

E me fez refletir sobre, e se fosse um cara não negro "exigindo" o meu bom dia? O que eu teria feito? Provavelmente meu comportamento teria sido totalmente diferente.

Sei que isso pode soar como mimimi de branca (o que eu não sou), mas paciência. É o exemplo que eu tenho pra ilustrar o que eu penso.

Eu não estou entrando na questão da da Marcha DF ter um histórico de pisadas na bola em relação à racismo, como algumas pessoas alegaram aqui, mas nesse caso específico, acho que os dois lados tem que analisar melhor a situação antes de tirar conclusões.

E mais uma coisa, aquele homem do vídeo usava muletas e não tinha uma perna. Sinceramente, na confusão toda acho que isso deveria pesar mais do que o fato dele ser negro, como eu já disse aqui.

É a minha opinião.


ViniciusMendes disse...

Rosanna Andrade

Tem horas que realmente é difícil entender onde tá a opressão se você é parte privilegiada... Nesse caso específico, acredito que a reclamação veio em relação ao tamanho da reação em proporção a provocação, e não ao fato de ter havido uma reação. O questionamento aqui não é "devemos deixar homens em situação de opressão fazer o que querem", o questionamento é "a reação teria tido a mesma intensidade se esse homem não fosse negro, mendigo e deficiente?"

Acredito que o racismo aqui não é daqueles de chamar o outro de macaco, é aquela coisa sutil de segurar a bolsa mais perto do corpo quando alguém negro vem na sua direção na rua ou de assumir que aquela mulher negra é a empregada da casa e não a esposa do seu amigo. Por isso que é "racismo estrutural", um racismo que faz parte da estrutura da nossa sociedade racista. Acho que um equivalente seria aquela discussão com vários homens e mulheres onde os homens não deixam as mulheres falarem... Eles não estão pensando "olha, é uma mulher, vamos falar por cima dela pq a opinião dela vale menos", eles simplesmente falam por cima por estarem socialmente condicionados a acreditar que a opinião delas vale menos, e é por isso que é muito difícil você conseguir explicar pra um homem que isso acontece, pq pra eles é uma reação automática e invisível.

Tem muitas comentaristas aqui que não enxergaram o racismo, dessas, tem algumas que nem querem tentar enxergar e um grupo menor (ainda bem) vomitando uma porrada de merda racista, mas parece que a dificuldade maior é entender que a mesma pessoa pode ser oprimida e opressora... Se um gay racista e um negro homofóbico caem na porrada por conta de seus preconceitos, quem é opressor e quem é oprimido? Os dois.

Anônimo disse...

Feministas coxinhas aos montes aqui.

Anônimo disse...

Independente do caso, me chateia o clima de "nada a ver, paranoia desses negros" por aqui.

O pior é que nem me espanta tanto.

Vivian disse...

Quando dizem que houve racismo no ocorrido é necessariamente por parte das manifestantes?? Se teve um fotógrafo (branco) que assediou as participantes e não houve tanta agressividade em cima dele isso se deve ao fato dele ser branco e ao fato de ser fotógrafo também, não? Os mesmos jornalistas e fotógrafos que ficaram em cima do agressor negro, ficariam em cima do agressor branco sendo ele um colega?
Quando a outra jornalista quis ouvir a "versão" dele foi só porque ele era branco? As manifestantes impediram, não foi?

Anônimo disse...

Muito "brancoexplicanismo" por aqui. Lamentável.

Anônimo disse...

Bom, sobre o vídeo. Identificar se houve racismo ou não no ato de escracho contra o rapaz pra mim é ainda uma questão que eu não sei responder. Mas o vídeo me incomodou deveras e é fato isso, pra mim parecia que não acabava nunca. Mas me divido, porque acho que não dava pras garotas aceitarem uma agressão, qualquer que fosse a condição em que esse homem estivesse.
Mas algo na discussão sobre o acontecido, o racismo no Brasil e sobre feministas brancas e negras tem me incomodado ainda mais. Segue o raciocínio:
1. Já há algum tempo, percebo que pessoas brancas, de luta, se incomodam quando são apontadas situações em que, ou elas estão sendo racistas, ou em que não percebem racismo, quando ele tá lá, presente, e começam um festival de negação e autodefesa. E, olhem, não estou falando do caso da expulsão da marcha, estou amplificando a questão.
O problema é que esta postura não ajuda em nada, só prejudica. Faz com que alguns lugares permaneçam ilesos e que discriminações continuem a se perpetuar.
2. Uma coisa que considero importante e já disse a amigxs é que elas são brancas e precisam se situar neste lugar, social e historicamente. Não de opressor, mas oriundo de um grupo que praticou/pratica essa opressão. Procurar se entender assim, e desmontar esses mecanismos é o que interessa pra mudar. Negar e invisibilizar as questões não vai ajudar. Você não está sendo racista, mas tampouco contribui para a mudança.
3. Sou super pró Marcha das Vadias, e não mudei de idéia. Mas a gente tem que aceitar a realidade que, em muitos locais, é um movimento majoritariamente de mulheres brancas sim. O país pode ser mestiço, mas é interessante ver como a composição populacional do Brasil MUDA DRASTICAMENTE na marcha. Falo inclusive da cidade de onde sou, BH.
4. Acho temerário dizer que, ah, as pautas de feministas negras e brancas são diferentes, o melhor é separar. Gosto da idéia de coletivos próprios desde que não vire regra. Pra mim, é cômodo pra mulheres brancas não terem de discutir a questão, tipo, ah, façam um coletivo de vocês que a gente não tá disposta a/não tem condições de aprender sobre isso.
5. Não gosto que falem como se as feministas negras nunca tivessem apontado os pontos a serem melhorados no que diz respeito à luta contra o racismo dentro do movimento feminista. A real, é que muita irmã já deve ter falado e tentado pautar o assunto várias vezes, e apareceu o negacionismo ou a idéia de que se deveria sempre lutar pelo ideal de todas as mulheres (brancas, leia-se), e, depois de tanto insistir, ter ficado com preguiça. Não é legal, mas é humano. Concordo com a P. mas também acho que devemos ter cuidado, porque ainda vira a metralhadora para as negras de novo, tipo, ah, mas vocês não se fazem entender, não explicam pra gente! Eu acho mesmo que é necessária a abertura do diálogo para que mulheres negras exponham suas pautas, os males visíveis e "invisíveis" do racismo que atinge xs negrxs. Mas ajudaria mais se as pessoas brancas tivessem mais empatia quando a gente explica.
6. No mais, acho que devemos seguir na luta unidas. Considero mesmo que negras e brancas precisamos ocntinuar mantendo o diálogo. Esclarecer sobre a questão do racismo no país, como está colocado, os mecanismos de invisibilidade da condição de negros e negras no Brasil, é fundamental. É necessária a paciência das companheiras de ambos os lados. E empatia e solidariedade também.

Adendo: Vinicius Mendes, que gracinha você é! Colocações sempre bastante sensatas.

Um abraço!

Ma.

Juli disse...

Ele foi agressor, tá serto (sic), mas o cara tem problemas mentais. Eu não vou lidar com uma pessoa normal como eu lido com alguém com problemas.
Segundo, a maioria das pessoas que comentaram dizendo que não houve nada e tem foto são pessoas brancas. Desculpe, mas realmente vcs não tem muito o que dizer e é, a regra é clara. Uma mulher branca vai me dizer que preconceitos eu, uma mulher negra, sofro ou não? Me poupe

Anônimo disse...

A pessoa que considera este ato racismo, é racista e não sabe. Primeiro porque, acima de todos os fatos, elas explicitam a cor do indivíduo. Segundo, se formos esquecer a cor por um pequeno momento de reflexão, vamos perceber que nada teve a ver com cor, mas com a atitude do sem-teto (isso se não fossem falar que foi preconceito por ele ser sem-teto). No vídeo, ninguém grita "sai preto", "macaco", e outros nomes e expressões infames relacionadas à cor dele). Resumindo: de onde essas pessoas tiraram a ideia de ser racismo? Pff!

Ferdi disse...

Pra mim a grande questão é que pode ser considerado opressora uma pessoa que não sabe nem o que está acontecendo?
Ele não estava só alterado, tinha clara deficiência mental.
É claro que ele foi agressivo, mas em resposta a um deficiente mental, ser agressiva de volta? Não curti.