Euzinha moldando meu amor pro meu pai
Uma das inúmeras mentiras que reaças divulgam há tempos é que feministas são mulheres que odeiam o pai, ou que nunca tiveram algum relacionamento com ele.
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| Minha foto preferida com meu pai, certamente tirada pela minha mãe |
Tem anos que eu ouço essa bobagem, e eu quase sempre rio. Porque eu conheço um monte de feministas que idolatram o pai. E, claro, porque eu também conheço muita gente que não tem nada de feminista que nunca teve pai, ou que o odeia. Como disse uma leitora, se ter problema com os pais tornasse alguém feminista, praticamente todo mundo seria feminista, porque quem nunca?
Eu rio também porque o meu relacionamento com meu pai era maravilhoso. Éramos muito próximos, cúmplices, amigos.
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| Meu pai e eu em junho 1967, Buenos Aires |
Meu amado pai, que teve seus filhos tardiamente (ele estava com 43 anos quando eu nasci, e sou a mais velha de três irmãos), foi um pai fantástico, muito presente, muito amoroso, muito respeitador da nossa inteligência. Ele me ligava inúmeras vezes por dia, do trabalho, só pra me dizer o quanto me amava, ou pra falar qualquer futilidade, tipo que ia começar a chover então eu deveria sair com guarda-chuva. Na época eu achava irritante. Hoje sinto muita falta!
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| Papi, eu e nosso cachorrinho Piteco (Pity pros íntimos) em 1985, Búzios |
Meu pai morreu cedo, de um ataque cardíaco aos 68 anos. Eu o vi morrer, porque foi em casa, num domingo de páscoa. Eu e minha mãe ainda o levamos ao hospital, onde ele foi ressuscitado, ficou em coma por dois dias e morreu. Eu queria ter tido um convívio muito maior com ele. Fomos tão importantes pra vida um do outro por apenas 26 anos. Quero dizer, ele será importante pra mim pra sempre, porque ele era de esquerda, era feminista. Sempre será uma das grandes influências da minha vida.
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| Meu pai me dando apoio num jogo de handball que, pela minha cara, não deve ter ido muito bem. |
Nos últimos dias, uma categoria de trolls que chamo de "reaças zueros" -- gente extremamente conservadora e odiosa disfarçada de engraçadinha -- têm martelado a tecla do "pai ausente". Pra eles, não ter tido pai faz com que pessoas se tornem de esquerda, principalmente feministas. Eles repetem que "não tem erro": se a mulher é feminista, é porque odeia o pai que a abandonou.
Foi só eu falar que amo meu pai de paixão que apareceu um babaca pra determinar qual tipo de pai pode ser aceito como pai. Não pode ser "bicho grilo" como o meu.
Haha, bicho grilo! Meu papi passava grande parte do seu dia de terno e gravata (foi diretor de marketing de uma agência de propaganda por vários anos, depois abriu seu próprio instituto de pesquisa). Mas não é formidável? Os caras criam uma mentira, e determinam as regras pra quem pode contestar a mentira.
Reaças rindo de um tema sério? Nada de novo. O abandono por parte do pai é uma realidade no nosso país. Cerca de 30% das crianças brasileiras não têm registro do pai nos documentos. Para muitas crianças, isso não significa apenas não receber carinho e atenção, mas sobretudo não contar com suporte financeiro. Pai que não reconhece paternidade tampouco paga pensão. Daí a mãe, que já recebe 30% menos que os homens, em média, precisa sustentar o filho sozinha. Essa é a masculinidade tóxica que tanto combatemos -- uma em que os homens não têm o menor pudor em não assumir ou ajudar a sustentar os filhos que faz.
Reaças são especialistas em espalhar mentiras sobre feministas. É o que gente que quer que o mundo permaneça exatamente como está faz há 150 anos. Os insultos contra as feministas não mudaram nesse último século e meio (ninguém nunca acusou reaças de serem criativos).
Quando apontei no Twitter mais essa invenção patética dos misóginos, choveram tuítes de leitoras que amam seus pais. É óbvio ululante que existem feministas que têm uma relação ruim com o pai. Existem feministas de todos os tipos. É justamente isso que reaças não entendem -- não há padrão para ser feminista. Basta ter vontade em querer mudar o mundo e lutar contra opressões.
Destaco alguns tuítes que recebi:
Também recebi este lindo email da Samilla:
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| Samilla, seu pai, e muitas garrafas |
"Oi Lola, esse é meu pai. Me identifico como feminista muito por causa dele e de uma família incrível. Tenho um irmão de 5 anos, sobre o qual meu pai já foi enfático: 'Ele pode ser gay, pode ser o que quiser, só exijo que seja feliz e que respeite os outros'. Com certeza, meu pai já está ensinando meu irmão a respeitar as mulheres, e aprendendo mais sobre isso também.
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| Como Samilla só enviou uma foto, ilustro seu relato com as minhas |
Quanto a mim, bebemos juntos, conversamos sobre tudo e ele já me pediu desculpas se não observou antes o quanto de violência social nós sofremos diariamente por sermos mulheres. Quando mais jovem falava que eu não deveria ligar para o que os outros diziam se eu me sentia bem com o meu (antigo) cabelo azul. Sendo assim, como eu não poderia me tornar feminista e desejar que todas as mulheres tenham a liberdade que eu tive e tenho?!
Como não incentivar a luta para que homens se tornem tão legais como meu pai e queiram aprender tanto quanto ele? Já me falaram que meu pai me criou como filho homem, por ter me dado muita liberdade. Eu sempre respondo que ele me criou como uma legítima mulher".
Pois é, reaças. Mais uma estupidez inventada por vocês foi desmentida. De nada, ô prêmio Nobel em ignorância avançada.














































