segunda-feira, 10 de março de 2008

CRÍTICA: 10000 AC / Na pré-história, todo mundo já era mais avançado do que quem falava inglês

Acho que você não precisar ler uma crítica pra saber que “10,000 A.C.” é uma piada. Basta ver algumas fotos. Mas, já que insiste, a aventura é tão ruim que garante boas risadas. Vá ao cinema de bom humor. E nem em cinquenta luas espere veracidade histórica. O fime começa exibindo o amor puro e romântico (há doze milênios que os machos da nossa espécie já eram esses cavalheiros finos de hoje que nos dão flores e bombons) entre Omelete e DJ. Tá, talvez os nomes sejam um pouquinho diferentes, mas foi o que fisguei. Melhor que Tic-tic e Bacu, que realmente constam no filme. Na terceira vez que alguém berra “Bacu! Bacu!” já não dá mais pra segurar o riso. Bom, Omelete não apenas é a única mulher jovem da pré-história, como também a única alma de olhos azuis. Ela é considerada uma enviada dos deuses, o que quiçá explique por que ela fica com a boca aberta o filme inteiro.

Essa tribo querida e pacífica vive de caçar mamutes, os antepassados dos elefantes, só que maiores, mais peludos, e gerados por computador. Os homens surgem com suas lanças e os mamutes fogem, o que eu não entendo. Se eu fosse um mamute (como assim, se? Sem gracinhas, por favor) e eu estivesse com meus amigos mamutinhos e aparecessem humanos em número e tamanho infinitamente inferior a nós mamutões, acho que eu não sairia correndo. Talvez os encarasse como insetos (que picam, porque têm lanças), e tentaria pisar neles. Opa, minha analogia tava indo bem até eu lembrar o que faço ao ver uma barata. Mas guarde esse nome: mamute. Ainda tenho outras dúvidas a respeito deles.

Na tribo caçadora de mamutes, todos falam inglês (alguns com sotaque, o que é estranho). Até aí nada de mais, porque todo mundo sabe que inglês é uma língua antiga mesmo. Shakespeare já a falava! O filme é como se fosse uma aula de história, versão da direita cristã. Por exemplo, homo sapiens e dinossauros convivem tranquilamente. Ok, não tranquilamente, um quer comer o outro, e talvez sejam mais aves gigantes e dentuças do que répteis, mas convivem. Nos EUA há vários museus criacionistas, dispostos a contrariar as mentiras dos malditos evolucionistas. Enquanto os evolucionistas têm teorias, os criacionistas têm certezas. Há alguns probleminhas: de acordo com a bíblia, os humanos só foram criados há 5 milênios, e parece que uns répteis grandões viveram há uns 50 milhões de anos – como resolver esse conflito? Fácil: os criacionistas inventaram que humanos e dinossauros são contemporâneos. Sério. Foram vizinhos, você não sabia? Os museus criacionistas expõem tiranossauros rex – com pessoas usando-os como cavalos. A direita cristã vê os Flintstones como se fosse um documentário. Só não vai adotar “10,000 A.C.” pros seus cursos de História porque esses humanos, apesar de falarem inglês, crêem em muitos deuses. E Adão e Eva são nomes mais bonitos que Omelete e DJ.

Na aventura aprendemos que o mundo pré-histórico era composto de duas línguas. Tem o inglês, que é a língua falada pelos nossos heróis menos escuros, e uma língua estranha, usada por todas as tribos menos a dos nossos heróis. Quem diria que esperanto já existia naquela época? Mas a parte legal é que o pai do DJ aparece sozinho pra uma outra tribo e diz pra eles “Vocês têm que aprender a minha língua”. (Comentário do maridão: “Então foi assim que tudo começou?!”). Só um carinha da outra tribo aprende inglês, e consegue a vaga de tradutor-intérprete da humanidade. Ele é o único sujeito bilíngue. Porque nem pensar que americano vai aprender outra língua. Infelizmente, falar inglês não é sinônimo de vantagem evolutiva. Os outros povos estão a anos luz dos nossos heróis.

Nossos heróis cruzam o planeta pra resgatar Omelete, que foi levada por homens maus que andam a cavalo. Nessa jornada a edição fica um tanto bizarra, porque eles estão no que aparenta ser o Alasca, ou Detroit anteontem, e de repente dão um passinho e encontram uma floresta, verde e tropical. Depois chega um deserto. Ou o protagonista cai num buraquinho, e de repente vemos que a vala tá cheia de estacas e é maior que o meu apartamento. Tem um tigre lá. O carinha ajuda o tigre, não sem antes dizer: “Ó, vou te salvar, mas não vai me comer, tá bom?”. E o tigre vai embora. Quando ele topa com o tigre de novo, diz: “You must remember me” (Você tem que se lembrar de mim). E o tigre, que também viu “Casablanca” e entendeu a citação, vai embora. Parece que tô de gozação, mas essa eu achei a única parte crível do filme. Tenho certeza que, se eu salvasse um felino, ele mostraria sua gratidão. Porque os felinos são gatos, entende? Gatos, gratos... Tá, essa foi fraquinha.

Outro corte esquisito é quando dois caras rendem um soldado. Um carinha vai andando ao lado dele, e o soldado nem tchun. Aí o outro ataca. Opa, você deve estar pensando, você falou soldado? Mas a gente não tá na pré-história?! Pois é. Acontece que os americanos são o povo mais atrasado do mundo. Enquanto eles só usam pele de mamute, lá nos jardins suspensos da Babilônia (é o que parece; tem até piscina) a moda fashion chegou com tudo, com muitos tecidos de inúmeras cores. Até arranjam um vestido azul pra única moça da História. Parece outra dimensão, a máquina do tempo. Lá a tribo maldosa, com nariz comprido, como o dos árabes, tem metal, barcos, até algemas. E mamutes domesticados que ajudam a construir as pirâmides. Pirâmides? É, elas já existiam 10,000 antes de Cristo. Olha, pirâmide eu até aceito. O que eu queria entender é como eles cortavam as presas dos mamutes. A julgar pelas lanças, o pessoal não parece ter facas tão afiadas, tipo Ginzo. E as presas dão a pinta de terem sido cortadas com serra elétrica. Mas independente do método, como é que eles cortavam as presas dos mamutes vivos?! O maridão tentou responder: “Quando os mamutes tavam dormindo, claro”. Não me convenceu.

Outras coisas que gostei, só pra você saber:

- O filme tenta sujar um pouquinho o rosto do pessoal, pra ficar a impressão que eles não tomam banho todo dia. Mas é só eles abrirem a boca que a gente vê aquele sorriso colgate. Meus dentes não são lindos e brilhantes daquele jeito, e olha que eu uso escova de dente, pasta e fio dental todo dia, e vou ao dentista quando não posso mais aguentar de dor. Mas provavelmente nossos irmãos pré-históricos usavam, sei lá, pêlo de mamute pra limpar os dentes. Pena que os mamutinhos foram extintos, ou a gente não precisaria de dentista hoje.

- Adorei a cena do sacrifício, em que um sujeito diz: “Senhor, precisamos de um sacríficio pra apaziguar os deuses”, e outro responde: “Tá bom, aquele ali!”. Pegam um escravo e o jogam do alto de uma pirâmide. Eu pensei que todo sacrifício envolvesse um ritual. Mais uma lição que o filme me ensina.

- Há uma narração do Omar Shariff pra dar um tom épico, como se dissesse: “Olha só, nesse filme há tanta veracidade histórica que incluímos até a voz de Deus”. Mas existem discrepâncias entre a narração e as imagens. Minha preferida é quando a voz diz que a Velha Mãe saudou e abençoou os bravos homens antes de partirem – e a gente vê ela cuspindo em cada um, ptui, ptui.


Havia vezes que eu ficava me lembrando da Raquel Welch em “Um Milhão de Anos A.C.”. Noutras eu imaginava uma disputa entre o DJ e o Ronaldinho de “Apocalypto”. Mas é como diz o filme: “Só o tempo pode nos dizer o que é verdade e o que é lenda”. Realmente, só o tempo. Em Hollywood não se pode confiar.

Conversa entre dois animais: "Você também usa pêlo de mamute pra deixar seus dentes tão brancos?"

13 comentários:

Leo disse...

Eu não pretendia ver o filme, mas você me convenceu que pode ser algo bem divertido! hehe estilo Mel Brooks! hahaha
Adorei o novo sistema de busca dos textos.
Entrei no blog do Meirelles que o Pedro mandou. Sei que vocÊ disse que não vai querer ler antes de ver o filme, mas o blog é mesmo muito interessante! Estou curiosíssimo pra ver o filme e vou começar por ler o livro.
bjs

Suzana Elvas disse...

hahahahahahahahahaha!

"Quando ele topa com o tigre de novo, diz: “You must remember me” (Você tem que se lembrar de mim). E o tigre, que também viu “Casablanca” e entendeu a citação, vai embora."

Eu comecei a cantar a música! - e não vou poder assistir ao filme no cinema. Vou ficar lembrando do seu post.
Já estreou aqui. Carácoles, que bomba!

lola aronovich disse...

Bom, Su, na realidade "As Time Goes By" diz "you must remember THIS", mas quando a gente ve o tigre e o DJ quase se beijando, e o DJ diz "you must remember me", so da pra pensar em Casablanca.
Infelizmente, Leo, este deve ser o maior defeito do filme: ele se leva a serio! Ha pouquissimas cenas feitas pra rir. Por exemplo, o Bacu foge de uma galinha gigante e cai em cima de um tronco, de pernas abertas, e diz "Ai". So a ultima parte eh pra fazer rir. O cara se chamar Bacu, a existencia de uma galinha gigante... Tudo isso eh pra gente levar a serio!
Quero ler Blindness tb, mas ver o blog antes de ver o filme, sei nao!

Andie disse...

hahahaha Nao tinha ideia que o filme era tao ridiculo! Eu soh lembro que quando vi o trailer, comentei com o James que essa historia de amor incondicional na pre-historia eh dificil de engolir -- no que entramos numa longa discussao sobre o "amor: criacao social ou sentimento natural/biologico"? Pelo menos rendeu um papo bom.. :)

Masegui disse...

Que maravilha é a tecnologia! Sou apaixonado por Xadrez e adoro ler os blogs sobre o assunto. O site do Clube de Xadrez me levou ao blog do Krikor. Um comentário me levou ao do Sílvio que "tomaticamente" me trouxe aqui!
Tem horas que estou lendo seus escritos e me divertindo à beça! Parabéns, você é ótima. Vou voltar sempre.
Ps.: Diz pro maridão contar as histórias dos torneios que jogar e botar as partidas pra gente ver!
Inté
Mário Sérgio

O Fantasma de Chet Baker disse...

Oi Lola,
amei seu blog! Tb morei nos EUA por algum tempo. Hoje, vivo em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Se der, mas só se der, dá um pulinho no meu blog, tá?
mil luas pra vc!

lola aronovich disse...

É verdade, Andie. A gente às vezes pensa que o amor romântico existe desde o começo dos tempos. Nem pára pra pensar. E aí vem um filme desses que, entre outras coisas, afirma que o amor romântico já existia na pré-história!
Que bom que vc veio parar aqui, Mario Sergio! Apareça sempre. Vou falar pro maridão colocar as partidas no blog dele, mas ele é uma preguiça só pra escrever...
Oi, Fantasma! Vou dar uma olhada no seu blog. Onde vc morou nos EUA? E fazendo o que lá?

Alex disse...

Omelete e DJ? Isso é realmente o nome dos personagens? Eu já tinha visto o trailer e tinha achado fraco. Mas, pera aí, galinha gigante? Credo.

lola aronovich disse...

O nome dos personagens foi um pouco de licenca poetica minha. Acho que no filme eh Avelet e Delay. Mas reconheca que esses nomes sao irmaos gemeos do Omelete e DJ!

Anônimo disse...

nao gostei eu queria saber a verdade

Anônimo disse...

Este filme eh o melhor...
Valeu a pena assisti-lo!!!
\o/

Dee Leme disse...

Para entender o filme tem que conhecer o mínimo de Teoria da Conspiração OK ? Quando assisti a primeira vez e vi as pirâmides achei muito bizarro e sem sentido ( nada que fizesse o filme ruim, apenas achei fantasioso demais.. ) Hoje se vc pesquisar vc vai ver que existe uma coisa chamada arqueologia proibida e que pesquisadores arqueólogos sérios dizem que as pirâmides e a esfinge podem ser muito mais antigas do que o período dos egípcios ( e vc só vai acreditar nessa teoria depois de compreender quem criou o homem, o que é Nova Ordem Mundial e as diversas coisas interligadas ) O filme é interessantíssimo uma vez que Hollywood sempre foi responsável de jogar verdades na nossa cara como ficção científica.. Verdade ou não vale a aventura e os personagens estão todos lá: Anunnaki, Seres superiores vindos do céu se passando por Deuses, interligação entre culturas, pirâmides comum triângulo de ouro maciço no topo ( antes de assistir esse filme eu não sabia que já teve aquele negócio de ouro lá ) entre muitas coisas.. Pesquise e vai descobrir que o que contaram na escola para vc é mentira para ocultarem a verdade.

henrique fernando disse...

Amei o filme. O elenco é composto por 95% de negros. O que mostra um grande avanço na mente cinematográfica. Depois que a tribo do casal principal voltaram para sua tribo, os mais negros ficaram naquela região do Egito. No fim do filme imaginei aquela população negra dando continuidade à construção das pirâmides. Muito bom.