sexta-feira, 7 de março de 2008

CRÍTICA: DESAPARECIDOS / Filme esquisito sobre tema terrível

Trade”, que estréia hoje no Brasil, em inglês é comércio, e fica estranho terem traduzido por “Desaparecidos” (inclusive porque deveria ser “Desaparecidas”). Trata-se de um filme independente, menor, sobre um assunto absolutamente horrível: o tráfico escravo de mulheres e crianças para prostituição. O drama enfoca dois casos em particular – uma jovem mãe polonesa atraída pela falsa promessa de entrar nos EUA, através do México, para servir de babá, e uma menina de 13 anos que é sequestrada na Cidade do México. Ambas terão que cruzar a fronteira. Se sobreviverem, serão leiloadas a americanos ricos, pedófilos que podem pagar de 25 a 50 mil dólares para ter uma garota como escrava sexual. Felizmente, para salvar as moças desse inferno patriarcal, o irmão adolescente da guria junta-se a um policial (interpretado pelo Kevin Kline), e lá vão eles do México pro Texas pra New Jersey, numa espécie pra lá de esquisita de road movie. Seguem-se todos os clichês do gênero – diferenças de culturas e de idade, o rapaz que não obedece à autoridade, o senhor que quer fazer tudo certinho... E há ainda tentativas de humor. Deixa eu ver se entendi: a irmã do rapaz tá prestes a ser estuprada e prostituída, e os dois homens aproveitam o passeio pra se unirem na velha camaradagem masculina? Tem algum problema aí. O tema é hediondo demais pra que conversas levinhas sobre outros temas interfiram.

Fora esse pequeno incoveniente, há inúmeras cenas implausíveis. O próprio rapaz seguir o caminhão onde está sua irmã já beira o ridículo. Mas o pior é quando dois personagens conseguem fugir e, ao invés de ficarem no meio de uma multidão, vão até um orelhão isolado fazer um telefonema pra outro país. Por quê? Só pra trama poder continuar.

Há também uma certa xenofobia no ar, como se atravessar a fronteira do México fosse resolver tudo, porque os policiais americanos sim que são honestos. Mas o horror mesmo é ver cenas de estupros de mulheres, e crianças sendo drogadas. Ainda que não haja muita glamurização, essas sequências são terríveis demais. No fascinante “O Mito da Beleza”, Naomi Wolf explica que mostrar cenas de estupro tem um efeito diferente do de mostrar cenas de morte, porque, na vida real, não é uma em cada sete pessoas que é morta. Mas essa é a estatística pra estupros de mulheres no mundo: uma em cada sete mulheres já foi violentada. E os efeitos que rever um estupro causam na vítima são devastadores.

Mesmo assim, claro que o tema de “Desaparecidos” é importante. 50 mil mulheres e crianças são trazidas ilegalmente todo ano pros EUA pra serem escravizadas sexualmente. Isso quer dizer que o mercado é amplo. No mundo, esse flagelo atinge mais de um milhão de pessoas. E, mais uma vez, dá pra ver claramente quem são as vítimas (mulheres e crianças) e quem são os predadores (homens). Lógico que não são todos os homens que são exploradores da miséria alheia, pedófilos e assassinos. Eu sigo acreditando que a vasta maioria é boa. Mas não dá pra negar que 99% dos pedófilos e assassinos são homens. Nossa culpa como mulheres? Uma só: não soubemos educá-los.

6 comentários:

Alex disse...

Esse filme já tem estréia em DVD programada pra Maio, já está sendo vendido. Acho que vou esperar o DVD mesmo.

Suzana Elvas disse...

Só pra emendar: não existe, na história do crime mundial, mulher serial killer.

Puxa, Lola, tá parecendo argumento machista: as mulheres TÊM que ter alguma culpa? Eu, hein...
:o)

lola aronovich disse...

É, Alex, eu vi em DVD, pra dizer a verdade. Nem sei quando passou nos EUA.
Sério, Su? Acho que existe mulher serial killer. Aquela moça retratada no "Monster" (que deu o Oscar pra Charlize Theron) nao seria uma serial killer? Mais ou menos?
Ah, eu acho que mulher tem culpa sim. A gente tem muita responsabilidade na educação dos filhos, como mães e professoras. Não dá pra fazer um serviço melhorzinho?

elenmateus disse...

é meio difícil encontrar relatos escabrosos de mulheres assassinas. Mas quando encontramos, ah, é de horrorizar. Mulher quando resolve ferir já ficou lelé da cuca e fere pra valer.

Os homens tem um potencial maior pra cretinice, eu penso. Mas isso só se desenvolve quando se cria ambientes favoráveis para. Aliás, pra qualquer ser humano.

Anônimo disse...

Lola li no ano passado um livro que um jornalista escreveu a partir de uma convivência/pesquisa
num presídio feminino aqui no Brasil. Há muitos depoimentos de mulheres e não lembro de uma serial killer mas o que elas contam
que fazem com as pessoas que elas assaltam dá a idéia da "capacidade" de perversão criminosa de mulheres que rumam pra esse lado. Quanto ao nosso poder de mães de melhorar o mundo ao educar os meninos eu concordo com voce.Entretanto só com as conquistas das mulheres é que elas estão se descobrindo sujeitos atuantes. Creio que o próprio fato das mordaças e submissão (sob às quais ainda vivem as mulheres em muitas sociedades), impedia a mulher de feminizar uma sociedade
regida por esse macho tipo "vinde a mim" todas vós e caí de joelhos aos meus pés pois sou o soberano!
Abraço da Fatima de Laguna.

lola aronovich disse...

É interessante, Fatima. Eu já fui ao Carandiru, ala feminina, entrevistar algumas detentas. Elas não eram serial killers, mas falei com algumas que haviam assassinado os maridos/parceiros. A história delas parecia a mesma: todas haviam aturado anos de abuso e violência e um dia não deu mais. Elas reagiram. Parecia até auto-defesa. Então, não sei, talvez seja essa a diferença: pra mulher matar deve ser muito menos premeditado. A maior parte dos serial killers homens teve uma infância terrível. Só que poucos se vingaram matando o algoz. Eles se vingam nas vítimas posteriores. Não sei se mulher consegue matar desconhecidos...