Eu conheci a Patty pessoalmente numa palestra em SP no ano passado, e tenho foto pra provar.
Patty Kirsche, além de ser mestranda em Estudos Culturais na USP, é comentarista frequente por aqui, tem seu próprio blog, e já contribuiu com posts muito importantes (como este, sobre a Marcha das Vadias de Guarulhos, e este, em que fala do protesto que participou em SP). Além disso, ela é uma linda que comprou meu livrinho. Fale aí sobre vampiras, Patty!
Vampiras e vampiros são seres cuja forma é humana, mas dotados de poderes sobrenaturais e intensos desejos. Em síntese, eles são mortos-vivos com pouco ou nenhum controle de suas pulsões básicas. Simplesmente porque elxs não sentem culpa. Embora tenham características diferentes dependendo do autor ou autora que os descreve, todos têm um elevado apetite sexual.
A sexualidade humana é extremamente reprimida por sentimentos de culpa. Se nos vampirxs a culpa não aparece, a sexualidade é livre. O apetite sexual pode aparecer de forma metafórica, através da ingestão de sangue, ou de forma explícita, na prática da relação sexual humana.
Sendo a sexualidade tão importante na caracterização de vampirxs, é interessante observar como o mesmo padrão duplo utilizado para julgar a sexualidade de mulheres e homens aparece para nossos amigxs dentuços.
Em Drácula, Lucy se torna presa fácil de Drácula por ser indiscreta e manter três pretendentes a cortejando ao mesmo tempo. Depois de se tornar vampira, ela aparece lasciva. E é o seu marido quem a mata, numa cena longa e cheia de detalhes, cravando uma estaca em seu coração.
Lendo o autor Bram Dijkstra, conheci o termo "estupro terapêutico". Sabe quando a mulher diz "não, não, não", e o homem insiste nas carícias até que ela cede? Ou quando o homem agarra o rosto da mulher para roubar um beijo? Toda aquela história de "pegar de jeito", tão comum em romances e novelas, é entendida por Dijkstra como um processo educativo para as mulheres, no qual é ensinado a quem elas devem obediência (ao homem) e como devem se comportar (pudicas).
Dijkstra também usa o termo "estupro terapêutico" para descrever o simbolismo de uma estaca atravessando o corpo de uma mulher a fim de torná-la "aceitável". Lucy é descrita como um anjo no caixão, depois de ser cruelmente destruída por seu próprio marido, ou seja, após ter sofrido um estupro perpetrado por seu proprietário, o homem que a disciplinou.
Esses estupros simbólicos aparecem em vários produtos culturais, especialmente no caso das vampiras. O horrível filme Matadores de Vampiras Lésbicas, de 2009, direcionado ao público jovem masculino, é um dos mais misóginos que já vi (você pode vê-lo inteiro aqui, dublado em português).
Atenção, spoilers!
O roteiro conta a história de uma pequena cidade amaldiçoada na qual todas as jovens habitantes estão condenadas a se tornarem vampiras lésbicas aos dezoito anos. Dois rapazes forasteiros chegam por acaso na cidade e acabam se encarregando de matar as malditas vampiras.
Numa cena, a ex-namorada de um desses rapazes entra num bar procurando por ele. Sem qualquer remorso, o dono do bar a envia para um castelo assombrado. Um dos moradores do vilarejo diz para o dono do bar: “Essa era bonita”, ao que o dono responde: “Elas sempre são. Sereias, traiçoeiras...”, e logo em seguida cospe.
A mensagem é clara: mulheres são sedutoras e traiçoeiras. O fato de ele cuspir logo em seguida só vem reforçar o repúdio que ele sente por essas mulheres. Afinal, elas são perigosas.
Também chega um grupo com quatro moças lindas ao vilarejo, que, obviamente, também são enviadas para o tal castelo pelo dono do bar. Três delas são transformadas em vampiras e destruídas. A única que se salva é virgem e usa calça comprida. Todas as outras usavam saias curtas ou shorts e já eram sexualmente ativas quando foram transformadas em vampiras. Uma delas, citada por um dos rapazes como a garota que “não fala e tem seios grandes”, é morta de forma particularmente grotesca. O referido personagem a segura pelos seios debaixo de um chuveiro de água benta. Quando ela acaba de derreter, restam apenas próteses de silicone nas mãos dele.
Quer dizer, ele se aproveita do corpo dela enquanto a mata. Mesmo sendo um filme B, a misoginia é explícita. A moça é morta de forma humilhante, sendo sugerido que a única parte aproveitável de seu corpo são as próteses de silicone, já que não são parte natural do corpo feminino.
Elas podem ser destruídas sendo atravessadas por estacas ou galhos, ou degoladas, como é tradicional (quando são mortas, soltam uma gosma branca que lembra esperma); mas existe uma espada especial, a única arma capaz de matar Carmilla, a mãe de todas as vampiras. Logo, é bastante reiterativo que num determinado momento da narrativa, um dos personagens diga, em meio a gargalhadas, que o cabo da espada parece um pênis.
E esse mesmo personagem, a certa altura, enche preservativos com água benta para atirar nas vampiras. São vários exemplos de falos para punir essas mulheres pelo crime de serem sensuais e lésbicas. São estupros que ensinam essas mulheres a não viverem suas sexualidades, especialmente sem homens. Estupros para ensiná-las a temer o falo a que devem obediência.
De modo geral, essa exploração das ameaças da sexualidade feminina se deu em grande parte através de produtos culturais com a temática sobre vampirxs. As vampiras, por um lado, atuam como o fetiche da mulher sexualmente livre, mas, por outro, são punidas para exemplificar o que deve acontecer com mulheres que não controlam o apetite sexual.
Toda essa ideologia aparece em produtos culturais de ficção, não só porque no fundo se acredita nisso, mas também com uma função educativa. O que se espera é que meninas e mulheres entendam como elas devem se comportar, principalmente no que se refere ao controle da sexualidade.
Vade retro, sexualidade feminina! (Pelo menos o criador de Buffy tem outra opinião)























































