quinta-feira, 28 de abril de 2016

ENTREVISTA: "A CRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO SÓ AUMENTA AS MORTES MATERNAS"

Da Trincheira do Aborto Legal, especial para Escreva Lola Escreva, entrevista com a Dra Leila Linhares Barsted.
A audiência pública que acontece hoje [assista aqui, ao vivo] sobre a SUG 15/2014, contará com a participação de especialistas-chave para o debate sobre aborto no Brasil. A advogada feminista Leila Linhares Barsted será uma das palestrantes. Coordenadora Executiva da organização não-governamental CEPIA -- Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação e Membro do Comitê de Especialistas do Mecanismo de Monitoramento da Convenção para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher -- MESECVI -- (Convenção de Belém do Pará), da Organização dos Estados Americanos -- OEA, Leila é autora de diversos trabalhos publicados no Brasil e no exterior sobre direitos humanos, particularmente sobre questões de violência de gênero  e direitos sexuais e reprodutivos. Especialista em direitos humanos e direitos das mulheres, Leila contribuirá com sua experiência para instrumentalizar o debate com informações e dados no campo do Direito sobre a urgência da legalização do aborto no Brasil.

Quais os argumentos fundamentais para a defesa do direito à decisão pelo aborto nesse processo legislativo?
Em primeiro lugar é importante lembrar que o protagonismo das mulheres em todo o mundo, em especial a partir da década de 1960, permitiu o reconhecimento de seus direitos, incluindo seus direitos sexuais e reprodutivos, bem como a ampliação do número dos países que legalizaram a interrupção voluntária da gravidez, realizada sob determinados parâmetros de condições e prazos. 
Em segundo lugar, não podemos esquecer que a liberalização da interrupção voluntária da gravidez nesses países teve por base não apenas o reconhecimento do direito à autodeterminação reprodutiva das mulheres, mas, também, a constatação da existência de altas taxas de morbimortalidade materna ocasionadas pela criminalização do aborto. A saúde sexual e reprodutiva das mulheres foi considerada como um valor constitucional de grande relevância social.
De fato, longe de diminuir o número de abortos, a criminalização só aumenta as mortes maternas. O Brasil situa-se entre os países de legislação mais repressora em relação à interrupção voluntária da gravidez e onde, também, as taxas de mortalidade materna, apesar de terem se reduzido em relação ao início desse século, ainda são muito altas. Essa criminalização em nosso país afeta em especial as mulheres negras e pobres, que também, são penalizadas pelo ainda frágil -- e mesmo preconceituoso – sistema de saúde. Ou seja, não erigimos ainda a saúde sexual e reprodutiva das mulheres como um valor de grande relevância social. Essa é uma dívida do Estado brasileiro para com as mulheres que precisa ser saldada urgentemente com uma legislação que garanta o direito das mulheres de decidir e o acesso a serviços de saúde adequados e solidários, tanto para atender às suas demandas por maternidade, quanto para atender às suas necessidades para prevenir e/ou para interromper uma gestação não desejada.
O Brasil foi signatário de inúmeros compromissos firmados pelas Nações Unidas que recomendam a elaboração de leis que abrandem a criminalização da interrupção voluntária da gravidez tendo por base a preocupação com a saúde e a vida das mulheres. 
Os subsídios das legislações dos diversos países que legalizaram a interrupção voluntária da gravidez, realizada sob determinados parâmetros de condições e prazos, bem como dos documentos internacionais assinados pelo Estado brasileiro, podem orientar o legislador nacional a promover uma necessária mudança nas leis que criminalizam o aborto e que causam mortes maternas evitáveis se essa interrupção fosse realizada em condições legais e seguras. 

Na audiência anterior, uma advogada portuguesa disse que a legalização do aborto em Portugal "banalizou a prática" naquele país. Ela também se utilizou de argumentação jurídica e filosófica para afirmar que o aborto é uma prática eugênica. A senhora pode nos explicar como a legalização do aborto até a 12ª semana está longe da banalização e da eugenia?
Creio que essa advogada optou por uma visão impressionista e mesmo preconceituosa em relação às mulheres que interromperam voluntariamente uma gravidez não desejada dentro dos prazos e condições definidas na lei desse país. A proposta feminista de legalização da interrupção voluntária da gravidez vem acompanhada da necessidade de ampliar o acesso aos meios e métodos contraceptivos seguros, incluindo o acesso dos homens a esses métodos, bem como, também, ao acesso das mulheres e homens ao tratamento da infertilidade de forma que a maternidade e a paternidade sejam vividas em segurança, respeitando os direitos humanos de mulheres e homens.
Os países que legalizaram o aborto adotaram como referência a chamada "ponderação de direitos" ou ponderação de de valores constitucionais, como bem analisou o professor Daniel Sarmento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro -- UERJ. Nessa ponderação reconhece-se que a vida e a saúde das mulheres são direitos que se sobrepõem ao direito do feto até as 12 semanas de gravidez, e em situações-limite em outros prazos. Não se trata de políticas controlistas e anti-natalistas conduzidas à revelia das mulheres com o objetivo de reduzir o número de nascimentos de meninas ou de políticas eugênicas. As mulheres não banalizam o aborto. A ele recorrem como último recurso quando avaliam a impossibilidade de levar adiante uma gravidez não desejada.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

"SOBRE FAIXAS AMARELAS E PRETAS E SOBRE COMO EU ENTREI PARA AS ESTATÍSTICAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA"

Cinara Antunes é funcionária do Judiciário estadual do RS e militante feminista do MML (Movimento Mulheres em Luta). 
Recentemente ela sobreviveu a uma tentativa de feminicídio por parte de um rapaz com quem ela se relacionava havia dois meses. Ela o denunciou e está com uma medida protetiva, mas decidiu fazer mais: romper o silêncio. Por isso o texto abaixo e os atos de protesto. O próximo será hoje às 13:30 em frente ao Fórum de Porto Alegre, na tarde em que se realizará a primeira audiência. Haverá faixas, cartazes, carro de som e uma certeza: não calarão as feministas.


Eu quero presentear
A minha linda donzela
Não é prata nem é ouro
É uma coisa bem singela
Vou comprar uma faixa amarela
Bordada com o nome dela
E vou mandar pendurar
Na entrada da favela (...)
Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela
Vou lhe dar uma banda de frente
Quebrar cinco dentes e quatro costelas
Vou pegar a tal faixa amarela
Gravada com o nome dela
E mandar incendiar
Na entrada da favela
(Zeca Pagodinho, Faixa Amarela)


Pois então, difícil começar. No fim de janeiro de 2016, comecei a me relacionar com um cara que já conhecia de vista e de conversar da Cidade Baixa (bairro boêmio de Porto Alegre). Achei uma pessoa legal e agradável. Começamos a nos encontrar todos os dias e em pouco tempo ele ficava mais na minha casa do que na dele. Dois meses aproximadamente foi a duração dessa relação. Ele passou a fazer a maior parte das tarefas domésticas, já que eu passava mais tempo que ele fora de casa por causa do trabalho. Passamos a conversar sobre muitas coisas, entre elas, sobre política, sindicalismo e feminismo, pois participo de movimentos sociais e políticos. Ele começou a me acompanhar em vários eventos políticos, reuniões, passeatas, inclusive na marcha do 8 de março.
Dia 22 de março, eu na última semana de férias, resolvemos sair para beber. Fomos em mais de um bar e chegamos em casa por volta das 3h30min. Tivemos um desentendimento após ele ter tido uma crise de ciúmes, referindo-se a amigos meus que encontramos pelo caminho e cumprimentávamos. Após eu criticar esse comportamento, ele começou a arrumar a mochila para ir embora, já aumentando o nervosismo. Ele disse: “Abra a porta pra mim que vou embora, perdi tempo da minha vida contigo”. Eu disse: “Tranquilo, quer ir embora, abro a porta sim”. Mal sabia eu que ele estava no fundo inconformado em ir embora de verdade.
Começou a atirar as coisas na parede, quebrou um copo jogando no chão, deu socos e chutes em vários objetos da minha casa. Até aí violência material. Acontece que, quando chegamos até a porta, o terror se estabeleceu. Fui girar a chave e ele começou a dar chutes na porta e a gritar que eu abrisse logo. Foi quando veio a primeira violência física: um tapa na cara. Depois outro e outro e outro... Fiquei me defendendo com as mãos. Foi então que ele mandou novamente que abrisse logo, voltando a chutar a porta e a me chamar de vagabunda, vadia, etc e falou com todas as letras: “Vou te matar, sua vagabunda”. 
Mais de uma vez. Aí vi que era pior do que eu pensava. Como num filme de terror e suspense, comecei a ficar em pânico sobre qual seria o desfecho, já que não adiantava abrir a porta. Ele me batia se eu não abrisse e também se eu tentasse abrir. Estava descontrolado, face desfigurada, babando (de verdade) e urrando de raiva. Desviei meu corpo de alguns chutes e consegui livrar meu rosto pra trás de uma cabeçada que ele tentou dar. Mas não escapei de algo mais violento.
No meio dos tapas, ele pegou minha cabeça com muita força e bateu contra a parede. Senti um choque, como uma luz de um relâmpago, que depois foi se desfazendo, até eu ficar temporariamente tonta e sem visão. Fui indo até o quarto me segurando pelas paredes. Juro que pensei que ele se assustaria e, sei lá, daria uma trégua (até pelo estado da minha cabeça). Foi então que ele disse: “Tá tontinha, é? Quer, eu te boto pra dormir.” E senti mais um soco por trás no ouvido direito. Foi então que eu pensei que se eu “dormisse”, ele estaria disposto a acabar o que começou. Fiz esforço pra voltar. E voltei a enxergar. Fiquei sentada na cama, que fica ao lado da janela. Começou o segundo capítulo do filme de terror. 
Ele deu início a uma tortura psicológica, dizendo que tinha pensado em me jogar pela janela, que era só cortar com a tesoura a tela de proteção dos gatos. Me chamou de muitas coisas, o xingamento preferido era: “Sua feminista de merda. Mulherzinha, isso que tu é, olha pra ti agora, tu não passa de uma mulherzinha. Cadê a feminista agora?”. Começou a elencar várias maneiras que poderia e já pensou em me matar: quebrando meu pescoço numa rua escura, jogando gasolina e botando fogo, me jogando do quinto andar, passando com um carro por cima de mim. 
Deu-se início a um período de silêncio da minha parte, pois ele começou a urrar, foi até a cozinha nesse estado e fiquei tentando ouvir o barulho da geladeira ou da torneira. “Quem sabe foi tomar alguma coisa”, torcia eu. Nada. Ele voltou naquele estado e a primeira coisa que eu quis olhar foi suas mãos. Não havia nada. Acontece que ele foi à cozinha e voltou dessa forma umas 20 vezes. Sério. E eu só olhava pras mãos dele e pensava: “Não foi dessa vez. Tenho ainda mais uns 10 minutos”. Pensei depois que ele estava decidindo se pegaria uma tesoura pra cortar a tela e me jogar pela janela, ou uma faca, ou qualquer outra coisa que pudesse me matar. Mantive silêncio. Fumou um cigarro olhando pra mim e pra janela e balançando a cabeça acenando que sim.
Iniciou-se um período de desconstrução da minha personalidade. Uma violência moral. Dizendo que eu não era nada, que tinha um emprego de merda, que meu carro era uma merda, que eu era doente mental, que eu não merecia respeito pois eu não era um ser humano, falou mal de amigos e família e principalmente deixou bem claro: “Não adianta dizer que tu te criou em periferia que eu conheço todo mundo, conheço a Polícia, o Judiciário...” (obs.: quem trabalha no Judiciário sou eu). 
Insinuou que minha família e amigos corriam risco. E ainda pediu: “Não inventa nenhuma historinha que tu caiu ou coisa assim pra tua família, nem pra ninguém, fala que tu apanhou mesmo. Que eu faço questão de sentar na frente do Juiz e olhar pra essa tua cara toda desfigurada”. É, fiquei um tempo com o rosto desfigurado pela pancada na cabeça e pelos tapas e sentindo muita dor no lado esquerdo da face ao mastigar. 
Achei que tivesse terminando quando ele disse que iria embora ao amanhecer. Mas não foi o que aconteceu. Ficou mais dois dias tendo um misto de choro desesperado com tremores, suando e se dizendo arrependido, pedindo perdão. Fui então negociando com ele até que ele aceitou ir pra casa pra me dar “um tempo”, mas me telefonasse à noite. Então desceu comigo. Fui dar uma volta (fugir de casa) e ele foi embora. Não preciso dizer que estou fora da minha casa desde então.
Convencida por amigos e pela solidariedade que senti da parte deles, decidi não só romper o silêncio e denunciar, como também romper a invisibilidade e fazer uma campanha pública. Enfrentar essa questão de forma coletiva, afinal, é uma questão social. Percebi as dificuldades dos sistemas da delegacia da mulher, da lei Maria da Penha e da Justiça. Esperei cinco horas pra registrar ocorrência e sabe o que estava passando na TV da sala de espera? Uma novela. Sabe o que estava se passando na novela? Um marido ou namorado se sentindo traído e espancando uma mulher. Tu vê. Está tão naturalizada a violência contra a mulher que aparece até dentro de delegacia. Naturalizada também para meus vizinhos. Às 4h da manhã, dava pra ouvir tudo, mas nenhum dos vizinhos chamou a Polícia. Pior. Fui multada “devido à transgressão ao horário de silêncio estabelecido na convenção do condomínio”. 
Outra coisa: mudei toda minha vida, estou fora do apartamento, escondida, sem poder trabalhar, sem poder sair muito pra rua, sem ir nos lugares que sempre gostei de frequentar. Enquanto ele tem sido visto toda semana na Cidade Baixa, nos mesmos lugares, com a mesma vida. 
Por fim, insisto em dizer que não foi lesão corporal, foi tentativa de feminicídio, que só não ocorreu por várias circunstâncias, as principais delas foram o fato de eu não ter apagado e de ter conseguido negociar. 
Contar tudo até aqui não me comove mais. Começo a chorar depois que algumas mulheres entraram em contato comigo, quando começamos uma campanha pública, pra contar que viveram situação semelhante que as marcaram até hoje, mas que não tiveram apoio e guardaram essa questão pra si. Nunca é tarde. Vamos lutar juntas. 
Mas uma coisa é certa: nossos nomes não serão lidos em lista de mulheres vítimas de feminicídio em ato público contra a violência doméstica. Não vai ter faixa amarela, tampouco amarela e preta isolando o local do crime. Vai ter faixa lilás e vai ter luta.

terça-feira, 26 de abril de 2016

COMO METER A COLHER?

Amanda me fez uma pergunta há uma semana que eu não sei responder:

"Oi Lola! Primeiro, sou sua fã. Não te conheço há muto tempo nem me entendo como feminista há muito. Mas desde que me encontrei, sou militante não só do feminismo mas de causas sociais. Aliás, acho que não podia se esperar menos de uma professora de História como eu. Enfim, vamos ao ocorrido...
Ontem à noite, estávamos meu namorado e eu na estação do BRT de Marambaia (zona norte do Rio). Havia ali um cara de uns 30 anos com uma voz bem rouca e assustadora. Ele era muito alto e forte, musculoso. Com ele estavam um menininho que deveria ter uns 2 anos, se muito, e uma moça que aparentava ter uns vinte e poucos, bem baixinha e magra. Eles eram um casal. 
Dava pra perceber pelo tom de fala que o cara estava muito bravo, mas pouco consegui entender da situação. Eles discutiam. O homem claramente estava se impondo, falando mais alto com ela, apontando o dedo na cara dela, enquanto o guri estava aos pés deles brincando. Não consegui entender o que eles diziam. A moça começou a chorar. Ele estava sendo abusivo, agressivo, mas somente com palavras, o que já é um absurdo. Consegui ouvir que o homem a ameaçava, ouvi um 'eu te mato'.
Em determinado momento vi o cara cuspir, não sei se na moça ou no chão. 
Meu namorado e eu estávamos atordoados, a gente não sabia o que fazer, como agir. Perto daquele homem nós éramos formigas, e se intervíssemos, acho que poderia ser pior pra moça. 
Meu ônibus chegou e fomos embora. A culpa está aqui comigo. Eu queria ser mais, fazer mais. Queria ter um aparelho de choque pra conter aquele homem naquele momento, mas infelizmente meu namorado e eu não éramos nada perto daquele 'gigante'. 
Aí ficamos comentando que não sabíamos como agir numa situação como aquela. Teria alguém pra ligar? Alguém pra denunciar? Como agir?
Não sei nada sobre o casal, nunca os vi antes e acho muito difícil vê-los de novo. A sensação de impotência ta forte aqui.
Queria saber se você tem como usar seus recursos pra nos dar uma luz de como agir em casos assim. Espero que eu nunca mais tenha que vivenciar nada parecido, mas se tiver, preciso saber o que fazer pra ajudar a moça."

Meus comentários: Compreendo o seu desespero, Amanda. Se eu estivesse presenciando uma situação de abuso, também não sei o que faria. Tentaria intervir na hora? Creio que seria o mais correto, mas pode ser perigoso. Chamaria a polícia? Sei que eu sentiria que teria que fazer alguma coisa, mas, como você, também não saberia o que fazer. Por isso decidi publicar seu email. Alguma leitora ou leitor já passou por isso? Como reagiu? Ou alguma leitora já foi agredida ou humilhada em público? Alguém ajudou?
Seis anos atrás, uma aluna me enviou o link pra um programa da TV americana, What Would You Do? (O que você faria?), que simulava uma situação de violência doméstica em publico, com atores, para ver como as pessoas em volta, num restaurante, reagiriam. 
O programa maquiou uma atriz branca para que ela aparentasse ter marcas de violência física no rosto. Ela entra no restaurante primeiro, sozinha, e de cara um homem vai perguntar se ela está bem. Quando chega o suposto namorado dela, esse homem (e outras pessoas) interfere, vai tentar falar com o ator. 
O programa faz um teste pra ver se, com uma atriz negra, a reação seria diferente. Mas não: bastante gente empatiza com a moça. Duas mulheres enfrentam o cara, inclusive, não deixando que ele leve a moça pra fora, num momento comovente. 
Só que o programa decide vestir as mesmas atrizes com roupa diferente, um mini-vestido decotado, e aí a reação muda completamente. Ninguém intervem. Muita gente observa incomodada a situação, algumas pessoas pedem pra mudar de lugar, uma ou outra chama o gerente e pede pra ligar pra polícia, mas ninguém vai consolar a moça ou falar pro "namorado" parar. 
Uma mulher conclui (unicamente pelas roupas que a atriz veste) que a moça em questão é prostituta e o cara, seu gigôlo. Uma especialista entrevistada diz que estudos indicam exatamente o mesmo que o programa gravou -- que as pessoas vão achar, por causa da roupa, que a mulher mereceu, que fez algo que causou o abuso.
Um homem, no restaurante, até tentar intervir, mas pelo motivo errado: ele acha que o casal está envergonhando a si mesmo e fala pro agressor resolver isso num lugar privado, doméstico. O mesmo programa, alguns anos antes, já havia testado esse cenário de uma mulher sendo agredida pelo parceiro à luz do dia, numa praça. Vários homens tentaram intervir, mas o conselho, pro cara, era que "aquele não era o lugar pra isso". 
Ou seja, se a agressão fosse dentro da casa deles, tudo bem. Não é só no Brasil que ainda impera a máxima do "em briga de marido e mulher, não se mete a colher". Fizeram um experimento num bairro de classe média na África do Sul. Numa madrugada, um cara tocou bateria na sua casa. Vários vizinhos foram até ele reclamar. Noutra madrugada tocaram a gravação de uma briga doméstica violenta, com gritos, insultos, coisas quebrando... 
Nenhum vizinho foi até a casa exigir que a briga parasse ou ver se a mulher precisava de ajuda. 
E aí, nessa situação descrita pela Amanda, o que você faria? O que pode ser feito?

segunda-feira, 25 de abril de 2016

GUEST POST: HOMENS, QUANTO VOCÊS GANHAM?

Este é um guest post da M., que preferiu não se identificar. Ela trata do tabu que é perguntar pra alguém -- principalmente um homem -- quanto ele ganha. 

Desde que passei a ganhar dinheiro (não faz muito tempo), descobri nas rodas entre amigos e no ambiente profissional que um dos maiores tabus do mercado de trabalho é: não pergunte a um colega quanto ele ganha. É considerado rude e totalmente mal-educado. É compreensível. O valor que estampa no contracheque do coleguinha concerne somente a ele, e a liberdade civil nos permite manter a privacidade. Isso se você não for um servidor público, de quem é cobrado transparência.
Somos criados neste mundo capitalista e supostamente meritocrático onde nos ensinam que o esforço nos dará mais dinheiro. É quase uma proporção ideal e perfeita: quanto mais você trabalha, se esforça e tem um cargo onde manda em mais pessoas, mais você ganha. Uma linda e ideal equação, que supostamente é aplicada em setores privados ou públicos do mercado. E eu passei a acreditar nesta fábula desde criança. 
Desde que me conheço por gente, eu vi minha mãe como um modelo de vida: uma ótima profissional, respeitada no meio. Eu queria apostar a minha satisfação pessoal no meu trabalho e na minha carreira, e por conta disso foquei nos estudos e na qualificação. Até hoje me lembro como minha professora estranhou ao ver o meu desenho na 5ª série do ensino fundamental, quando ela pediu para a sala projetar a vida ideal aos 30 anos. Eu não tinha colocado um marido, nem filhos, mas sim uma veste profissional. Estava determinada a ser viver do que produzo e sem dependências financeiras. “Você quer viver sozinha?”, questionou a professora. “Não, mas não quero me prender a ninguém para ser feliz”, respondi. 
Alguns anos depois eu me tornei jornalista. Passei a trabalhar e a estudar, e a sofrer com os primeiros baques da vida (como qualquer pessoa na vida). Apostei algumas das minhas fichas em mudanças profissionais, e os resultados estão sendo vagarosos (como normalmente são). Mas estou satisfeita até o momento. Passei a trabalhar em uma instituição pública, com cargos comissionados para determinadas áreas. Eu não estava no luxo de recusar. 
Estava tudo bem. Salário fixo, funções determinadas e trabalhando na minha área. Sem gratificação, ou extra. Não era pouco, mas não era muito. Não reclamei. Outro jornalista também foi contratado para quase as mesmas designações (até menos). Tem ele praticamente a minha idade (meio dos 20, início dos 30), sem família ou filhos, fazia menos atividades e contava apenas com graduação, como eu.
Em conversas de bar, contudo, passei a conviver mais tempo com colegas jornalistas do mesmo ambiente, que estipulavam salários mínimos às suas funções. A alta exigência deles me deixava intrigada. “Nossa, acho que eu devia ganhar mais”, pensei. Mas o salário era fixo. Quanto eles ganhavam mais que eu? Em um dia ensolarado, eu quis deixar minhas divagações pra trás. 
Fui lá eu a investigar os salários das pessoas com quem eu convivia, para ver se eu realmente estava encucada por besteiras. O primeiro absurdo: o meu colega jornalista ganhava o DOBRO do meu salário. O DOBRO. LÍQUIDO.
O segundo absurdo: busquei o salário líquido da chefa que coordena o setor específico. Meia idade, com mais funções, responsável pela coordenação da equipe. Ela ganhava LÍQUIDO um total de dois mil A MENOS que o menino jornalista, apesar de seu horário extra ser um pouco maior. Ou seja, caso aconteça que, em um mês, ambos não façam trabalho-extra (como é comum em meses de folga), o menino jornalista ganhará mais que a coordenadora de meia idade. 
Eu fiquei me questionando: que meritocracia de merda é essa? Quem foi aquela pessoa que colocou na minha cabecinha que o esforço e a dedicação independia de uma questão de gênero? Racial? Social? O CARAMBA!
E agora estou aqui, até este momento sem entender. Tentando ter explicações para essa desigualdade. Que sentido teria no século XXI, em que a mulher é tão apta quanto o homem ao mercado de trabalho e é dotada da mesma capacidade de ser provedora de uma família, os salários continuarem tão desiguais? O que me faz ganhar a METADE de um homem, considerando trabalhos com a mesma qualificação e a mesma função?
Sentir na pele a desigualdade salarial ajuda a interpretar pesquisas como a do IBGE, em que aponta a diferença de pelo menos 40,5% de recompensa monetária a depender do gênero aqui no Brasil. E sabe qual é o pior de tudo? Só depois de alguns anos que eu tive a curiosidade de saber qual é o salário dos meus colegas homens, e fazer as devidas comparações. Lembra-se de como é estranho e mal-educado você perguntar o quanto uma pessoa ganha por mês?
O mundo em que é “rude” uma mulher ou qualquer pessoa de qualquer gênero questionar o valor do contracheque de um homem é bom. Ele respeita a privacidade das pessoas e suas liberdades. Porém, ao mesmo tempo, silencia a luta de valorização salarial das mulheres. Ao passo que não conhecemos quanto nosso colega com as mesmas funções ganha, não sabemos se nosso salário é justo. E nossa luta enfraquece, pois parece que o grito pela igualdade salarial é soprado aos quatro ventos, pois não há provas. E pessoas não acreditam em pesquisas, acham que é mera estatística “doutrinária”. 
Lembrei das mensagens vazadas da Sony que revelaram a discrepante diferença salarial entre homens e mulheres no set de filmagens do filme americano Trapaça. Na falta de um comparativo, concordamos com determinado salário desvalorizado, e provavelmente foi isso que levou as atrizes Jennifer Lawrence e Amy Adams a aceitaram um cachê menor que os atores. Elas mereciam ganhar o mesmo! Uma faturou um Oscar, a outra já foi indicada mais de duas vezes ao mesmo prêmio. O que faria elas ganharem menos que Bradley Cooper, por exemplo? Porque ele fez Se Beber, Não Case? Acho que não. 
Estou fazendo uma campanha “Homens, mostrem seus salários!”? Não. Mas, no fundo do coração, eu realmente quero saber. Homens, quanto vocês ganham? Homem, sabe aquela mulher que trabalha o mesmo que você? Quanto ela ganha? Mais? Menos? Vamos desmascarar este tabu. Vamos questionar sem dó. O “não” sempre vai ser uma resposta válida, claro! Mas não quero deixar de perguntar. Eu quero saber o quanto homens ganham. Minha conclusão: há momentos em que é válido nos infiltrarmos no meio privado de alguns, para consertar desigualdades públicas de muitxs.