Conheci Marcela Pastana na Casa TPM no ano passado e pouco depois tive a honra de ser convidada para participar de sua qualificação. Em junho último, fiz parte da sua banca examinadora, na Unesp de Araraquara.
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| Tom, eu, Marcela em agosto de 2013 |
Não tenho palavras para recomendar esta dissertação de mais de 500 páginas. Para quem trabalha ou pensa em trabalhar com gênero, dê uma olhada na extensa bibliografia do trabalho, que reuniu várias obras brasileiras. Eu gostaria que a dissertação virasse livro, porque a qualidade é realmente impressionante. Marcela analisa várias revistas masculinas e femininas para falar de gênero, prazer e sexualidade, e o resultado não é apenas uma grande contribuição acadêmica, mas também uma delícia de ler.
Já pedi pra Marcela fazer alguns guest posts baseados na sua dissertação. Este é o primeiro.
Em uma escola de idiomas, recebemos a proposta de preparar os alunos e alunas para um exame de proficiência. Formamos dois grupos, que realizariam a prova sobre duas línguas diferentes. O tempo disponível para a preparação era curto, então nos reunimos para pensar nas estratégias didáticas mais pontuais e eficazes.
A primeira língua é repleta de expressões sobre afetos, sentimentos, emoções. As lições iniciais envolvem o aprendizado sobre como conjugar adequadamente verbos como amar, cuidar, agradar, envolver, acolher... É também fundamental a prática da pronúncia, que requer um tom de voz doce, meigo e delicado, com movimentos sutis, de forma que precisaríamos estar atentas para que o grupo não elevasse o tom de voz, não manifestasse atitudes diretas e agressivas e não deixasse transparecer nenhuma emoção que destoasse da ternura e da sensibilidade requeridas.
Em relação ao vocabulário, as lições mais importantes eram sobre as tendências da moda e os produtos de beleza, com exercícios sobre as diferenças entre itens de maquiagem e sobre a forma de aplicá-los, a distinção entre celulites e estrias (assim como as tecnologias mais recentes para tentar eliminá-las) e também a memorização de uma extensa tabela de categorias (conteúdo que corresponde a um alto nível de exigência nas avaliações).
Preparamos inicialmente a sala de aula com os recursos pedagógicos mais tradicionais: bonecas e seus acessórios (mamadeiras, chupetas, fraldas, carrinhos); miniaturas de objetos domésticos (fogão, panelinhas, vassouras); livros, filmes e músicas sobre contos de fadas com princesas que encontram um príncipe e são felizes para sempre, e uma penteadeira repleta de diferentes tipos de cosméticos com um imenso espelho para as atividades práticas.
Ao mesmo tempo, precisávamos também cuidar de todos os preparativos para ensinar para o outro grupo a segunda língua, que tem a particularidade de não possuir vocabulário referente a sentimentos, apenas aqueles ligados à agressividade. Por isso, logo nas primeiras aulas, os recursos utilizados foram diferentes tipos de armas, miniaturas de heróis e outros personagens fortes e musculosos para lutarem entre si, e de monstros para serem devidamente destruídos.
Além do ensino de palavras como coragem, domínio, batalha, guerra, vitória, destruição, entre outras expressões bélicas, foi preciso um intenso treinamento para que a entonação usada fosse devidamente agressiva e violenta. Logo percebemos que incluir videogames com cenas repletas de tiros, efeitos sonoros e visuais como derramamento de sangue tornariam o aprendizado mais estimulante.
Outra palavra muito necessária é competição, então investimos em jogos de luta, de futebol e corridas de carro, que também seriam eficientes para o aprendizado do vocabulário esportivo e automobilístico, muito requeridos nas avaliações. Uma questão frequente para o qual o grupo deveria estar devidamente preparado era, diante de imagens de mulheres apresentadas na prova, utilizar expressões como “gostosa”, “delícia”, “vou te chupar todinha”. Decidimos usar vídeos pornográficos para tornar o aprendizado mais dinâmico.
Ainda assim, com tantos recursos didáticos disponíveis para ambas as línguas, reconhecemos algumas dificuldades dos alunos e alunas e nos reunimos para pensar em novas estratégias. Foi quando uma das pessoas da equipe sugeriu que utilizássemos, em nossas aulas e como tarefa de casa, a leitura de revistas, que tinham muitas matérias repletas de conteúdos e imagens relacionados ao que deveria ser aprendido.
Realizamos então a assinatura, para a primeira língua, de revistas como Capricho, Nova e Boa Forma e, para a segunda língua, da Playboy, da Sexy e da Vip. Elas trouxeram grandes contribuições para a assimilação dos conceitos pelos alunos(as), servindo como eficientes dicionários, e, mais do que isso, como sedutores guias turísticos. Percebemos como o prazer pode ser uma rica ferramenta pedagógica: aprendendo com prazer e sobre os prazeres que poderiam ter ao aprender, nossos alunos e alunas demonstraram bem menos resistências e dificuldades, praticando continuamente e reproduzindo com mais facilidade e desenvoltura as expressões ensinadas.
Os resultados nos exames de proficiência foram muito satisfatórios. Decidimos, então, fazer uma festa de comemoração, que seria interessante também para os dois grupos se conhecerem e confraternizarem. Mas eles(as) estavam tão animados(as) com o aprendizado das novas línguas que resolveram praticá-las durante a festa. Ninguém havia aprendido os dois idiomas, assim, além de pouco conversarem entre si, quando se aproximavam e tentavam, acabavam se queixando de que a outra língua era muito diferente, estranha, ou mesmo absurda e incompreensível, fatores que geraram inúmeros desentendimentos.
Quando propusemos que no próximo semestre eles(as) poderiam iniciar um novo curso para aprender a outra língua, as reações foram de incômodo e mesmo indignação, já que a língua que tinham aprendido passou a ser para eles(as) um sinônimo de identidade, de pertencimento, que expressava seus maiores interesses, desejos e prazeres.
Há muitos desafios no aprendizado de uma língua: é preciso esforço, dedicação e praticar continuamente. Principalmente na infância, esse aprendizado está envolvido com a forma como aprendemos a nos expressar e interagir com as pessoas mais próximas, que mais amamos.
Comparar os padrões de feminilidade e masculinidade aos idiomas permite pensarmos como algo que é tão frequente no nosso dia-a-dia, tão presente nas nossas relações e que nos parece tão espontâneo e natural, foi, na verdade, construído a partir de um processo intenso e contínuo, que envolve a busca por expressar-se e também por pertencimento, por aceitação. Muitas instâncias participam nesse processo: a família, a escola, as amizades e também os meios de comunicação, que foram tema da minha dissertação. Aprender uma língua é sim, muito desafiante, mas é ainda mais desafiante desaprendê-la (se escolhêssemos, agora, deixar de falar e entender o português, seria muito difícil!).
Discutir sobre os padrões de gênero também envolve pensar os desafios da desconstrução. Foi considerando como esse movimento de desconstrução e desaprendizado é importante (e também estimulante) que realizei meu trabalho, sobre o prazer e os padrões de gênero nas revistas femininas e masculinas. Agradeço muito a Lola por poder divulgá-lo aqui no blog, já que as discussões sobre o feminismo que tive o prazer de acompanhar diariamente foram de imensa importância para a pesquisa.





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