quinta-feira, 7 de abril de 2022

TRETAS MUITO ESTRANHAS DO TWITTER

Vocês acompanharam ou estão acompanhando (porque parece que está longe de acabar) uma treta no Twitter sobre... sorvete?

Uma moça que eu nunca tinha ouvido falar mostrou o que seu pai tinha comprado pra ela: cinco potes de um sorvete mais caro (não tenho certeza se já experimentei a marca, que ganhou horas de propaganda gratuita nos trending topics anteontem. Talvez num carrinho num aeroporto? Se experimentei, não foi nada muito marcante). 

Algumas pessoas acharam que ela estava ostentando ao exibir potes que, depois ficamos sabendo, custam R$ 40 cada (ou seja, havia R$ 200 em sorvete no congelador dela). Daí pra galera dizer que ela era bilionária e descendente de donos de escravos foi um pulo. Óbvio que também não faltou protesto de como ela podia falar de sorvete num país pobre como o nosso (que, por sinal, é o sexto maior consumidor de sorvete no mundo).

Essas tretas no Twitter são muito esquisitas. Começam do nada e vão pra lugar nenhum. Lembro de uma pessoa que reclamou quando uma tuiteira postou uma foto dela com o pai e disse como o amava. A pessoa, que não tinha pai no registro de nascimento, se incomodou com a felicidade alheia. Pais que não registram os filhos são um problema social sério, mas faz sentido deixar de manifestar o amor pelo pai porque muita gente não tem pai? 

Nesses últimos dias eu fui pega por duas tretas no Twitter. Acho que fazia um tempinho que não entrava em confusão. A última vez, se não me falha a memória, foi quando um grupo (suponho que bem remunerado) de ciristas divulgou o meu salário e me atacou porque eu achei um absurdo os preços no supermercado (e também porque gastei R$ 100 em ração de gato). Acabou pegando mal pra eles. Todo mundo viu aquilo como um ataque gratuito e não entendeu quanto alguém deve receber de salário pra poder se ultrajar com os preços altíssimos.

Então, mas mês passado uma mulher que eu seguia no Twitter e vice-versa já chegou cheia de pedras porque eu e feministas em geral não a defendemos de um grande ataque que ela sofreu (e que ninguém nem ficou sabendo). Ela tirou prints, mandou pra mim, e não deu pra entender nada. Mas o que pareceu foi que ela e um cara totalmente desconhecido se desentenderam no Twitter (não me lembro o motivo) e ele a chamou de feminista radical.

Não é que o rapaz a ameaçou de morte ou a xingou pesadamente. Ele só a chamou de radfem (que sequer é uma ofensa). Mas, sei lá, se você se sente ofendida, bloqueia. E nunca mais você terá notícias do sujeito. The end. Eu disse isso a ela, e ela respondeu que eu estava agindo feito o Bolsonaro falando "e daí?" sobre as mortes por covid. Aí quem se sentiu ofendida fui eu, e a bloqueei (claro que é um resumo; foi um pouco mais longo que isso).

A outra treta foi um pouco culpa minha, porque entrei no assunto sem ser chamada. Tinha algo a ver com o tapa do Will Smith no Oscar, mas eu só vi o tuíte em que um cara (que eu nunca tinha ouvido falar) dizia que a Penélope Cruz era muito mais famosa que o seu marido Javier Bardem. Eu escrevi que o Javier também era super famoso, que já tinha recebido Oscar e sido vilão em filme de 007. E o cara respondeu algo como "Então você concorda que se refiram a Penélope Cruz como 'esposa do Javier Bardem'". 

Fiquei olhando praquele tuíte tentando compreender como o rapaz chegou àquela conclusão. Mas, pra piorar, veio uma moça (outra que eu nunca tinha ouvido falar) comentar. Ela escreveu algo como "O Twitter é uma loucura". Eu respondi alguma coisa como "Pois é, você fala x e a pessoa entende abcde". Só que a moça emendou: "Eu realmente achei o que você disse uma loucura". Tipo eu ter falado que o Javier Bardem é famoso?! Aí eu bloqueei a mulher, porque a vida é muito curta. 

Bom saber que essa é uma realidade frequente no Twitter...

terça-feira, 5 de abril de 2022

TIRE O TÍTULO DE ELEITOR PRA TIRAR O GENOCIDA CORRUPTO

Cartum do incrível Quinho

As eleições deste ano não serão nada fáceis. E, se a gente não tirar o fascista, o Brasil acaba de vez.

Falta só um mês pra tirar, transferir ou regularizar o título de eleitor. É simples fazer isso. Inclusive, pode ser feito pela internet. 

Está havendo uma grande campanha para que jovens entre 16 e 17 anos tirem seu primeiro título. A adesão ainda está baixa, mas, com a mobilização, em duas semanas cem mil jovens pediram o título. E jovens costumam votar na esquerda. 

Além de poder eleger seus representantes, descobri ontem outra vantagem pra você, jovem, tirar seu título: o Le Monde Diplomatique Brasil vai dar uma assinatura digital de seis meses pros jovens que comprovarem ter tirado o título (vale a pena: é uma excelente publicação). Mas é só até depois de amanhã. 

A regra pras eleições de outubro é clara: não vote em ninguém que apoia ou já apoiou Bolsonaro. Pronto. Já cancelamos praticamente toda a terceira via também. 

Vamulá, jovem. É o seu futuro que está em jogo. 



segunda-feira, 4 de abril de 2022

AS BUARQUEANAS: MULHERES QUE SOBREVIVEM E SE VINGAM

Jaci Dantas de Oliveira está enviando para as editoras seu livro de contos intitulado As Buarqueanas, em que seleciona cinco canções do Chico e escreve contos a partir delas (uma delas é "Com Açúcar, com Afeto"). Os contos mostram a vingança das mulheres como sobrevivência.  

Nas canções buarqueanas, vemos a presença da galeria daqueles que estão à margem. A voz das mulheres encontra em Chico seu maior intérprete – aquele que põe voz na canção e que traduz o universo feminino. Ele busca essas mulheres em universos vários e faz com que elas inaugurem o mundo. A mulher cria uma ordem outra. Traz a mulher que não se enquadra na ordem pré-estabelecida dos que têm poder, dinheiro, lei. O mundo dos homens. E, por isso, ela transgride. Chico se faz voz das mulheres sem voz, tornando-as maiores que aqueles que detêm o poder. Porque o começo de tudo é o poder falar. Nessas canções por nós escolhidas, a voz é a da mulher. Aqui, o homem é que está à margem...

São mulheres que vingam, que sobrevivem, e, por isso, tornam-se vingadoras. Dão um soco na cara do homem opressor, do homem que vai embora, do homem que trai. Mulheres que se vingam, que colocam o homem no lugar em que elas sempre estiveram. Assim, a mulher se mostra em uma posição de igualdade em relação ao homem.

Em “Com açúcar, com afeto”, a vingança se dá quando o homem volta. É ela, no ambiente doméstico, quem dá as ordens. Como que cerceadora da liberdade daquele homem, no fim, é ela quem permanece. É ela quem vinga. Manipuladora, quer prendê-lo pelo visgo do açúcar de seu doce. Sob a camada do afeto, quer, por meio de artimanhas, segurar o homem que busca, na rua, sua mais significativa forma de andar e de ser feliz. Aceitá-lo de volta, perdoá-lo, confere-lhe uma aura de poder. É superior a ele quando lhe dá seu perdão. O conto “Com açúcar, com afeto, ou a mulher do fim do mundo” traz Belatrix, que se cansa de esquentar o prato do homem e de esperar. Ela se veste e depois se despe e sai pelo mundo a se vingar. E vai andar pelos cantos pelos quais seu homem andara durante o dia, e vai festejar como ele festejara. 

Na canção “Atrás da porta”, fica ainda mais evidente o poder de vingança da mulher: “ ... e me vingar a qualquer preço...”. Quando passa a “maldizer o lar”, com o intuito de humilhá-lo, e se vingar, ela se iguala ao homem que lhe causou tanta dor. E por superar aquela situação de chão (rebaixada), de estar atrás da porta (escondida), ela agora age. De pé, torna-se maior que ele. “Atrás da porta, ou a mulher do fim de cena” traz Barbarela, uma avó que, ao contar estórias a seu neto, recorda-se de um amor que se foi e a deixou no chão. E que a fez reconstruir sua vida em uma casa sem portas.

A canção “Olhos nos olhos” já traz no título o cerne da superação. Estar olhos nos olhos a coloca no mesmo nível do homem. Está de pé. Sua vingança é mostrar que, sem ele, ela passa “bem demais”. Torna-se superior porque até lhe oferece ajuda, superou tudo, se surpreende cantando, e tantos homens a amaram “bem mais e melhor” que ele. O conto “Olhos nos olhos, ou a mulher do fim do tempo” mostra como a destruição dos calendários e dos relógios é necessária para que essa mulher possa existir depois do adeus.

“Folhetim” mostra a mulher que vive outro universo, e é superior ao homem desde o início da canção. Na manhã seguinte, seu grito de libertação e vingança: “Te afasta de mim”. Ao se tornar dona do tempo e do vento, a mulher do conto “Folhetim, ou a mulher do fim da página”, torna-se guerreira, e, ao ter o Tempo sentado sobre o telhado de sua casa, e o Vento como guardião de seu portão, aceita agora só o que quer, e toma as armas do homem.

A mulher de “Sob medida” é cheia de poder, do começo ao fim. Dona de uma fina ironia quando diz que é perfeita porque é igual a ele, imperfeito. É igual a ele porque não presta. Um discurso irônico que mostra que, para ser igual ao homem, a mulher tem que ser menos. E o conto “Sob medida, ou a mulher do fim da ordem” traz Amaralinda, um ser angelical, que desce à terra para encontrar o homem por quem se apaixonara, e assim perde seu castelo e se torna mulher. Depois de muitas lutas, encontra seu destino, que é o de ser concha na areia da praia.

Mulheres que se refazem. Se reconstroem. E permanecem. 

sábado, 2 de abril de 2022

PARA UM AUTISTA, É AINDA MAIS DIFÍCIL ENTENDER O MUNDO

Hoje, no Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, publico o lindo guest post de Tereza Raquel, vó de uma criança autista. Tomei a liberdade de ilustrar este post com as artes maravilhosas da Peixinha Dorotea, criação de Bruno Grossi, que é autista.

O mundo anda tão complicado, cantava Renato Russo na década de 80, século passado. Hoje, dia 2 de abril de 2022, ainda não descomplicou, pelo contrário! Tem dado nós e amarrações que custam a ser desembaraçados.

Nos últimos dois anos, escrevi aqui sobre meu neto autista, o "Furacão", como foi receber o diagnóstico, tratamentos, vivência, experiências durante o período mais crítico da pandemia. Também falei sobre o porquê da existência do Dia de Conscientização Mundial do Autismo e Inclusão.

Não sou uma voz solitária. Existem inúmeras instituições, pessoas que procuram conscientizar, informar sobre o autismo. Ao mesmo tempo outros tantos continuam a ignorar, relegar e até mesmo menosprezar autistas e seus familiares.

Falo isso pois somente no mês passado os casos de repercussão nacional foram aqueles em que a bióloga Natasha Borges fingiu ser autista para não usar máscara, e em que o vereador carioca Gabriel Monteiro, nas filmagens de um dos seus vídeos "sociais", orientava uma pessoa tirar a bolsa de uma mulher, numa simulação de assalto, dizendo: ela é autista, nem vai perceber. Existem inúmeras outras situações que aconteceram e não tiveram grande divulgação, ficando apenas entre quatro paredes nas pequenas regiões ou grandes metrópoles.

Voltando ao fato e citação que autista não vai perceber, digo o contrário, vai sentir sim! Autistas têm sentimentos, emoções. São diferentes -- especiais, não! Nem são anjos azuis como alguns gostam de romantizar. São seres humanos que têm uma condição que os faz ter déficit na socialização, comunicação verbal, não verbal e interesse restrito ou hiperfoco, movimentos repetitivos, ou seja. percebem o mundo de forma diferente.

Nem todos os autistas têm as mesma características, afinal não existe um ser humano igual ao outro, somos ímpares.

Banalizar, ridicularizar autista é não ter a mínima noção do que é ser GENTE. É de uma insensibilidade, irresponsabilidade enorme. Quem vive, convive, batalha no dia a dia para que autistas  tenham espaços, sejam incluídos na sociedade, no mercado de trabalho, sabe o quanto é difícil lidar com os preconceitos, barreiras, garantir uma vaga em escola, ou mesmo um professor de apoio, que é direito garantido por lei. Muitas vezes são os próprios autistas que travam essas lutas.

Às vezes dá vontade de parar, às vezes desanima,  mas quando vejo minha filha chorando devido a uma descriminação sofrida, quando vejo uma dificuldade de entendimento das pessoas sobre a condição do Furacão ou mesmo por cansaço do dia a dia, pois a vida não é fácil, minhas forças se renovam, saio gritando e esbravejando contra os ignorantes que não têm a mínima noção do que é viver, ser autista. 

Tenho como meta descomplicar um pouco, não o mundo, mas a cabeça das pessoas para que elas possam perceber que é possível sim uma vivência inclusiva e acolhedora.

Deixo minha dica para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o autismo, o Bruno Grossi, um autista, escritor, que faz um lindo trabalho de conscientização tanto na página dele, quando na Peixinha Dorotea, o título de um dos livros que ele lançou.

Dando notícias do meu Furacão, hoje ele está praticamente alfabetizado, lê e escreve pequenos bilhetes e já não sou mais a vovó "Aquel". Sou a vovó Raquel, com o erre muito bem pronunciado.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

FAZ ARMINHA QUE PASSA

Tá tudo caro? Culpa do Bolsonaro! Mas pelo menos o Brasil se livrou do comunismo!

Ótimo cartum do Nando Motta.