quarta-feira, 29 de novembro de 2006

CRÍTICA: APOCALYPTO / Corra Ronaldinho corra

Antes de mais nada, gostaria de esclarecer que não sou de condenar o Mel Gibson pelas épicas pisadas de bola que dá na vida real (comentários anti-semitas e homofóbicos, dirigir bêbado). Pra mim o que importa é que ele continua um pedaço de mau caminho. Agora, quem explicar por que o último filme dele se chama “Apocalypto” ganha um picolypto. A aventura é violenta, mas nada comparado à carnificina de “Paixão de Cristo”. A visão política do Mel certamente não é a minha, e em “Apocalypto” ela é bem turva, porque denota que os europeus não destruíram a civilização maia. Ao contrário, a chegada deles às Américas praticamente salva o nosso herói, um selvagem que é a cara do Ronaldinho Gaúcho. A civilização já parece estar em ruínas antes dos colonizadores desembarcarem. Segundo o Mel, aqueles malas dos maias mereceram a invasão européia! Mas eu estaria sendo injusta se dissesse que “Apocalypto” é ruim, ou mesmo que se preocupa tanto com mensagens políticas. É apenas um filme de ação.

Começa com um longo prólogo estabelecendo os carinhas da aldeia como ótimos selvagens, que adoram umas piadinhas bem masculinas. Sabe como é, um sujeito é o centro das gozações porque tá casado faz um tempão (dois meses?) e ainda não engravidou a mulher. E essa é a única função de um homem, gerar uma prole numerosa, caçar, portar piercings medonhos no queixo e no nariz, e ouvir velhinhos contando lendas antigas em volta de uma fogueira. Ou seja, uma existência idílica. Mas como o pobre sujeito é infértil, tem que agüentar chistes dos colegas, comer testículo de anta, passar plantinha vermelha nas partes pudicas, e rir da própria desgraça. É o tipo de humor que claramente apela ao Mel. Lembra dele como escocês abaixando as calças pro exército inglês em “Bumbum Valente”, quero dizer, “Coração Valente”? “Apocalypto” enfoca Ronaldinho, sua mulher grávida e seu filhinho homem, todos tão bonzinhos que o garoto, ao brincar com seu macaco, nem o tortura. O macaquinho tá lá, feliz da vida em estar amarrado.

Todos conversam bem devagarinho, como quem decorou os diálogos foneticamente. Mas beleza mesmo é quando um deles arrasta suas falas pra frente de um fundo amarelo e branco. A gente só ouve “Ca ra cra ca toa”, enquanto as legendas brancas se misturam ao fundo. É um momento poético. Felizmente tudo que eles falam é previsível. Não tô reclamando: é bárbaro que os nativos não falem inglês! Aliás, essa é a única audácia do filme inteiro. Se bem que, se todos falam num dialeto maia quase extinto, quem prova que eles realmente estão falando nessa língua? Pode ser a língua do P que ninguém vai saber. De qualquer modo, nosso herói Ronaldinho na realidade tem um codinome, “Jaguar Paw”, que as legendas não quiseram traduzir para “Pata de Jaguar”. E a trilha sonora num momento começa a suspirar: “Pá, pá, pá”. Tudo lindo, até que a aldeia é invadida por sanguinários guerreiros maias.

A vida fácil de Ronaldinho acaba quando ele é capturado. Sua mulher e filho chegam ao fundo do poço, literalmente, e ouvi gente na platéia reclamando dos cortes. Tem toda uma aldeia dizimada, e a edição decide se concentrar na saga de Ronaldinho e sua família. Ele é levado pra uma cidade grande horrível, cheia de miséria e doença, onde ninguém nem menciona a maior invenção maia, o chocolate. Na hora de sua decapitação, Ronaldinho é salvo por um eclipse solar. Várias lanças atingem seu corpo, mas ele as tira uma por uma. Ele se esconde numa árvore só pra dar de cara com uma magnífica onça, idêntica à minha gata preta Blanche, só que em escala maior. Nessa ocasião sussurrei pro maridão: “Só queria te dizer que eu sempre torço pro puma. Se tivesse você e um puma, eu faria coro de ‘Vai Puma!’”.

O humor não-intencional de “Apocalypto” torna-se muito forte quando Ronaldinho é visto correndo, em câmera lenta, com a onça atrás, e os guerreiros ao lado. Essa cena é mais divertida que qualquer coisa na segunda metade de “Borat”. Os risos não param por aí. Ronaldinho se depara com uma catarata do tamanho das do Iguaçu, e decide pular, porque filme de ação não é filme de ação se não mostrar gente pulando de um abismo. Lembrei de “Butch Cassidy”, um falando que não sabe nadar, e o outro retrucando, “Não se preocupe: a queda vai te matar antes de você chegar à água!”. Mas Ronaldinho pula, sobrevive, lógico, e passa a gritar pros inimigos que ficaram lá em cima: “Meu nome é Pata de Jaguar e esta é minha floresta! Meu pai caçava aqui, eu caço aqui e meu filho caçará aqui. Eu sou Pata de Jaguar e não tenho medo de vocês!”. Faltou mostrar o bumbum, mas como os índios andam menos vestidos que os escoceses, talvez não tivesse o mesmo efeito. Só se de repente ele mostrasse o picolypto. Os guerreiros lá de cima optam por pular também. E Ronaldinho espera sentadinho, pasmo, vendo um a um se jogar. Em seguida ele afunda em areia movediça, mas consegue se safar e segue correndo na direção da aldeia, com os guerreiros ensandecidos atrás. Corta pra mulher e filhinho no poço. Olha a edição: Ronaldinho em disparada em direção à mulher no poço, tentando sair, enquanto o filhinho, esperto, fala pra ela: “Vai você primeiro”. Tudo em câmera lenta! (Admito que depois do filme passei a ver a ação do dia a dia em câmera lenta. Tipo assim: eu me jogando pra dentro do carro, fechando a porta, enquanto um outro carro passa zunindo. Ou eu e o maridão empunhando o carrinho de supermercado, enquanto uma criança vem com um carrinho na nossa direção, e conseguimos nos desviar da trombada no último segundo).

E depois Ronaldinho reclama dos zagueiros...

P.S.: A maquiagem é excelente, e mereceu ser indicada ao Oscar. Fiquei pensando se esse pessoal todo realmente tem osso nas narinas, ou se precisou aturar esses piercings pra aparecer numa produção hollywoodiana. Tem ator até com a bunda maquiada.

Um comentário:

Paulo Aragão disse...

E eu q sempre achei q os maias do filme eram astecas. Fiquei na dúvida agora...