domingo, 26 de novembro de 2000

CRÍTICA: TITANIC / Entre de gaiato no navio

Aleluia, irmãos! A Globo passa hoje e sexta um filme de verdade, não aqueles enlatados que ela compra por quilo. Trata-se de "Titanic", o maior arrasa-quarteirões da história do cinema, com mais de dois bilhões de dólares arrecadados mundialmente. Tudo bem, entendo que este é justamente o motivo pra você torcer o nariz para a produção. Mas vamos afastar os preconceitos e reconhecer que "Titanic", apesar de não ser nenhuma obra-prima, é um excelente programa.
Quando assisti ao filme no cinema, em 97, gostei, só que não achei nada demais. Não compreendia aquelas filas que davam voltas e lotavam todas as sessões. Eu nem chorei, e olha que meu marido não me chama de "manteguinha derretida" ou "trapinho humano" à toa. Ah, eu vi uma vez apenas, ao contrário das adolescentes e pré, que prestigiaram o navio umas oito vezes cada uma, em média. Na hora do blockbuster bater o recorde de indicações ao Oscar, e arrebatar nada menos que onze estatuetas, não fiquei contente. E não aguentava mais ouvir a xarope música tema da Celine Dion.
Continuei menosprezando "Titanic" até vê-lo de novo recentemente, quando a "Speak Up" o lançou com legendas em inglês. Aí, longe do oba-oba, pude apreciar o filme pelo que ele é, não pelo que representa (um símbolo da globalização e da força da grana que ergue e destrói coisas belas etc). E o que é "Titani
c"? Basicamente uma estória de amor com um pano de fundo histórico.
A parte romântica dos dois jovens de classes diferentes que se apaixonam seria bastante banal, se não fosse a atuação cativante dos protagonistas e o ritmo pulsante do diretor James Cameron, que não deixa a peteca cair. Não me entusiasmo muito com as interrupções didáticas da velhinha e do caçador de tesouros, mas elas são curtas e não chegam a comprometer o andamento.
Convenhamos: só porque o Leonardo Di Caprio virou símbolo sexual para meninas que nem sabem o que é sexo não faz dele um mau ator, né? O Leo é ótimo e até se arrisca na escolha dos seus papéis. Mas desconfio que o verdadeiro sucesso de "Titanic" junto ao sexo feminino de certa faixa etária esteja na Kate Winslet. Primeiro, porque ela não acompanha o padrão de beleza à la Etiópia (ossos à mostra; a estética da fome, vocês sabem). Depois, porque ela é desconhecida do grande público. Já tinha mostrado seu talento em "Almas G
êmeas" e "Razão e Sensibilidade", mas quem vê filmes de arte? A garotada se identifica com ela e acredita que, se ela pode ser uma estrela, então há esperança pra todas.
O atrativo principal é mesmo participar de um evento famoso e ver, com abundância dedetalhes, o transatlântico afundar – ih, contei o final do filme! A gente se sente como se estivesse a bordo. A reconstituição de época é impecável e quase que justifica os 200 milhões de dólares gastos e o perfeccionismo megalomaníaco do diretor (que ainda hoje deve se arrepender de ter dito "eu sou o rei do mundo!" na cerimônia do Oscar). E os efeitos especiais? É bárbaro assistir a um navio
se partir ao meio. Adoramos tragédias. Lembram do "Destino do Poseidon"? Era super brega, mas quem resiste a uma catástrofe bem contada?
Tá, tá, é claro que "Titanic" não precisava fazer dos ricos vilões unilaterais e dos pobres, os salvadores da lavoura. Aliás, é pouca vergonha esta opção preferencial pelos pobres por parte de Hollywood, uma indústria que cultua o dinheiro. Digamos que o Cameron não leva uma vida exatamente pautada pelo baixo poder aquisitivo. Porém, o filme mostra um certo conflito social – e mostra também que os pobres perdem.
E há uma outra minúcia que os críticos não notaram, e que denota alguma ousadia: a personagem de Kate Winslet não é virgem quando transa com o Leo. Como são figuras fictícias, seria moleza exibir o casal central como modelo de pureza que descobre o sexo pela primeira vez juntos; essas baboseiras que o público adora. Mas não.
A verdade? "Titanic" é um colossal entretenimento. Não dá pra ser contra só porque é disso que o povo gosta.

CRÍTICA: TOLERÂNCIA / Profissão: Bundão

O sentimento de culpa levou-me à Tolerância. Como não fui ver O Auto da Compadecida por não haver entendido patavinas do trailer, não poderia deixar de prestigiar outro exemplar do cinema nacional. Daí, corri às salas de exibição para me frustrar com Tolerância. Acho que a gente pode chamar de "Intolerável" mesmo. "Intolerável" é o tipo de filme nacional que dá péssima fama ao cinema nacional. Se você for da minha geração, ou ainda mais antigo, se isso fosse possível, você se lembrará daquele programa de TV chamado "Sala Especial". Eram produções ingênuas e altamente lúdricas com títulos como "A Superfêmea". Serviam pra mostrar a Vera Fischer pelada, isso que hoje em dia dá pra curtir sem transgressão na novela das oito. Era trash, mas onde mais você tinha a oportunidade de presenciar o affair entre Claudio Cavalcanti e sua melancia? Bom, "Intolerável" parece uma sessão da "sala especial". Trata-se de um filme pornô casto. Falta sexo explícito e closes ginecológicos, mas o resto está lá. Um homem chega e fala "oi". É a senha pra mulherada tirar a roupa.
Tudo serve de pretexto para se exibir seios e bumbuns, a começar pela própria profissão do protagonista. Ele é editor de fotos. Seu maior desafio é retocar nádegas em imagens que não saíram perfeitas. A típica profissão bundão. O cara é casado com uma advogada não muito fiel. Juntos, criam uma filha de 18 anos que tem uma amiga da mesma idade que se interessa pelo cara. Use sua imaginação para fantasiar a suruba que sai desse enredo. Você acharia que é pega no ganzê, pega no ganzá, né? Pois decepcione-se. Os quatro roteiristas (quatro pra escrever isso! Quatro! Acho que eles passavam o tempo com joguinhos de computador) incluíram uma sub-trama policial sem nada a ver com nada. Então, o espectador passa sem cerimônia de uma ninfeta de camiseta molhada a um conflito agrário. Os quatro roteiristas, entre eles o diretor, são todos homens. E todos devem estar por volta dos 40, a idade do lobo. Como eu deduzi? As fantasias masculinas pipocam: duas moças idênticas, inclinação ao lesbianismo, cinta-liga, sexo virtual... "Intolerável", inclusive, é injusto com as mulheres. Só tem ator feio. Não dava pra colocar um garanhão galã, não? Não tinha como pagar o cachê do Giane? As atrizes pesam cerca de 30 quilos cada uma, dentro, portanto, do padrão de beleza vigente. Embora quem goste de osso é cachorro, deve haver quem ache que dê pra se fazer um bom caldo só com os ossos.
Apesar de "Intolerável" ir de mal a terrível, há momentos clássicos da comédia. As cenas em que Roberto Bomtempo, o principal, fica na frente do computador para bloquear da Maitê Proença a cena comprometedora da tela, por exemplo, são de chorar de rir. Aqui os roteiristas capricharam e provaram que possuem uma veia cômica (involuntária). Se tivessem seguido este caminho, o filme seria puro entretenimento.
Há uma sequência em que nosso herói transa com a amiga da filha em várias posições. Dá a impressão de passarem horas (meu marido me explicou que isto é ficção). Quando ele chega em casa, a esposa pergunta "usou camisinha?". No singular? Uma só? Por isso que tem tanta contaminação.
Há um crime e o cenário do crime. Entra a polícia e tem a perícia, que faria corar o Badan Palhares. Duas mulheres brigam aos arranhões e puxões de cabelo, rolando no chão, e a polícia não detecta? Eu fiquei procurando o nome do Badan nos créditos, ou pelo menos um agradecimento pelo auxílio técnico.
As interpretações são, deixe-me escolher um adjetivo dúbio, incríveis. Para a amiga da filha, atuar é... morder o lábio inferior e rolar os olhos. Que Stanislawski, que Actor’s Studio, que nada! Isso que é interpretação singular. A Maitê segue o estilo "abrir os braços e simular vôo". Ela gesticula o filme inteiro, o que lhe desmancha o penteado. Não tem problema. Como esta forma de atuar é versátil, sempre sobra uma das mãos para que ela arrume o cabelo. E o Bomtempo? Pensei que, já que a atividade de seu personagem consiste em maquiar bundas, ele retocaria a própria cara. "Intolerável" às vezes imita um videoclip. O sujeito brocha, a música de fundo diminui. Seria um musical e eu não entendi? Mas tem seu valor. O filme demonstra, com todas as letras, que não existe homem fiel. Mesmo o cidadão casado com a Maitê deseja pular a cerca. Por favor, não pode rotular. Só porque Tolerância lembra uma porno-chanchada das piores não significa que cinema nacional é isso aí. Os americanos fazem, sei lá, Showgirls, e nem por isso concluímos que o cinema ianque é uma porcaria. Bem, concluímos sim, mas não só por causa de um filme. Você entendeu.
P.S.: O que o Antonio Britto está fazendo em "Intolerável"?

CRÍTICA: INTRIGAS / Intrigante como final de novela

Agora que tanto se fala em aumento da pena criminal (no que sou contra, não preciso nem dizer), devo admitir: eu mereço. Fui ver um filme de adolescentes. Pior - não posso nem alegar que eu não sabia tratar-se de um filme pra adolescentes. Fui ver Intrigas. Imagine, assisti a uma produção com o título original de "fofocas"! Logo eu, que não me interesso por fofoca. Sempre que algum desavisado me conta uma, eu fico aguardando o resto. Cadê a parte chocante? "Intrigas" é o típico programa que odeio.
O filme já começou faz uns vinte minutos e lá estou eu, impaciente, esperando o início. Porque, sabe, só jogar rostinhos bonitos na tela embalados por uma música esquizóide não é suficiente pra envolver o público. Pelo menos um público seleto como eu, que vou ver altas produções como... Intrigas. Chuif. Não saberia como classificar o filminho, a não ser na categoria "tenebroso". Comédia não é. Não há humor algum. Suspense tampouco; nada de sustinho ou mistério. Dramalhão? É bem verdade que eu estava quase chorando durante a exibição, mas é uma reação pessoal. Ópera-bufa, talvez? Bom, digamos que trata-se de um video-clip, onde um trio de amigos universitários (com QI digno de Show do Milhão) decide espalhar uma mentira, destinada a virar boato e correr de boca em boca (tem até um clip com lábios, juro). Sabe qual é a fofoca tão saborosa? Sente-se, por favor. O choque pode ser fatal. Cardíacos, idosos e crianças, retirem-se do recinto. Extra! Extra! Lá vai, não digam que não avisei: o rumor imperdível é que uma moça e seu namorado transaram. Eu mesma fiquei surpresa: o pessoal da faculdade faz sexo! Uau! Esta revelação já vale o ingresso.
Pelo jeito, o sexo não deve ser memorável, já que a moça demora meio filme pra descobrir que transou. Quando, enfim, se convence disso, acusa o rapaz de estupro. Nesse mundinho onde o pessoal fala muito mais de transar do que propriamente transa (deve cansar menos), ninguém toma drogas, mas todo mundo fica bêbado, e ninguém estuda. Esta última parte, aparentemente, baseia-se em fatos reais.
Gostaria que Intrigas contasse com atores conhecidos pra que eu pudesse
comentar o ofício deles. Eu disse suplício? O elenco é composto por um bando de gente com 30 anos fingindo ter 20, fazendo caretas, sonhando estar na MTV. Uma das protagonistas imita simultaneamente duas grandes damas do cinema: a Jennifer Beals, de Flashdance, e a Kelly LeBrock, de A Dama de Vermelho. Grande coisa, dirá você. Permita-me concordar. O garotão até que é bonitinho, mas toda essa galera cool é tão irrelevante, tão irritante, que pensei em espalhar um boato durante a sessão, pra tornar o filme mais instigante. Algo como "não conte pra ninguém, mas a tela está pegando fogo", ou "você viu aquelas duas baratas lá no canto?". Porém, não deu. Poucos espectadores. Fofoca é pra multidões. Ai, ai. Lembra quando sua vida era tão descomplicada que tudo que você tinha pra se preocupar era com a sua reputação? Pô, adoraria que espalhassem rumores sobre minha vida sexual. Nesse estágio, seria a glória! Os adolescentes ligam tanto pra fofoca porque a imagem que têm de si próprios ainda não está definida. Não parece ridículo ter que prestar satisfação pra gente que você mal conhece sobre com quem você dormiu ou, mais trágico, deixou de dormir? Decidi usar este veículo para lançar alguns boatos. Todas as fofocas, dizem, tem seu fundo de verdade. Vamos lá.
- Adolescente tem gosto duvidoso pra filme e não consegue distinguir um bom ator de um poste. Apesar disso, crê que qualquer produção com mais de 5 anos de idade é pré-histórica e sem valor.
- O adolescente de hoje é muito mais conservador do que os de gerações passadas.
- Estes astrinhos da TV americana não passariam no teste de seleção pra "Malhação".
- Americano é uma anta mesmo. Nem votar sabe.
- Sim, sim, é tudo verdade: estou tendo um caso com o Chico Buarque.
- Mas meu outro amante, o George Clooney, não precisa saber.
- Intrigas é o tipo de filme inócuo onde os marqueteiros, pra conseguir público, devem ligar pras pessoas e dizer "sua mulher foi vista entrando no filme Intrigas com outro homem. Vá lá agora e dê o flagra neles!
O filme é Intrigas, tá? Quer os horários?"

CRÍTICA: A CELA / Abram a cela do circuitão!

Sinto-me um pouco envergonhada de resenhar filmes estritamente comerciais em pleno período de Mostra Internacional de Cinema, mas fazer o quê? Como diz o José Simão, filme em curdo com legenda em paquistanês, só em SP. Aqui em Joinville, tenho que ficar com A Cela que, francamente, não é ruim.
O fio condutor da história envolve um aparato tecnológico que permite a uma psicóloga entrar na mente de pessoas em coma (assim, mais ou menos como a lavagem cerebral que o cinemão faz com a gente). No começo, a cobaia é um menininho. Depois, a moça deve desbravar o intelecto de um serial killer. Evidentemente, o assassino guarda o segredo de onde está sua última vítima, ainda viva. Creio não estar fazendo grandes revelações ao contar que os intrépidos detetives ianques conseguem salvá-la no último segundo. Se você está injuriado, achando que eu estraguei o final do suspense ao revelá-lo, faz tempo que você não prestigia o circuitão americano, não?
A Cela tem a vantagem de ser um filme estiloso, com boa fotografia (ao contrário das produções terceiro-mundistas da Mostra), e uma direção de arte que com certeza será indicada ao Oscar. Os figurinos, muito criativos, me remeteram a Priscila, A Rainh
a do Deserto. Graças a eles, a protagonista Jennifer Lopez ganha a chance de se travestir de Pavão Misterioso, Virgem Maria, dominatrix, e até psicológa infantil, nas horas vagas.
A Jenny não deverá receber indicação, pobrezinha. Não é que ela esteja mal. É só um papel meio obscuro. O pessoal gosta de dizer que ela é a
hispânica do momento em Hollywood; que ela é o que a Sonia Braga já foi. Não é verdade. A Sonia, que Deus a tenha, nunca foi tão importante. Durante A Cela, meu marido perguntou, indignado, "Cadê a mulher mais sexy do mundo?", referindo-se ao prêmio que a Jenny acabara de ganhar nos EUA. Antes que eu respondesse "Aqui do seu lado, benhê", lembrei-lhe que a atriz-cantora já contracenou com cobras gigantes e Jon Voights canastríssimos em Anaconda. Quer dizer, em comparação, me veio à tona o anúncio do Virginia Slims, "You’ve come a long way, baby" (você foi longe).
A Cela quase poderia concorrer em Cannes – a um Leão de Ouro publicitário. Parece um retalho de belos comerciais, com cenários deslumbrantes, modelitos mil e câmera lenta. Há instantes dos mais psicodélicos de 2001, e referências a Seven, O Silêncio dos Inocentes, Hellraiser ou Hellbound (nunca sei qual é qual), além de uma operação do FBI que automaticamente nos faz pensar no Elian, o garoto cubano em sua estadia no país das maravilhas.
Não por acaso, o mote de A Cela é o abuso infantil. Quer prova? Adivinha quem, logo quem, tem um papel mezzo relevante? Dylan Baker, o ator da mais chocante história de pedófilos feita até hoje – o americano independente Felicidade (nas prateleiras de vídeo da minha cidade, pode ser facilmente encontrado na seção "cinema europeu"). Vince Vaughn, o Norman Bates do Psicose (pessimamente) refilmado, faz um detetive que sofreu moléstias na sua infância. E Vincent D’Onofrio, de várias interpretações esquisitonas – a mais repulsiva sendo a barata de Homens de Preto –, é o maníaco traumatizado.
Pra adentrar a cabeça dos outros, você deve estar em ótima forma, pois andará bastante. Dá-lhe montanhas e escadas com inúmeros degraus. Perguntei pro maridão se ele gostaria de entrar na minha (pausa para dar efeito) mente e ele disse que, nesta mente pervertida, de jeito maneira. Mas ele não gostou de A Cela. Eu sim.
E eu que tenho mente pervertida?! A Cela traz um cavalo (troca o "c" do título por um "s" e pronto: justifica todos os cavalos que aparecem no filme. Aposto que eles pensaram nisso) fatiado, mulheres afogadas em aquários, cães albinos, e um garoto brincando com bonecas que são, na realidade, cadáveres. Pensando bem, a mente de um roteirista de Hollywood pode ser muito mais perigosa que a de um serial killer.

CRÍTICA: EU, EU MESMO E IRENE / Quem vai ficar com Irene?

A disputa pelo pior filme do ano continua acirradíssima: A Praia (é deste ano? Parece velharia), 60 Segundos, Mar em Fúria, Revelação, e agora esta bomba. Desculpe se esqueci alguma produção. Numa lista dessas, sempre corremos o risco de cometer injustiças, deixando candidatos potenciais de lado.
Devo confessar que assisti à nova comédia com o Jim Carrey por causa dele, dele mesmo, e dane-se a Irene. Sou fã no. 1 do JC. Veja bem (argh!), eu não vou ver coisas do Mike Meyers, Adam Sandler (O Paizão), Chris Tucker (nem sei o que ele fez), ou de qualquer um desses astros essenciais... da televisão. Ora, me recuso até a locar O Professor Aloprado, e olha que o Eddie Murphy teve algo parecido com uma carreira na década de 80.
Eu, que me orgulho de nunca ter visto algo com o Van Damme ou Macaulay Culkin (esqueceram dele?), resisti bastante até me render aos charmes do JC. Aos poucos, fui reparando que ele era a única razão para se aturar o terceiro Batman e O Pentelho, e me tornei tiete incondicional após Truman Show. JC é fabuloso, herdeiro direto de Jerry Lewis, mas nem ele salva Eu, Eu mesmo e Irene.

Irene é dos irmãos Farrelly. Muita gente considera Quem Vai Ficar com Mary? uma obra-prima indiscutível, a quintessência do humor. Esclareço desde já que não estou entre esses críticos. Mary é melhor que Irene, o que não quer dizer nada. Perto desses dois desastres, Débi&Lóide é bárbaro, apesar de ser fraquinho, fraquinho.
Os próprios irmãos não escondem que sua inspiração para Irene vem da expressão "me, myself and I", que se refere a pessoas egoístas ou megalomaníacas. Assim, criaram um patrulheiro com dupla personalidade. Tudo super original. O primeiro Médico e o Monstro é do cinema mudo, mas quem liga pros clássicos?
Estes dois personagens apaixonam-se pela mesma mulher. Renee Zellweger (de Jerry Maguire), que interpreta o objeto romântico, mantém sua expressão de quem chupou limão azedo (a definição é do filme, não minha) durante todas as cenas. É o mesmo rosto: os olhinhos fechados, a testa confusa, a boca fazendo bico. Não esperem uma indicação ao Oscar. Ela está sendo perseguida por alguém que quer matá-la. Nunca entendemos o motivo. E importa? Deve ser por sua cara de sonsa.
JC pass
a metade do filme com um esparadrapo no queixo. Como ele aparece lá e pra quê é 100% supérfluo. Só pra se ter noção da total falta de nexo, há uma cena em que a moça visita o patrulheiro em seu quarto de hotel. Chegando lá, encontra sua foto na cama, uma loção para as mãos e uma melancia com um buraco estratégico. Típico humor farrelliano (há quem goste, acredite). Pois bem, decidiram cortar a referência à melancia, mas ela ainda pode ser vista no chão do quarto.
Irene tem, no mínimo, três defeitos fatais. Um é o roteiro grotesco, malfeito, longo demais, pessimamente amarrado, que vai do nada ao lugar nenhum. Mas digamos que alguma piada tenha conseguido sair ilesa do script. Não tem erro: a direção se encarrega de liquid
á-la. Imaginemos que, sem querer, algo engraçado tenha fugido das garras implacáveis do roteiro e da direção dos irmãos. Entra então a edição, seu ritmo esquisito, seus cortes neuróticos. A montagem capa de vez qualquer tentativa de humor. Não sobra nada. Há umas caretas do JC que fazem os cantos de nossos lábios se mexerem, ainda que isto não constitua um sorriso. Tem aquelas piadas pra adolescentes que nem piadas são – são citações. Basta falar de masturbação pro adolescente rir. Falar de vibrador faz o adolescente rolar no chão. Falar de sexo anal causa espasmos de riso nessas mentes juvenis. Curioso é que Irene seja R-rated, proibido para menores de 17 anos nos EUA. Irene, no fundo, pode ser definido como um filme escabrosamente ruim com um ator magnífico perdido no meio. Juro que até na escatologia Irene é manso; Scary Movie é mais politicamente incorreto. Aí vem associações de albinos, deficientes mentais e anões protestarem contra os fraternais Farrelly. Não dá pra compreender a propaganda gratuita. Há tempos que David Lynch faz dessas minorias suas taras sem atrair uma única mosca ao cinema. Por que é diferente com os irmãos cara-de-pau?