sexta-feira, 3 de junho de 2016

UM MONTÃO DE FEMINISTAS AMA O PAI

Euzinha moldando meu amor pro meu pai

Uma das inúmeras mentiras que reaças divulgam há tempos é que feministas são mulheres que odeiam o pai, ou que nunca tiveram algum relacionamento com ele.
Minha foto preferida com meu pai,
certamente tirada pela minha mãe
Tem anos que eu ouço essa bobagem, e eu quase sempre rio. Porque eu conheço um monte de feministas que idolatram o pai. E, claro, porque eu também conheço muita gente que não tem nada de feminista que nunca teve pai, ou que o odeia. Como disse uma leitora, se ter problema com os pais tornasse alguém feminista, praticamente todo mundo seria feminista, porque quem nunca?

Eu rio também porque o meu relacionamento com meu pai era maravilhoso. Éramos muito próximos, cúmplices, amigos. 
Meu pai e eu em junho 1967,
Buenos Aires
Meu amado pai, que teve seus filhos tardiamente (ele estava com 43 anos quando eu nasci, e sou a mais velha de três irmãos), foi um pai fantástico, muito presente, muito amoroso, muito respeitador da nossa inteligência. Ele me ligava inúmeras vezes por dia, do trabalho, só pra me dizer o quanto me amava, ou pra falar qualquer futilidade, tipo que ia começar a chover então eu deveria sair com guarda-chuva. Na época eu achava irritante. Hoje sinto muita falta!
Papi, eu e nosso cachorrinho Piteco
(Pity pros íntimos) em 1985, Búzios
Meu pai morreu cedo, de um ataque cardíaco aos 68 anos. Eu o vi morrer, porque foi em casa, num domingo de páscoa. Eu e minha mãe ainda o levamos ao hospital, onde ele foi ressuscitado, ficou em coma por dois dias e morreu. Eu queria ter tido um convívio muito maior com ele. Fomos tão importantes pra vida um do outro por apenas 26 anos. Quero dizer, ele será importante pra mim pra sempre, porque ele era de esquerda, era feminista. Sempre será uma das grandes influências da minha vida.
Meu pai me dando apoio num jogo de handball que, pela minha cara, não deve ter ido muito bem. 
Nos últimos dias, uma categoria de trolls que chamo de "reaças zueros" -- gente extremamente conservadora e odiosa disfarçada de engraçadinha -- têm martelado a tecla do "pai ausente". Pra eles, não ter tido pai faz com que pessoas se tornem de esquerda, principalmente feministas. Eles repetem que "não tem erro": se a mulher é feminista, é porque odeia o pai que a abandonou.

Foi só eu falar que amo meu pai de paixão que apareceu um babaca pra determinar qual tipo de pai pode ser aceito como pai. Não pode ser "bicho grilo" como o meu. 
Haha, bicho grilo! Meu papi passava grande parte do seu dia de terno e gravata (foi diretor de marketing de uma agência de propaganda por vários anos, depois abriu seu próprio instituto de pesquisa). Mas não é formidável? Os caras criam uma mentira, e determinam as regras pra quem pode contestar a mentira.
Reaças rindo de um tema sério? Nada de novo. O abandono por parte do pai é uma realidade no nosso país. Cerca de 30% das crianças brasileiras não têm registro do pai nos documentos. Para muitas crianças, isso não significa apenas não receber carinho e atenção, mas sobretudo não contar com suporte financeiro. Pai que não reconhece paternidade tampouco paga pensão. Daí a mãe, que já recebe 30% menos que os homens, em média, precisa sustentar o filho sozinha. Essa é a masculinidade tóxica que tanto combatemos -- uma em que os homens não têm o menor pudor em não assumir ou ajudar a sustentar os filhos que faz. 
Reaças são especialistas em espalhar mentiras sobre feministas. É o que gente que quer que o mundo permaneça exatamente como está faz há 150 anos. Os insultos contra as feministas não mudaram nesse último século e meio (ninguém nunca acusou reaças de serem criativos). 
Quando apontei no Twitter mais essa invenção patética dos misóginos, choveram tuítes de leitoras que amam seus pais. É óbvio ululante que existem feministas que têm uma relação ruim com o pai. Existem feministas de todos os tipos. É justamente isso que reaças não entendem -- não há padrão para ser feminista. Basta ter vontade em querer mudar o mundo e lutar contra opressões. 
Destaco alguns tuítes que recebi:

Também recebi este lindo email da Samilla:

Samilla, seu pai, e muitas garrafas
"Oi Lola, esse é meu pai. Me identifico como feminista muito por causa dele e de uma família incrível. Tenho um irmão de 5 anos, sobre o qual meu pai já foi enfático: 'Ele pode ser gay, pode ser o que quiser, só exijo que seja feliz e que respeite os outros'. Com certeza, meu pai já está ensinando meu irmão a respeitar as mulheres, e aprendendo mais sobre isso também.
Como Samilla só enviou uma foto,
ilustro seu relato com as minhas
Quanto a mim, bebemos juntos, conversamos sobre tudo e ele já me pediu desculpas se não observou antes o quanto de violência social nós sofremos diariamente por sermos mulheres. Quando mais jovem falava que eu não deveria ligar para o que os outros diziam se eu me sentia bem com o meu (antigo) cabelo azul. Sendo assim, como eu não poderia me tornar feminista e desejar que todas as mulheres tenham a liberdade que eu tive e tenho?! 
Como não incentivar a luta para que homens se tornem tão legais como meu pai e queiram aprender tanto quanto ele? Já me falaram que meu pai me criou como filho homem, por ter me dado muita liberdade. Eu sempre respondo que ele me criou como uma legítima mulher".

Pois é, reaças. Mais uma estupidez inventada por vocês foi desmentida. De nada, ô prêmio Nobel em ignorância avançada.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

QUERO SER MULHER SEM TEMER

Cartum do Benett
Todxs nós reclamávamos muito da Dilma, que certamente não estava fazendo o governo de esquerda que esperávamos (lembrando, claro, que uma presidenta não governa sozinha; precisa, inclusive, dialogar com o Congresso mais retrógrado do Brasil desde o início dos anos 60). E só ter uma mulher no poder não fez com que o Brasil avançasse o necessário no combate a violência contra as mulheres nem na maior representatividade feminina. 
Porém, vendo este início de governo Temer, já dá pra dizer: nós éramos felizes e não sabíamos. 
Todos os homens do presidente
Governo entre aspas, porque este é um mandato ilegítimo de um golpista. Só com um ministério cheio de homens brancos, Temer fez com que o Brasil caísse 22 posições no ranking de igualdade de gênero, organizado pelo Fórum Econômico Mundial. O ranking ainda não saiu (sai no segundo semestre todo ano), mas, só por não ter ministras, nosso país irá da posição número 85 (entre 145 países) para a 107. Entre os 145 países pesquisados,  apenas 5 têm um número igual de mulheres e homens em seu ministério. E apenas 5 têm zero ministras. O Brasil agora entra nesta seleta lista. Isso sim é retrocesso! (E pros reaças que dizem, ah, não importa o que ministro tem entre as pernas, o que importa é a meritocracia -- bom, sua opinião é importantíssima pra gente, mas lamento informar que um ranking que põe o Brasil em 107o lugar é mais importante).
Um dado que não tem muito a ver com o governo, só que serve como mais um argumento contra os reaças do "gênero não importa": a consultoria McKinsey aponta que empresas com força de trabalho mista (tanto mista em gênero como em aspectos raciais) registram lucros 35% acima das empresas sem o que é chamado de "dividendo da diversidade". Ou seja: diversidade é boa para os negócios. E é ótima para o país também. 
Voltando a este desastroso governo, o tapa na cara da vez é a nomeação de Fátima Pelaes para ser Secretária Nacional de Políticas para as Mulheres. 
Ontem na Av. Paulista
Como explica Nana Soares, "Entre as medidas que chamaram atenção esteve o rebaixamento da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que perdeu seu peso de Ministério. Já seria preocupação o suficiente, ainda mais considerando que as outras Pastas são todas chefiadas por homens brancos, mas o presidente interino mostrou que sempre pode piorar e indicou a ex-deputada Fátima Pelaes para chefiar a Secretaria daqui para a frente".
Evangélica, ex-deputada federal pelo Amapá, atual presidenta nacional do PMDB Mulher, Pelaes é contra a legalização do aborto em todos os casos, inclusive em casos de estupro. Ela já relatou, em 2010, que ela é fruto de um estupro. Ela já foi a favor da descriminalização do aborto, mas mudou de posição em 2002, quando "conheceu Jesus". E, pra finalizar, ela fez parte de uma articulação criminosa que está sendo investigada pelo Ministério Público Federal por desviar 4 milhões de suas emendas parlamentares.
É vergonhoso ter uma pessoa com posicionamentos tão arcaicos num cargo tão fundamental. Mas o que esperar do governo Temer, fora que acabe o mais rápido possível?
Foto do meu irmão Ig, que tem com a Lou o site Lost Art
Como disseram as guerreiras que participaram do ato #TodasPorElas, ontem na Av. Paulista, em SP (houve manifestações por todo o país, e haverá outras: este será um #JunhoFeminista): quero "ser mulher sem temer". Você entendeu o duplo sentido. 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

GUEST POST: NÃO DEVERIA SER NORMAL VIVERMOS COM MEDO

Uma leitora querida me enviou seu relato de como se sente desde que veio à tona o caso da menina de 16 anos estuprada no Rio. 

Algumas das primeiras reações que ouvi quando o caso apareceu foram:"Tem que castrar!" "Tem que matar!" "Só a justiça comum não resolve!" "Se fosse uma filha minha eu mataria!" "Se fosse uma amiga minha eu mataria". 
Eu continuo me perguntando por que o ser humano continua respondendo violência com mais violência? Mas meu mundo caiu quando começamos a falar de medo. "Eu tenho medo na hora que vou descer do ônibus" "Eu tenho medo de andar na rua escura...." daí soltei o "Todo homem é um potencial estuprador." E todas me atacaram. "Não é assim, a gente não pode pensar desse jeito, ninguém consegue viver desse jeito..."
Daí eu me peguei pensando em todas as experiências ruins que tive, do dia em que bebi demais e meus amigos me deixaram sozinha na casa de praia "segura" com o pai de uma colega da faculdade e acordei assustada com ele acariciando a minha perna; do dia em que fui assediada no trabalho quando era só uma estagiária... do dia que fui ameaçada por um taxista a caminho de casa, porque "Se ele fosse outro me levava para um matagal qualquer e fazia o que bem quisesse comigo"; e claro no dia quem que ganhei de presente de aniversário do meu namorado meu estupro. 
Eu bebi demais mas lembro de sentir muita dor, do sangue no lençol, de acordar sozinha na cama e ver meu namorado dormindo no sofá, pois teve nojo do que aconteceu na cama. Eu não só "não consegui denunciar", como continuei namorando com ele, pois eu tinha bebido demais, "a culpa era minha". Eu tinha 22 anos.
Poxa, eu tenho apenas 27 anos, são mulheres mais velhas que eu, não é possível que elas não tenham vivido nenhuma experiência sequer onde o medo não lhes tenha arrepiado a espinha. Elas são brancas.
Será que o fato de eu ser negra potencializa isso? Será que o fato de eu ser negra permite que esses homens todos se sintam donos do meu corpo? Aos 22 anos eu cheguei a contar para três amigos homens sobre o que aconteceu. "Pelo amor de Deus nem me fala mais nada, dá até agonia!" "Tá achando que dar o c* é fuder? Dá o c* é se fuder! (risos)" e não passou disso. Ninguém me levou numa delegacia, ninguém vingou minha dor e minha honra, me fizeram rir quando eu queria chorar. Eu estava só.
Lola, eu tenho medo. Eu tenho medo de todo e qualquer homem, eu tive medo dos meus padrastos, eu tive medo do meu dentista, eu tive medo de um homem ginecologista que me tocou de um jeito estranho, eu tive medo dos meus primos mais velhos, eu tive medo de primos da minha idade. Eu sempre vi esses homens todos como estupradores em potencial e nem sei explicar o porquê. Não eram só os homens estranhos na rua, eram pessoas da minha casa, da minha família.
Sou obrigada a ver aquele meu namorado que me estuprou aos 22 anos circulando na marcha das vadias só de sutiã com as palavras de ordem "meu corpo minhas regras" escritas de batom no peito.
Não tenho vontade de falar, não quero mais ler sobre isso, pois passei a sentir dificuldades de ter relações sexuais saudáveis com o meu marido. O MEU MARIDO. 
O cara que me ama e me ajudou a me curar de toda essa dor. Não gosto de ler sobre estupro, não gosto de falar sobre estupro. Porque quando vejo uma eu me vejo. Foram 30 homens e uma menina menor de idade desacordada. Mas pra mim era eu. 
Odeio a hastag #RaivaComRazão por que vejo a minha dor ali... Eu sei que ajuda, eu sei que conscientiza, eu vi os números do disque denúncia crescerem. Eu fiquei feliz por ver tantas mulheres rompendo o silêncio. Mas eu já tenho 27 anos... Aos 22 ninguém me ajudou, eu mesma não me ajudei. Eu não consigo reagir. Um homem só destruiu a minha vida. 
Não quero imaginar o que se passa na cabeça dessa menina de 16 que acordou cercada por 30 homens e se viu inerte na internet.
Eu faço terapia toda semana. E hoje estou em crise, por que me vi com medo  e sozinha de novo.