quarta-feira, 3 de julho de 2013

GUEST POST: VAMPIRAS ENSINAM MENINAS A REPRIMIR SUA SEXUALIDADE

Eu conheci a Patty pessoalmente numa palestra em SP no ano passado, e tenho foto pra provar. 
Patty Kirsche, além de ser mestranda em Estudos Culturais na USP, é comentarista frequente por aqui, tem seu próprio blog, e já contribuiu com posts muito importantes (como este, sobre a Marcha das Vadias de Guarulhos, e este, em que fala do protesto que participou em SP). Além disso, ela é uma linda que comprou meu livrinho. Fale aí sobre vampiras, Patty!

Vampiras e vampiros são seres cuja forma é humana, mas dotados de poderes sobrenaturais e intensos desejos. Em síntese, eles são mortos-vivos com pouco ou nenhum controle de suas pulsões básicas. Simplesmente porque elxs não sentem culpa. Embora tenham características diferentes dependendo do autor ou autora que os descreve, todos têm um elevado apetite sexual. 
A sexualidade humana é extremamente reprimida por sentimentos de culpa. Se nos vampirxs a culpa não aparece, a sexualidade é livre. O apetite sexual pode aparecer de forma metafórica, através da ingestão de sangue, ou de forma explícita, na prática da relação sexual humana.
Sendo a sexualidade tão importante na caracterização de vampirxs, é interessante observar como o mesmo padrão duplo utilizado para julgar a sexualidade de mulheres e homens aparece para nossos amigxs dentuços. 
Em Drácula, Lucy se torna presa fácil de Drácula por ser indiscreta e manter três pretendentes a cortejando ao mesmo tempo. Depois de se tornar vampira, ela aparece lasciva. E é o seu marido quem a mata, numa cena longa e cheia de detalhes, cravando uma estaca em seu coração. 
Lendo o autor Bram Dijkstra, conheci o termo "estupro terapêutico". Sabe quando a mulher diz "não, não, não", e o homem insiste nas carícias até que ela cede? Ou quando o homem agarra o rosto da mulher para roubar um beijo? Toda aquela história de "pegar de jeito", tão comum em romances e novelas, é entendida por Dijkstra como um processo educativo para as mulheres, no qual é ensinado a quem elas devem obediência (ao homem) e como devem se comportar (pudicas). 
Dijkstra também usa o termo "estupro terapêutico" para descrever o simbolismo de uma estaca atravessando o corpo de uma mulher a fim de torná-la "aceitável". Lucy é descrita como um anjo no caixão, depois de ser cruelmente destruída por seu próprio marido, ou seja, após ter sofrido um estupro perpetrado por seu proprietário, o homem que a disciplinou.
Esses estupros simbólicos aparecem em vários produtos culturais, especialmente no caso das vampiras. O horrível filme Matadores de Vampiras Lésbicas, de 2009, direcionado ao público jovem masculino, é um dos mais misóginos que já vi (você pode vê-lo inteiro aqui, dublado em português).
Atenção, spoilers!
O roteiro conta a história de uma pequena cidade amaldiçoada na qual todas as jovens habitantes estão condenadas a se tornarem vampiras lésbicas aos dezoito anos. Dois rapazes forasteiros chegam por acaso na cidade e acabam se encarregando de matar as malditas vampiras. 
Numa cena, a ex-namorada de um desses rapazes entra num bar procurando por ele. Sem qualquer remorso, o dono do bar a envia para um castelo assombrado. Um dos moradores do vilarejo diz para o dono do bar: “Essa era bonita”, ao que o dono responde: “Elas sempre são. Sereias, traiçoeiras...”, e logo em seguida cospe.  
A mensagem é clara: mulheres são sedutoras e traiçoeiras. O fato de ele cuspir logo em seguida só vem reforçar o repúdio que ele sente por essas mulheres. Afinal, elas são perigosas. 
Também chega um grupo com quatro moças lindas ao vilarejo, que, obviamente, também são enviadas para o tal castelo pelo dono do bar. Três delas são transformadas em vampiras e destruídas. A única que se salva é virgem e usa calça comprida. Todas as outras usavam saias curtas ou shorts e já eram sexualmente ativas quando foram transformadas em vampiras. Uma delas, citada por um dos rapazes como a garota que “não fala e tem seios grandes”, é morta de forma particularmente grotesca. O referido personagem a segura pelos seios debaixo de um chuveiro de água benta. Quando ela acaba de derreter, restam apenas próteses de silicone nas mãos dele. 
Quer dizer, ele se aproveita do corpo dela enquanto a mata. Mesmo sendo um filme B, a misoginia é explícita. A moça é morta de forma humilhante, sendo sugerido que a única parte aproveitável de seu corpo são as próteses de silicone, já que não são parte natural do corpo feminino.    
Elas podem ser destruídas sendo atravessadas por estacas ou galhos, ou degoladas, como é tradicional (quando são mortas, soltam uma gosma branca que lembra esperma); mas existe uma espada especial, a única arma capaz de matar Carmilla, a mãe de todas as vampiras. Logo, é bastante reiterativo que num determinado momento da narrativa, um dos personagens diga, em meio a gargalhadas, que o cabo da espada parece um pênis. 
E esse mesmo personagem, a certa altura, enche preservativos com água benta para atirar nas vampiras. São vários exemplos de falos para punir essas mulheres pelo crime de serem sensuais e lésbicas. São estupros que ensinam essas mulheres a não viverem suas sexualidades, especialmente sem homens. Estupros para ensiná-las a temer o falo a que devem obediência.    
De modo geral, essa exploração das ameaças da sexualidade feminina se deu em grande parte através de produtos culturais com a temática sobre vampirxs. As vampiras, por um lado, atuam como o fetiche da mulher sexualmente livre, mas, por outro, são punidas para exemplificar o que deve acontecer com mulheres que não controlam o apetite sexual. 
Toda essa ideologia aparece em produtos culturais de ficção, não só porque no fundo se acredita nisso, mas também com uma função educativa. O que se espera é que meninas e mulheres entendam como elas devem se comportar, principalmente no que se refere ao controle da sexualidade.  
Vade retro, sexualidade feminina! (Pelo menos o criador de Buffy tem outra opinião)

terça-feira, 2 de julho de 2013

SINAIS QUE VOCÊ DEVE TEMER

Faz tempo que digo pro maridão confiar na sua intuição. Ele é jogador profissional de xadrez, e muitas vezes se enrola com o tempo analisando um montão de lances. Em geral, o lance que ele faria intuitivamente é o melhor. 
O recado é o mesmo pra todas as situações: confie na sua intuição. Ela quase sempre está certa. Eu, que sou muito racional e prática e cética, não confio na minha. Anulo minhas intuições. É um erro.
Ouvir e respeitar sua intuição é provavelmente a maior lição do livro O Dom do Medo (ou Virtudes do Medo, dependendo da tradução), do especialista em segurança Gavin de Becker. 
A primeira vez que ouvi falar nele foi no guest post da V, em que ela cita Becker falando de stalkers (a recomendação dele é: corte todo tipo de contato. Não atenda o telefone nem responda um email). Pareceu muito sensato. 
Depois foi a vez do Alex Castro elogiar o livro. Como ele disponibilizou The Gift of Fear em pdf (aqui, é só clicar), comecei a lê-lo. E vou compartilhar algumas informações com vocês.
Porém, antes de começar, um aviso. A responsabilidade de acabar com a violência contra a mulher é de quem comete a violência. Por isso que a gente vive repetindo: “Não ensine as mulheres a não serem estupradas, ensine os homens a não estuprar”. Porque a gente ouve lições (quase sempre moralistas) do que devemos fazer para não sermos estupradas desde que somos garotinhas. 
E essas lições não resolvem o problema, já que mulheres seguem sendo estupradas, independente da roupa que usam, do seu comportamento, da sua aparência, de quanto bebem ou deixam de beber. E não são estupradas apenas pelo estranho numa rua escura à noite. Aliás, esses casos são minoria, representam entre 20% e 30% dos estupros. A maior parte é cometida por conhecidos da vítima. E isso, misteriosamente, ninguém ensina pra gente.
Apesar da responsabilidade em evitar violência ser de quem comete a violência, podemos e devemos nos precaver. Aulas de defesa pessoal, por exemplo, são muito recomendáveis, até pra nos dar mais autoconfiança. Lógico que isso não quer dizer que uma mulher que não saiba autodefesa deve ser culpada se for atacada (“Ahá! Quem mandou você não saber se defender?!”). Mas pode ajudar. Se eu tivesse uma filha, eu certamente a colocaria pra fazer judô ou caratê. 
As dicas que Becker dá, pelo menos na primeira metade do livro, são para evitar a violência-clichê, justamente aquela do cara desconhecido numa rua escura à noite, ou num estacionamento deserto, ou dentro do seu prédio, esperando você entrar. Um dos sinais de que um estranho pode estar mal intencionado é quando uma mulher está numa posição vulnerável e ele começa um “jogo de equipe forçado”. É quando o possível agressor força uma certa intimidade, fala em “nós”. 
Becker dá como exemplo uma cena do excelente filme Jogo de Emoções (House of Games, 1987, de David Mamet). Um soldado está esperando que dinheiro chegue até ele pelo correio. Um trapaceiro começa a falar com ele, diz que está na mesma situação, também esperando dinheiro. E acrescenta que, se o dinheiro dele chegar antes, ele lhe emprestará uma grana, que o soldado deve devolver quando chegar à base. Antes que o soldado, comovido, possa responder, o trapaceiro se adianta: “Você faria o mesmo por mim”. Assim, quando o dinheiro do soldado chega, ele “empresta” dinheiro ao trapaceiro. Dinheiro que ele nunca mais verá de novo, óbvio.
Portanto, se uma mulher está numa posição vulnerável, e um estranho começa um papo de “estamos juntos nessa”, cuidado.
Becker aponta (minha tradução): “Encorajo mulheres a explicitamente refutarem aproximações que elas não desejam, mas sei que é difícil. Uma mulher ser direta nesta cultura tem uma péssima reputação. Uma mulher que é clara e precisa é vista como fria, uma megera. De uma mulher se espera que responda a toda comunicação vinda de um homem. E a resposta deve ser atenciosa e convidativa. É considerado atraente se ela for um pouco indecisa (o contrário de direta). Espera-se que mulheres sejam afetuosas, e no contexto da aproximação de homens desconhecidos, a afeição alonga o encontro, aumenta as expectativas e o investimento dele, e, na melhor das hipóteses, gasta tempo. Na pior, serve ao homem que tinha más intenções conseguir mais informações, que ele precisará para avaliar e depois controlar sua vítima em potencial”.
Um outro sinal de que o desconhecido pode ter más intenções é se ele faz uma promessa que não foi pedida. O cara, do nada, “jura” que só vai te acompanhar até o ônibus, ou “promete” que vai apenas entrar na sua casa pra beber água, e em seguida irá embora. A pergunta que você deve se fazer, segundo Becker, é: por que essa pessoa precisa me convencer? “Sempre, em qualquer contexto, suspeite da promessa não requisitada”, diz ele. Esse cara tenta te convencer porque você não parece convicta. “A promessa é um espelho em que você tem a segunda chance de ver seu sinal intuitivo; a promessa é a imagem e o reflexo da sua dúvida”.  
Cuidado também com quem fornece detalhes demais. Segundo Becker, quando as pessoas dizem a verdade e não se sentem desacreditadas, elas não dão detalhes adicionais. Quando as pessoas mentem, elas falam demais. Não sei se concordo com isso, porque eu nunca minto, mas sou bastante detalhista quando conto alguma coisa. Mas concordo com Becker quando ele diz para sempre se lembrar do contexto: “Com um cara que fica na sua casa além da conta, não importa quão divertido ou charmoso ele possa ser, uma mulher pode focar no contexto pensando: 'Já pedi pra que ele fosse embora duas vezes'”.
Às vezes a estratégia de um agressor pode ser te insultar de leve. Isso eu já ouvi falar em táticas PUA (Pick Up Artist, dicas machistas para pegar meninas). Tipo: “Ah, você provavelmente é esnobe demais pra falar com alguém como eu”, e a mulher pode querer falar pra provar que não é assim. Becker lembra que nem todos os caras que usam essas táticas são estupradores ou assassinos: “Não quero prejudicar o estilo de algum Casanova desajeitado, mas os tempos mudaram, e nós homens certamente podemos desenvolver aproximações que não envolvam manipulação e trapaças”.
Um sujeito que não respeita um não, qualquer não, pode oferecer perigo. Para Becker, um não é inegociável. Imagine uma mulher num estacionamento vazio, colocando compras no porta-malas do carro. Um estranho se aproxima querendo ajudá-la. De acordo com Becker, uma mulher que responde “Não, obrigada, acho que consigo sozinha” tem mais chance de ser atacada que uma que faz uma posição firme de “pare” com a mão e diz diretamente “Não quero sua ajuda”. 
Becker diz: “Um homem decente entenderia sua atitude ou, talvez, nem teria se aproximado da mulher em primeiro lugar, a menos que ela realmente precisasse de ajuda. Se um homem não entende a reação da mulher e vai embora rejeitado, tudo bem. Aliás, qualquer reação -– mesmo a raiva -– de um homem decente que não tinha más intenções é preferível à atenção contínua de um homem violento que poderia usar sua preocupação em não ser rude para vantagem dele”.
Becker dá uma ótima dica: se você precisa de ajuda, escolha alguém. As chances que essa pessoa a quem você pediu ajuda não seja perigosa serão maiores que aceitar a ajuda não solicitada de alguém que te escolheu. E ele diz o óbvio, que eu sempre digo, mas que poucas mulheres fazem: peça ajuda a outras mulheres. E ofereça ajuda às mulheres.
Entendo que somos condicionadas a sermos adversárias, a desconfiarmos até das amigas, quanto mais de desconhecidas. É uma estratégia do patriarcado para que não possamos nos unir. Mas precisamos superar isso. Por exemplo: você está indo em direção a uma rua escura, e uma outra mulher está perto de você, indo naquela mesma direção. Por que não ir juntas? Aproxime-se da desconhecida e diga: “Esta rua é perigosa. Você se incomoda se andarmos juntas?”
Quando uma mulher está só numa rua escura e acha que está sendo seguida, o que ela costuma fazer? Ela olha furtivamente e com medo, baixa os olhos, anda mais rápido. Becker sugere que a mulher fite esse estranho. Olhe na cara. Na cara dura mesmo. Faça com que ele note que você está vendo, que você sabe, que você o viu. 
Mas vamos voltar àquela situação em que uma moça está sozinha num estacionamento guardando as compras, um sujeito se aproxima pra “ajudar”, e ela recusa, sem dar margem pra dúvidas. Becker fantasia o seguinte diálogo entre esse cara que se sente ofendido pelo não e a mulher que recusou a ajuda.
Homem: “Que vadia! Qual o seu problema? Eu só ofereci um pouco de ajuda a uma mulher bonita. Por que você é tão paranoica?”
Mulher: “Tem razão, eu não deveria ser cautelosa. Estou exagerando. Só porque um homem me oferece ajuda não solicitada e insistente num estacionamento vazio numa sociedade em que crimes contra mulheres aumentam quatro vezes mais que os índices gerais de crimes, e três em cada quatro mulheres sofrerão um crime violento; e só porque eu ouço histórias de horror de todas as minhas amigas; e só porque eu tenho que avaliar onde estaciono, onde ando, com quem falo, e com quem vou sair no contexto de que alguém pode me matar ou estuprar ou assustar; e só porque várias vezes por semana alguém me fala uma grosseria, ou me fita, ou me assedia, ou me segue; e só porque esses são assuntos de vida e morte que a maior parte dos homens desconhece, não quer dizer que uma mulher deve ser cuidadosa com um desconhecido que ignora a palavra não”.
Taí um carinha que empatiza com as mulheres, esse Gavin de Becker. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

GUEST POST: MÉDICOS CUBANOS FARÃO O QUÊ, BENZER O PACIENTE?

Em pronunciamento recente para responder aos protestos, a presidenta Dilma anunciou a importação de médicos. Faz anos que isso é discutido, e é sempre um assunto polêmico.
Mais polêmico ainda é que estamos falando de médicos cubanos, e se tem um tema que imediatamente divide as pessoas em direita e esquerda, é esse, Cuba. Pra reaças adeptos das teorias da conspiração, os médicos cubanos seriam agentes infiltrados prontos pra instalar o comunismo no Brasil, ha ha.
Já as pessoas de esquerda reconhecem que Cuba forma muitos médicos, tem uma escola mais humana de medicina, que enfatiza a prevenção, e conta com uma das melhores medicinas do mundo. 
Mas todos concordamos que faltam médicos no interior do Brasil. Como fazer com que médicos -- que estão no topo da pirâmide em relação à classe sócio-econômica -- exerçam sua profissão em cidadezinhas no meio do nada? (veja a proposta do Conselho Federal de Medicina). Eu não sou médica, mas sou doutora concursada, servidora pública, com salário que também me coloca no topo. E claro que prefiro ser professora numa capital vibrante como Fortaleza do que num pequeno município no interior do Ceará. 
Há vantagens certas em se morar no interior, sem dúvida, a começar pela baixa criminalidade e custo de vida. Mas, por exemplo, eu me mudei do Sul pra cá com minha família (maridão e mãe). Em Fortaleza meu marido conseguiu emprego(s) para sua profissão inusitada -- professor, técnico e jogador de xadrez. Se morássemos numa cidadezinha, ele provavelmente estaria desempregado. E isso que não temos filhos!
Por outro lado, ninguém discute que a interiorização das universidades federais é ótima para o país. Mas acho que estou mudando de assunto.
O que quero dizer é que é fácil julgar os médicos brasileiros que não querem atuar nos pequenos municípios. Mas eles não são os únicos que preferem morar nos grandes centros. 
Todas as profissões são corporativistas. E todas defendem com unhas e dentes sua reserva de mercado. Eu vejo a gritaria dos médicos brasileiros contra a importação de médicos cubanos como uma defesa corporativista. E não entendo muito, já que esses médicos cubanos nem concorreriam com eles. Mas sou leiga no assunto, e minhas opiniões, até agora, são baseadas em puro achismo. 
Por isso, pedi a M., que, além de médica, é uma leitora antiga e querida aqui do blog, a escrever um guest post com o seu posicionamento. E ela é tão boa gente que aceitou prontamente. Fiquem com os argumentos dela.

É com imenso prazer que recebi seu convite para escrever sobre o assunto. Não tem como não estar envolvida com isso, pois além de ser médica trabalho na saúde publica (medicina de família e comunidade) daqui de Campinas, ou seja, na '"linha de frente".
Então vamos lá :
Sou formada há 15 anos pela Universidade Estadual Paulista de Botucatu (UNESP), e nesse meio tempo já trabalhei em quatro cidades diferentes, todas em São Paulo: Iaras, Araras (cidade onde cresci), São Paulo (capital), e atualmente Campinas, de onde não pretendo me mudar mais.
Aqui em Campinas (como em qualquer cidade brasileira), as condições de trabalho estão bem longe de serem ideais para os médicos, mas ainda assim são melhores do que nas outras cidades onde trabalhei.
Aqui sou concursada, desde 2009. Tenho carreira estável, plano de carreira (não como os planos de carreira do judiciário, mas tenho) -- o que não tinha em nenhuma outra cidade onde trabalhei. Em Iaras (cidade de 3 mil habitantes) foi por anúncio, e em Araras (120 mil habitantes) foi convite para trabalhar lá, pois tenho família na cidade. 
Hoje os médicos de Araras são concursados, mas na época não eram, e muita gente vivia jogando na nossa cara que éramos "comissionados". Ora, era só fazerem o concurso que eu prestava e passava. Teve concurso para enfermeiro, para auxiliar, e estranhamente para médico, não. Depois isso foi regularizado, mas eu já tinha saído de lá. Tanto em Araras como Iaras o contrato de trabalho era por CTL, carteira assinada, mas sem os benefícios que qualquer outro funcionário da prefeitura tem.
Mudei para São Paulo em 2005, e ali, não sei se você sabe, a saúde está toda privatizada, através das OS's (Organizações Sociais) que, em convênio com a Prefeitura, pagam o nosso salário. Há muitos anos que não existe concurso público para médicos de posto de saúde em São Paulo. O médico virou ali um empregado de uma empresa privada. Se não estiver satisfeito, pede a conta e sai, sem poder reivindicar nada, nem mesmo melhoria nas condições de trabalho.
Todos que gostam da política de privatizações do PSDB [que governa o Estado de SP há vinte anos ininterruptos] acham que essa é uma solução maravilhosa, mas na prática não resolve nada, pelo menos na saúde não, e só afirmo isso porque trabalhei nesse serviço  na capital durante quatro anos. A única coisa que ajuda um pouco é o fato de que as OS's pagam mais que a prefeitura, mas como o custo de vida em SP é muito mais alto, e o local de trabalho muito mais longe de casa, para mim dava na mesma. Preferi prestar concurso para morar em Campinas [terceiro município mais populoso de SP, com mais de um milhão de habitantes], a 10 minutos do posto onde trabalho, mesmo ganhando menos.
Ledo engano achar que a privatização resolve. As deficiências continuam as mesmas: falta de remédios, de leitos, de materiais, de profissionais de apoio tão importantes quanto o médico (psicólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, enfermeirx). E se isso já é deficiente em centros como Campinas e São Paulo, em cidades menores eles não existem. Esquece. Certo, enfermagem nunca falta, mas o número de funcionários é sempre menor do que o adequado.
Falando de Iaras, a primeira cidade onde trabalhei: eu atendia o assentamento dos Sem Terra. Atendia num posto improvisado na cidade e algumas vezes fazia visita aos assentamentos para atender lá. Nesse caso, íamos de perua, porque nosso carro não aguentava a estrada (de terra, esburacada), e levava uma hora e meia pra chegar no local de atendimento.
A cidade não tinha hospital, e muitas vezes eu era a única médica da cidade naquele dia. Uma vez chegou uma grávida em trabalho de parto e tive que transportá-la de ambulância até Avaré, cidade mais próxima (a 40 km), e felizmente, chegando lá no hospital, o bebê nasceu bem. Hoje há médicos treinados que fazem parto sem hospital, mas não era meu caso (sou clínica de adultos e crianças), e mesmo assim, era uma paciente que eu nem conhecia o histórico.
Lembrando que Iaras, além de ter assentamento dos Sem Terra (onde já teve muita rebelião e confrontos), tem um presídio. Ou seja, se chegasse um caso desses de baleado lá pra mim, era por na ambulância e rezar até chegar a Avaré, isso se chegasse vivo. Felizmente não passei por esse tipo de coisa, o máximo que aconteceu foi o caso da gestante, que se resolveu bem.
Pois bem, você acha que resolve colocar um médico cubano numa cidade dessas, onde não tem o que fazer com um paciente grave, onde não tem hospital, ou pior, em cidades onde não tem nem fio nem agulha pra você dar pontos num corte se precisar? Que não tem remédios? O que o médico cubano vai fazer sem essas coisas? Benzer?!
Tenho lido na internet comentários de pessoas mal educadas, e me perdoe, acho que até recalcadas, que dizem: "médicos são elitistas, egoístas, querem se dar ao luxo de viver nas capitais e grandes centros e não querem atender as comunidades carentes do interior". Ué? E desde quando tem lei que proíba o médico de morar e de exercer a medicina onde ele quiser? O único que esta excluído dessa premissa é o médico militar, que tem plano de carreira e uma série de benefícios e condições de trabalho melhores em algumas coisas. Fora eles, os outros moram onde quiserem.
Deixem de ser hipócritas, e mudem então com as famílias de vocês para uma cidadezinha dessas onde não tem estrutura! Vão trabalhar lá, onde não tem o que fazer num fim de semana, onde não tem escola decente para seus filhos, e depois disso a gente conversa.
Se a profissão de médico tem uma importância tão grande perante a sociedade ("responsabilidade em lidar com vidas", como adoram jogar na nossa cara), por que não pagam de acordo com essa premissa e não fazem um plano de carreira federal? Juízes, promotores de justiça, defensores públicos prestam concurso e são designados para uma cidade ao léu, sem poderem escolher. Mas, para isso, ganham muito bem (R$ 20 mil o salário inicial de um juiz), e têm plano de carreira. 
Por que não fazer algo semelhante com os médicos? Funcionários do judiciário têm esses benefícios e bons salários baseados na premissa da "responsabilidade". Ora, e os médicos, que "lidam com vidas"?
Basta fazer um concurso para médicos nessas bases, e claro, melhorar as condições (colocar remédios, estrutura, hospitais, ambulâncias, materiais, equipe multiprofissional), senão não tem santo nem milagre que dê conta, sinto muito.
E para quem ainda discorda dos meus argumentos, e que concorda com a vinda dos cubanos, tenho duas coisas a dizer: primeiro, não estou com medo de perder reserva de mercado, pois já tenho meu emprego. Segundo, ao médico cubano que vai atender sem as condições mínimas... BOA SORTE!