segunda-feira, 27 de julho de 2009

ALUNOS, ESSES SERES INEXPERIENTES

Agora estou cursando uma matéria do curso de Letras a distância com uma turma que nem sei direito de que é. Acho que é Logística, algo assim. E a disciplina é uma que fiquei devendo ao pular três semestres, a de Metodologia do Trabalho Acadêmico. Que é um porre inominável, e totalmente inútil, porque cada instituição que você for vai ter sua própria metodologia, e você terá que fazer o curso de novo. Lembrando sem pensar muito, eu fiz essa matéria na faculdade de propaganda, na especialização em inglês, na graduação em pedagogia, no mestrado na UFSC, e agora aqui. Pelo menos a disciplina do mestrado foi hiper útil, porque valeu por seis anos, e também porque foi dada por um excelente professor, o meu orientador. No final a minha turminha acabou gostando tanto das aulas que até lhe deu um cartão agradecendo pelo “Academic Writing in Performance”, que era um chiste entre o nome da matéria (porque era em inglês, e segue a metodologia MLA, Modern Language Association), e a área de expertise dele, que é Shakespeare in Performance (ou seja, não o Shakespeare do texto escrito, mas o dos palcos).
Nessa turma de Logística, pra piorar, acho que peguei uma turma nova, recém-iniciada, o que explica o enorme número de alunos (uns 50, pelo que contei por cima), e o comprometimento do professor em cumprir o horário (digamos que foi a primeira vez naquela faculdade que uma aula presencial realmente dura mais de três horas). E o silêncio sepulcral da classe. Só o professor fala, mas pelo menos ele fala. Melhor que outras aulas que já acompanhei, em que alguém só lê as respostas aos exercícios da apostila. Um defeito desse professor, que é muito comum - e que, as God is my witness, eu espero não repetir quando (se?) der aula no ensino superior -, é tratar o aluno como tábula rasa. Quer dizer, o aluno não teve nada parecido com uma vida pregressa antes de pisar na sala de aula. Deve ter hibernado esse tempo todo, esperando a chegada de um ser iluminado, o professor, para despertá-lo. Se a gente não deve adotar essa postura com crianças de seis anos, menos ainda com universitários, já que isso nunca é verdadeiro. Até porque posso apostar que naquela turma, onde há várias pessoas com mais de 40 anos, muitas já devem até ter uma faculdade (uma moça com quem conversei estava concluindo Oceanografia, e começando Logística). Mas o professor tratou todos como se ninguém tivesse lido um só livro na vida. Sério. Numa hora ele contou que estava lendo, e adorando, o Leite Derramado, do Chico (eu não gosto muito do Chico como escritor. Tentei ler Estorvo e achei chato. Faz tempo, talvez eu deva tentar de novo). Mas disse pra gente não começar nossa leitura por aí, porque era complicado. Eu realmente prefiro acreditar que todo mundo naquela sala já havia lido alguma coisa.
E nisso de incentivar os alunos a lerem, às vezes o professor exagera e amedronta. Tipo: ele contou que já escreveu vários artigos pra jornais locais, e pra internet, mas parou, porque isso toma tempo demais. Porque, pra escrever uma ou duas páginas, ele precisa ler cinco livros! Hello? Como que você vai citar cinco livros num textinho de uma página? Escrito pra jornal, ainda por cima, que nem é o espaço adequado pra linguagem acadêmica? Ele também pediu que os alunos lessem de 20 a 35 livros por ano. Podia descontar as apostilas do curso dessa conta (8 apostilas por ano). Sobravam doze livros pra ler no ano. Putz, eu não gosto dessas contas! Pouquíssimas vezes parei pra contar quantos livros li durante um período!
Teve uma hora que ele explicou o que era TCC (vou repetir, porque o maridão, longe das cadeiras escolares há seculos, não sabia o que era: Trabalho de Conclusão de Curso), monografia, dissertação e tese. Eu tenho problemas aqui, porque em inglês, em geral, pelo menos na UFSC, dissertation é pra doutorado, e thesis é pra mestrado. Segundo o professor, uma monografia deve ter cem páginas, uma dissertação de mestrado, entre 200 e 300, e uma tese de doutorado, o tamanho de um livro (ahn, tamanho de livro varia, né?). Na UFSC, ao menos na minha área de Inglês, a dissertação tem entre 50 e 100 páginas (a minha teve 115, mas uma amiga teve que cortar a dela ao ultrapassar a centésima página), e a tese, essa sim, entre 200 e 300. Mas o pior é que o professor disse que um doutorado leva entre um e quatro anos pra completar, e às vezes, seis e oito. Eu não quis falar nada no meio da aula, porque, pô, só vou estar lá durante quatro encontros, e ele vai continuar com aquela turma pelos próximos semestres. Mas, no intervalo, falei pra ele: “Professor, nunca ouvi falar de doutorado de um ano”. Ele respondeu: “É que não dá tempo, porque tem tanta coisa pra estudar. Na verdade, eu nunca nem ouvi falar de alguém que terminou um doutorado em quatro anos”. Aí eu não me contive e disse: “Eu terminei”. Ele, muito perplexo e confuso, quis saber: “Ahn? Como assim?”. Eu expliquei que, em geral, o doutorado deveria ser completado em 48 meses (4 anos), mas que na UFSC, ao menos na minha área, inventaram que o prazo seria de 44 meses! Eu levei 46. Ele fez algumas perguntas sobre a tese e tal. Simpático até, apesar do espanto.
Não sei se falei demais, provavelmente sim, mas, na minha concepção, são só umas pouquinhas aulas. E talvez, quem sabe, ele leve essa experiência em consideração na hora de concluir que seus alunos nunca leram um livro na vida.

17 comentários:

Cristine Martin disse...

... ou quem sabe ele leve essa experiência em consideração antes de tratar os alunos como recém-nascidos...

Não tenho muita paciência com esse tipo de aula, em que o professor 'pontifica' para os alunos, e não dá chance para diálogo e troca de ideias. Mas isso já vem lá do começo, desde a infância não se ensina a pensar por conta própria, a defender suas ideias,a argumentar. Chega na faculdade, e dá nisso mesmo.

Grande abraço, Lola, e força no concurso!

(ei, consegui comentar antes do asnalfa... êê!)

Juliana Bittencourt disse...

adorei o "eu terminei" =)

Teresa Silva disse...

Já topei com professores desse tipo que ficaram furiosos comigo por que eu falo, pergunto, questiono e até corrijo. Em suma, demonstro que não ignoro o assunto que falam e fiz o dever de casa.

Ana Paula disse...

Na USP, dissertação é de mestrado e tese de doutorado. Não existe mínimo e nem máximo número de páginas. Já vi dissertações e teses com 2 volumes gigantes. Principalmente as dos geólogos (geotecnia na USP-São Carlos é pra eng. civis e geólogos, normalmente). Eu levei 5 anos mas foi pq qdo vim pros EUA, conheci o meu maridão e fui ficando por aqui. Se tivesse voltado no prazo capaz de ter terminado em dia ou só com 6 meses de atraso.

Tb já conheci gente que levou 7-8 anos pra terminar o doutorado e gente que levou 4 pra terminar o mestrado (que normalmente se acaba em 2 anos).

paolasartoretto disse...

Ai eu me irrito tanto com professor que trata aluno como idiota. Quase todos os professores de sueco que eu tive eram assim. Não vejo nenhum benefício em ditar quantos livros as pessoas precisam ler. Principalmente porque quando se trata de literatura acadêmica é bem comum não precisar ler um livro inteiro, eu geralmente escolho aqueles capítulos que são mais relevantes para os meus interesses.

Mas não entendi que tu disse que cada universidade tem sua metodologia, eu sempre achei que método científico fosse algo universal, tanto que a cadeira de metodologia de pesquisa que eu fiz na Inglaterra foi bem parecida com a que eu fiz aqui na Suécia.

Ah, eu também fiz um curso de Inglês Acadêmico aqui e professora disse que geralmente se usa dissertation para mestrado e thesis para doutorado. Na Inglaterra, pelo menos na universidade onde eu estudei, o termo usado para mestrado era dissertation.

Também nunca conheci alguém que terminou doutorado em um ano, não consigo imaginar como isso seja possivel. Aqui na Suécia o normal é entre 4 e 5 anos, porque o doutorado inclui 20% de atividades administrativas (dar aula, organizar seminários, etc), mas tem gente que leva mais tempo.

Ah e sobre o tamanho dos trabalhos, eu tenho impressão que muita gente no Brasil pensa que quanto mais melhor. Eu lembro que la na idade da pedra lascada, quando eu estava na faculdade, eu via umas monogravias que pareciam um tijolo, mais de 100 paginas. Na universidade onde eu estudei em Londres a dissertação de mestrado poderia ter no máximo 15 mil palavras, o que dá umas 50 páginas.

Mas eu concordo contigo Lola que não vale a pena ficar discutindo, principalmente no meio da aula. Eu odeio, principalmente porque tem professor(a) que acha que alun@ nunca pode ter razão.

Ai, escrevi demais...
Beijos e boa sorte no concurso.

L. Archilla disse...

nessas horas, sou a favor da ironia. "perdão, mestre, por ter contestado tua sabedoria!"... "sim, senhor!" ... "amém!"... geralmente o professor é tão boçal q pensa q a gente tá falando sério!

Mônica disse...

Lola,
na UFMG, 'dissertação' é no mestrado, 'tese' no doutorado, e realmente nela a gente pode esperar textos mais longos e elaborados, já que tem que ser um trabalho original, né?

Mas tudo varia muito de curso pra curso, até de departamento pra departamento. Minha dissertação foi mais longa do que de muitos colegas, mas é porque envolvia vários eixos (escrita, língua, gêneros textuais e tecnologia)e muitos anexos (screenshots das páginas da internet, etc). Mas em termos de texto mesmo, foi bem objetiva.

Dou aula para vários médicos e na Medicina eles costumam ser mais concisos ainda, concentrando muito mais nos artigos científicos que devem sair do trabalho do que no blábláblá da tese em si. O que faz todo sentido pra mim!

Georgia Martins disse...

Sobre Chico Buarque: também tentei ler Estorvo e achei um saco. Mas depois repeti a tentativa com Budapeste e A-M-E-I. Vale a pena, tente!

Sobre o tutor do ensino a distância: tento me colocar no lugar dele, e putz, deve ser difícil. Sabe por que? Porque ao mesmo tempo em que ele deve tentar falar na língua que os alunos mais "experientes" entendem, tem muita gente que realmente não tem bagagem nenhuma. NENHUMA.
Na minha turma, na disciplina de Metodologia, muitas (muitas mesmo) mulheres não sabiam nem calcular a nota por peso. "Como eu posso tirar 10 na prova se ela vale 1?" Tutor: "O peso é 1..."
E a tutora teve, então, que explicar como funcionava o cálculo da nota por peso.
Isso para não comentar do número absurdo de alunas que ficaram surpresas/revoltadas quando ela disse que teríamos que ler uma apostila inteira por disciplina.
Muito grande!
Imagina se ela tivesse agido como o seu tutor, dizendo que deveríamos ler em média 12 livros por ano. Ai a casa caía...

L. Archilla disse...

ah, só li Budapeste e Fazenda Modelo do Chico, gostei muito dos dois! Mas ouvi falar muito mal de todos os outros (menos Leite Derramado, q ainda não conheço ninguém q tenha lido).

Andréia Freire disse...

Esse papo de leia x livros por ano é tão furado. Como se quantidade fosse sinônimo de qualidade (posso ler doze livros bobos de auto-ajuda, hahaha) e como se livros não variassem em média, sei lá, de 100 a 800 páginas. Posso ler 8 livros de 100 páginas ou um de 800.

Caricaturas Urbanoides disse...

Que pessoa é essa? Mas já encontrei vários pelo caminho

Amanda disse...

Meu namorado aqui na França recebeu uma proposta de bolsa de doutorado. So que o problema é que ele teria que fazer tudo no tempo minimo, ou seja 3 anos. Dai acho que ele vai recusar a bolsa, arranjar um emprego e fazer o doutorado em 4 anos ou 5, se precisar.

Túlio disse...

Não sei se isso é coisa de faculdade particular, mas meus professores também acham que seus alunos hibernaram a vida toda, até que conseguiram entrar na faculdade e vão ser salvos por eles (tudo bem que tem uns cinco que eu tenho minhas dúvidas, mas, enfim). Outra falha de professor que me irrita bastante é que alguns não acham apenas que não temos conhecimento nenhuma, mas que somos realmente burros... ensinam coisas fáceis como se fossem de outro mundo, como se nós tivéssemos que fazer um esforço descomunal pra entender. Tipo, pq?

E eu concordo com vc, Metodologia do Trabalho Acadêmico é de inutilidade indescritível. Além de ser a coisa mais chata ever.
Olha que loucura: há uns quatro anos eu comecei a fazer uma faculdade que acabei largando, pois odiava o curso. Tive Metodologia do Trabalho Acadêmico no primeiro ano, neste curso. Há três anos comecei a fazer Direito numa outra faculdade e só no segundo ano tive essa matéria, mas com a mesma professora da primeira faculdade. O engraçado é que as regras (a matéria em geral) são totalmente diferentes. Ou seja: não adiantou nada eu ter estudado pro primeiro curso, foi tempo perdido.

Deveriam dar um jeito dessa matéria ficar igual pra todos os cursos e faculdades.

Bárbara Araújo Machado. disse...

Um comentário bem bobo sobre um post brilhante, já que o pessoal já falou bastante coisa interessante: eu também não acho que o Chico é nada demais como escritor, aliás ele só deve conseguir algum sucesso mesmo porque é quem é. Mas o Estorvo é o piorzinho dos que li dele; tente Budapeste! É legal.

Mel Savi disse...

Nossa, vários absurdos em uma só aula! hehe

Vitor Ferreira disse...

Lola, vc deveria estar grata... ele só tá "espalhando a sementinha do saber" dele. E o meu pai também terminou o doutorado em 4 anos...

ademir ferraz disse...

Bem, não sei de quando foi o texto. Porém, o que existe é um tempo mínimo e máximo definido pela CAPEs. Mestrado ou doutorado de 4 anos? Isso era no meu tempo. Hoje o aluno leva 2 anos e meio no mestrado e 3 anos e meio no doutorado. Claro que em ambos os casos existe a intervenção do Orientador que pode solicitar mais seis meses.