sábado, 8 de março de 2014

RAZÕES PRA SER FEMINISTA: DADOS PARA VOCÊ USAR

Hoje é Dia Internacional da Mulher, um dia importante, de luta e de conscientização, e também de comemoração de conquistas. 
Riachuelo já retirou o comercial racista
Infelizmente, é um dia que, já faz alguns anos, o capitalismo tenta tomar para si. Se depender do senso comum e do mercado publicitário, virou um dia de "parabéns por ser mulher". Então vemos todas aquelas "homenagens", aquelas que poderíamos muito bem viver sem. 
Palestra sobre obesidade
em Volta Redonda
Parte da mídia aproveita a data para falar mal do feminismo, mas cada vez mais há matérias que abordam a desigualdade e os preconceitos contra mulheres. E, por mais que existam mil e um encontros do tipo "derrote a celulite localizada", também há muitas palestras feministas em empresas, faculdades e escolas de ensino médio. Mas é uma batalha. Todo ano é uma batalha. E, como a gente bem sabe, a luta é todo dia. 
Campanha "Meu Corpo Minhas Regras"
 do Feminismo Sem Demagogia
Eu vivo coletando estatísticas e dados gerais que me podem ser úteis, mas não sou muito organizada. Esses dias decidi reunir dados que estavam meio jogados num só arquivo de 65 páginas do Word (entre pedaços de textos, sugestões, posts começados etc). Tem muita coisa boa. Compartilho o que reuni com vocês. Se você tiver outras pesquisas e estatísticas à mão, deixe aí nos comentários, que elas podem ser úteis pra muita gente.

Algumas razões para ser feminista
Gráfico interativo: direitos das mulheres no mundo, país por país. No gráfico a mulher até está bem.
Na Grã Bretanha, apenas uma em cada 30 vítimas de estupro verá o agressor ser condenado.
Frequência do estupro em cada estado
Dados sobre estupro nos EUA: Quase uma em cinco mulheres (18%) disse ter sido estuprada em algum ponto de sua vida. Para homens, o índice é de 1 em 71 homens (1,4%). Com as vítimas do sexo feminino, estupradores são parceiros íntimos (51%), membros da família (12,5%), conhecidos (41%), e desconhecidos (14%).
Brasileiro é machista. Ainda quer uma Amélia!
Segundo uma pesquisa do Data Popular de 2013, 64% das brasileiras responderam que marido dá mais trabalho do que ajuda em casa. 98% disseram que, além de trabalhar fora, precisam fazer as tarefas domésticas. E só 29% disseram que tem ajuda dos maridos. Entre os homens casados, só 5% disseram cozinhar ou lavar louça, só 5% limpa móveis e varre, só 1% lava e passa roupa. (Não encontrei a pesquisa; os dados são citados nesta reportagem).
Em quinze países, mulheres ainda precisam da permissão do marido para trabalhar fora.
Palombo usa personagens
de desenhos animados
para combater violência
contra a mulher
Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a implementação da Lei Maria da Penha, em agosto de 2006, não reduziu número de feminicídios. São 5 mil casos por ano, 15,5 por dia, 472 por mês. Não existem mecanismos de proteção. Ajudará se o assassinato de mulheres passar a ser reconhecido como feminicídio (está em tramitação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, e prevê penas mais pesadas, seria um agravante para o crime). Segundo o estudo do IPEA, 40% dessas mortes são causadas por parceiros íntimos, índice 6,6 vezes maior que o número de assassinatos por parceiras contra parceiros. A grande maioria das vítimas é de mulheres negras (60%) e jovens (31% na faixa etária de 20 a 29 anos).
Violência contra mulheres no mundo atinge proporções epidêmicas. Das mulheres que são mortas no planeta, mais de uma em três é assassinada pelo parceiro. 
Lembrando Sandra Fernandes
Maior estudo internacional sobre violência contra mulheres mostra que a mobilização dos movimentos feministas é mais importante para mudar a situação do que a riqueza das nações, partidos políticos de esquerda, ou o número de mulheres na política.
Homens com mestrado ganham mais que mulheres com a mesma titulação, muitas vezes até na mesma área.
Brasil não diminui desigualdade salarial entre os gêneros.
Transformando bullying na internet
contra mulheres em arte
Stalking e ameaças de morte e estupro são comuns contra mulheres na internet. Em 2006, pesquisadores da Universidade de Maryland criaram várias contas falsas e as colocaram para interagir em fóruns. Contas com nomes femininos receberam uma média de cem mensagens ameaçadoras e sexualmente explícitas por dia. Contas com nomes masculinos receberam 3,7. 
Vinte anos de pesquisas sobre aborto no Brasil.

Juventude
Jovens brasileiros são conservadores. Pesquisa do Instituto Social da Caixa Econômica com mil brasileiros entre 18 e 29 anos revela que metade dos entrevistados aceita que mulher vestida com roupas insinuantes não pode reclamar se sofrer violência sexual (em 2012 foram 50 mil estupros no Brasil). 16% dos jovens concordam que o homem pode agredir uma mulher se ela não quiser fazer sexo com ele.
Em pesquisa realizada com estudantes da cidade de SP no terceiro ano do ensino médio, a pergunta era "Existe profissão de homem e de mulher?". 80% responderam que sim.
Pesquisa da USP com 362 jovens universitários no Estado de SP com mais de 18 anos que estão namorando mostra que 75% já sofreram violência psicológica, sexual ou física. Os números são parecidos entre homens e mulheres. A violência física vem sempre depois da violência psicológica. 

Cultura
Algumas estatísticas interessantes que mostram que o cenário está mudando: média de casamento no Brasil dura 15 anos; número de mulheres de 30 a 34 anos que dão à luz já superou o de mães adolescentes; mulher é mais velha em um a cada quatro novos casamentos.
Proporção de mulheres chefes de família cresce mais do que quatro vezes em 10 anos, diz IBGE.
Reveja o seu conceito de provedor e chefe de família: mulheres que sustentam a casa nos EUA já são 40%. No Brasil, são 37%.
Mulheres determinam compra de produtos. Pesquisa Data Popular com homens casados em todo o país diz que as decisões das compras de supermercado são da mulher para 86% dos entrevistados, férias da família 79%, roupas do marido 71%, carro da família 58%, mulheres controlam a conta no banco e sabem quanto o marido ganha 61%, para 79%, a mulher guarda dinheiro escondido.
Os DINK (Double Income, No Kids -- Renda de duas pessoas, e sem filhos, como eu e o maridão, por exemplo) são 2,9% da população brasileira. 
Pesquisa mostra perfil do escritor brasileiro entre 1990 e 2004: 73% são homens, 94% brancos. 
Entre os personagens da literatura brasileira recente, 71% dos protagonistas são homens.
Mulheres como autoras acadêmicas. Nos últimos 20 anos, mulheres têm publicado muito mais que em qualquer época, mas ainda não são maioria em nenhuma área. Em Educação, são 46%.

Questões raciais
A população negra e o mercado de trabalho, dados do Dieese.
Meninas negras realizam 100% do trabalho infantil doméstico no DF. 
Média salarial de negros com ensino superior é 36% menor que a de não negros, diz Dieese.
Entre os estudantes terminando curso de Medicina no Brasil, apenas 2,7% são negros. 
Boa notícia: sobe para 30% o número de empregadores pardos/negros. Má notícia: só 8% do total de empregadores é de negras.
No Escrevivência, algumas ótimas dicas de livros com temática negra (em português) para baixar.

Cinema
Cinco fatos sobre a desigualdade de gênero no cinema. E um infográfico.

Geral
As trezentas cidades mais populosas do Brasil em 2013: Fortaleza em quinto, com 2,5 mi, depois de Salvador e Brasília.
Mapa-múndi da aceitação global da homossexualidade. De acordo com a pesquisa em 39 países, 60% dos brasileiros acham que a homossexualidade deve ser aceita pela sociedade. Mulheres e jovens são mais tolerantes.

Uma ampla bibliografia feminista
Isso eu já fiz no ano passado. 
E feliz Dia Internacional da Mulher! Que é todo dia. E nem sempre é feliz. Mas sempre é preciso.
Olha só que coisa linda este Girl Power Collab: 50 personagens femininas desenhadas por 50 ilustradoras. Show de bola!

sexta-feira, 7 de março de 2014

LUPITA, NEGRA E LINDA COMO A NOITE

Sei que estou devendo um post sobre o Oscar e o bolão. Deve sair hoje, só preciso encontrar tempo.
Por enquanto, quero deixar com vocês a tradução do Flávio para um lindo vídeo que ele me mandou. É o discurso de agradecimento de Lupita Nyong'o no evento "Black Women in Hollywood" (veja a transcrição em inglês aqui). O vídeo do discurso pode ser visto aqui. 
Foi lindo o que ela disse no seu discurso de agradecimento no Oscar pela estatueta de melhor atriz coadjuvante por 12 Anos de Escravidão ("não me escapa nem por um momento que tanta alegria na minha vida se deve a tanta dor na vida de outra"). Mas este é diferente. Fala de aceitação. 
Sabemos que o padrão de beleza é racista. Sabemos que, nas raras ocasiões em que atrizes e modelos negras ganham os holofotes, elas devem ter a pele clara e traços "não negros" (pense em Halle Berry). O ótimo documentário Dark Girls fala de como o padrão de beleza "quanto mais clara, melhor" vale até entre xs negrxs. 
Então, por esse lado, é formidável ver a queniana Lupita ser considerada bela (ela não só está ganhando prêmios por sua atuação, mas também por sua elegância; a indústria da moda está apaixonada por ela). Por outro lado, já cansei de ler sua beleza sendo descrita como "exótica". Não há nada de exótico em Lupita. Milhões de pessoas têm a sua cor, e só mesmo séculos de lavagem cerebral racista pra nos fazer crer que elas não são bonitas. 
Também cabe lembrar que outra atriz tão negra quanto Lupita, Gabourey Sidibe (de Preciosa), não costuma ser chamada de linda. Porque ela é gorda (se bem que a revista Esquire a colocou na lista das mulheres mais sexy do mundo). Mas o discurso de Lupita também vale pra qualquer pessoa que esteja fora do padrão de beleza. Fique com ele (e mais uma vez: obrigada, Flávio!):

Recebi uma carta de uma garota e gostaria de dividir um pequeno trecho com vocês: “Querida Lupita,” diz ela, “Acho que você é realmente sortuda por ser tão negra e ainda assim fazer esse sucesso todo em Hollywood da noite para o dia. Eu estava quase comprando o creme Dencia’s Whitenicious para clarear a minha pele quando você apareceu no mapa mundial e me salvou”.
Meu coração sangrou um pouco quando li essas palavras. Jamais poderia imaginar que meu primeiro trabalho após terminar os estudos seria tão poderoso em e por si mesmo que me lançaria como uma imagem de esperança da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura o foram para mim.
Lembro de um tempo em que eu também não me sentia bonita. Eu ligava a TV e só via peles rosadas, clarinhas. Eu achava que minha pele de matiz noturnal era uma provocação e um insulto. E minha única súplica a Deus, o fazedor de milagres, era que eu pudesse acordar com a pele mais clara. Vinha a manhã e eu ficava tão excitada para ver minha nova pele que me recusava a olhar os meus pés até estar de frente ao espelho, porque eu queria ver meu rosto claro primeiro. E todos os dias eu vivia a mesma decepção de continuar tão escura quanto no dia anterior. 
Eu tentava negociar com Deus: dizia pra ele que iria parar de roubar torrões de açúcar à noite se ele me desse o que eu queria; que ouviria todas as palavras de minha mãe e nunca mais perderia minha blusa da escola se ele simplesmente me tornasse um pouco mais clara. Mas acho que Deus não se impressionava com minhas moedas de troca porque Ele jamais atendeu aos meus pedidos.
E quando eu era adolescente meu ódio por mim mesma ficou ainda pior, como vocês devem imaginar que acontece na adolescência. Minha mãe me lembrava com frequência que ela me achava linda, mas isso não me consolava: ela é minha mãe, é claro que se espera que ela me ache bonita. Foi então que Alek Wek surgiu no cenário internacional. Uma modelo celebrada, negra como a noite, estava em todas as passarelas e em cada revista e todos falavam sobre o quanto ela era linda. Até a Oprah disse que ela era linda, o que tornou isso um fato. 
Eu não podia acreditar que as pessoas estavam aceitando uma mulher que se parecia tanto comigo como bonita. Minhas características físicas sempre foram um obstáculo difícil de vencer e, de repente, Oprah estava dizendo que não, elas não eram isso. Isso era espantoso e eu não queria aceitar isso porque eu estava começando a gostar da sedução da inadequação. Mas não dava para segurar a flor que estava desabrochando dentro de mim. 
Quando vi Alek eu, inadvertidamente, vi um reflexo de mim mesma que eu não podia refutar. Agora eu tinha molas nos pés, porque eu me sentia mais visível, mais valorizada pelos distantes porteiros da beleza, mas à minha volta a preferência por peles claras ainda prevalecia. Para os observadores que eu considerava importantes, eu ainda não era bonita. E minha mãe, de novo, me dizia: “Você não pode comer a beleza. Ela não te alimenta”. E essas palavras me atormentavam e aborreciam; eu não as entendi de verdade até finalmente compreender que a beleza não era algo que eu pudesse adquirir ou consumir, era algo que eu simplesmente precisava ser.
E o que minha mãe quis dizer quando me falou que não se pode comer a beleza foi que não se deve confiar no seu visual para se manter. O que é fundamentalmente belo é a compaixão por si mesma e por aqueles à sua volta. Esse tipo de beleza incendeia o coração e encanta a alma. É o que colocou Patsey em tantas dificuldades com seu senhor, mas também o que manteve sua história viva até hoje. Lembramos-nos da beleza de seu espírito, mesmo depois que a beleza de seu corpo se desvaneceu.
Assim, eu espero que minha presença no cinema e nas revistas possa levar você, jovem garota, em uma jornada parecida. Que você sinta a validação de sua beleza externa, mas também se dê conta do profundo trabalho de ser bela por dentro. Não há tons [jogo com os significados de shade, que pode ser sombra ou tom de cor] para essa beleza.

quinta-feira, 6 de março de 2014

GUEST POST: "TENTE COMER A ARIANE", O JOGO

Este é o email de uma leitora muito simpática, a C.:

Eu e alguns amigos da faculdade temos um grupo secreto no Facebook para discutir algumas questões de nosso interesse, mas sempre escapa uma pontinha de entretenimento ali, porque criamos uma certa intimidade. Outro dia uma garota postou o link para um jogo cujo objetivo é transar com a Ariane.
Em inglês, o jogo mostra uma mulher bonitona em sua sala e te dá algumas opções de ações, que você seleciona com um clique. Dependendo do que você faz, novas opções para a situação irão abrir e você pode selecioná-las. A meta é levar Ariane para a cama e transar com ela. 
Achei ridícula a ideia e fiquei desapontada por ter sido uma garota que compartilhou o link do jogo no grupo. Ela é lésbica, OK, mas essa coisa de que levar uma mulher pra cama é uma graaaande conquista, eu acho machismo puro. Enfim, antes de criticar fui jogar uma partidinha do jogo, tentar comer a Ariane -- como todos estavam dizendo em comentário.
Em um dado momento, depois de algumas taças de vinho, Ariane foi pro quarto se trocar para entrarmos na piscina. Enquanto aparecia embaixo da tela a fala da moça "Vou colocar meu biquini, ok?", minhas opções eram: "Esperar no corredor" ou "Seguir Ariane até o quarto". Como eu devia comê-la, fui no mais óbvio e a segui até o quarto, morrendo de tédio com o jogo mais inútil da humanidade. 
Aí a surpresa! Ariane se vira e me diz que não se deve seguir uma pessoa até o quarto quando ela vai se trocar! É melhor você ir embora agora. E me dispensou sem eu conseguir transar com ela. Gostei. "Olha só! Ariane ensinando um pouco de educação para os rapazes que acham que comer uma mina é como ganhar um trofeu!" 
Comecei uma segunda partida. Dessa vez caprichei no vinho, pra testar o software e ver se bêbada a Ariane ficava mais "fácil" (é a lógica machista do estuprador, não?). Teve uma hora que abriu a opção de sairmos para uma volta de carro e então Ariane me disse "Eu bebi demais, você está mais sóbrio. É melhor que você dirija", e saímos com o Jeep da moça. 
Levei-na a um restaurante, comemos e eu paguei a conta. Ela disse "A próxima será por minha conta!" e fomos embora. Dançamos um pouco na sala da casa dela e depois tentei levá-la pro quarto. "Ah, a noite foi ótima! Mas eu bebi demais e estou com a cabeça um pouco zonza. É melhor você ir, eu vou dormir. Boa noite!". 
Enquanto eu jogava, no grupo os comentários ferviam! Moças e rapazes (e até rapazes gays) frustrados: "Levei ela pra jantar e a caralhada toda, mas ela não quis dar pra mim!", "Que mina difícil! A gente estava jogando basquete e ela mostrou os peitos dizendo que era tática pra me distrair, mesmo assim não quis deixar eu comer ela depois!" e por aí vai. Lendo tudo, percebi que os comentários frustrados eram sempre movidos pelo fato do nosso senso-comum machista ter sido desmentido:
- Paguei a conta e nem assim ela topou.
- Ela me mostrou os peitos e nem assim ela topou.
- Nadamos pelados e nem assim ela topou.
- Fiz massagem e nem assim ela topou.
- Embebedei ela na boate e ela caiu passando mal, vi a perereca dela por baixo do vestido e nem assim ela topou.
Enfim, até comentei isso lá no grupo, que talvez o jogo seja apenas uma (brilhante) armadilha feminista pra mostrar aos jogadores que a única coisa que vai fazer uma mulher querer transar com você é exatamente ela querer transar com você. Só que pelo jeito que o povo estava comentando, Lola, parece que o jogo tem o efeito contrário: como ele tem um objetivo machista, ele nos contagia com o machismo que aprendemos todos os dias e nos faz pensar -- até mesmo as mulheres! -- no quanto é frustrante investir em uma mulher, ver ela se oferecendo (mostrando os peitos e se embebedando -- claro, porque isso é se oferecer) pra no fim das contas ela não querer te dar o grande prêmio: uma transa. 
Eu achava que o jogo não tinha como ser vencido, mas tem sim. Uma menina até postou o print da vitória (comendo a Ariane). O jogo me fez pensar nisso tudo, porque leio seu blog, porque sou feminista, porque tenho embasamento pra perceber a receita machista de como ser o pica das galáxias. 
Mas e os outros? O meninos mundo afora jogam isso aí e saem pra vida real acreditando que, num encontro, comer a Ariane (ou a Amanda, ou a Lola, ou a C...) é o grande objetivo? Mesmo que a Ariane não aceite ser comida quando está bêbada, quando o jogador é rápido demais, abusado demais, etc.. Acho que não está completamente certo. 

Meu comentário: Parece ser um jogo didático com algumas boas intenções, C. (apesar de heteronormativo, pelo que vi -- espera-se que só os homens possam transar com Ariane?). Mas, como você bem apontou, as interpretações vão depender de cada um. 
Vou ser a otimista incorrigível de sempre (Polyanna Deslumbrete, como me chama a Sômnia) e concluir que, na próxima vez que um carinha sair com uma mina que o beije mas não queira fazer sexo naquele momento, ele pense: "Putz, ela me beijou e mesmo assim não quis transar", e lembre-se do joguinho. E aceite um pouco melhor que ninguém tem obrigação de fazer sexo se não estiver a fim. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

"ACHO QUE FUI FILMADA ENQUANTO ESTAVA NO BANHEIRO DO TRABALHO"

A V. me enviou este relato:

Obrigada por este blog tão maravilhoso! Sou mais uma leitora ávida! 
Achei que nunca fosse escrever nada para você, mas desde o início desta semana, não consigo parar de pensar em algo que aconteceu comigo e não consigo conversar com ninguém. Tenho medo de não entenderem, acharem que estou viajando, ou causar algum problema desnecessário no meu trabalho.
Sou freela e fui convidada para o aniversário do responsável pelo meu atual trabalho. Mesmo super cansada com a rotina de 12 horas, acabei indo para poder conhecer melhor a equipe. Tudo estava ótimo até ir ao banheiro. Enquanto fazia xixi, percebi um barulho estranho vindo da janela atrás da minha cabine. 
Me virei para ver o que era e vi uma mão segurando um celular. Imediatamente, gritei: "Ei!", e essa mão desapareceu. Saí do banheiro às pressas, sabendo que a janela dava para o banheiro masculino. Queria ver de quem era essa mão. Saiu apenas um homem e eu fiquei encarando, na esperança de que ele desse alguma pista. Nada.
Voltei para a mesa da equipe do meu trabalho atordoada. Não conseguia parar de pensar se tinha sido fotografada, se era o homem que tinha saído do banheiro. Até agora passam mil possibilidades pela minha cabeça para explicar aquele celular lá. Será que estou super preocupada com algo que pode ser apenas viagem minha? 
Recentemente tive que lidar com um ex-namorado ameaçando postar fotos minhas na internet. 
Tenho  pavor dessa exposição não consensual. Pensei em conversar com a minha chefe, mas não tenho certeza se fui fotografada de fato e de quem era aquele celular. 
Detesto essa dúvida, detesto esse medo de ser exposta e detesto pensar que essa situação já se repetiu com tantas mulheres.
O que você faria?

Minha resposta: Claro que não é viagem sua! Por que diabos alguém estaria com um celular na janela do banheiro feminino se não fosse pra filmar as mulheres? Isso é crime, e é absolutamente inaceitável. Pô, mulher não pode nem ir ao banheiro em paz?! Uso indevido de imagem é crime. Vai saber onde na internet essas imagens podem parar...
Não importa de quem é o celular. Vá sim conversar já com a sua chefe. Conte pra ela exatamente o que aconteceu. Imagino que ela entenda a seriedade da situação, mas, se vier com gracinhas do tipo "Ah, é só brincadeira de moleque", não deixe passar. Diga que terá que fazer BO. E avise também todas as outras mulheres da firma. Todas são alvos!
Se já era péssimo quando tinha homem que ficava espiando mulher no banheiro, hoje em dia, com câmeras e tudo o mais, ficou mais grave ainda. Porque o cara que filma não será o único a "espiar".
É pra vc detestar e ficar revoltada com essa situação sim, V.!